Saturday, January 16, 2010

Bandas disputam o mesmo nome

Música

A guerra dos clones

Bandas que viveram seu auge criativo há décadas acabam se dividindo
em várias versões. Nenhuma delas oferece mais do que saudosismo


Sérgio Martins

Ayrton Vignola/Folha Imagem
OUTRO TIJOLO NO MURO
Roger Waters, ex-Pink Floyd: ele perdeu judicialmente o nome da antiga banda. Mas ainda se agarra ao mesmo repertório

O grupo jamaicano The Wailers Band, que acompanhou o astro do reggae Bob Marley (1945-1981) por mais de uma década, se apresenta nesta semana no Rio e em São Paulo. O show inclui hits do cantor e compositor jamaicano, como No Woman, No Cry e I Shot the Sheriff. The Original Wailers iniciou sua turnê por dezoito cidades brasileiras na semana passada. Nos shows, toca hits de Bob Marley, como No Wo-man, No Cry e I Shot the Sheriff. Não, você não leu errado: existem dois The Wailers fazendo shows no Brasil. The Wailers Band tem à frente o baixista Aston Barrett, que tocou de fato com Marley. The Original Wailers é uma dissidência do grupo de Barrett, liderada pelos vocalistas e guitarristas Al Anderson e Junior Marvin. Eles tocaram menos tempo com Bob Marley, mas contam com a bênção de sua viúva, Rita (que assim se vingou do processo de décadas que Barrett moveu contra ela, sem sucesso, alegando ser coautor de várias canções de Bob Marley). "Nós somos os Wailers originais. O outro não passa de um tributo", diz Barrett. "Aston não liga para qualidade, só quer saber de dinheiro", devolve Marvin (como se as apresentações de seu grupo fossem de graça). Os dois Wailers juntos não valem meio Bob Marley. Como outras bandas históricas que se dividiram e multiplicaram, vivem de explorar o saudosismo dos fãs.

O nome de uma banda de sucesso é uma marca forte, um patrimônio que seus integrantes costumam disputar. Uma das brigas mais conhecidas se deu em torno da banda inglesa Pink Floyd, expoente do rock progressivo dos anos 70. Seu líder, o baixista Roger Waters, anunciou o fim da banda em 1983 – mas os outros três integrantes voltaram à estrada, com um disco novo, quatro anos depois. Roger Waters foi aos tribunais para reivindicar os direitos sobre o nome – e perdeu. O repertório de um show do Pink Floyd, porém, costuma ser quase indiscernível daquele que se ouve nas apresentações de seu ex-baixista. Waters especializou-se nos discos históricos de sua antiga banda: já fez um show baseado em The Dark Side of the Moon e neste ano deve apresentar a íntegra de The Wall no Brasil.

Regis Martin/Getty Images
METADE DE BOB MARLEY
Show da The Wailers Band: disputas com a viúva do ídolo
do reggae

A proliferação de bandas replicantes tem seu extremo cômico (ou melancólico, dependendo da perspectiva) em The Platters, conhecida por sucessos dos anos 50 como Only You e The Great Pretender. Já houve até quatro Platters, só dois com integrantes da melhor fase da banda, os cantores Sonny Turner e Herb Reed (que ganhou judicialmente o direito exclusivo de usar o nome). Os Beach Boys, dos anos 60, também passaram pelo milagre da replicação – sua surf music hoje é repisada cansativamente pela banda do cantor Mike Love, detentor do nome Beach Boys, pelo grupo de Brian Wilson, que compôs o grosso do repertório, e por uma contrafação montada pelo guitarrista Al Jardine e duas filhas de Wilson. Essa última estreou com o nome Beach Boys, Family & Friends, mas foi rebatizada como Al Jardine, Family & Friends depois que Mike Love ganhou um processo reivindicando o nome. Nenhum desses monstros da nostalgia apresenta o poder criativo das bandas originais. No mercado da nostalgia, o melhor que podem oferecer é o nome.

