Quadro: Um estranho vizinho

O surinamês Wilson Apensa sempre foi um encrenqueiro. Na véspera do Natal, arrumou três brigas em Albina, cidade que fica a 150 quilômetros da capital, Paramaribo. Acostumado à violência (colecionava passagens pela polícia por furto, assalto e lesão corporal), saiu-se vitorioso de todas as contendas. Por volta das 20 horas, Apensa iniciou o quarto tumulto. Aparentando estar drogado, entrou na churrasca-ria Espetinho, onde um grupo de garimpeiros brasileiros estava reunido. Aproximou-se de um deles, agarrou-o pela camisa e deu-lhe um soco no rosto. O agredido, identificado como Adil-son Oliveira, reagiu. Puxou uma faca que trazia na cintura e cravou-a no coração do surinamês. Em seguida, fugiu. A morte de Apen-sa, pertencente ao grupo étni-co dosmaroons (descendentes de escravos afri-canos), causou uma correria no vilarejo. Comerciantes fecharam seus estabelecimentos e os garimpeiros se refugiaram no hotel onde estavam hospedados. Todos sabiam do risco de retaliação por causa do comportamento tribal dos integrantes da etnia à qual Apensa pertencia. Conhecidos no país por seu primitivismo, os maroons costumam vingar a morte de membros do grupo com uma reação descomunal. Pelo menos 300 deles, armados com porretes, facões, machados e pedras, tomaram as ruas de Albina. Supermercados foram saqueados e o hotel onde estavam os brasileiros foi invadido. Os hóspedes foram espancados e as dependências, incendiadas. Um posto de combustíveis ficou em cinzas e seis automóveis e um caminhão foram consumidos pelas chamas. Mais de uma centena de brasileiros foi atacada. Alguns apanharam de porrete, muitos foram apedrejados. Os maroons não pouparam nem as mulheres. Uma delas, grávida, perdeu o bebê depois de ter a barriga perfurada por um facão. Outras dezenove afirmam ter sido estupradas pela turba enfurecida. Dois casos foram confirmados pela polícia local. Os demais estão sob investigação. Os maroons formam o terceiro grupo étnico mais numeroso daquele país - só perdem para os imigrantes indianos e javaneses. Eles descendem de escravos negros que nos séculos XVII e XVIII fugiram de fazendas na região litorânea e se refugiaram nas florestas do interior. Ali retomaram aspectos da cultura africana e passaram a viver como seminômades e coletores. Como o interior não era habitado, tornaram-se senhores das florestas. Hoje, os maroons controlam 80% do território do país. Por terem se organizado à margem do estado surinamês, recusam-se a obedecer às leis nacionais. Alimentam a ideia de que são donos da terra desbravada por seus ancestrais e usam a força bruta para rechaçar aqueles que julgam invasores. "Essa gente vive como há 200 anos", diz o delegado brasileiro José Roberto da Hora, adido da Polícia Federal na embaixada brasileira em Paramaribo. Nas estradas sob seu domínio, eles cobram pedágio de 50 dólares por carro que passa. Os principais alvos são os garimpeiros brasileiros. O comportamento bizarro dos maroons faz parte do quadro de completo desgoverno que assola o Suriname. O país foi o último do continente a se tornar independente, há apenas 34 anos, e, ainda assim, a contragosto. Os surinameses não queriam romper os laços com a antiga metrópole, a Holanda. Para convecê-los da própria independência, o país ofereceu um acordo comercial vantajoso. Eles pediram, e levaram, livre acesso ao porto de Roterdã, o maior da Europa. As mercadorias que saem do Suriname, ou as que são enviadas para lá, não podem ser vistoriadas pelas autoridades holandesas. Com isso, o país tornou-se um paraíso do crime organizado. Contrabandistas e narcotraficantes utilizam a conexão Paramaribo-Roterdã em escala industrial, como VEJA mostrou em janeiro de 2007 na reportagem "O Paraguai do norte". Para completar o quadro, 10% do território surinamês, o Triângulo New River, está sob litígio internacional (é reivindicado pela Guiana). Um acordo foi feito entre os dois países e nenhum deles pode policiar a zona. É uma terra entregue à própria sorte. Segundo a Polícia Federal brasileira, a área está infestada de gângsteres russos e chineses. Além disso, guerrilheiros colombianos das Farc vão até lá para trocar cocaína por munição vinda da Líbia. Esse triângulo barra-pesada faz fronteira com o Brasil, mas felizmente é isolado por uma cadeia de montanhas conhecida como Serra do Tumucumaque. Comparadas ao Suriname, enfim, as favelas cariocas são seguras como Zurique. A PF instalou postos nas vias de acesso à aldeia dos cintas-largas, para evitar a pilhagem dos recursos naturais e conter a violência. Mas basta um sobrevoo pela região, coisa que os policiais federais fazem rotineiramente, para constatar que a operação (que já custou 28,4 milhões de reais) não impediu a entrada na reserva de máquinas pesadas como caminhões, tratores e retroescavadeiras. É impossível não avistar as barracas de lona que servem de acampamento aos garimpeiros e o funcionamento das dragas que cospem lama sobre os rios. Como todos os caminhos estão interditados por barreiras policiais, é estranho que o transporte de maquinário pesado tenha passado despercebido aos agentes federais. Os índios afirmam que subornaram policiais para que eles permitissem a passagem das dragas - e que cobram pedágio dos garimpeiros que extraem diamantes. O ritmo do avanço do garimpo sob as barbas das autoridades pode ser medido por meio de imagens de satélites. Entre 2007 e 2009, foram abertas treze clareiras nas terras dos cintas-largas. O estrago chega a 33 quilômetros quadrados - uma área equivalente a 4 000 campos de futebol. No mês passado, o procurador da República Reginaldo Trindade, amigo dos índios, enviou um ofício ao ministro da Justiça, Tarso Genro, em que reconhece a existência do garimpo de diamantes na reserva. Apesar de admitir que os índios e os garimpeiros violam a lei, ele sugere que o governo, em lugar de punir os responsáveis, recompense os índios com 7 milhões de reais por ano para que eles aceitem fechar o garimpo. Mas os índios nem pensam em desistir dos diamantes. Os cintas-largas sabem que dormem em cima de uma das maiores jazidas do planeta. Mineradoras acreditam que, na região, haja pelo menos vinte kimberlitos - as formações rochosas de onde se extraem os diamantes - com potencial de produção de 30 bilhões de dólares em gemas por ano. Esse dinheiro, que, repita-se, é da União, não dos índios, nem dos garimpeiros, seria suficiente para quadruplicar o produto interno bruto de Rondônia. Mas, para alcançar esse potencial produtivo, a exploração teria de ser legalizada e realizada por meio de técnicas modernas, como ocorre no Canadá desde a década passada. Lá, também há diamantes em terras indígenas. No entanto, em vez de fechar os olhos para a existência de tal riqueza, o governo organizou sua exploração e paga uma compensação aos nativos. No Brasil, os cintas-largas poderiam deixar a miséria com o recebimento de royalties, e a devastação seria controlada. O problema é que estamos mais para Suriname do que para Canadá.Terror no Suriname
Para vingarem um assassinato cometido por um
brasileiro, os assustadores maroons promoveram
uma onda de saques, estupros e espancamentos![]()
Leonardo CoutinhoHugo Den Boer/Reuters 
RASTRO DE DESTRUIÇÃO
À esquerda, hotel queimado pelos maroons em Albina. Acima, o desembarque no Brasil de um grupo de garimpeiros que sobreviveram à noite de violência no Suriname• Quadro: Um estranho vizinho Antonio Milena 
COMÉRCIO DE OURO:
