Sunday, January 10, 2010

Diogo Mainardi Herbert Richers vive

sábado, 9 de janeiro de 2010
“Herbert Richers transformou nossa linguagem. Ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido”

A morte de Herbert Richers foi o acontecimento mais marcante de 2009. O mais marcante e, desoladoramente, o mais negligenciado. Herbert Richers montou seu estúdio de dublagem em 1950. Em seis décadas de trabalho, adaptando filmes, seriados de TV e desenhos animados, ele contribuiu de maneira decisiva para moldar e disseminar o dialeto tapuio com o qual passamos a nos comunicar.

Se a língua portuguesa teve Camões – com seus latinismos, com seus volteios eruditos, com sua sonoridade épica –, o patoá nacional teve Herbert Richers – com seus estrangeirismos, com seus falsos cognatos, com sua sonoridade de locutor de rádio. De dublagem em dublagem, Herbert Richers transformou nossa linguagem. Violentando predicados, pervertendo complementos, corrompendo particípios, ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido. Mas ele foi mais longe do que isso. Além de revolucionar nossa linguagem, Herbert Richers revolucionou também nossa moral. Quando Jack Lemmon, numa comédia de Billy Wilder, tem a mesma voz e, principalmente, os mesmos atributos estéticos de Salsicha, num episódio do desenho animado Scooby-Doo (ambos – Jack Lemmon e Salsicha – dublados por Mário Monjardim), o resultado só pode ser uma sociedade como a nossa, em que todos os valores se equivalem e, portanto, se anulam.

No Brasil, atualmente, Dilma Rousseff é quem melhor encarna a reviravolta moral e linguística realizada por Herbert Richers. Ela é o epígono ideal de Carlos Campanile (dublador de Clint Eastwood, Al Pacino, Robert de Niro e Thor dos Cavaleiros do Zodíaco), de Garcia Neto (dublador de Gregory Peck e do Homem-Fera) e de Sumara Louise (dubladora do desenho Gasparzinho e de Meryl Streep). Se alguém lhe pergunta por que as obras do programa Minha Casa, Minha Vida continuam paradas, Dilma Rousseff responde como um médico-legista, num filme estrelado por Bruce Willis (ambos – Dilma Rousseff e Bruce Willis – dublados por Newton da Matta): “Olha, não é isso que nós estamos vendo. Não é isso que a gente está vendo e eu vou te falar a partir do que. Hoje, já tem mais de 400 projetos apresentados para a Caixa, dominantemente naquela distribuição em que zero a três é o pessoal que faz a moradia para renda de zero a três salários mínimos, é a grande maioria”.

Sim, a morte de Herbert Richers, ocorrida dois meses atrás, foi o acontecimento mais marcante de 2009. Mas ele estará sempre presente em 2010.

Monday, January 04, 2010

A Petrobrás de Gabrielli João Almeida

A entrevista de José Sérgio Gabrielli ao Estado ("PSDB teria vendido a Petrobrás", 25 de dezembro de 2009, página B1) marca a volta triunfante à cena política do presidente da Petrobrás depois do estrangulamento governista da CPI do Senado que deveria ter investigado a gestão do petista na companhia

Poupado de qualquer questionamento sobre as graves suspeitas de irregularidades que motivaram a instalação da CPI e de outras perguntas "inconvenientes", Gabrielli ficou à vontade para usar e abusar das meias-verdades e absolutas mentiras com que os petistas costumam fantasiar seus supostos êxitos e a "herança maldita" do governo anterior.

É preciso reconhecer, sem nenhum favor, que ele se superou nesse mister. O atestado de "idoneidade" que ganhou do próprio líder do governo, senador Romero Jucá, no relatório final da CPI, talvez tenha subido à cabeça do principal responsável direto pela transformação da maior empresa do Brasil em comitê político do PT e aliados. Se não fosse a intervenção providencial do presidente Lula - por intermédio de seu fiel escudeiro Gabrielli, subentende-se -, a Petrobrás "teria investimento e crescimento menores do que teve. Provavelmente teria menos preocupação com o controle nacional, portanto, teria menos impacto no estímulo da indústria brasileira."

