Sunday, October 21, 2012

Brasil apoia o novo FMI - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 21/10


Alerta e advertência não faltaram na reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), encerrada há uma semana, em Tóquio. O tímido sinal de recuperação econômica nos países avançados continua, mas esfriou.

"O crescimento está agora muito baixo para ser capaz de reduzir substancialmente o desemprego. E, em grandes economias de mercado emergentes, o crescimento, que era forte, também diminuiu", diz o FMI, textualmente.

Depois do inverno de 2008, houve uma ligeira brisa, mas a primavera não virá nos próximos anos, talvez cinco, sete ou, quem sabe mais. A expressão década perdida, usada inicialmente pelo economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, ganhou espaço nos discursos dos ministros que foram a Tóquio para ouvir os apelos quase patéticos da diretora-gerente do Fundo Christine Lagarde.

Ela pediu "coragem e ação cooperativa dos países-membros". Criticou os governos da zona do euro por estarem tentando concentrar esforços no ajuste fiscal a qualquer preço. Lagarde deixou claro em seu discurso para que não digam depois que o FMI não alertou para o pior: se o G-7, o G-20 não reagirem agora depois de anos de retração, vamos ter ainda por muitos anos um mundo mais pobre.

Brasil apoia e aproveita. O Brasil não teve dificuldade em aceitar essa posição porque já vinha fazendo o que Lagarde e seus economistas propõem aos países em crise. E o Fundo reconheceu ao admitir que, depois de sofrer os efeitos da crise externa, o PIB brasileiro está crescendo neste último trimestre. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, souberam usar o fórum internacional para projetar a imagem de uma país que, ao contrário de outros, inclusive emergentes, rompeu a ortodoxia das regras econômicas e soube se adaptar às mudanças externas e internas. Não deixa de ser emblemático que ambos, FMI e Brasil, defendam uma política monetária agressiva, expansionista, juros menores, mais liquidez, facilidade de crédito, novos estímulos a investimentos, num clima de inflação controlada.

Foi aí, no falso dilema inflação e crescimento, de austeridade fiscal e desenvolvimento, que se travou o grande duelo entre a Alemanha, do turrão ministro de Finanças, Wolfgang Schaueble, e o novo FMI, de madame Lagarde. Ela lastima que na reunião, os ministros deram menos importância à questão do ajuste fiscal, que precisa ser "adaptado" a cada país, ao contrário do que a Alemanha está impondo.

Mais dinheiro, por favor. Acreditem, o FMI admite que o crescimento possa ser estimulado até pelo aumento de liquidez, pela emissão direta de moeda, dólares, euros, yuans , ienes. E isso porque o grande risco no Brasil, nos EUA, na Europa, na Ásia, não é a inflação, mas a deflação ou a recessão na qual a zona do euro já entrou. A inflação média mundial está hoje em torno de 2%, enquanto blocos importantes, como a zona do euro, registram PIB negativo. E, blasfêmia das blasfêmias, Blanchard chegou a dizer que a Alemanha tem de aceitar um pouco de inflação se for esse o preço para impedir a recessão. Na China, os preços recuam para menos de 2% e o governo confirmou que a economia cresceu na menor taxa dos últimos anos.

Heresia, mais ou menos. O FMI não recomenda essa política, mas a aceita e a sugere na ausência de outras medidas que promovam crescimento. Nesse sentido, apoia e até elogia a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) de injetar liquidez até a economia voltar a crescer. O mesmo foi feito pelo BC da China, enquanto o Banco Central Europeu se depara internamente com a oposição do representante alemão à sua decisão de comprar títulos dos países mais endividados.

Em uma frase, o recado do novo FMI é "não há ameaça de inflação no mundo, mas de recessão e deflação".

Há efeitos colaterais. O principal é a desvalorização da moeda do país emissor, tornando suas exportações mais competitivas em detrimento dos que não querem ou não precisam agir da mesma forma. Não seria esse o objetivo principal dos EUA e agora da China, por exemplo? Esta é uma questão polêmica e delicada na qual não é fácil separar causa e efeito. O Brasil mesmo liberou em um ano cerca de R$ 100 bilhões, a maior parte do depósito compulsório, e está agindo ativamente no câmbio em defesa da sua moeda. Vem comprando dólares excedentes no mercado interno. Com isso, defende sua moeda e, ao mesmo tempo, eleva as reservas cambiais. Elas passaram de R$ 53,8 bilhões no fim de 2005 para R$ 380 bilhões agora, o que explica em grande parte a resistência do País às crises externas. Na avaliação de custo e beneficio, a questão é saber o que mais afeta a economia brasileira, uma economia mundial que pode entrar em recessão ou o desafio de um real valorizado.