o sonho de riqueza que atraiu 18 000 brasileiros ao Suriname
A maranhense E., de 34 anos, estava nesse grupo. Ela relatou a VEJA o terror que viveu: "São uns animais. Deram tapas no meu rosto, arrancaram minha roupa, me beijaram à força e morderam meus seios". Ela estava no hotel invadido pelos maroons. Ao ouvir a gritaria do lado fora, E. trancou-se em seu quarto, mas, quando percebeu que haviam ateado fogo ao prédio, passou a gritar por ajuda. Os maroons a ouviram e arrombaram a porta. Ela foi violada e atirada nua para fora do prédio. A selvageria se estendeu pela madrugada e deixou um saldo oficial de 25 feridos graves - um deles ainda corre o risco de ter o braço amputado. "Só não morri porque me joguei no rio no meio da noite e nadei até sair da cidade", conta o paraense Reginaldo Serra, um garimpeiro de 30 anos. Hoje, há 18 000 brasileiros vivendo no Suriname. São, basicamente, prostitutas e garimpeiros que tentam a sorte em lavras de ouro mais produtivas que as existentes do lado de cá da fronteira. Depois da selvageria em Albina, a FAB mobilizou-se para retirar os brasileiros que querem sair do Suriname.O lado Suriname do Brasil
Fotos reprodução e Dida Sampaio/AE 
CRIMES NO GARIMPO
A exploração ilegal de diamantes segue ativa em Rondônia, apesar da proibição. Em 2004, os cintas-largas mataram 29 garimpeiros
Engana-se quem pensa que a atividade do garimpo é parte do passado em nosso país. Assim como há milhares de brasileiros vivendo no Suriname atrás do sonho de encontrar ouro, outros tantos continuam buscando pedras preciosas na Amazônia. Na maioria das vezes, eles provocam grandes desastres ambientais para tentar encontrar as gemas. O exemplo mais impressionante vem do garimpo de diamantes da reserva indígena Roosevelt, em Rondônia. Oficialmente, o garimpo está fechado desde 2004, mas a foto acima, feita há duas semanas, mostra que a extração de pedras segue a pleno vapor. A terra pertence aos índios cintas-largas. Em 2004, eles assassinaram 29 garimpeiros que trabalhavam no local. A matança obrigou o governo brasileiro a atuar sobre uma questão que vinha sendo ignorada: apesar de terem o usufruto das terras, os índios não são donos das riquezas do subsolo, que pertencem à União. Essa regra vale para qualquer cidadão brasileiro. Como a jazida não podia ser explorada pelos indígenas, o governo decidiu fechar o garimpo e destacou a Polícia Federal para garantir que a determinação fosse cumprida.
A paranaense Foz do Iguaçu abriga Itaipu, a maior hidrelétrica do país, e é o principal corredor de contrabando vindo do Paraguai. Desde novembro, tem também o maior estacionamento do Brasil. Ele se estende por 150 000 metros quadrados, um espaço equivalente ao dos cinco pátios que a Fiat mantém em sua fábrica em Minas Gerais. Enquanto a garagem mineira aloja a produção da líder do mercado nacional de automóveis, a do Paraná guarda bens encontrados nas mãos de criminosos. A área é mantida pela Receita Federal. Desde 2003, a apreensão de veículos usados no transporte de muamba cresceu 1 900%. No início, a repartição acomodava os ônibus usados por sacoleiros, contrabandistas de cigarros e bebidas e traficantes de drogas e armas em um terreno de 3 000 metros quadrados. Mas não demorou para que os bandidos passassem a camuflar suas mercadorias principalmente em carros de passeio. Hoje, 70% dos veículos retidos estão nessa categoria. "De quatro anos para cá, eles se tornaram o meio de transporte preferido dos criminosos da fronteira", diz Gilberto Tragancin, delegado da Receita em Foz do Iguaçu. Resultado: o estacionamento da muamba teve de ser aumentado. Em 2006, o terreno já não era mais suficiente para acolher as apreensões. A Receita decidiu, então, pavimentar uma área