Amor sem Escalas, com George Clooney


De porto em porto

No triste, engraçado e excepcional Amor sem Escalas, George Clooney
é um homem sem amarras que começa a ansiar por algo de estável


Isabela Boscov

TUDO NO AR
Clooney, como o especialista em demissões, ensina sua pupila, interpretada por Anna Kendrick, a fazer uma mala: lições úteis para o trabalho, mas inúteis para a vida


Em uma sequência fabulosamente bem montada, Amor sem Escalas (Up in the Air, Estados Unidos, 2009) comprime em uns poucos minutos o ritual que seu protagonista, Ryan Bingham, executa mais de 320 dias ao ano: roupas e pertences são milimetricamente acomodados em uma mala pequena; Ryan aperta o botão da alça, puxa-a para cima, roda com a mala para fora de mais um quarto de hotel. Aperta o botão, recolhe a alça, põe a mala no carro, vai até o aeroporto. Aperta o botão, puxa a alça, check-in. Aperta o botão, recolhe a alça, tira os sapatos, passa pelo raio X. Aperta o botão, puxa a alça, roda até o portão, embarca - tudo em cadências ritmadas, como se cada etapa fosse um compasso de uma música. Mas Ryan, interpretado por George Clooney com nuances que ele vem tornando mais sugestivas a cada filme, não é um autômato. É um homem que se compraz nesse ritual, orgulha-se da precisão a que nele chegou e, principalmente, ama o que ele significa: mais um dia no ar, rumo a mais uma cidade que pouco significa para quem não more nela - Tulsa, Des Moines, Wichita, Kansas City -, para mais um dia de um trabalho que ele desempenha com maestria, em todo o seu trágico exotismo.

É preciso recorrer a um neologismo para descrever a atividade de Ryan. No filme que estreia no país na próxima sexta-feira, ele é um "demissor". Trabalha para uma empresa que é contratada por outras empresas quando há corte de pessoal a fazer. Ryan viaja, senta-se em um escritório no qual nunca esteve e demite pessoas que nunca viu antes. No seu entender, ele desempenha uma espécie de serviço social. Com suavidade e ciência, impele essas pessoas a interpretar esse momento catastrófico como a chance de recomeçar ou de se tornarem o que sempre estiveram destinadas a ser. Ryan sabe que poucas vezes o enunciado vai se provar verdadeiro. Mas, como um agente funerário, compreende que o consolo de um rito de passagem é essencial. É um homem tão compassivo, paradoxalmente, que sua própria impessoalidade é um gesto de piedade. Nunca diga ao demitido quanto é desagradável demiti-lo, ensina a Natalie, sua pupila: o seu incômodo nada significa diante do sofrimento de perder o sustento e o respeito, e ninguém deveria ser solicitado a pensar nas emoções alheias em um instante como esse.

O FLANCO ABERTO
Vera e Clooney saem do ar condicionado e de sua redoma profissional: para Reitman (no detalhe), quando duas pessoas baixam a guarda uma para a outra, a indefinição passa a ser a única certeza


Dirigido por Jason Reitman, que despontou com Obrigado por Fumar e Juno e agora confirma que nada houve de acidental em seu sucesso, Amor sem Escalas é um parêntese no progressivamente infantilizado e pasteurizado cinema americano. Não um parêntese no sentido em que Bastardos Inglórios, Sangue Negro ou mesmo Avatar o são - filmes concebidos a partir de visões desafiadoramente pessoais por cineastas que têm uma ambição feroz de serem únicos. Amor sem Escalas toma personagens frequentes na iconografia americana, aquelas pessoas que compensam a paralisia emocional com a eficiência profissional. Cuida, então, de expô-las no que têm de mais tenro e terno. Cada demissão efetuada por Ryan é uma pequena tragédia distinta: não importa qual o estereótipo apresentado, se o da executiva carreirista ou o do funcionário tarefeiro - Reitman descobre, sob cada um deles, um íntimo repleto e palpitante. O que se tem aqui, portanto, é uma visão ampliada das agonias pessoais deflagradas pela depressão econômica. E, como só em um roteiro superlativo como este seria possível (Reitman é coautor do script, a partir do romance homônimo de Walter Kirn publicado aqui pela Record), cada pequena história revela algum novo detalhe sobre Ryan, sobre Alex (Vera Farmiga), a mulher madura com quem ele inicia um relacionamento que se pretende apenas casual e sexual, e sobre Natalie (Anna Kendrick), a novata que tem o plano de tornar as demissões mais econômicas - e impessoais -, realizando-as via internet.

