Wednesday, October 17, 2012

Começou um grande cinquentenário - ELIO GASPARI


O GLOBO - 17/10


Aquele ano glorioso para os Estados Unidos durou 401 dias e se acabou às 12h30 de 22 de novembro de 1963



COMEÇOU ONTEM o cinquentenário de um grande ano de 401 dias. Ele durou da manhã de 16 de outubro de 1962, quando o presidente John Kennedy foi informado de que havia mísseis soviéticos em Cuba, até as 12h30 de 22 de novembro de 1963, quando Lee Oswald apertou o gatilho em Dallas. Período igual a esse só se repetirá em 2039, nos cinquent"anos dos levantes do Leste Europeu.

Na encrenca dos mísseis, produziu-se a crise internacional mais bem documentada da história. Em Dallas, o assassinato mais estudado de todos os tempos. No meio, o mundo esteve a um passo da Terceira Guerra e Martin Luther King contou a uma multidão que tivera um sonho.

Kennedy gravou reuniões e telefonemas na Casa Branca e, com o tempo, recolheram-se preciosos depoimentos de soviéticos. (Os colaboradores do presidente foram instruídos a tirar suas famílias de Washington. Os russos também.)

Nesses 13 dias, Kennedy fechou o momento estelar de sua Presidência. Ele chegou a brincar com Bob: "Agora posso ir ao teatro". (Era uma agourenta referência a Abraham Lincoln, que tomou um tiro na cabeça enquanto assistia a uma comédia.)

Há poucos dias, Leslie Gelb, ex-presidente do Council of Foreign Relations, sustentou que, se Washington tivesse contado ao mundo que, secretamente, aceitara tirar os foguetes americanos da Turquia, os Estados Unidos sairiam da crise sem a auréola que estimularia o estilo Rambo de política externa.

(Em setembro de 1963, o Departamento de Estado produziu uma diretriz para o Brasil, recomendando que, se houvesse um movimento para depor o presidente João Goulart, o novo regime deveria ser reconhecido rapidamente. Dito e feito.)

Kennedy tinha alguma simpatia por Martin Luther King, mas não fez muita fé quando ele lhe disse que planejava uma manifestação aos pés do memorial de Lincoln. Temia que a choldra urinasse no obelisco de Washington. Usou o encontro com King para ameaçá-lo, insinuando que a vida sexual do reverendo estava vigiada. O reverendo fez que não ouviu, e Bob Kennedy acautelou-se, mandando instalar sanitários móveis na Esplanada da capital.

Nessa altura, Lee Harvey Oswald, um ex-fuzileiro naval de 23 anos, já comprara um rifle de mira telescópica. Tudo na sua vida dera errado. Decidira matar alguém, tentara assassinar um general direitista e errou o tiro. Às 12h30 de 22 de novembro, pela primeira vez, acertou.


Serviço:

Quem quiser saber tudo e mais alguma coisa sobre o discurso de agosto, está na rede "King"s Dream" (O Sonho de King). Custa US$ 9,99 e conta que ele tinha um texto escrito, mas achou que não animara a plateia. O fecho foi um improviso da alma.

Acaba de sair nos Estados Unidos "The Fourteenth Day" ("O 14º Dia: Kennedy e o Desfecho da Crise dos Mísseis em Cuba"), do historiador David Coleman. Está na rede por US$ 12,99. É médio.

Saiu também "Killing Kennedy" ("Matando Kennedy - O Fim de Camelot"), dos jornalistas Bill O"Reilly e Martin Dugard. É uma boa narrativa dos passos do presidente e de Oswald. Tem a virtude de tangenciar as teorias da conspiração.

Stephen King publicou "11/22/63" ("22 de Novembro de 1963"), um romance com a história de um sujeito que viaja ao passado e chega ao depósito de livros de Dallas às 12h26. Sua conclusão é fascinante. Sai por US$ 9,99.

A nova aposentadoria do funcionalismo - CRISTIANO ROMERO



VALOR ECONÔMICO - 17/10

Com a criação da Fundação de Previdência dos Servidores Públicos (Funpresp), para receber benefício equivalente ao do regime anterior, o funcionário público terá que trabalhar por mais tempo e contribuir com alíquota maior que a prevista no sistema de paridade. Por esse sistema, a União contribuirá para a Funpresp, até o limite de 8,5% do vencimento do servidor, com valor idêntico ao da contribuição dos segurados.