Começando pelos resultados, que são o que interessa ao País: ao contrário do que sugere Gabrielli, a produção de petróleo da Petrobrás cresceu muito menos no governo Lula do que no governo FHC. Foram meros 3% ao ano, em média, desde 2003, ante 10% ao ano entre 1995 e 2002. O que cresceu mais no governo Lula foi o faturamento da empresa, por causa do boom dos preços internacionais do petróleo. Somente por isso. Foi esse aumento extraordinário da receita da companhia, provocado pelo aumento dos preços promovido pelos sheiks árabes, que encobriu os efeitos da péssima gestão petista.

A Petrobrás entrou na rota do crescimento acelerado a partir da vigência da Lei do Petróleo de 1997 e da reorganização interna que preparou a companhia para atuar num ambiente de competição. Isso sem que o Estado brasileiro tivesse de abrir mão do controle do ritmo de exploração das reservas de petróleo, das receitas respectivas, nem do fortalecimento dos outros elos da cadeia produtiva do petróleo com os instrumentos previstos na lei.

A Petrobrás que chegou ao pré-sal foi aquela que saiu das reformas de 1997. Sua profissionalização, não o seu aparelhamento político, a transformou numa multinacional brasileira bem-sucedida - uma das gigantes da indústria petrolífera, na vanguarda tecnológica de exploração de petróleo em águas profundas. Cabe reconhecer dois feitos espetaculares da gestão petista da Petrobrás: o quadro de pessoal saltou de 45 mil empregados efetivos e 100 mil terceirizados em 2002 para 85 mil efetivos e 300 mil terceirizados em 2008; e os negócios obscuros sangram o enorme caixa da companhia - números sobre produção e pessoal da Petrobrás citados por Luiz Paulo V. Lucas na reportagem PSDB busca agenda para oposição a Lula (Estado, 23/2/2009,

Entregue a pressões e manipulações políticas de todo tipo, a Petrobrás petista conseguiu o prodígio de entrar em dificuldades financeiras com o preço do petróleo nas nuvens, em 2008. Dizem que o melhor negócio do mundo é uma empresa petrolífera bem administrada e o segundo melhor, uma empresa petrolífera mal administrada. A administração encabeçada por Gabrielli garantiu um lugar à parte nessa escala de (in)competência, ao colocar uma empresa do porte da Petrobrás na UTI das manobras tributárias e injeções de dinheiro de bancos oficiais. Algo nunca antes registrado na história deste país e, possivelmente, do mundo.

É de uma desfaçatez sem limite que Gabrielli, com essa folha de serviços, se arvore em defensor da Petrobrás contra o fantasma muito invocado e nunca materializado de uma suposta ameaça de privatização. Das ameaças reais ao caixa, à eficiência e à capacidade de expansão da empresa os atuais responsáveis, incluindo Gabrielli, livraram-se de prestar contas à CPI. Não deixarão de responder por isso ao Tribunal de Contas da União, que já apontou graves irregularidades em contratos da companhia com fornecedores, e ao Ministério Público Federal, ao qual o PSDB encaminhou 18 pedidos fundamentados de investigação.

Quem privatiza a Petrobrás por vias tortas, de forma desavergonhada, é o próprio Gabrielli e os apaniguados de seu partido. São eles que confundem uma empresa de economia mista com o fundo do quintal da sua organização político-negocial. São eles que usam as verbas de patrocínio da companhia como uma espécie de orçamento paralelo, livre do crivo do Congresso, no melhor estilo da estatal petrolífera venezuelana nas mãos de Hugo Chávez. Foram eles, aliás, que entregaram o patrimônio nacional a estrangeiros sem um gesto de defesa no vergonhoso episódio da expropriação da refinaria da Petrobrás na Bolívia. Tudo isso e muito mais sob os olhos cegos ou cúmplices da ministra Dilma Rousseff, presidente do conselho de administração da companhia.

Gabrielli falou como alguém que de fato é: um instrumento de um projeto de poder que pretende substituir a direção das estatais pelo partido, o comando dos fundos de pensão pelo partido, os Ministérios pelo partido, a sociedade pelo partido...

Os que, como nós, realmente valorizam a Petrobrás querem-na sob o controle do povo brasileiro, não sob o controle do partido que a explora.

A Petrobrás precisa ser reestatizada: precisa sair da esfera do controle privado petista para ser devolvida à Nação brasileira.