Vale dizer que o título nacional nada significa; o original, Up in the Air, além de mencionar o modo de vida itinerante do protagonista, quer dizer que as coisas estão "no ar", indefinidas. Diz respeito, também, a jogar tudo para o alto e agir de maneira que se julgue livre ou inconsequente. Ryan, porém, é a autocontenção em pessoa; é um homem que cortou suas amarras, uma a uma, com deliberação, e defende em palestras motivacionais que qualquer posse material ou vínculo pessoal é peso extra a carregar. Por que ele se tornou assim o roteiro, felizmente, não explica. Este é um filme sobre como alguém vive o presente; e, nele, Ryan subitamente ganha essas duas âncoras, uma figura conjugal e uma figura filial, e contra suas próprias convicções começa a gostar de arrastá-las para lá e para cá. Ambas as atrizes, Anna Kendrick e Vera Farmiga, são sensacionais. Mas é com Vera que Clooney tem a oportunidade de oferecer um espetáculo magnífico: o de um homem se apaixonando e, pouco a pouco, com surpresa e com mais alegria do que imaginaria, percebendo estar apaixonado. Mas, em que pesem seu humor vivaz e seus momentos tão jubilosos, Amor sem Escalas é de uma tristeza profunda. Uma vez rompido seu insulamento, Ryan estará desprotegido tanto da possibilidade de ser feliz quanto, claro, da de ser infeliz - porque a vida tem momentos-chave e poucos daqueles que se deixou passar podem ser recuperados; porque algumas decisões são incanceláveis; e porque, quando duas pessoas baixam a guarda uma para a outra, a indefinição é a única certeza. Tudo, de fato, fica no ar. Menos o belíssimo filme de Reitman, que tem a cabeça nas nuvens, mas os pés plantados bem firmes no chão

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Vício Frenético, de Werner Herzog

Cinema

A compulsão faz o homem

E faz principalmente o cineasta, como demonstra
Werner Herzog no inclassificável Vício Frenético


Isabela Boscov

Divulgação
MUITO ESTRANHO
Cage, como o autodestrutivo policial de Nova Orleans: uma cidade
em que o sentido de moral desapareceu

Na Nova Orleans destruída pelo furacão Katrina, uma cobra desliza pela água escura e oleosa que inundou um xadrez, no qual um único preso foi esquecido. Dois policiais debatem se vale a pena salvá-lo. Um deles, interpretado por Val Kilmer, acha que não. O outro, interpretado por Nicolas Cage, concorda. Mas mesmo assim sacrifica as cuecas importadas pulando na água suja para abrir a cela. O sargento chamado Terence McDonagh sacrifica também as costas, que fere na queda. Ganha por isso uma promoção a tenente e uma dependência febril de analgésicos – logo estendida a qualquer substância química em que consiga pôr as mãos. "Todas as drogas que eu consumo têm receita médica. Bem, exceto pela heroína", diz Terence com o humor sardônico que dá o tom a Vício Frenético (Bad Lieutenant – Port of Call: New Orleans, Estados Unidos, 2009), de Werner Herzog, desde sexta-feira em cartaz no país.

Terence é um personagem maníaco, como todos os outros criados pelo diretor alemão ou retratados em seus vários documentários (e como o próprio Nicolas Cage, que aqui dá vazão aos seus ímpetos dramáticos mais estranhos). Enquanto percorre a toda a velocidade sua espiral autodestrutiva, Terence vai achacar, corromper, mentir e brutalizar. Vai também investigar com seriedade um crime medonho, proteger inocentes, tratar com compaixão sua madrasta alcoólatra. Mas nem as coisas boas nem as ruins vêm acompanhadas de algum sinal de valor: todas são manifestação das obsessões de Terence. E obsessão é o que sempre interessou a Herzog. Ela pode ser insana, como a ideia do protagonista de Fitzcarraldo de içar um navio montanha acima. Pode ser lógica, como no caso de O Sobrevivente, sobre um homem ferreamente determinado a escapar de um campo de prisioneiros. Mas em que medida terceiros e espectadores aprovam ou desaprovam essas ideias fixas é irrelevante. O crucial, para o diretor, é que esses personagens não têm como fugir às suas compulsões. Mais: tendo Herzog desdobrado o tema sob tantos prismas no decorrer de sua carreira (tão obsessivamente, cabe dizer), pode-se concluir que em muitos sentidos ele acredita que a compulsão faz o homem – mesmo quando acaba com ele. Responder a ela seria uma espécie de percurso obrigatório na jornada existencial de cada um.