Esta é uma das conclusões de um minucioso e inédito estudo feito pelos economistas Marcelo Abi-Ramia Caetano, Felipe Amaral e Fábio Giambiagi, três especialistas em assuntos previdenciários. O trabalho é um subsídio para a definição das normas que vão regular a Funpresp, bem como para orientação dos futuros participantes do fundo.

A criação do fundo é, sem dúvida, a maior contribuição institucional que o governo Dilma Rousseff deu ao país até agora. A partir dela, a aposentadoria integral deixou de existir no Brasil, embora permaneça em vigor para os funcionários contratados antes da instituição da Funpresp. O fundo regulamenta a reforma previdenciária aprovada em 2003 pelo Congresso.

Se contribuição não superar paridade, benefício será menor

Infelizmente, o estatuto e o regulamento do fundo ainda não foram definidos - a lei que cria a Funpresp foi aprovada em abril e o decreto (7.808) da presidente Dilma que o instituiu é de setembro. Para que o fundo comece a funcionar, é necessário ainda fixar algumas regras.

Pelas normas que passaram a vigora a partir de 2003, o funcionário se aposentava com direito a um benefício definido, equivalente à média dos 80% maiores salários de sua carreira, limitado ao último vencimento. Para ter direito ao benefício, o servidor era obrigado a contribuir com 11% do salário bruto. Nesse sistema, a União era obrigada a recolher o dobro da contribuição do funcionário - 22% - e, na hipótese de haver insuficiência de caixa para pagar o benefício prometido, cobri-lo com recursos do Tesouro.

No novo regime, o funcionário terá direito, como o trabalhador do setor privado, à aposentadoria do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), limitada ao teto, que hoje está em R$ 3.916,20. Com a Funpresp, o governo complementará a aposentadoria dos servidores por meio de um sistema de contribuição definida. Isto significa que, em tese, assegurado o pagamento até o teto do INSS, o risco referente ao valor complementar recairá inteiramente sobre o servidor.

É por essa razão que as decisões futuras sobre participação na Funpresp serão cruciais. No regime de contribuição definida, o valor do benefício previdenciário reflete uma série de variáveis. Algumas delas, como o tempo de contribuição, a alíquota incidente sobre a renda e a composição da carteira dos ativos, são discricionárias, portanto, dependem do participante. Outras, como a taxa de retorno do patrimônio, estão fora do seu poder de decisão. Dependerão de como se comportará a economia brasileira nas próximas décadas.

Utilizando modelo econométrico, Caetano, Amaral e Giambiagi traçaram cenários para estimar o benefício futuro de participantes da Funpresp. No cenário básico, o funcionário ingressa no serviço público aos 25 anos, com vencimento inicial de R$ 8 mil, crescimento salarial de 2% ao ano, contribuição de 8,5% para a Funpresp e aposentadoria aos 60 anos. As premissas são de que a taxa real anual de remuneração dos ativos será de 5% ao ano, equivalente a uma carteira composta de 70% de ativos livres de risco, com rentabilidade de 4% ao ano, e 30% de ativos de renda variável, com retorno médio de 7,3% ao ano e desvio-padrão de 25% ao ano.

As premissas não foram tiradas do vácuo. Elas refletem o desempenho da economia brasileira nas últimas décadas, já levando em conta a queda recente da taxa de juros (Selic).

Os números mostram que, nesse cenário, o funcionário receberia aposentadoria líquida mensal (descontado o Imposto de Renda) de R$ 8.233,75. O valor é 11% inferior ao que ele perceberia se estivesse em vigor o regime anterior (R$ 9.254,38). Os autores do estudo advertem que esse resultado deve ser olhado com precaução. A principal razão é que a manutenção da regra anterior, que praticamente assegurava a aposentadoria integral, seria pouco provável nos próximos anos, dado o impacto negativo que ela provoca nas contas públicas.

Caetano, Amaral e Giambiagi traçaram cenários alternativos. Num deles, o salário inicial do participante é R$ 13 mil. Noutro, o servidor decide pagar alíquota de 11%, em vez de 8,5%, sobre a parcela do salário que exceder o teto do INSS. Outra premissa alternativa é o servidor se aposentar aos 65 anos. Numa última alternativa, aplicar-se-iam 50% dos recursos, e não 30%, em ativos de risco (ações).