Sunday, January 03, 2010

Recordando e vivendo num boteco do Leblon JOÃO UBALDO RIBEIRO

-Esse clima de festa de fim de ano não te deixa meio deprê, não? Acho que mais triste que eu só o peru do Natal.

— Ah, nem me fale, cara, cada ano fica pior. Eu hoje quase nem venho aqui, só vim mesmo porque a Leninha faz questão que eu passe a tarde de sábado no boteco.

— É, você já me contou. Pelo menos isso, companheiro, poucos podem se orgulhar de que a mulher é que insiste que ele vá para o boteco.

E depois tu diz que a Leninha não te compreende.

— Continuo dizendo. Ela me bota pra fora para eu não atrapalhar o carteado dela, pergunte a ela. Mas hoje quase que eu fico em casa mesmo assim.

Eu me trancava no quarto, botava uma ampola de uísque e um balde de gelo perto da cabeceira da cama, ligava a televisão num canal com filme de bicho e ia esquecer tudo, inclusive o carteado, por mim ela podia perder até a casa de Búzios, não estou ligando pra mais nada, essa é que é a verdade.

— Pera aí, também não é assim. Está certo que no fim do ano se cria essa atmosfera meio melancólica, mas tem o outro lado. Mais um Natal na companhia da família, mais um ano se iniciando...

— Menos um ano, você quer dizer.

— Como assim? Não entendi.

— Tu ainda conta um ano a mais no réveillon? Mas é claro que não é um ano a mais, é um a menos, pode ir ticando no calendário da tua vida: menos um, cada dia está mais perto a passagem pela catraca. Você só tem menos dois anos que eu, também pegou latim no ginásio. Eu fui aluno do velho Messias, que era um terror, mas sabia ensinar e até hoje eu sei uns troços em latim. Tu sabe aqueles relojões antigos, de corda e pêndulo? Eles costumavam ter no mostrador uma frase em latim que o velho Messias repetia e a gente não ligava, mas hoje eu ligo muito, todo dia eu me lembro dessa frase.

— Tempus fugit, eu me lembro.

— Não, essa aí é mole, isso qualquer um diz. A que o velho Messias ensinou não se refere ao tempo, se refere às horas, a cada hora. Diz assim: “Omnes feriunt, ultima necat”.

Sacou? Claro que não sacou, tu não foi aluno do velho Messias. Quer dizer: “Todas ferem, a última mata”.

Tu conhece coisa mais terrível? Todas as horas ferem e a última mata, é isso mesmo. Cada horinha que passa é menos uma hora. Menos uma hora, menos uma hora...

— Isola, cara, e tu ainda fica olhando o relógio enquanto fala? — É, a gente pode se enganar como quiser, mas da verdade ninguém escapa.

E nem que eu quisesse escapar, não podia, tudo conspira em contrário, inclusive esse final de ano.

— É, mas por causa da tua interpretação, com essa ideia do menos um.

— Não tem nada de interpretação, é a realidade sem filtro. Esse ano eu fui pela primeira vez à reunião que minha turma de faculdade faz de cinco em cinco anos. Era de dez em dez, mas me disse o Gominhos, que é quem organiza tudo, que de dez em dez dava tempo demais para morrer uma porção, menos griloso é de cinco em cinco. Bem, eu nunca fui a nenhuma, mas este ano, 45 anos de formado, a Leninha também quis ir e aí eu fui. Triste decisão, devia ter continuado sem ir.

— Eu sei como são essas coisas, a gente chega lá e não se lembra nem do nome da maioria.

— Não, comigo não teve esse problema, eu não esqueço o nome de ninguém, lembrei todos, falei com todos. E o problema não era o nome, isso não seria problema, mesmo se eu esquecesse. Mas tu te lembra da Marcinha? — Eu me lembro, o pessoal dizia que ela não tinha calcinha, tinha portajoias, Ipanema inteira vivia aos pés dela, claro que eu me lembro. Deve estar meio velhusca, ainda é bonita? — Um pouco menos que a Brigitte Bardot depois de velha, tu já viu a Brigitte depois de velha? Pois a Marcinha conseguiu embuchar mais que a Brigitte, a cara dela parece um pergaminho de banheiro do Tutancamon.

Uma coisa tristíssima, tudo despencado, eu quase não conseguia olhar.

— É, tem gente que cai muito com a idade.