Vício Frenético tem em comum com o supervalorizado filme de 1992 do diretor americano Abel Ferrara o nome e as linhas gerais do enredo. Mas não é refilmagem, releitura, continuação e nem sequer filme de gênero. É uma criação integralmente original: um filme que se empenha em ser vulgar, exagerado e estridente para assim extinguir noções convencionais de culpa e redenção – e não é acaso que se passe em uma cidade em que todo sentido de moral foi pulverizado com a passagem do Katrina e a indiferença grotesca para com a sorte de suas vítimas. Mais até do que nos velhos "filmes-cabeça" de Herzog, o saldo é desconcertante e inclassificável. Enfim, ao diretor, assim como ao protagonista, pouco interessa estar certo ou errado, ser bom ou ruim: o que lhe importa, e o que ele faz, é seguir até as últimas consequências algo de verdadeiro – seus impulsos.


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A morte da protetora de Anne Frank

Livros

Uma heroína da memória

Miep Gies, que morreu na semana passada, aos 100 anos,
não conseguiu salvar Anne Frank dos nazistas. Mas conservou
o diário da menina, uma das obras mais marcantes do século XX

Base/Anne Frank House/Getty Images
A GUARDIÃ E A ESCRITORA
Miep Gies e Anne Frank (à dir.): no esconderijo fornecido pela protetora, a menina só podia escrever – e revisar

Não sou uma heroína", escreveu a holandesa (nascida na Áustria) Miep Gies em seu livro de memórias, Anne Frank Relembrada, publicado em 1987. Mas ela mereceu, sim, ser chamada de heroína. Entre 1942 e 1944, durante a ocupação nazista na Holanda, Miep, seu marido e alguns amigos ajudaram a ocultar oito judeus no anexo do escritório onde ela trabalhava, em Amsterdã. Uma denúncia anônima acabou levando a Gestapo até o esconderijo. Sete dos oito protegidos de Miep morreram em campos de concentração. Miep conservou a memória dos que se foram: zelou pelos escritos que a mais jovem do grupo deixara no anexo. Anne Frank, a menina, morreu em Bergen-Belsen, com 15 anos. Seu diário, editado depois da guerra pelo pai, Otto, o único sobrevivente da família, tornou-se o mais conhecido testemunho direto do terror nazista, vendendo mais de 20 milhões de exemplares no mundo todo. Miep morreu na segunda-feira 11, em Hoorn, Holanda, depois de uma breve enfermidade. Tinha 100 anos e podia se orgulhar de ter contribuído para que o século XX conhecesse uma obra-prima.

O encanto que o diário de Anne Frank tem levado a milhões de leitores de sucessivas gerações costuma ser explicado pela espontaneidade da autora, uma pré-adolescente ingênua brutalmente acossada pelo ódio racial. Essa é uma percepção enganosa. "O livro de Anne Frank é uma obra de arte construída conscientemente", afirma a escritora americana Francine Prose em Anne Frank, um belo exame literário do diário e sua repercussão, lançado em 2009. Escritora obsessiva, Anne corrigia, emendava, cortava seus textos sucessivas vezes. Essas várias revisões até hoje atrapalham os editores. Em 1995, foi lançada uma edição "definitiva" do diário, incorporando trechos que haviam ficado de fora da versão produzida por Otto Frank – mas alguns estudiosos afirmam que a própria menina desejava excluir essas páginas da versão final. Em qualquer edição, porém, podem-se apreciar uma prosa direta e clara, uma observação aguda dos companheiros de esconderijo e um profundo poder de introspecção. Miep Gies arriscou sua segurança para salvar Anne Frank, a menina. Conseguiu salvar Anne Frank, a escritora.

