Saturday, January 30, 2010

Veja Recomenda e Os mais vendidos

CINEMA

MOTHER (Madeo, Coreia do Sul, 2009. Estreia na próxima sexta-feira no país)

Divulgação
CINEMA
O filme sul-coreano Mother: o instinto
materno pode ser monstruoso


• Hye-ja é uma mulher simples. É viúva, tem uma pequena loja de ervas medicinais numa cidadezinha do interior da Coreia do Sul e pratica acupuntura às escondidas, já que não possui licença, a fim de completar sua renda. Interesse, tem um só na vida: o filho Do-joon, um rapaz muito bonito, mas que sofre de certo atraso mental. Todos os pensamentos e ações de Hye-ja revolvem em torno de Do-joon. O filho de vez em quando se rebela contra a tutela materna – e, como este é um filme do excepcionalmente talentoso diretor Joon-ho Bong, de Memórias de um Assassino e O Hospedeiro, desde a primeira e muito surpreendente cena já se sente no ar aquela eletricidade característica das terríveis cadeias de eventos que às vezes envolvem as pessoas. Do-joon é atropelado, corre atrás do motorista fugitivo, e o espectador sente o coração vir à boca: é agora que o pior vai acontecer. Não; ele passa a noite num bar, embebeda-se e tem um estranho encontro – que, ao que parece, não resulta em nada. Assim, de cena em cena, a roleta vai girando, até que finalmente para de vez na casa do azar. Do-joon é acusado de um crime gravíssimo e, sem outra opção, Hye-ja, essa mulher tão sem preparo e sem recursos, tenta provar sozinha a inocência dele. Nesse percurso desesperador, algo inesperado fica à mostra: o instinto materno pode, sim, ser algo cruel e até mesmo monstruoso. Não há nada, hoje, que se compare à inventividade e à turbulência do cinema sul-coreano. Nem à sua perícia: Joon-ho Bong lida o tempo todo com emoções extremas sem nunca descuidar também da trama policial que dá sustentação ao enredo – e que, como tudo mais em Mother, é coisa de virtuose.

LIVROS

SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA, VAI ADORAR TRABALHAR, de irvine welsh
(tradução de Paulo Reis e Sergio Moraes Rego; Rocco; 376 páginas; 54,50 reais)

• O escocês Irvine Welsh não é um escritor sutil. Seu maior sucesso,Trainspotting, de 1993, crônica devastadora da vida de um grupo de viciados em heroína, não tinha pudor em apresentar seus protagonistas nas situações mais degradantes e escatológicas. Apesar desses temas pesados, Welsh faz uma literatura pop muito divertida – a leitura perfeita para o período de férias. Este novo livro reúne quatro contos e uma novela breve de Welsh. No primeiro conto,Cascavéis, um grupo de jovens viaja pelo deserto do Arizona em busca de uma droga indígena mística, mas um dos rapazes acaba picado por uma cobra em local dolorosamente íntimo – acidente que vai precipitar outras circunstâncias cômicas. Welsh convida o leitor a rir, sem culpa, desses personagens desgraçados. Leia o trecho.

A ARTISTA DE XANGAI, de Jennifer Cody Epstein
(tradução de Flávia Carneiro Anderson; Record; 452 páginas; 57,90 reais)

Album/Latinstock
LIVRO
Tela de Pan Yuliang, a protagonista de
A Artista de Xangai: escândalo na China

• A chinesa Pan Yuliang (1899-1977) ficou órfã na infância e aos 14 anos foi vendida, por um tio viciado em ópio, a um bordel. Foi tirada de lá por um funcionário do governo que a transformou primeiro em concubina e depois em esposa. O marido incentivou seu talento artístico. Pan frequentou uma escola de arte em Xangai e prosseguiu seus estudos em Paris. De volta ao país natal, suas telas "afrancesadas" – as cores lembram Cézanne – causaram escândalo por retratar a nudez feminina, tabu no meio artístico chinês. Em 1937, escapando à invasão japonesa, Pan radicou-se em Paris, onde morreu em 1977. Neste romance biográfico, a jornalista americana Jennifer Cody Epstein reconstitui, com muita vivacidade, a extraordinária vida dessa prostituta que se tornou artista. A descrição da vida no bordel resultou em páginas fortes. Leia o trecho.