de 110 000 metros quadrados para os carros recolhidos. A capacidade também se esgotou dois anos depois. Enquanto fazia as obras de ampliação para as dimensões atuais, o Fisco acelerou as vendas de carros em leilões e as doações a órgãos públicos e instituições de caridade. Mesmo assim, o estacionamento não mantém espaço ocioso. O volume de contrabando é tal que suas 6 500 vagas já estão lotadas com uma frota avaliada em mais de 100 milhões de reais. A Receita desistiu de executar novas expansões. A orientação, agora, é apenas tentar manter o estoque. Quando um carro novo entra, outro sai, seja por venda, seja por doação. E isso ocorre quinze vezes por dia. No pátio da Receita, estão parados desde Fuscas de quarenta anos de idade até Mercedes, BMWs e Audis. A maioria dos veículos velhos foi retida antes de 2006. A partir daquele ano, como os bandidos perceberam que os carros velhos eram mais visados pelos fiscais, passaram a usar carros caros e novos. Para obtê-los, enquadram-se em outro artigo do Código Penal: estelionato. Nesse caso, suas vítimas são as concessionárias das cidades fronteiriças, que vendem os veículos em prestações a laranjas. Eles pagam a primeira parcela e dão o calote no resto. A empresa fica com o prejuízo mesmo quando os carros são apreendidos, porque a lei determina que eles sejam incorporados ao patrimônio da União. Em Foz do Iguaçu, o apagão é da legalidade.Ele tem 150 000 metros quadrados
A Receita Federal mantém em Foz do Iguaçu um pátio para alojar carros apreendidos de contrabandistas que é maior do que o de montadoras
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Igor PaulinDivulgação 
Não há vagas na garagem que o Fisco usa para guardar suas apreensões – e ela foi ampliada há apenas um mês
Usar sujeitos desajustados, que encontram uma razão de viver – e morrer – no radicalismo islâmico, não é novidade. Espantosa foi a facilidade com que o jovem Mutallab conseguiu agir. Ele comprou passagem somente de ida, em dinheiro vivo, e embarcou sem bagagem. Depois de ver o rapaz ser cooptado pela rede terrorista, o próprio pai dele, ex-presidente de banco, havia avisado à embaixada americana que o filho estava em contato com extremistas no Iêmen. O pai chegou a falar com um agente da CIA, que preparou um relatório de destino desconhecido. Só faltou um cartaz dizendo: "Sou terrorista". Mutallab viajou com 80 gramas de um explosivo conhecido como PETN, sigla em inglês de tetranitrato de pentaeritritol. Só um escaneador de imagens que mostra todas as intimidades corporais ou um detector específico de resíduos químicos conseguiria indicar a presença do pó. A quantidade era suficiente para abrir um rombo no avião e, assim, possivelmente derrubá-lo. Contaram contra os planos tétricos o treinamento tosco de Mutallab, a rápida reação dos passageiros e a dificuldade de manipular tecnicamente o PETN. "Um alto-explosivo como o utilizado pelo nigeriano pode cair no chão, pegar fogo e ainda assim não explodir", diz o físico Germano Tremiliosi Filho, da Universidade de São Paulo, em São Carlos. Mutallab preparou o artefato durante cerca de meia hora no banheiro do avião. Saiu com um travesseiro à frente da barriga, sentou-se com a calça aberta e inseriu a seringa com ácido no pacote de explosivo escondido na cueca, bem na altura dos genitais. Em tese, a reação elevaria a temperatura e detonaria a bomba, mas apenas provocou o começo de incêndio. Por causa da sequência seguida pelo terrorista frustrado, foram tomadas as medidas de segurança que parecem absurdas, como proibir o uso de mantas e travesseiros uma hora antes do pouso (e até então, são inofensivos?). Algumas continuarão em vigor e outras serão revogadas, mas o caso da bomba na cueca já deixou suas marcas: a comprovação de que existem espantosas falhas de segurança, mais amolação e mais tensão para os viajantes, e uma suspeita terrível, a de que o próximo maluco pode acertar.A bomba na cueca