— Tem gente, não, todo mundo.

Daquelas gatas de nosso tempo, não tem uma que não perca para uma ameixa seca em matéria de aparência, parece praga.

— É, mas elas devem estar dizendo o mesmo de você. Eu também conheci você na juventude com o apelido de Meio Quilo e hoje você tem meio quilo por centímetro cúbico de barriga.

— Olha quem fala! Quem tem mais pelanca no pescoço de toda a turma de nossa faixa aqui é você, parece até aquelas golas roulées de antigamente. E tua barriga já está dando a segunda volta por cima do umbigo, não vem botar banca em cima de mim, não.

— Tudo bem, mas isso só confirma que a gente nota a decadência dos outros e não vê a nossa, a gente tem de se enxergar.

— E por que é que você pensa que eu quase não desci hoje? Eu fiquei me olhando nos espelhos. Na suite lá de casa, os armários embutidos têm espelho nas portas, a porta do banheiro tem espelho, só não tem espelho no teto. Aí eu estava de cueca, me olhando assim e a Leninha sentada na cama e aí eu me avaliei, aquelas pernas finas e sem cabelo, aquela careca, aquela bunda chocha... aí eu falei: “Leninha, vocês mulheres comem qualquer coisa”.

— Graças a Deus, bebamos a isso.

Como é mesmo a frase latina?