DISCOS

WATCHING THE SKY, Jesse Harris (PIC Music)

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DISCO
Jesse Harris: ele é mais do que
o parceiro de Norah Jones

• O cantor e compositor americano Jesse Harris já lançou seis discos e trabalhou com artistas de estilos os mais variados – do cantor de soul Solomon Burke ao grupo folk Bright Eyes. Mas ele ficou conhecido sobretudo como o autor de Don’t Know Why, sucesso do primeiro CD de Norah Jones. Watching the Sky é uma ótima chance para conhecer mais de perto o trabalho de Harris, um ótimo compositor. Suas canções mesclam o jazz, o country e a música folk, com melodias que ora emulam o pop elegante do maestro americano Burt Bacharach, ora lembram o country rock do também americano Gram Parsons. Watching the Sky ganhou forma durante uma turnê de Harris com o percussionista brasileiro Mauro Refosco (que tocou ao lado de Bebel Gilberto e David Byrne). A dupla se encarregou de quase todos os instrumentos do disco – a exceção foi o baixo, a cargo do excelente Tony Scherr. Harris é também um bom intérprete: embora não seja poderosa, sua voz é afinada e agradável. E é claro que ele recorre à amiga que lhe consolidou a fama: Norah Jones faz um dueto com Harris em It Will Stay with Us.

EU MENTI PRA VOCÊ, Karina Buhr (Tratore)

Divulgação
DISCO
Karina Buhr: folclore, reggae
e deboche com as leis
de incentivo à cultura

• Desde que Chico Science & Nação Zumbi lançaram o disco Da Lama ao Caos, em 1994, todo artista que sai de Pernambuco é recebido como vanguarda da MPB. Os imitadores de Chico Science, porém, apenas mascaram a falta de talento com uma atitude exótica e certa discurseira "social". A cantora e instrumentista Karina Buhr passa longe dessa turma. Nascida na Bahia, criada em Pernambuco e atualmente radicada em São Paulo, ela foi uma das fundadoras do Comadre Fulozinha, grupo que trabalhava com ritmos pernambucanos. Essa vertente, digamos, folclórica ainda se faz presente no seu primeiro disco-solo, mas a ela foram integrados gêneros como funk, reggae, dub e pop. O resultado é um trabalho de fácil assimilação, porém com uma carga de inovação e ousadia que estava em falta no atual cenário das cantoras brasileiras. Como letrista, Karina revela uma ironia mordaz, seja falando de assuntos do dia a dia (a faixa-título, Mira Ira) ou dos burocratas das artes (Ciranda do Incentivo debocha das leis de incentivo à cultura).


Os mais vendidos

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Roberto Pompeu de Toledo

Crime, denúncia, surpresa

"O advogado Rodrigo Rosenberg é morto a tiros enquanto
passeava de bicicleta por um bairro rico da capital do país.
Era domingo, Dia das Mães. No dia seguinte…"

Tramas formidáveis sempre tiveram lugar em nuestra América. Bolívia, 21 de julho de 1946. Armada com fuzis roubados de um quartel, uma multidão invade o palácio presidencial e, sala por sala, segue no encalço do presidente Gualberto Villarroel López. Villarroel é morto, jogado de uma sacada para o populacho lá embaixo e pendurado num poste. Entrou para a história com o cognome de El Colgado, "O Pendurado". Panamá, 2 de janeiro de 1955. O advogado Rubén Miró, tendo perdido a fortuna numa mesa de jogo, não encontrou melhor ação para praticar em seguida do que matar o presidente da República. Abateu José Antonio Remón enquanto ele assistia a uma corrida de cavalos. Miró era amigo do vice-presidente e, segundo confessou, contava ser nomeado ministro para recompor as finanças pessoais.

São apenas dois casos, pinçados dentre um repertório, que, sendo nuestra América o que é, jamais se pode dizer esgotado. Prova-o uma história que, ocorrida na mesma vizinhança do Haiti do terremoto e da Honduras do inédito caso do presidente deposto que volta a seu país para exilar-se numa embaixada, passou meio despercebida. Segue-se um resumo, do início ao recente desfecho.