Atentado de jovem nigeriano falhou, mas tumultuou – e tumultuará – a vida
de muita gente![]()
Duda TeixeiraFotos Frank Gunn/AP e AP 

INTERIOR EXPLOSIVO
Mutallab: rico, desajustado e disposto a levar material terrorista sobre os genitais
Olhe para a foto à esquerda e lembre-se bem, principalmente se for viajar para os Estados Unidos. O rapaz de olhar sério, filho de família rica e formado em engenharia, que poderia ter um futuro brilhante pela frente, transformou o presente de um bocado de gente num inferno. Algumas medidas implantadas depois do atentado a bomba que por pouco não explodiu um avião da Northwest Airlines incluíram revistas manuais em todos os passageiros. Conforme a empresa aérea, só era possível embarcar com uma única bagagem de mão, obrigatoriamente colocada no compartimento superior e inacessível durante o voo. Objetos indispensáveis, somente no saquinho plástico, famoso desde a tentativa de atentado similar anterior. Uma hora antes da aterrissagem, os passageiros ficaram proibidos de reclinar a poltrona, ir ao banheiro, usar mantas ou travesseiros. Até livros e jornais foram momentaneamente banidos e as coordenadas das aeronaves sumiram das telinhas à frente dos assentos. Tudo por causa da bomba escondida na cueca de Umar Farouk Abdul Mutallab, um nigeriano de 23 anos que morou num apartamento chique em Londres, onde estudou engenharia mecânica, mas resolveu se imolar em nome da versão mais radicalizada da ideologia islâmica. Queria levar com ele as outras 289 pessoas a bordo do voo 253, que havia partido de Amsterdã e se aproximava de Detroit. Em vez de detonar, o explosivo pegou fogo e provocou labaredas até o teto do avião. Um passageiro avançou sobre Mutallab e arrancou o que depois se revelaria uma bomba; outros ajudaram a apagar o fogo. Ele desembarcou dominado, chamuscado e falante. Contou que passou um mês sendo treinado para o pior no Iêmen, país que é uma faixa desértica ao sul da Arábia Saudita, em estado de semianarquia, para onde afluem atualmente novas ondas de candidatos a terrorista da linha Al Qaeda. "Existem muitos outros como eu lá", disse à polícia.AFP 
TRANSTORNO
Filas no aeroporto de Toronto: segurança redobrada
O conjunto amealhado por Setubal abrange o período que vai do século XVI até o século passado, e foi adquirido de forma mais intuitiva do que sistemática. Somente nos últimos anos de vida ele se deu conta de que havia montado uma coleção com tal fôlego. Há pouco mais de cinco anos, o banqueiro pediu a orientação de seu ex-genro, o colecionador Ruy Souza e Silva, e de Pedro Corrêa do Lago, que é o organizador do catálogo, para suprir as lacunas que, preenchidas, permitiriam dar o título de brasiliana ao conjunto. Com esse objetivo ele adquiriu, por exemplo, seu primeiro quadro a óleo de Rugendas, datado de 1850, que veio se somar a uma coleção que já contava com quadros dos principais artistas viajantes que passaram pelo país, de Frans Post e Albert Eckhout, no século XVII, até Debret, no século XIX. Algumas obras de arte do acervo são extremamente valiosas. Uma delas é a primeira panorâmica da cidade de São Paulo, pintada num quadro a óleo de 1821. A tela, do pintor francês Arnaud Julien Pallière, foi encomendada pelo príncipe regente dom Pedro I e mostra a então pequena cidade à beira do Rio Tamanduateí, por onde se veem as igrejas da Sé, do Carmo e de Santa Teresa. Comprada em 2001 por 850 000 dólares, tem valor estimado atualmente em 6 milhões de dólares. Mas não é o valor individual das peças o que se destaca