O preço do trânsito travado - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 21/10



Os congestionamentos das grandes cidades do Brasil não são apenas exasperantes. Avançam cada vez mais sobre o bolso dos proprietários de veículos e sobre o de cada cidadão.

Estudos do professor Marcos Cintra, vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, tiveram a conclusão ainda preliminar de que, só em São Paulo, o trânsito cobra em perdas de recursos e desembolsos mais de R$ 40 bilhões por ano. Equivale a 95% do orçamento do Município previsto para 2013; ao preço de 1,5 milhão de veículos populares novos (como o Gol); e ao investimento em 80 km de metrô.

Desse total, 75% correspondem ao custo de oportunidade - riquezas que deixam de ser produzidas enquanto as pessoas permanecem bloqueadas dentro do carro. Outros 25% são o que Cintra chama de custo pecuniário. Inclui gastos adicionais com queima de combustíveis; com tratamento de doenças respiratórias causadas por gases poluentes; e a alta do frete, pelo excessivo tempo gasto nas entregas. Fora isso, para driblar engarrafamentos, empresas atuam madrugada adentro, o que implica pagar adicional noturno e horas extras.

Os prejuízos não param por aí. Desde 2006, dobraram as tarifas cobradas pelos serviços de estacionamentos. Em 2011, subiram 13% - aponta a agência AutoInforme. E estacionar nas ruas de São Paulo virou uma batalha inglória. Quem acha uma vaga, ou desembolsa R$ 3,00 por hora pela folha do talão da zona azul e/ou é extorquido pelo flanelinha.

O congestionamento médio, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP), diminuiu em São Paulo. No entanto, em junho deste ano, a cidade bateu seu recorde histórico, com filas de 295 km, o que é sinal de que as últimas intervenções no fluxo de veículos não foram eficazes.

O entupimento das veias de trânsito não é um problema local. Em todo o País, há carros demais para ruas e estradas de menos. A frota nacional cresce progressivamente. Era de 29,5 milhões de veículos em 2000, chegou a 71,8 milhões neste ano. São 42,3 milhões de carros a mais em somente 12 anos - aumento de 143%.

Para Sérgio Ejzenberg, ex-diretor da CET-SP, o trânsito não voltará ao que era. Tende a piorar. Apenas investimentos pesados e de longo prazo em transporte de massa, principalmente em metrô, melhorarão a mobilidade urbana e a qualidade de vida do cidadão.

Em Nova York, por exemplo, há 22 mil carros para cada km², enquanto, em São Paulo, são 5 mil. Em Nova York, o metrô suporta as horas de pico, de uma ponta à outra da cidade, em 45 km de linhas para cada milhão de habitantes. São Paulo tem somente 7 km por milhão.

A desculpa de sempre é a de que o Brasil não tem recursos. Ejzenberg discorda: "Veja a nossa carga tributária... O problema é de aplicação". Ele dá exemplos do que considera casos de recursos mal empregados pelos governos municipal, estadual e federal: (1) o túnel em construção entre a Rodovia dos Imigrantes e a Avenida Roberto Marinho e a duplicação da Marginal do Tietê (R$ 6 bilhões); o (2) Rodoanel (R$ 30 bilhões); e (3) o futuro trem-bala (R$ 80 bilhões). "Para decisões estapafúrdias, não falta dinheiro. Querem ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, mas fica tudo parado nas cidades." Com cada bilhão, garante, seria possível fazer ao menos dois quilômetros de metrô. Portanto, com a soma desses projetos, 232 quilômetros.

O rodízio de carros e as restrições aos veículos de carga no perímetro urbano não bastam. Um dos temas recorrentes nas discussões é a adoção do pedágio urbano - eleitoralmente inviável, mas de inegável sucesso em Londres, Milão e Cingapura. Mas, sem um sistema eficiente de transportes de massa, com integração entre metrô e corredores de ônibus por toda a cidade, essa taxação teria efeitos meramente arrecadatórios. COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

O investidor não é bobo - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 21/10


O governo Dilma Rousseff espera passar o segundo turno eleitoral para anunciar seu pacote de investimentos em portos e aeroportos. Como nos oito anos de Lula, também Dilma se rende à agenda política e deixa em plano secundário a urgência desses investimentos para o País. Ela quer atrair investidores privados com competência e experiência, mas, como não aceita a ideia de abrir mão do poder de mando na gestão, tem buscado formas de driblar investidores estrangeiros.