Guatemala, 10 de maio de 2009. O advogado Rodrigo Rosenberg é morto a tiros enquanto passeava de bicicleta por um bairro rico da capital do país. Era domingo, Dia das Mães. No dia seguinte, Rosenberg ergue-se da tumba para uma acusação que estremece o país. Vem a público um vídeo em que ele diz: "Se vocês estão vendo este vídeo, é porque fui assassinado pelo presidente Álvaro Colom". Rosenberg acusava Colom, eleito em 2007 com um discurso de esquerda, de envolvimento em roubalheira do dinheiro público e tráfico de drogas, além do assassinato do banqueiro Khalil Musa e de sua filha Marjorie, no mês anterior. Desencadeia-se uma onda de protesto contra o presidente. "Colom assassino", gritam manifestantes. Exige-se sua renúncia. Colom se diz inocente. Vai à TV e alega que o vídeo é uma armação de inimigos políticos. Mas como armação se é o morto, indiscutivelmente o morto, com sua própria voz, que o acusa, depois de comprovadamente ter ocorrido aquilo que previa? Colom pede a uma comissão da ONU, liderada pelo juiz espanhol Carlos Castresana, que investigue o caso.

Guatemala, 12 de janeiro último. Depois de oito meses, o juiz Castresana anuncia o resultado de sua investigação. O presidente Colom é inocente. Quem, então, seria o culpado pela morte de Rosenberg? Quem? Resposta: Rodrigo Rosenberg. Mais uma vez, agora com o merecido ponto de exclamação: Rodrigo Rosenberg! Ele próprio contratou os pistoleiros, descreveu-lhes a vítima e passou-lhes as informações de onde e quando encontrá-la. Como não poderia deixar de ser, considerando-se que a vítima era ele mesmo, as informações revelaram-se precisas. Um atentado armado contra a própria pessoa, e bem-sucedido, não um em que a pessoa escapa à última hora – isso, até onde a memória alcança, nem a crônica latino-americana ainda registrava.

Rosenberg pediu a parentes que contratassem os pistoleiros. Nem os parentes nem os pistoleiros imaginaram que a vítima seria ele próprio. Segundo o juiz Castresana, foi decisiva para a conclusão a descoberta de dois celulares adquiridos por Rosenberg por meio de um amigo. Um ele encaminhou aos pistoleiros. O outro usou para lhes dar instruções e para endereçar ameaças de morte a si mesmo, deixadas no celular em seu nome. Rosenberg gravou o vídeo com a acusação ao presidente três dias antes de deixar-se matar, e encarregou um amigo de divulgá-lo. Quanto à razão por que ele decidiu morrer, o juiz Castresana só pôde especular. Rosenberg acabara de se divorciar. E mostrava-se deprimido com o assassinato do banqueiro Musa, de quem era advogado, e de sua filha Marjorie, com quem mantinha laços afetivos. Como fazia parte da oposição ao presidente Colom, e oposição, na Guatemala como alhures, por aquelas redondezas, não é coisa que se exerça como os mariquinhas que se apegam a discursos e argumentos, decidiu conferir uma utilidade extra ao suicídio.

Hugo Chávez fechou a RCTV, a mais popular emissora de televisão da Venezuela, pela segunda vez, na semana passada (da primeira ele fechara suas transmissões abertas; agora fechou as por cabo), três dias antes do final da novela Libres Como el Viento, que ia ao ar às 21 horas. O Mussolini do Caribe brinca com fogo. Três dias antes do ansiado final da telenovela nuestra de cada dia!

Radar


Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Governo

Boa-nova para Alencar
Os exames a que José Alencar se submeteu na terça-feira passada no Hospital Sírio-Libanês constataram que o tamanho de seu tumor diminuiu 5%. É a terceira redução consecutiva desde novembro.

Serra e Lula
Na tarde de quinta-feira, José Serra telefonou para o seu médico, Roberto Kalil. Queria saber notícias sobre o estado de saúde de outro paciente, Lula. "Diga a ele para se cuidar", receitou Serra.