Los argentinos, muy críticos con la política Por Joaquín Morales Solá

Eduardo Duhalde suele decir (y lo ha dicho en público) que la sociedad argentina parece caminar hacia un período en el que reclamará otra vez que se vayan todos. ¿Dramatismo? ¿Una simple especulación para que los argentinos vuelvan a mirarlo a él? La intención de Duhalde puede ser alguna de esas o cualquier otra. El dilema crítico de la política es, sin embargo, que una reciente medición nacional sobre el estado de la opinión pública le da la razón al ex presidente.
La encuesta fue hecha por una de las más prestigiosas empresas de análisis de opinión pública, reconocida por sus recientes aciertos en los pronósticos electorales. Según esa medición concluida hace pocos días, los conflictos de la política son, para la mayoría social, el tercer problema del país, después de la inseguridad y el desempleo (que volvió a encaramarse en uno de los principales lugares de la preocupación social).
La política estuvo peor en septiembre; entonces, era el segundo problema para los argentinos, sólo superado por la inseguridad pública. Es fácil suponer las razones de esa extensa frustración social de hace tres meses. Un gobierno derrotado en las elecciones nacionales estaba desplegando una furia de poder como no lo había hecho ni aun cuando ganaba elecciones. Un Congreso vencido por el furor del kirchnerismo parecía inclinarse entonces, dócil e impotente, ante los caprichos de la dinastía gobernante.
La peligrosa caída de la política se detuvo en diciembre y comenzó a remontar lentamente, aunque todavía son muy altos los índices sociales que la perciben como un problema. Esa modificación de la curva tiene también su explicación: el 3 de diciembre ocurrió la célebre reunión preparatoria de la nueva Cámara de Diputados, en la que la oposición se impuso claramente al oficialismo. La sociedad no quiere un gobierno acorralado (el 60 por ciento prefiere que la oposición acuerde con la administración), pero aquella reunión de los nuevos diputados cristalizó de alguna manera el viejo resultado electoral. La política demoró seis interminables meses en llevar a los hechos el espíritu social de junio.
Esa crítica de la sociedad a la política debe completarse con otro resultado alarmante: una enorme mayoría social (alrededor del 70 por ciento) cree que el país estará igual o peor en el futuro inmediato. Si los conflictos de la política son un problema y si lo que viene es peor que lo que está, ¿dónde hay un mínimo capital político en condiciones de reconstruir la ilusión social?
Encontrar las partículas de ese capital imperceptible es el mayor desafío actual de la política. La democracia necesita existencialmente de la política, pero es la política la que debe cimentarse como una solución y no como un problema para los argentinos, cansados de crispaciones y enfrentamientos, según se deduce de la encuesta.
La crisis de la política se nota, incluso, en la valoración de los principales líderes. El más popular de todos es el vicepresidente Julio Cobos, pero sólo convoca el 44 por ciento de imagen positiva. Cristina Kirchner llegó a tener más del 60 por ciento cuando fue candidata y cuando ya llevaba sobre sus espaldas cuatro años de gestión de su esposo. Francisco de Narváez, Gabriela Michetti y Ricardo Alfonsín lo siguen a Cobos muy cerca, con el 42 por ciento de imagen positiva.
Un problema no menor es que ni Michetti ni Alfonsín (ni Pino Solanas, contiguo a ellos) registran números cuando se hurga en la intención de votos para presidente. De Narváez sí tiene un lugar entre los primeros presidenciables, pero él debe sortear todavía su problema con la Constitución. No nació en la Argentina y el presidente debe ser argentino nativo.
El conflicto entre la ley y su ambición sólo podría ser zanjado por una relectura de la Constitución por parte de la Corte Suprema de Justicia, pero eso no ha sucedido aún ni el caso está en las oficinas del máximo tribunal de justicia.
El primer peronista hecho y derecho que aparece en la cima es Carlos Reutemann. No obstante, el senador santafecino ha deslizado en los últimos días que es probable que nunca se meta en la selva implacable de la lucha presidencial. Reutemann no tiene el cuerpo ni el alma para soportar el rigor de una campaña presidencial cargada de ambiciones y candidatos. Los otros peronistas (Duhalde, Felipe Solá o el propio Kirchner) están más abajo que arriba de las preferencias sociales.
Una noticia predecible es que dos gobernantes que venían con ambiciones presidenciales, Daniel Scioli y Mauricio Macri, han descendido en las mediciones de opinión pública. Scioli ha caído mucho más que Macri. La novedad puede ser también una contradicción con el resto de la encuesta: el principal problema de Scioli y de Macri es que sus errores son producto de una escasa experiencia política.
La reacción social ante las cosas de la dirigencia política puede descifrarse también mirando la lista de los impopulares. Guillermo Moreno es el personaje público más impopular del país, seguido de cerca por Luis D´Elía, Hugo Moyano y el propio Kirchner. El poder que gobierna está en ese cuarteto. El despótico Moreno es más importante que Amado Boudou a la hora de definir la economía. Moyano tiene tanto poder como Kirchner y D´Elía es la expresión pública y prepotente de los que mandan. ¿Se puede ignorar impunemente durante tanto tiempo a la mayoritaria opinión social?
Surgen también dirigentes con alta popularidad, pero con un enorme desconocimiento público. Es el caso del senador Ernesto Sanz, presidente del radicalismo, que es muy bien valorado por la dirigencia y por los argentinos que lo conocen, pero seis de cada diez consultados dicen no saber de él o saben muy poco. Le sucede lo mismo al gobernador de Chubut, Mario Das Neves: cinco de cada diez argentinos no lo conocen.
Los Kirchner están en la línea descendente que padecen desde la crisis con el sector rural. La curva de la caída del matrimonio comenzó claramente cuando hostilizó a los productores del campo. Los Kirchner han perforado ahora el piso del 20 por ciento de aceptación, pero el rechazo supera el 60 por ciento de la opinión social. No hay experiencia de presidentes que hayan logrado recomponerse después de haber tocado tales índices de impopularidad.
Ni siquiera la posibilidad de un 2010 mejor en actividad económica debería despertarles esperanzas. Como recordó un analista de opinión pública, Carlos Menem también tuvo buenos años económicos en 1997 y 1998, pero su contrato con la sociedad ya estaba definitivamente roto.
El período de Cristina Kirchner será recordado por dos circunstancias: el poder en manos de su marido y la regresión de la economía. Si se concretara el decreto de necesidad y urgencia que dispuso de más de 6500 millones de dólares para pagar deuda pública durante 2010, el Banco Central habrá perdido un 20 por ciento de sus reservas durante los dos años de Cristina Kirchner. La Presidenta recibió 50.000 millones de dólares, que se reducirían a 40.000 millones.
El poder que se opaca lucha por conservar su derecho a la arbitrariedad, como lo demostró la pelea a sangre y fuego por el dominio de la comisión parlamentaria sobre los decretos de necesidad y urgencia. La oposición no es un solo partido; tiene la dificultad constante de abroquelar a sus fragmentos dispersos. Nada cambiaría sin la vocación de los políticos para renovar los estilos, los programas y también las personas. Ese es el mayor clamor social que se desprende de la encuesta.
No existen, es cierto, todas las condiciones para otro alarido social buscando que se vayan todos. Pero el riesgo es demasiado alto. El principio de año, entre tales lamentos, no significa nada. La política no se define por el invariable trámite del calendario. Como escribió Borges, la mañana sólo finge un comienzo.