Depois da fracassada proposta de manter a Infraero no comando do negócio - rejeitada por grandes operadoras internacionais -, a equipe de Dilma pensou em criar uma ação golden share para os Aeroportos do Galeão (Rio de Janeiro) e Confins (Belo Horizonte). Tal modelo daria, sim, poder de mando ao governo, mas limitado a situações muito esporádicas e previamente definidas no contrato de concessão. Partiu-se, então, para uma segunda alternativa: a Infraero e o setor privado serão minoritários e os fundos de pensão de estatais completarão o controle acionário. Dessa forma, somadas as ações da Infraero e dos fundos, o governo manteria o poder permanente de gestão e decisão nos dois aeroportos.

Óbvio, esse segundo modelo só terá sucesso se com ele concordarem as grandes operadoras que a presidente quer atrair. Não as médias, que levaram as concessões dos Aeroportos de Brasília, Viracopos e Guarulhos. Estas Dilma desconfia que não darão conta do recado. Ela quer as que administram os terminais de Heathrow (Londres) ou Atlanta (EUA), os mais movimentados do mundo. Mas conseguirá com dribles?

O investidor estrangeiro vê no Brasil um grande, promissor e atraente mercado. Não é à toa que o ingresso de capitais de investimento deverá somar US$ 60 bilhões em 2012. Mas, quando se trata de parceria com o governo, ele olha com desconfiança o longo histórico de interferências políticas ruinosas para os resultados dos negócios. E o governo parece fazer questão, a todo instante, de reafirmar seu comando de uma forma, digamos, inconveniente.

Agora mesmo, na questão da redução da tarifa de energia, Dilma tomou coragem e fez o que seus antecessores - Lula inclusive - não fizeram: incorporar à tarifa a queda de custo das empresas decorrente de amortização de ativos. É legal, legítima e bem-vinda a redução tarifária. Mas fez de forma tão autoritária e unilateral que no exterior isso é visto como mais uma intervenção do governo em negócios privados a afastar potenciais investidores interessados em outros setores no Brasil.

É o que acontece agora em relação aos aeroportos, justamente no momento em que o governo precisa atrair as maiores operadoras do mundo. Se a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) cruzasse seus números com os das empresas elétricas para chegar a um entendimento comum, a redução da tarifa não estaria agora sob o risco de ser adiada sabe-se lá até quando. Nem as gestoras de aeroportos estariam assustadas imaginando que a parceria com o governo pode lhes trazer surpresas desagradáveis, caso aceitem vir para o Brasil.

Dilma parece estar longe de acertar o passo com o investimento, agora que descobriu ser esta a forma mais segura de recuperar o pálido crescimento econômico em sua gestão. Em licitação, entregou o controle acionário de três grandes aeroportos para empresas médias e inexperientes e, agora, nega esse controle às maiores do mundo. Sentou em cima de gigantescas jazidas de petróleo da área do pré-sal e deixa de explorar um setor com forte e garantida adesão de investidores privados ávidos em retomar investimentos paralisados há mais de quatro anos.

Além disso, mesmo depois de quase dez anos de experiência em gestão pública, a presidente continua mantendo uma relação imatura e ideológica com a privatização, atrapalhando projetos de investimentos em infraestrutura. Ela vê a privatização como saída para suprir a ausência do Estado e trazer para o País experiência, eficiência e novas tecnologias em serviços públicos. Mas ingenuamente imagina que o investidor aceita ser domado e vai se submeter às suas determinações. Ele não é bobo não, dona Dilma.

Piada de salão - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 21/10


O tiro saiu pela culatra, e o partido da ética na política consagrou-se como um exemplo de corrupção