Uma ponte chamada Carvalho
Em 2009, Lula e José Dirceu se encontraram algumas poucas vezes e falaram outras tantas pelo telefone. O responsável, tanto na montagem da "operação encontro secreto" quanto no meio de campo para os telefonemas acontecerem, foi o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho.

Em qual Lula acreditar?

Destinos
Costa: Lula o quer ao mesmo tempo vice de Dilma e governador de Minas


Qualquer conversa de político, mesmo privada, não deve ser comprada pelo seu valor de face. Na semana passada, Lula deu um exemplo disso. Numa conversa com um importante político paulista, na segunda-feira, disse que faria de tudo para convencer o petista Fernando Pimentel a desistir de disputar o governo de Minas Gerais para abrir caminho para o peemedebista Hélio Costa. Dois dias depois, o mesmo Lula, agora numa conversa com um dos mais eminentes congressistas do Nordeste, afirmou com todas as letras que Costa seria a melhor alternativa peemedebista para ser vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff.

Congresso

Pablo Valadares/AE
Barriga vazia
Vaccarezza: se tudo der certo, um feliz integrante da bancada dos ex-gordos

Mais um neomagro
Depois de Demóstenes Torres, Heráclito Fortes e Ideli Salvatti, quem promete ser o próximo integrante da eclética bancada dos neomagros é o novo líder do governo, Cândido Vaccarezza.Há duas semanas, o petista colocou um balão no estômago. Desde então, perdeu 10 de seus 135 quilos.

Eleições

Marina quer, Penna não quer
Marina Silva já disse que quer Guilherme Leal, um dos controladores da Natura, como o seu companheiro de chapa na eleição. Leal, inclusive, a tem acompanhado com mais frequência nos eventos e nas conversas políticas. Beleza. O problema é que o presidente do PV e outras figuras da cúpula verde querem porque querem que o vice seja Roberto Klabin, do conselho de administração da Klabin Papel e Celulose. Quem vencerá a parada? Esse será um bom indicador de quem vai mandar na campanha.

A tevê é da Dilma
Se nada mudar no desenho das alianças partidárias para as eleições, Dilma Rousseff caminha para ter 66% do tempo total de propaganda eleitoral na televisão no primeiro turno. No segundo, se houver segundo, a divisão será meio a meio: dez minutos diários para cada um.

Nem um nem outro
Num almoço na semana passada no Rio de Janeiro, Dilma Rousseff resumiu sua visão em relação à presença do estado na economia. "Nem o estatismo do Geisel e nem os exageros privatistas dos últimos governos", disse Dilma.

Espetos e afagos
Enquanto está sendo espetado pelo vodu petista de um lado, Michel Temer é afagado pela oposição pelo outro. Gilberto Kassab já procurou Temer em nome de José Serra.

Não, não e não
O desejo da quase totalidade dos tucanos (e da oposição em geral) é forte, e as pressões também, mas até agora ninguém conseguiu ouvir de Aécio Neves em conversas privadas que ele pelo menos admita a hipótese de ser vice de José Serra. Ainda assim, até a última hora Aécio será pressionado.

Minas é fundamental
Aécio Neves tem repetido aos mais próximos que o seu objetivo é eleger o futuro governador de Minas Gerais - e, de lá, ajudar Serra a vencer Dilma. Além, é claro, de eleger-se senador. Se Serra triunfar, segundo o raciocínio que costuma expor nessas conversas, liderará as articulações do governo no Senado, com a força de ter eleito um governador. E se Dilma vencer? Nessa hipótese, Aécio acha que será o líder da oposição. Tanto num como no outro cenário, vencer em Minas é fundamental.

Economia

Nos tempos do supervarejo
Um grande negócio em curso que pode esquentar mais ainda a guerra do varejo é a compra do Carrefour na América Latina pelo Walmart. As conversas estão em andamento. Juntas, as cadeias francesa e americana faturam no Brasil o equivalente às receitas do Pão de Açúcar e Casas Bahia somadas - ou seja, cerca de 40 bilhões de reais por ano.