Considerando essas premissas, o valor da aposentaria pela Funpresp melhora substancialmente, praticamente igualando-se em alguns casos e superando em outros, sempre quando comparado à regra anterior. Para quem entra no regime com salário de R$ 13 mil, o benefício ficaria um pouco abaixo - R$ 13.792,93, face a R$ 14.214,10. Para quem aumentasse a contribuição para 11%, a aposentadoria seria equivalente: de R$ 9.083,25, diante de R$ 9.254,38. Os que se aposentassem mais tarde receberiam benefício mais alto: R$ 10.611,36, face a R$ 9.882,41. O mesmo ocorreria para os que decidissem adotar um portfólio de investimento mais arriscado - R$ 9.515,45, versus R$ 9.254,38.

O estudo chama a atenção para o caso das mulheres, que mesmo na Funpresp terão direito a condições especiais de aposentadoria, uma falha da lei que criou o fundo. Na simulação feita pelos estudiosos, uma funcionária que se aposentar aos 55 anos terá perda de 21% no valor do benefício, se comparado ao que teria direito na regra antiga (R$ 8.737,63).

Na Funpresp, a conta dos casos especiais será paga por todos os participantes. "Pode-se argumentar que a nova previdência é pior para as mulheres comparativamente à situação pretérita. De modo alternativo, mostra que também é verdadeira a constatação da insuficiência da contribuição feminina no regime anterior para fazer jus ao seu benefício. A conta da baixa idade de aposentadoria - antes paga pelos homens, pelas mulheres das gerações futuras ou pelos que não faziam parte do regime próprio da União - recai agora sobre o próprio participante", diz o estudo.

Os inimigos da mídia - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 17/10


Naquelas partes do mundo com as quais a América Latina aspira a se equiparar, a imprensa e os meios de comunicação em geral vivem tempos atribulados. Os modos convencionais de produzir e difundir informações enfrentam, com diferentes resultados, o desafio sem precedentes da revolução tecnológica que criou a internet. A partir daí, como é impossível ignorar, surgiu o fenômeno mundial da blogosfera e das redes sociais, onde o incessante fluxo de notícias - ou o que passa por sê-lo - transformou drasticamente as relações entre a mídia (que, na forma clássica, coleta, organiza, expõe e discute os fatos presumivelmente relevantes para a maioria) e o público (que os consumia com escassa ou nenhuma intervenção no processo). Posto em xeque esse padrão, também o modelo tradicional de negócios do setor busca atalhos para se adaptar à mudança, sob os efeitos agravantes da crise das economias desenvolvidas.

Essa espinhosa realidade já contém problemas suficientes para determinar a agenda de qualquer evento que reúna executivos de empresas de comunicação, jornalistas em postos de comando nas redações, analistas e pesquisadores. Mas nesta parte do mundo, a pauta da imprensa inclui forçosamente a questão política das ameaças à sua liberdade. Eis por que, além dos debates sobre o futuro do jornalismo, como os que se travam em toda parte, a 68.ª Assembleia-Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), encerrada ontem em São Paulo depois de cinco dias de atividades, concentrou-se em boa medida no que o ex-presidente Fernando Henrique, falando na segunda-feira, chamou "um ressurgimento do pensamento contrário à democracia", que se traduz em crescentes pressões contra a imprensa na região. "Governos democraticamente eleitos", apontou por sua vez o presidente da entidade, Milton Coleman, do Washington Post, "estão tratando de promulgar leis que solapam a liberdade de expressão."

O quadro latino-americano se tornou mais sombrio, portanto. Extintas as ditaduras nascidas de golpes militares - e com a evidente exceção da tirania castrista em Cuba -, líderes que chegaram ao poder pelas urnas adotam políticas deliberadas de cercear o jornalismo independente, enquanto cumulam de benefícios a mídia chapa-branca ou pura e simplesmente estatal. Na Argentina, Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela, a pretexto de democratizar o acesso à informação, busca-se institucionalizar o garrote ao redor das organizações noticiosas, a par de outras formas de intimidação, como é o caso da verdadeira guerra de extermínio que a presidente Cristina Kirchner move ao grupo empresarial que edita o Clarín, desde que o mais importante diário argentino cometeu o pecado mortal de opor-se à Casa Rosada no seu confronto com os ruralistas em 2008. É a aplicação do princípio chavista segundo o qual ou o órgão de comunicação se alinha automaticamente com o governo ou é inimigo a ser tratado como tal.