Roberto Pompeu de Toledo


O milagre do sorinho
e outros milagres

"Zilda Arns era contra a cesta básica. Achava-a humilhante
e de presença incerta. Optou por ensinar como proporcionar
uma boa dieta com recursos escassos"

A doutora Zilda Arns fez tudo ao contrário de como costumam ser feitos os programas de políticas públicas no Brasil. Não chamou o marqueteiro, como providência inaugural dos trabalhos. Não engendrou uma generosa burocracia, capaz de proporcionar bons e agradáveis empregos. Não ofereceu contratos milionários aos prestadores de serviço. Sobretudo, não anunciou o programa e, com o simples anúncio, deu a coisa por feita e resolvida. Milagre dos milagres, Zilda Arns, que morreu na semana passada, no terremoto do Haiti, aos 75 anos, realmente fez. Se o Brasil teve uma redução significativa nos níveis de mortalidade e desnutrição infantil, nas últimas décadas, isso se deve em primeiro lugar à Pastoral da Criança, criada e administrada por ela, com apoio da Igreja Católica, e aos exemplos que semeou.

O índice de mortalidade infantil no Brasil andava pelos 82,8 mortos por 1 000 nascidos vivos, em 1982, quando Zilda foi convocada pelo irmão, o cardeal Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, a pôr sua experiência de médica pediatra e sanitarista a serviço de um programa de combate ao problema. Hoje está em 23,3 por 1 000. Nas áreas com atuação direta da Pastoral da Criança - são 42 000 comunidades pobres, espalhadas por 4 000 municípios brasileiros - está em 13 por 1 000. O que mais espanta, na obra de Zilda, é o contraste entre a eficácia dos resultados e a simplicidade dos métodos. Nada de grandiosos aparatos, nada de invencionices. A partir da gestão do hoje governador José Serra no Ministério da Saúde, ela passou a contar com forte apoio governamental. Mas suas ferramentas básicas continuaram as mesmas:

• O sorinho e a multimistura. O soro caseiro feito de água, açúcar e sal foi o grande segredo no combate à desidratação, por muito tempo a maior causa de mortalidade infantil no Brasil. A multimistura feita de casca de ovo, arroz, milho, semente de abóbora e outros ingredientes singelos foi, e continua sendo, a arma contra a desnutrição. Zilda Arns era contra a cesta básica. Achava-a humilhante, para quem a recebia, e de presença incerta. Optou por ensinar como proporcionar uma boa dieta com recursos escassos.

• A multiplicação da boa vontade. A ordem era ensinar e fazer com que os que aprendiam passassem também a ensinar. A Pastoral da Criança conta hoje 260 000 voluntários.

• O trabalho e a persistência. Se fosse só ensinar a tomar o sorinho ou a multimistura e ir embora, seria repetir outro padrão das políticas públicas à brasileira. Cabe ao voluntariado fazer uma visita por mês às famílias assistidas. Um instrumento imprescindível nessas ocasiões é a balança, para medir a evolução da criança.

• A escora da índole feminina. Noventa e dois por cento do voluntariado da Pastoral da Criança é constituído por mulheres. Uma tarefa dessas é séria demais para ser deixada por conta dos homens. A mulher é muito mais confiável quando se mexe com assunto situado nos extremos da existência, como são os cuidados com o nascimento e a morte, a saúde e a doença.

Zilda Arns conduziu-se por uma estratégia baseada na sabedoria antiga e na vontade de fazer, nada mais do que isso. É paradoxal dizer isso de uma pessoa tão religiosa, mas não houve milagres na sua ação. A menos que se considere um milagre a presença dessa coisa chamada amor como motor, tanto dela como das pessoas em quem ela inoculava o mesmo vírus. Vai ver, ela diria isso. Vai ver, isso foi importante, mesmo.