Te cuida, Vale
Edison Lobão finaliza um novo marco regulatório para o setor de mineração. Deve ser entregue a Dilma Rousseff ainda em fevereiro. Para desespero da Vale, MMX e outras, vai aumentar a taxação do minério.

Saúde

Jovens pesam menos
Nos últimos dez anos caiu a participação de jovens de até 18 anos nos planos de saúde. A redução de 5,3% entre 2000 e 2009 deve-se, segundo pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, à acentuada queda da taxa de natalidade do país entre as famílias com maior escolaridade - que são as principais clientes das seguradoras.

Fórmula 1
Fora das pistas
É praticamente nula a chance de a Petrobras voltar a patrocinar alguma equipe de Fórmula 1 nesta temporada. O objetivo principal da estatal com o patrocínio é o desenvolvimento de novos tipos de gasolina e de óleos junto com a escuderia. Nesse tópico, as negociações goraram. Quanto ao segundo objetivo - dar visibilidade à marca -, a Petrobras estima que já o alcança com o patrocínio das corridas nas transmissões da Globo, pelo qual, aliás, pagou 56 milhões de reais neste ano.

Música

Apelo evangélico
A Sony Music, a maior gravadora brasileira, está entrando com os dois pés no mercado de música evangélica, o que mais cresce no Brasil e o que menos sentiu o efeito da crise que esmaga a indústria fonográfica. Contratou um executivo, Maurício Soares, que trabalhava na gravadora do pastor R.R. Soares, e agora parte para montar um elenco de pelo menos quinze artistas evangélicos. O primeiro deles é Regis Danese, que, na Line Records, pertencente ao bispo Edir Macedo, vendeu quase 1 milhão de CDs no ano passado.

Televisão

Faturamento gordo
A Rede Globo fechou 2009 com um crescimento de 6,8% em seu faturamento, comparado com 2008. No total, suas receitas foram de 7,7 bilhões de reais.

Xuxa até 2012
Na virada do ano, Xuxa renovou seu contrato com a Globo por mais três anos.

Futebol

Miguel Schincariol/Perspectiva/AE
Barriga cheia
Ronaldo: o patrocínio do seu uniforme vale mais do que o de quase todos os times brasileiros

No clube dos sete
Se Ronaldo Fenômeno fosse um time, seria hoje o sétimo que mais fatura em patrocínio no futebol brasileiro. Do patrocínio total que o Corinthians recebe por ano, 10 milhões de reais são repassados para o seu camisa 9 (isso, fora o seu salário). Ou seja, depois do próprio Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Vasco e Atlético Mineiro, quem mais lucra para estampar as grandes marcas nos uniformes é Ronaldo.

Llya Luft

Educação de quarto mundo

"Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos
ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?"

No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório "Educação para todos", da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional. Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4%. No Brasil, é de quase 19%.

No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.

Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado - não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?

Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas - o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor - teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação - palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.

Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet - o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.

Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada "aproveitar a vida": alguém pode me explicar o que seria isso?

Jerome Kagan

A ansiedade pode ser boa

O psicólogo que passou meio século estudando o
desenvolvimento infantil diz que a mãe não é mais influente
do que o pai e alerta para o erro de tentar suprimir a ansiedade


André Petry, de Boston

Jerome Kagan, um dos grandes psicólogos do século XX, está de volta à moda. Em cinquenta anos de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, Kagan dedicou-se ao estudo da ansiedade, e, quanto mais a doença aparece na sociedade moderna, mais atenção seu trabalho ganha. Aos 80 anos (parecem 65), ele joga tênis três vezes por semana e, mesmo aposentado desde 2000, segue batendo ponto no seu escritório na Universidade Harvard e mantém a língua afiada de sempre. Nesta entrevista a VEJA, durante a qual psicanaliticamente fumou cachimbo, ele critica pediatras e obstetras, diz que Freud disseminou o equívoco de que a ansiedade é ruim e - para alívio das mães e festa das feministas - afirma que a mãe não é mais influente do que o pai na criação dos filhos.