No Brasil, no que dependesse do PT, esse tratamento já estaria em curso, sob o assim chamado "controle social da mídia", a ser exercido por grupos sociais controlados pelo partido. O mais recente rosnado nessa direção, como se sabe, se seguiu à condenação dos grão-mensaleiros por um imaginário conluio entre o Supremo Tribunal Federal e a imprensa conservadora (ou golpista). A mídia não pode ser um partido político, esbravejam os petistas. Se não opera em regime de concessão, pode ser o que queira - e se entenda com o seu público. O Estado, como lembrou o governador Geraldo Alckmin no encontro da SIP, é que não pode ser juiz da imprensa. É o que também parece pensar a presidente Dilma Rousseff, para quem o melhor controle da mídia é o controle remoto em poder das pessoas.

De todo modo, 72% dos diretores de veículos de comunicação no País - ante 67% na média da região, numa pesquisa patrocinada pela SIP - entendem que a liberdade de imprensa "é esporadicamente ameaçada ou coagida"; pelos governos em primeiro lugar, mas também por medidas judiciais (como a que há mais de dois anos impede este jornal de noticiar a investigação da Polícia Federal sobre os negócios da família Sarney) e ainda pelo crime organizado.

Sem contraindicação - ZUENIR VENTURA



O GLOBO - 17/10

Um dos ensinamentos do "Guia para uma vida saudável" que o dr. Cláudio Domênico está lançando esta semana é que em matéria de cuidados com a saúde o ser humano é muito pouco racional: sabe o que lhe faz mal, mas nem sempre sabe como evitar. Há exemplos inclusive entre os médicos: "Pneumologistas que fumam, cardiologistas sedentários ou endocrinologistas obesos." Daí a importância da medicina comportamental, que se interessa pelas motivações, ou seja, pelo que leva uma pessoa a agir dessa ou de outra maneira. O autor conta que nas consultas - "A parte mais nobre de meu trabalho" - ele pergunta até sobre o que parece não ter nada a ver com as queixas do paciente: se gosta de ler, se tem saído com os amigos, qual o seu hobby, como usa o lazer, como gasta o tempo. A alguém que precisa se exercitar, o seu conselho é escolher o exercício que lhe dá mais prazer. "Não importa se andar de bicicleta, jogar tênis, vôlei, dançar ou remar; o fundamental é que a atividade lhe faça feliz." De outro que chega desmotivado, Domênico se informa para ver se há algum indício de depressão. "Na verdade, quero entender mais sobre o seu tesão pela vida." Segundo ele, o caminho para melhorar a qualidade de vida é a mudança de hábitos e de comportamento.

O Guia é o resultado de 30 anos de clínica transmitido como se o leitor fosse um paciente. Tudo em linguagem palatável de quem está mais preocupado com o doente do que com a doença, que aposta no organismo mais do que nos remédios, enfim, quem prefere prevenir do que remediar. O livro mostra como levar uma vida saudável sem morrer de tédio; como perder peso sem perder a alegria; como estabelecer o equilíbrio entre corpo e mente. "Tento transmitir que o grande aprendizado é a busca do equilíbrio", explica Domenico. Excesso faz mal à saúde. Em demasia, até o bem pode fazer mal, como o vinho.
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Os tintos - de uva tannat, merlot e cabernet sauvignon - elevam o colesterol bom, rejuvenescem as artérias, protegem o coração, desde que ingeridos em baixas doses: 150ml para mulheres e 225ml para homens por dia. O perigo é achar que, se uma taça faz bem, uma garrafa fará muito mais. "Moderação é a palavra de ordem." Em resumo: "Te cuida" é uma leitura saudável que não tem contraindicação.

A última de Alice, a rebelde, que ontem fez três anos. O pai lhe diz: "Não adianta, você tem duas opções: 1ª, você veste o uniforme do colégio; 2ª, você veste o uniforme do colégio. Qual das duas você prefere?"

Resposta: "A terceira."

Leite condensado e formicida? - ROBERTO DaMATTA


O Estado de S.Paulo - 17/10


Alguns leitores generosos responderam ao meu apelo e escreveram soluções para o dilema do meu personagem que, na semana passada, livra-se de um câncer no pulmão direito e esquerdo, somente para enfrentar os elos sinistros entre o formicida (o veneno que extermina) e o leite condensado (remédio que mata se ingerido em grandes doses).