O escritor Saul Bellow conta que, certa vez, passeava de bote num rio infestado de jacarés quando começou a ficar apavorado. Não era tanto a morte que o apavorava. Era o necrológio: "Morreu ontem, devorado por jacarés…". Zilda Arns está condenada ao necrológio: "Morreu de terremoto, no Haiti". Não é esdrúxulo como ser devorado por um jacaré. Também não é raro como cair no poço do elevador, como a atriz Anecy Rocha, irmã de Glauber, ou ser tragado pela boca do Vesúvio, como o republicano histórico Silva Jardim. Mas é raro para um brasileiro, em cujo território não ocorrem terremotos de proporções mortais, e chocante como são as mortes inesperadas, provocadas por acidentes. Zilda Arns, como Anecy Rocha e Silva Jardim, morreu em circunstâncias do tipo que nunca se esquece. Mas, também, em circunstâncias que lhe coroam a vida. Estava no Haiti para, em contato com religiosos locais, propagar a metodologia da Pastoral da Criança. Morreu em combate.

VEJA Recomenda e Os mais vendidos


CINEMA

A MENTE QUE MENTE
(The Great Buck Howard, Estados Unidos, 2008. Em cartaz desde sexta-feira)

Divulgação
CINEMA
A Mente que Mente: Malkovich como o mágico que não desiste de si, mesmo depois que os outros já fizeram isso


• Embora ainda se apresente com o título de "O Grande", Buck Howard (John Malkovich) é um mágico que já teve dias melhores: quando Johnny Carson era o titular doTonight Show, ele era uma das atrações mais festejadas do programa. Mas, ainda que tenha acabado no circuito de terceira categoria, Buck não perdeu a pose nem o dom de encantar a plateia com seu truque-assinatura: ao final de seus shows, manda que um espectador esconda toda a renda da noite; se não adivinhar onde ela está, ficará sem o dinheiro. Ele, porém, sempre adivinha, e não há quem descubra como. Trata-se de uma história pequena e sem pretensões, mas muito saborosa, sobre um homem que não desiste de si mesmo, ainda que todos já tenham desistido dele – e ao qual Malkovich, aqui em momento de afinação impecável, confere todas aquelas pequenas manias que tornam verossímil uma figura assim tão caricatural. O diretor Sean McGinly, aliás, sabe do que está falando: como o personagem que narra o filme, interpretado por Colin Hanks (filho de Tom Hanks, também produtor), ele foi assistente de um mágico em fim de linha. Não aprendeu a encontrar o dinheiro – mas a deleitar a plateia, isso sim.

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LIVROS

A ALMA DO VINHO (vários tradutores; Globo; 440 páginas; 48 reais)

• O vinho estava presente na última ceia de Cristo e nas bacanais romanas. Na cultura ocidental, não há bebida mais carregada de simbolismo. Esta antologia percorre, em quarenta textos de gêneros variados – contos, poemas, ensaios –, as mais diversas significações de que o vinho se revestiu ao longo dos séculos. Começa com o episódio do Gênese em que Noé toma um porre, dorme nu e depois amaldiçoa o filho que o viu nessa situação. O livro inclui clássicos conhecidos – como O Vinho, do francês Charles Baudelaire, e O Tonel de Amontillado, do americano Edgar Allan Poe – ao lado de algumas curiosidades mais obscuras, como a crônica em que o português Camilo Castelo Branco, o escritor romântico de Amor de Perdição, se enche de indignação patriótica para defender o vinho do Porto contra ataques de um articulista britânico que acusara a bebida lusa de conter "tóxicos anglicidas". Leia o trecho.

Oscar White/Corbis/Latinstock
LIVRO
William Maxwell: ele foi editor de Vladimir Nabokov
e John Updike – e também era um
ficcionista consumado

ATÉ MAIS, VEJO VOCÊ AMANHÃ, de William Maxwell (tradução de Vera Ribeiro; Alfaguara; 168 páginas; 32,90 reais)

• O americano William Maxwell (1908-2000) trabalhou quarenta anos como editor de ficção da revista The New Yorker. Por seu crivo, passaram textos de J.D. Salinger, Vladimir Nabokov e John Cheever, entre outros grandes nomes da literatura americana. "Muitos toques interessantes nos meus contos vieram de sugestões de Bill Maxwell", admitia John Updike. O editor era também um ficcionista consumado, como se nota em Até Mais, Vejo Você Amanhã, romance de 1980. A história começa com o assassinato de um meeiro, em uma fazenda do Illinois, na década de 20. Cinquenta anos depois, um menino que vivia naquela comunidade recorda sua amizade com o filho do assassino e tenta reconstituir as circunstâncias que levaram ao crime – nas quais se revela a ligação escandalosa entre dois casais de amigos. Leia o trecho.