Estamos vivendo a "era da ansiedade"? A incidência hoje não é maior do que era ontem. No século XVI, a ansiedade vinha do risco de morrer antes dos 35 anos de doença infecciosa, ser assaltado na beira da estrada entre uma cidade e outra, ofender Deus e ir para o purgatório. Hoje, estamos ansiosos em relação a coisas diferentes, como status social, sucesso profissional, relação com amigos e cônjuges. O que determina a frequência e a intensidade da ansiedade são os genes, e os genes não mudaram do século XVI para cá. Mas o que determina o alvo da ansiedade é a cultura, e isso mudou.

A ansiedade é ruim? Desde que Freud disse que todas as neuroses vêm da ansiedade, passamos a ter um entendimento cultural de que a ansiedade é uma coisa tóxica. Não é. Todos nós somos ansiosos. Faz parte da condição humana, como ficar cansado, errar, sentir-se culpado, frustrado ou envergonhado. Não existe civilização em que ninguém fica ansioso. A ansiedade tem vantagens. As pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes. Quando eu selecionava meus ajudantes de pesquisa, sempre que possível optava por jovens ansiosos, tímidos e introvertidos, porque eles trabalham com afinco e erram menos. Há pessoas ansiosas simplesmente brilhantes.

Albert Einstein era ansioso? Pela biografia dele, eu diria que não, mas T.S. Eliot era seguramente ansioso e ganhou o Nobel de Literatura em 1948. O matemático Paul Dirac era extremamente ansioso e também ganhou o Nobel de Física em 1933. Uma pessoa pode ser intensamente ansiosa, mas, se ela consegue trabalhar, relacionar-se no casamento, cumprir seu papel de pai ou mãe, não há problema. A ansiedade será um problema se atingir um estágio clínico, no qual vira doença, a superansiedade. Do contrário, só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.

De onde vem a superansiedade? Há dois argumentos. Os biólogos evolucionários dizem que a existência de hipervigilantes entre membros de nossa espécie foi decisiva na luta contra os predadores. Sob esse ponto de vista, portanto, a ansiedade foi uma vantagem adaptativa. O argumento contrário deriva da tese de Stephen Jay Gould (paleontólogo americano, 1941-2002)segundo a qual nem todas as mutações são úteis e positivas. Algumas são simplesmente subprodutos da evolução. O queixo é um exemplo. Ele não traz em si nenhuma vantagem adaptativa. O queixo existe como consequência arquitetônica do desenho da boca, esta sim uma solução evolutiva útil. A natureza simplesmente não saberia como construir uma boca como a nossa sem criar como subproduto o queixo. A tese de Gould pode ser aplicada à superansiedade. Ela seria um subproduto, uma sobra de algum outro arranjo genético positivo. Não sei qual dos dois argumentos é o mais correto, mas ambos fazem sentido.

Em meio século de estudos, o que lhe parece mais decisivo no desenvolvimento infantil?Duas coisas. Uma é que, nos primeiros dezoito ou vinte anos, vivemos verdadeiros estágios de maturação. Os dois primeiros anos são um estágio. De 2 a 5, outro estágio. De 5 a 7, outro. E, quando passamos de um estágio ao outro, parte do que ocorreu antes desaparece sem deixar vestígios. Não carregamos toda a bagagem conosco. As experiências da primeira infância simplesmente somem, são transformadas ou eliminadas. Antes, pensava-se que não perdíamos nada, que tudo ficava registrado. Não é verdade. A outra coisa é que a natureza humana é como uma cebola. Trocamos as camadas externas com facilidade. São as crenças, o comportamento. As camadas internas, mais próximas do centro, são difíceis de mudar. São os sentimentos, a ansiedade, a raiva, o orgulho. Carl Jung (psiquiatra suíço, 1875-1961) entendeu isso com seu conceito de "persona" e "anima". "Persona" é a camada externa, é o que nós vemos um no outro. "Anima" é o que está dentro da cebola, e nós não vemos.