Começo com o Luiz Pinto de Carvalho, cujo otimismo imagina que eu tenha recebido "dezenas, talvez centenas de mensagens". Ele começa esperando que o meu personagem não cometa suicídio mas, vivendo, pague a dívida contraída de má-fé. A "moral" de sua primeira versão é simples: "foi desonesto, paga sofrendo". Mas a par dessa sentença mensalônica, essa novidade no cenário social brasileiro: a condenação pelo Supremo dos mentores de um esquema de permanência no poder, mesmo quando tramado por altos figurantes intimamente ligados ao partido que nos governa, ele inventa outras soluções. Excluindo a fuga e a esquizofrenia da clandestinidade, Luiz muda o tempo da narrativa e faz o herói virar um pirata. Levado à época das caravelas, ele vive várias aventuras e morre numa batalha sangrenta. Isso para fazer o personagem reviver para contar suas aventuras aos netos "que surgiram não sei bem como". Depois de todos esses finais, segue uma variante final. Com os credores à porta, o herói amplia sua vingança. Processado, ri da Justiça e morre num acesso de tosse.

Madalena Diégues Moreira Alves, minha estimada amiga, revela igualmente uma intensa vocação criativa naquilo que ela chama de uma "versão Pollyana" para o personagem. Entre a vida e a morte, vem-lhe a lembrança de uma caixinha de chocolate em pó que sua mãe guardava ao lado do leite condensado. Resolve misturar leite condensado e chocolate e faz um brigadeiro seguindo a receita que sua mãe lhe passara antes de morrer de um câncer. Em seguida, toma um avião e revisita o médico para, paradoxalmente, lhe oferecer o doce. Lá, ele faz uma dupla descoberta: seu exame fora trocado - ele jamais teve câncer; e a enfermeira, especialista em brigadeiro, percebeu como a receita da mãe do nosso herói era especial. Associam-se nos negócios e na vida e abrem uma loja de chocolates com total sucesso. Com os extraordinários lucros, pagam as dívidas, compram uma fazenda e o formicida é usado para matar, como manda o figurino, "as formigas que cercavam a linda casa da fazenda".

Outro leitor, o Paulo Henrique Nonato escreve a amigos e distingue o cronista incluindo-o na lista. Diz de modo comovente: "Desejei muito que o Lulu ainda estivesse aqui (...) e tivesse aproveitado, da mesma forma (que o personagem), o produto da venda do apartamento assim que recebeu a notícia. Afinal" - termina o Paulo Henrique - "é claro que ele escolheria o doce".

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Essas reações levam a pensar no "quem conta um conto inventa um ponto". E na história de Machado de Assis Quem Conta Um Conto..." (publicado no Jornal das Famílias, em 1873), cujo título e enredo falam diretamente dessa atividade que nos torna humanos: "o gosto de dar notícias".

Há necessidade de criar pontos de vista, pois as narrativas só viram histórias porque não dizem tudo. Todas são sempre reativadas por receptores que estão em outros lugares e nelas podem enxergar alternativas.

Outro pensamento que me ocorreu foi verificar como os meus leitores abandonaram a realidade da história original. Nela, o personagem vive no presente; ele é um professor universitário e jamais pensaria em fazer um brigadeiro; seu câncer foi real, bem como sua dívida. Eu pedi socorro para o dilema, não para o conto porque, como disse João Guimarães Rosa, a minha história, sendo minha, era verdadeira. A mentira vem da generosidade dos leitores que a modificam a seu gosto. Uma equação matemática não pode ser modificada para ser resolvida. Romancear é fazer equações humanas.

* * * *

Finalmente, vale acrescentar que estamos vivendo num Brasil que faz a virada do acerto dos contos. Tribunais existem precisamente porque vivemos em busca do "direito". Do mais correto, do mais justo, do mais verdadeiro; numa palavra: do melhor enredo ou história. Mas quem define o verdadeiro ou o "real", cuja existência os seus inventores - os filósofos - discordam? Serão as doutrinas religiosas e políticas? Será uma palavra de ordem ou a polícia política? Serão os que estão no poder?

Se o arbitrário é o dilema e se o dilema de estar sempre entre formicida (veneno) e leite condensado (remédio) é parte da nossa condição, então não há como fugir de que o melhor é a versão que leva à liberdade, ao direito de defesa e, a partir dela, à inocência ou à condenação. Como num jogo, estabelecemos regras somente para descobrir como elas fabricam incertezas e novas versões.

O fascismo formicida diz que só há uma voz e uma resposta. O leite condensado liberal assenta-se na presença de muitas vozes e respostas. Uma democracia repousa num contínuo refazer-se. Ninguém pode se arvorar a ser dono da democracia ou do sistema político brasileiro. O passado não isenta o presente e nenhum dos dois garante um futuro.