Friday, January 01, 2010

Inéditos de André Gide

Um cadáver acaba de escrever

Patrulhado pelos comunistas e proibido pela Igreja, André Gide tem sua obra relançada no Brasil, com dois inéditos. Seus romances hoje já não causam escândalo – mas sobrevivem pelo mérito literário


Moacyr Scliar

Albin-Guillotroger-Viollet/AFP
PEDERASTIA FILOSÓFICA
André Gide: conto sobre o jovem amante que "arrulhava" ao fazer sexo

Um cadáver acaba de morrer." Foi assim que o jornal comunista l’Humanité noticiou, em 1951, a morte de André Gide, aos 81 anos. Um ano depois, as obras do autor de Os Frutos da Terraeram incluídas no índex de livros proibidos do Vaticano. Esse autor tão controverso foi, ao mesmo tempo, um dos escritores franceses mais celebrados do século XX, premiado com o Nobel em 1947. Esquecida pelas editoras brasileiras nos últimos anos, sua obra está retornando às livrarias com o selo da Estação Liberdade. Os já conhecidos Os Porões do Vaticano(tradução de Mário Laranjeira; 256 páginas; 42 reais) e Os Moedeiros Falsos (tradução de Mário Laranjeira; 424 páginas; 62 reais) ganharam nova tradução. E há dois títulos inéditos no Brasil: Diário dos Moedeiros Falsos (tradução de Mário Laranjeira; 144 páginas; 31 reais) e O Pombo-Torcaz (tradução de Mauro Pinheiro; 96 páginas; 28 reais).

As controvérsias que cercaram a vida de Gide dizem respeito tanto à sua obra quanto à sua tumultuada vida. Filho de uma austera família protestante, ele cresceu em um ambiente no qual a religião era imposta com rigidez. Na escola, começou a ter problemas com seu "mau hábito" (leia-se: masturbação), o que levou um médico a sugerir a castração. Até os 23 anos permaneceu, em suas palavras, "completamente virgem, mas depravado". Ainda jovem, frequentava os salões literários de Paris, convivendo com Maurice Barrès, Stéphane Mallarmé e Paul Valéry – chegou até a conhecer, em 1891, o irlandês Oscar Wilde, que alguns anos depois estaria no centro de um escândalo homossexual na Inglaterra. A iniciação do próprio Gide no "amor que não ousa dizer seu nome" teria se dado em uma viagem pela Tunísia, Argélia e Itália, à época características rotas de turismo gay.


Sua literatura sai do armário com Corydon, ensaio publicado na íntegra em 1924 (embora escrito mais de dez anos antes) no qual Gide adota a concepção grega da pederastia, termo que designava o amor entre um homem mais velho e um jovem – um amor que seria ao mesmo tempo físico e "pedagógico", com o amante maduro no papel de mestre. Tendo rejeitado a religião, Gide, como tantos intelectuais da primeira metade do século XX, viveu seu momento de flerte com o comunismo. Foi, no jargão do período, um "companheiro de viagem" do Partido Comunista. Em 1936, a convite do governo, visitou a União Soviética – e voltou completamente desiludido. O PC francês nunca o perdoaria por sua denúncia do stalinismo no livro Retour de l’URSS e em outros textos críticos. Embora não escape completamente ao figurino do típico intelectual francês, sempre loquaz nos debates públicos, Gide seria sempre um tanto reticente em relação à política. Distanciava-se de contemporâneos como Jean-Paul Sartre, que em Que É a Literatura? fez a defesa teórica do engajamento do escritor. Gide levava a sério sua própria recomendação: "Crê nos que buscam a verdade; duvida dos que a encontraram".