A biologia é destino? Depende. Há doenças, pouquíssimas doenças, que quase certamente vão se desenvolver em quem tiver determinados genes. É o caso de Huntington (doença degenerativa do sistema nervoso central). Felizmente, menos de 1% da população tem os genes de Huntington. No outro extremo, há doenças, muitas doenças, que só se desenvolverão, mesmo em quem tiver os genes errados, caso numerosos fatores externos se combinem para deflagrar a moléstia. São muitas as pessoas com esses genes, mas é provável que nunca tenham as doenças. Portanto, a resposta é não: biologia não é destino.

Pais ansiosos terão filhos ansiosos? Se a ansiedade dos pais decorre de uma característica de sua natureza, a probabilidade de que seus filhos sejam ansiosos é um pouco mais alta. Isso porque estamos falando de hereditariedade. Mas, se a ansiedade dos pais tiver origem no ambiente, no meio em que vivem, a possibilidade de passar a ansiedade para os filhos será menor.

Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos? No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar a mudar o comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta. Eles podem ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento aparece, mas a vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa com bebês, há dois casos muito evidentes. (A pesquisa começou em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se revelaram inibidos e ansiosos, e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.) Uma das garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que lhe dá muito apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na faculdade e vai muito bem. Outra pesquisada, Baby 19, veio de uma família de pais divorciados e está tendo muitos problemas. As duas, Mary e Baby 19, têm o mesmo temperamento, mas as famílias fizeram a diferença.

O nível educacional e a classe social dos pais têm muita influência sobre o futuro dos filhos? Tem mais influência do que a genética. O melhor indicador de doença mental, de qualquer doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese, suponhamos que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você e eu vamos pesquisá-los para determinar quais bebês poderão estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade. Você só pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação e o nível de renda dos pais dos bebês. Meu resultado será mais exato do que o seu. Os que ocupam o topo da pirâmide social, em termos de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental, vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em resumo, são pessoas mais felizes.

O amor da mãe é condição necessária para a saúde mental da criança no futuro? É conversa fiada. As crianças tomam consciência de si mesmas por volta dos 2 anos de idade. Quando isso acontece, a criança, para crescer mentalmente saudável, precisa acreditar que pelo menos um dos pais a valoriza. Pode ser a mãe ou o pai, não necessariamente a mãe. Observe: eu usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança precisa se sentir valorizada. Na cultura escandinava, os pais não beijam nem abraçam os filhos, nem dizem "eu te amo". Mas estão sempre reforçando nos filhos a ideia de que eles são valorizados.

Beijar e abraçar o filho não faz diferença? Depende da interpretação e do contexto cultural da criança. Uma criança que cresce no Brasil talvez não acredite no amor de seus pais caso eles não a abracem e beijem. Mas não é a mesma coisa na Escandinávia. Há anos, tive um aluno, filho de mexicanos, criado na Califórnia. Não conhecia a Nova Inglaterra até se matricular em Harvard. Quando completou seu primeiro ano aqui, perguntei o que lhe havia chamado mais atenção. Ele riu e disse: "É estranho que os pais dos meus colegas venham visitá-los e não deem um abraço nem um beijo nos filhos". É cultural. Ele, filho de mexicanos, de origem latina, não entendia a indiferença física. As famílias da Nova Inglaterra não beijam nem abraçam seus filhos, mas os filhos sabem que os pais os valorizam.

O pediatra Berry Brazelton diz que a presença e o amor dos pais são fundamentais para criar crianças saudáveis e seguras. Ele está errado? Brazelton não está errado, mas os pediatras exageram o papel da afeição no primeiro ano de vida. Claro que os pais têm importância. Agora, é preciso entender que a criança que tem laços com seus pais está mais inclinada a fazer o que os pais querem que ela faça do que a criança que não tem os mesmos laços. É um contrato. A criança recebe carinho e afeição e, em troca, dá o que lhe pedem. Mas suponhamos que um pai carinhoso e amoroso queira que sua filha, em pleno século XXI, cresça como uma menina do século XIX, sem pensamentos de natureza sexual, calada e conformada. Isso será bom para a filha quando tiver 20 anos? Não. Portanto, se os pais usam os laços afetivos a serviço de bons valores, ótimo para a criança e seu futuro. No caso de valores inadequados, seria preferível que os laços não existissem. É disso que Brazelton não fala.