O que, então, resta ao personagem? Sobra acatar aquilo que a coletividade considera como razoável em termos dos seus valores. O que não é fácil, neste mundo magicamente ilimitado, no qual até mesmo uma crônica corriqueira - para muitos um bom exemplo da minha subliteratura - acende várias soluções...

Fiasco em Viracopos - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 17/10


Um avião cargueiro de 130 toneladas derrapou ao pousar, teve o pneu estourado e tombou na única pista do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP).

Até ser retirada, a aeronave provocou o fechamento do aeroporto, que permaneceu interditado durante quase 46 horas, de sábado a segunda-feira. Nesse período, cerca de 500 voos foram cancelados e pelo menos 25 mil passageiros ficaram prejudicados.

Ocorrências dessa natureza são comuns no mundo inteiro -até aí, pouco há de realmente excepcional. Por esse motivo, a Organização Internacional da Aviação Civil recomenda que os aeroportos tenham um plano de remoção rápida para desobstruir a pista e minimizar os transtornos a passageiros.

O que chamou a atenção em Viracopos não foi, portanto, o bloqueio da pista, mas a demora para remover o cargueiro e reabrir o local para pousos e decolagens. Estima-se que a falta de experiência possa ter atrasado a operação em pelo menos 15 horas.

Sem dúvida não ajudou o fato de não haver em Viracopos um "recovery kit" -conjunto de equipamentos capaz de remover aeronaves-, mas as empresas aéreas não são obrigadas a possuir tais itens. Isso não as isenta, entretanto, de providenciar o maquinário.

Foi o que fez a Centurion Cargo, operadora do avião. O kit foi alugado da TAM e precisou ser deslocado de uma distância de 140 km até Campinas. Após uma primeira tentativa fracassada no domingo, a empresa conseguiu retirar a aeronave só na segunda-feira.

Que a demora tenha ocorrido em um dos dez aeroportos mais importantes do Brasil é motivo de preocupação. Em 2011, 7,5 milhões de passageiros utilizaram Viracopos, cujo movimento tem crescido de forma acelerada nos últimos anos.

Assim como outros aeroportos brasileiros, Viracopos tem apenas uma pista (a segunda estava prevista há quase uma década, mas só deverá sair em 2017). Isso torna ainda mais essencial ter agilidade para executar o plano de remoção.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) abriu um procedimento administrativo para investigar a atuação da empresa aérea e do aeroporto nesse acidente. É imprescindível descobrir os motivos da demora e apontar providências para evitar sua repetição.

Um país que vai sediar dois dos maiores eventos esportivos do mundo não pode tolerar fiascos como esse na área de infraestrutura. Acidentes acontecem, mas é preciso estar preparado para eles.

Sem começo ou meio - RUY CASTRO



FOLHA DE SP - 17/10



FOLHA DE SP - 17/10



RIO DE JANEIRO - Há décadas tenho privado com alcoólatras em vários estágios de dependência. Todos resistentes a tratamento. Um deles nem admitia o assunto, mesmo quando os vômitos matinais de sangue já tornavam sua situação desesperadora. A eventualidade de uma internação, com a interrupção do fornecimento de bebida, lhe era intolerável. A alternativa podia ser a morte, mas ele não parecia com medo. A dependência é mais forte do que o medo da morte.
Quando se trata de álcool, a dependência leva anos para se instalar, durante os quais o bebedor tem tempo para constituir família, aprender um ofício e afirmar-se profissionalmente -até que a progressão da doença acabe com tudo. Às vezes, uma última centelha de consciência o faz procurar ajuda. Se esta vier a tempo, e o processo destrutivo for interrompido e controlado, a pessoa, com esforço e sorte, pode retomar sua vida e tentar devolvê-la ao que era antes de a dependência ter se instalado.
Anteontem, vi pela TV os dependentes de crack da favela do Jacarezinho, no Rio, ocupada pelos militares, sendo levados pelos assistentes sociais. A maioria, inconformada, pedalava o ar com as poucas forças que lhe restavam -ninguém queria sair do lixão onde morava.
No fim do dia, todos (exceto, por algum tempo, os menores) estavam de volta à cracolândia.
A ideia da internação compulsória para os dependentes de crack não deveria se confundir com as normas de internação para outros tipos de dependência. Ao fim e ao cabo, todas as dependências são iguais, mas a do crack não tem começo ou meio. Já começa pelo fim.
Não pode haver internação "consentida" de um dependente de crack, pelo simples fato de que esse dependente não tem mais o que consentir ou negar. Para ele, a morte não é nada diante da ideia de ficar sem o produto.

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