A homossexualidade e o tratamento sarcástico da religião são as pedras de escândalo em que Gide funda seus romances. Os Porões do Vaticano, de 1914, classificado como uma sotie – gênero de teatro medieval, de teor satírico –, é uma farsa de trama intrincada, na qual uma dupla de golpistas convence uma condessa de que o papa foi raptado e um impostor está em seu lugar. Por sua acidez satírica no tratamento da religião, essa narrativa irreverente coloca o autor na linha de Rabelais e Voltaire. Os Moedeiros Falsos, de 1925, traz três personagens envoltos em relações atormentadas – dois jovens estudantes, Bernard e Olivier, e o escritor Édouard, tio de Olivier. Diário dos Moedeiros Falsos, lançado agora no Brasil, é, como anuncia o título, o diário que o escritor mantinha ao tempo em que compôs o romance. Representa uma incursão no processo criativo de Gide, que dialoga com os personagens e dá a si próprio conselhos – que terão certa validade para qualquer escritor: "Purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance", ou, no parágrafo final, "tudo considerado, mais vale deixar o leitor pensar o que quiser – ainda que seja contra mim".

O Pombo-Torcaz, o segundo inédito que chega às livrarias do país, é um conto autobiográfico de 1907. Descreve a noite que o escritor passou com o jovem Ferdinand Pouzac em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse (pombo-torcaz, a espécie mais comum de pombo na Europa, é o apelido dado pelo escritor ao amante adolescente, porque Ferdinand "arrulhava" ao fazer sexo). O relato esteve guardado nos arquivos de Gide até recentemente, quando Catherine Gide, sua única filha, autorizou a publicação. Sexo à parte, é uma narrativa bem convencional, o que justifica a pergunta de Catherine no prefácio: "Poderá esta iniciação amorosa ainda nos emocionar?". A resposta é obviamente positiva. No tempo das paradas gays, Gide já não causa escândalo. É por seus méritos literários que o escritor francês merece ser lido e relido. Gide tinha um domínio assombroso das técnicas da ficção, e as pôs em prática em livros que permitem evocar vivamente o cenário cultural de seu tempo. A obra hoje pode dispensar a controvérsia que cercou seu autor.

Carta ao leitor


O TCU merece respeito

Fotos Antonio Milena e Manoel Marques
Escavação do metrô de Fortaleza:
uma das obras abordadas pela reportagem comandada pelo editor Fábio Portela


É próprio das democracias manter instâncias fiscalizadoras do uso do dinheiro público. Ou seja, do nosso dinheiro, transferido via impostos diretos e indiretos para os cofres estatais. Nos últimos tempos, uma dessas instâncias, o Tribunal de Contas da União (TCU), órgão consultivo do Congresso, entrou na mira do Palácio do Planalto, sob a acusação de atraso nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com o qual o governo federal pretende tirar a enorme defasagem do país no plano da infraestrutura - e, quem sabe, dar um empurrão na candidatura presidencial da "mãe do PAC", a petista Dilma Rousseff. O Palácio do Planalto anda inconformado com o escrutínio dos auditores do TCU, que vêm encontrando inúmeras irregularidades nos contratos firmados com empreiteiras e demais prestadores de serviços ao estado. As acusações lançadas contra o tribunal vão desde que seus integrantes estão a serviço da oposição, que não desejaria que o PAC fosse adiante, até que são desonestos simplesmente. Chegou-se mesmo a cogitar a substituição do TCU por outro órgão "mais rápido" nas fiscalizações.

Para verificar se o TCU cumpria a contento o seu papel constitucional - o de prestar informações confiáveis aos parlamentares sobre os gastos e contratos oficiais -, VEJA destacou o editor Fábio Portela, um dos melhores profissionais da revista na tarefa de checar números e decifrar, entre as letrinhas miúdas dos papéis governamentais, grandes maracutaias. Durante quatro meses, ele e quatro repórteres examinaram documentos e saíram a campo, para ver de perto obras problemáticas. A conclusão geral é que o TCU, ao contrário dos seus congêneres estaduais, merece respeito porque desempenha bem a sua função, ao detectar sobrepreços, superfaturamentos e aditamentos marotos. Para se ter uma ideia, em apenas quinze contratos, o tribunal encontrou sobrepreços que montam a 1,35 bilhão de reais. Dinheiro público (dinheiro nosso) que, não fosse pelo trabalho de seus auditores, iria parar nos bolsos de espertalhões.

Lya Luft O ano de pensar


"A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida,
nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja
realmente importante"


Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.

O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".

Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.

Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamadoCriança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.

Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.

Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.

E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.

Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?

Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.

Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.

Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.

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