na coleção, e sim a sua impressionante abrangência. Isso fica patente no conjunto de 1 500 livros, quase todos ricamente ilustrados, que entre os séculos XVI e XIX mostraram para o público europeu diferentes Brasis – inicialmente, uma terra selvagem de canibais, mais tarde um local que chamava atenção pela variedade das espécies de fauna e flora e finalmente um país que começava a se urbanizar, onde portugueses e escravos compunham uma sociedade exótica. Sua apreciação em conjunto é um dos pontos altos da coleção, que permite um passeio no tempo. Ainda no segmento de livros, a brasiliana avança até o século XX, com as primeiras edições dos principais escritores da literatura brasileira, muitas delas autografadas, outras ilustradas por artistas como Portinari e Di Cavalcanti. Há ainda manuscritos, incluindo uma extensa coleção de cartas e documentos assinados por figuras ilustres, a começar por dom Manuel, o Venturoso, num decreto autografado de 1498, passando por Maurício de Nassau, dona Maria I, a Louca, um raríssimo documento assinado por Tiradentes, até cartas mais recentes de artistas como Machado de Assis, Villa-Lobos e João Cabral de Melo Neto. E, finalmente, um conjunto cartográfico cujo primeiro mapa data de 1522, e só faz referência ao Brasil por uma menção ao canibalismo praticado na região. Parte da brasiliana de Olavo Setubal foi formada com a aquisição de outras coleções, o que ajudou o banqueiro a reunir uma variedade tão grande de peças em tão pouco tempo. Por exemplo, um conjunto com 250 documentos relativos à escravidão, incluindo certidões de nascimento, aluguel, venda e seguro de escravos, foi adquirido de um médico que percorria fazendas antigas no interior de Minas Gerais atrás desse tipo de registro. O banqueiro era famoso por tomar decisões rápidas e não regatear no preço. "Doutor Olavo tinha três critérios de aquisição. Precisava gostar da obra, achar seu valor justo e ter onde colocá-la", diz Ruy Souza e Silva. O legado que deixou evidencia que dinheiro e interesse cultural podem ser, de fato, uma mistura poderosa.O Brasil do banqueiro
Olavo Setubal, do Itaú, reuniu um dos mais preciosos acervos
de documentos sobre a história do país. A coleção é prova de
que dinheiro e interesse cultural podem compor uma mistura poderosa![]()
Marcelo BortolotiFotos Divulgação 

VISÕES ORIGINAIS
O primeiro panorama de São Paulo, pelo francês Pallière (acima), e a Baía de Guanabara retratada pelo príncipe Adalberto da Prússia: a arte dos viajantes
Nos últimos anos de vida, o banqueiro Olavo Setubal, morto em 2008, passava boa parte do tempo numa biblioteca próxima ao seu escritório, na sede do banco Itaú, em São Paulo. Era um espaço reservado a poucas pessoas, escolhidas a dedo por Setubal para desfrutar com ele uma impressionante coleção de livros, obras de arte e documentos raros. Esse precioso conjunto, de 5 000 peças, foi reunido num período extremamente curto – dez anos – e tornou-se uma das mais importantes brasilianas (ou seja, um acervo abrangente de imagens e documentos sobre a história brasileira) do país. Embora ao longo da vida Setubal tenha adquirido inúmeras obras de arte que hoje compõem o acervo do Itaú, essa coleção mostra o momento em que seu interesse se expandiu para livros, manuscritos e objetos de importância mais histórica que artística, como mapas e registros da administração pública. A partir deste ano, o acervo estará disponível ao público. Em março, será exposto na Pinacoteca de São Paulo. Depois disso, passará a ocupar um andar inteiro no instituto Itaú Cultural e estará acessível também pela internet. O primeiro movimento para tornar público o acervo foi o lançamento de um catálogo completo, publicado pela editora Capivara.