Não seria porque partimos do princípio de que os pais fazem o melhor para seus filhos?Mas essa é uma premissa errada. Os pais às vezes promovem valores errados. Em O Caçador de Pipas, Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que fosse um bravo, um valente, e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai. Então, o amor funciona quando os pais promovem valores que servem para a criança no futuro.

No início da vida da criança, o pai e a mãe são igualmente significativos? Se a cultura disser que são, então eles serão. Mas a nossa cultura não diz isso. Ela nos diz que a mãe tem de amar seu filho. Nas últimas linhas de Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse, Goldmundo está morrendo nos braços de Narciso e então diz: "Mas como poderás morrer, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe, não se pode amar. Sem mãe, não se pode morrer". Essa é a visão ocidental. É, de novo, uma questão cultural. Na Europa renascentista, o pai era considerado mais vital do que a mãe. Michel de Montaigne (escritor e ensaísta francês do século XVI) escreveu que o pai era a força mais relevante, pois a mãe era exageradamente emocional. O ideal, dizia Montaigne, era afastar logo a criança da mãe "e usar uma cabra para amamentá-la".

Todo casal hoje valoriza e registra em vídeo o momento em que o obstetra entrega o bebê nos braços da mãe assim que nasce... Bobagem. Isso parece bruxaria.

Mas a mãe amamentar o filho pele com pele também é dispensável? Isso não. Além de a amamentação ser recomendável, o contato do bebê com a pele da mãe traz benefícios para a saúde de ambos. Falamos da pele da mãe apenas porque o pai não amamenta. Se amamentasse, podia ser a pele do pai.

Carta ao Leitor

O desafio da inovação

Montagem sobre fotos AP e divulgação
Montagem com imagem
do filme Avatar exibida em um
iPad, a nova aposta da Apple,
de Jobs

Uma reportagem desta edição de VEJA mostra como a Apple, dirigida pelo carismático Steve Jobs, se tornou a mais fulgurante empresa da era digital. Jobs apresentou ao mundo sua nova aposta, o iPad, um aparelho maior que um telefone celular e menor que um computador portátil. É cedo para diagnosticar se o iPad vai repetir o sucesso de venda dos últimos lançamentos da Apple, o iPod (220 milhões) e o iPhone (50 milhões). Há pouca dúvida, porém, de que a máquina de inovar de Jobs terá produzido mais uma cápsula do que há de mais avançado em tecnologia digital no planeta e, assim, assegurado mais um período de sólidos resultados financeiros para sua empresa, com ou sem recessão econômica. Se não convenceu inteiramente os comentaristas tecnológicos, é unânime a previsão de que o iPad "fará dinheiro".

A expressão "fazer dinheiro", como sinônimo de criação de riqueza, nasceu com a transformação dos Estados Unidos em potência tecno-militar-industrial, como observou o economista ganhador do Prêmio Nobel Paul Samuelson, morto aos 94 anos, em dezembro passado. Antes disso, vigorava a noção mercantilista de que a riqueza apenas mudava de dono, sendo herdada ou tomada de alguém mais fraco ou menos hábil, pelo comércio, pela trapaça e pela guerra de conquista entre países. O que libertou as forças econômicas desse jogo de soma zero, em que o ganho de alguns não aumentava o bolo geral de riqueza, foi a inovação, aliada a sua irmã gêmea, a produtividade, ambas dependentes da ciência aplicada e da tecnologia.

Como relata outra reportagem de VEJA, tem-se em Avatar um exemplo de outra natureza de como a inovação produz riqueza. A obra é um prodígio de manipulação cênica de imagens digitais que se aproxima de arrecadar 2 bilhões de dólares, para se tornar o filme mais lucrativo de todos os tempos. O iPad e Avatar são apenas algumas das recompensas previsíveis de um modelo baseado na liberdade econômica, na capacidade de gerenciamento, liderança e comunicação corporativa, no uso intensivo de capital privado de risco e na estreita colaboração entre universidades e empresas. Seria extraordinário se o Brasil resolvesse adotar políticas públicas e posturas que estimulassem a inovação em todas as frente

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