DISCOS

BERNSTEIN: MASS, Marin Alsop e Sinfônica de Baltimore (Naxos)

Marco Brescia/AP
DISCO
A regente Marin Alsop: pupila de Leonard Bernstein, ela supera
o mestre na condução de sua Missa

• A Missa, de Leonard Bernstein, foi uma encomenda da ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy ao maestro e compositor americano. Ela estreou em 8 de setembro de 1971, na cerimônia de abertura do complexo John F. Kennedy for the Performing Arts, em Washing-ton. Bernstein criou um híbrido de gospel, música atonal, rock e cancioneiro da Broadway. Muito criticada na noite de estreia, hoje a Missa é reconhecida como uma das peças mais importantes de sua carreira. Em outubro de 2008, a regente americana Marin Alsop, que estudou com o compositor na década de 80, gravou sua versão da Missa. Marin, que virá neste ano ao Brasil para comandar a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), superou o mestre. Ela equilibra melhor os vários gêneros musicais da obra e conta com o excepcional talento do barítono Jubilant Sykes – atente para sua entrega em A Simple Song.

Divulgação
DISCO
Natasha Khan: muitas referências, mas
a música é pop até o fundo da alma

TWO SUNS, Bat for Lashes (EMI)

• Bat for Lashes é a banda de Natasha Khan. Nascida em Londres e com ascendência asiática (seu pai é paquistanês e ela não esconde que foi vítima de racismo na escola), Natasha formou-se em música e artes visuais. Seu trabalho abrange influências que vão do minimalista Steve Reich ao pós-punk de Siouxsie & the Banshees e ao pop tribal de Björk. Mas convém não se intimidar com tantas referências, pois as canções de Natasha são pop até o fundo da alma – como se pode notar em Daniel, o primeiro single a sair deste CD.Two Suns é um disco conceitual. Ele acompanha as desventuras de Pearl, alter ego da cantora, em busca de autoconhecimento. O tema pode render canções tribais, que combinam tambores e coro gospel (Traveling Woman e Peace of Mind), e outras em que ela mostra grande alcance vocal(Glass). Para arrematar, o dueto de Natasha e Scott Walker – ídolo de David Bowie – em The Big Sleep é realmente impactante.

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Maílson da Nóbrega


O PT mudou o Brasil?
Ou foi o contrário?

"Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática
das realizações de outros governos, convencer a maioria de que
o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes"

Nunca antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a segunda descoberta do Brasil".

No mundo, três transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana (1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos inalienáveis dos cidadãos.

Nada desse porte aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930, a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças, mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências. O regime militar findou sob negociação.

O PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para as eleições de 2002 era "a ruptura necessária". Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?

As propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública seria reduzido de forma voluntarista.

A Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito aos contratos e obrigações do país". O superávit primário seria preservado "para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos".

As visões econômicas do PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política, a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas que o PT abominava.

A política econômica foi mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia, que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas sociais herdados.

Muito se deve à intuição política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia do Banco Central. Ele cresceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia, de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia e da economia de mercado.

Lula e o PT conseguiram, mediante a desconstrução sistemática das realizações de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que o de FHC.

A manutenção da política econômica foi uma decisão corajosa. Respondeu a um novo ambiente, caracterizado pela intolerância da sociedade à inflação, pela imprensa livre, pela nascente valorização da democracia e pela disciplina do mercado. Lula curvou-se às imposições dessa nova realidade. Ainda bem. O Brasil mudou o PT, que agora é, em todos os sentidos, um partido como os outros.

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