RARIDADES
Aquarela do naturalista alemão Von Martius, com paisagem amazônica (à dir.), e ilustração de Di Cavalcanti: facetas menos conhecidas do trabalho de ambos
Concentração Há um século já se sabe da existência dos povos da Europa antiga, mas apenas na década de 70 foram estudados os sítios arqueológicos que permitiram reconstituir sua história. As descobertas dos artefatos, no entanto, permaneceram ocultas pela Cortina de Ferro comunista até o início da década de 90. Mesmo após a queda do Muro de Berlim, os arqueólogos dos grandes centros mundiais de pesquisa tiveram dificuldade em investigar o assunto porque os estudos só haviam sido publicados em romeno, búlgaro e moldávio. "São línguas que poucas pessoas falam na Europa Ocidental. Esperamos que a exposição faça com que mais cientistas se interessem por esses povos e realizem pesquisas sobre eles", disse a VEJA a arqueóloga americana Jennifer Chi, curadora da mostra. Ainda há muito a descobrir a respeito dos povos da Europa antiga. Sabe-se que migraram de regiões onde hoje estão a Grécia e a Macedônia e que cultivavam trigo e cevada, além de criar gado bovino e ovelhas. Os grupos eram independentes e, provavelmente, falavam várias línguas. Mas mantinham um comércio ativo uns com os outros. Peças feitas de um tipo de conchaSpondylus, que existe apenas no Mar Egeu, foram encontradas na Polônia e são o registro arqueológico mais antigo de comércio a longa distância. Acredita-se que, na época, pulseiras e colares feitos com essas conchas fossem tão valiosos quanto os confeccionados com ouro e simbolizassem alto status social. A peça que mais causa sensação nos visitantes é a estatueta batizada de O Pensador, pela semelhança com a escultura homônima do francês Auguste Rodin (1840-1917). Entre os povos da Europa antiga, imagens masculinas eram raridade. Já as representações de mulheres são comuns. Os corpos estilizados eram vistos como símbolos femininos divinos que trariam fertilidade para os homens e para as terras. Como uma sociedade tão evoluída desapareceu do mapa permanece um mistério. Os historiadores apostam numa invasão de suas terras por guerreiros nômades vindos do norte e também em mudanças no clima da região que teriam inviabilizado a agricultura. Os estudos sobre as mais antigas civilizações da Europa, concordam os cientistas, estão apenas no início. A descoberta dos primeiros europeus
Há 7 000 anos, muito antes que gregos e romanos erguessem suas civilizações, povos que ocuparam o vale do Rio Danúbio alcançaram um notável desenvolvimento na organização social, na agricultura e no comércio
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Laura MingFotos Marius Amarie 
Estatueta batizada de O Pensador, pela semelhança com a de Rodin: uma das raras representações masculinas da cultura hamangia
Uma série de explorações arqueo-lógicas feitas no vale do Rio Danúbio, território hoje dividido entre a Romênia, a Bulgária e a Moldávia, trouxe à tona novidades surpreendentes sobre os povos da Antiguidade. Entre 5500 a.C. e 3500 a.C., aquele pedaço da Europa foi ocupado por populações com um estágio de desenvolvimento notável para o seu tempo. Elas eram organizadas socialmente, praticavam a agricultura e viviam em cidades que chegaram a ter 2 000 moradias, incluindo prédios de dois andares. Sabiam fundir e moldar o cobre – um grande avanço tecnológico para a época – e o ouro e mantinham relações comerciais entre si. Tudo isso milênios antes que os gregos e os romanos erigissem suas civilizações ou até mesmo que os egípcios construíssem suas pirâmides. Como não dominavam a escrita, não deixaram registros que nos informem como chamavam a si próprios. Os historiadores se referem a eles como os povos da Europa antiga e, para identificá-los, usam o nome atual das regiões que habitaram, como Hamangia, Cucuteni e Varna. Uma coleção de 250 objetos e obras de arte dos povos da Europa antiga pode ser vista até o fim de abril no Instituto para Estudos do Mundo Antigo da Universidade Nova York. Pela primeira vez, a maioria das peças deixa os museus dos países nos quais foram encontradas.
Legado artístico
Escultura que reproduz prédio de dois andares (à esq.), vaso e figura feminina: os estudos sobre os povos da Europa antiga estão apenas no início