Quando o escândalo do mensalão abalou a vida política do país e, particularmente, o governo Lula e seu partido, alguns dos petistas mais ingênuos choraram em plena Câmara dos Deputados, desapontados com o que era, para eles, uma traição. Lula, assustado, declarou que havia sido traído, mas logo acertou, com seus comparsas, um modo de safar-se do desastre.
Escolheram o pobre do Delúbio Soares para assumir sozinho a culpa da falcatrua. Para convencê-lo, creio eu, asseguraram-lhe que nada lhe aconteceria, porque o Supremo estava nas mãos deles. Delúbio acreditou nisso a tal ponto que chegou a dizer, na ocasião, que o mensalão em breve se tornaria piada de salão.
Certo disso, assumiu a responsabilidade por toda a tramoia, que envolveu muitos milhões de reais na compra de deputados dos partidos que constituíam a base parlamentar do governo.
Embora fosse ele apenas um tesoureiro, afirmou que sozinho articulara os empréstimos fajutos, numa operação que envolvia do Banco do Brasil (Visanet), o Banco Rural e o Banco de Minas Gerais, e sem nada dizer a ninguém: não disse a Lula, com que privava nos churrascos dominicais, não disse a Genoino, presidente do PT, nem a José Dirceu, o ministro político do governo.
Era ele, como se vê, um tesoureiro e tanto, como jamais houve igual. Claro, tudo mentira, mas estava convencido da impunidade. A esta altura, condenado pelo STF, deve maldizer a esperteza de seus comparsas. Mas os comparsas, por sua vez, devem amaldiçoar o único que, pelo menos até agora, escapou ileso do desastre -o Lula.
Pois bem, como o tiro saiu pela culatra e o partido da ética na política consagrou-se como um exemplo de corrupção, Lula e sua turma já começaram a inventar uma versão que, se não os limpará de todo, pelo menos vai lhes permitir continuar mentindo com arrogância. O truque é velho, mas é o único que resta em situações semelhantes: posar de vítima.
E se o cara se faz de vítima, tem o direito de se indignar, já que foi injustiçado. Por isso mesmo, vimos José Genoino vir a público denunciar a punição que sofreu, muito embora tenha sido condenado por nove dos dez ministros do STF, quase por unanimidade.
A única hipótese seria, neste caso, que se trata de um complô dos ministros contra os petistas. Mas mesmo essa não se sustenta, uma vez que dos dez membros do Supremo, oito foram nomeados por Lula e Dilma.
Reação como a de Genoino era de se esperar, mesmo porque, alguns dias antes, a direção do PT publicara aquele lamentável manifesto em que afirmava ser o processo do mensalão um golpe semelhante aos que derrubaram Getúlio Vargas e João Goulart. Também a nota posterior à condenação de José Dirceu repete a mesma versão, segundo a qual os mensaleiros estão sendo condenados porque lutam por um Brasil mais justo. O STF, como se sabe, é contra isso.
Não por acaso, Lula -que reside num apartamento duplex de cobertura e veste ternos Armani- voltou a usar o mesmo vocabulário dos velhos tempos: "A burguesia não pode voltar ao poder". Sim, não pode, porque agora quem nos governa é a classe operária, aquela que já chegou ao paraíso.
Não tenho nenhum prazer em assistir a esse espetáculo degradante, quando políticos de prestígio popular, que durante algum tempo encarnaram a defesa da democracia e da justiça social em nosso país, são condenados por graves atentados à ética e aos interesses da nação. As condenações ocorreram porque não havia como o STF furtar-se às evidências: dinheiro público foi entregue ao PT, mediante empréstimos fictícios, que tornaram possível a compra de deputados para votarem com o governo. Tudo conforme a ética petista, antiburguesa.
Mas não tenhamos ilusões. Apesar de todo esse escândalo, apesar das condenações pela mais alta corte de Justiça, o PT cresceu nas últimas eleições. Tem agora mais prefeituras do que antes e talvez ganhe a de São Paulo. Nisso certamente influiu sua capacidade de mascarar a verdade, mas não só. Com a mesma falta de escrúpulos, tendo o poder nas mãos, manipula igualmente as carências dos mais necessitados e dos ressentidos.
Não vai ser fácil acharmos o rumo certo.

Barrado portenho - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 21/10



Dois milhões de pares de sapatos brasileiros deveriam estar pisando solo argentino. Estão impedidos de cruzar a fronteira. Foram comprados e não podem ser entregues pelas medidas protecionistas do governo Kirchner. A indústria de máquinas e aparelhos elétricos deixou de faturar US$ 750 milhões pelas restrições. As automobilística e aeronáutica exportaram US$ 1 bilhão a menos.

A exportação da indústria química caiu US$ 200 milhões. A coluna entrou em contato nos últimos dias com vários setores prejudicados pelo protecionismo argentino. Eles se queixam de que o governo brasileiro está passivo e não tem defendido os interesses da indústria. Nem os empresários argentinos compreendem a postura do governo brasileiro diante das medidas de restrição ao comércio.

Os executivos argentinos não falam abertamente porque têm medo de retaliações por parte do ministro Guillermo Moreno, que controla tudo com mão de ferro. Um empresário do ramo de máquinas que faz negócios com o Brasil contou que o governo tem usado até a TV estatal para expor quem faz críticas à política de restrição à importação.

- Estamos vivendo uma ditadura no comércio exterior. Quem fala mal do governo é criticado na TV. Nós, argentinos, somos favoráveis ao Brasil porque as medidas econômicas são irracionais. Já ouvi queixa de empresário brasileiro que recebeu ligação de um alto integrante do governo argentino para que reduzisse preços. E ele baixou, por medo - disse o executivo argentino.

Nosso saldo comercial com os argentinos caiu de US$ 4,4 bilhões para US$ 1,8 bi este ano. De janeiro a setembro, exportamos US$ 13,4 bilhões. No mesmo período de 2011, foram US$ 16,8 bi. Não há problema algum na redução do saldo, mas o que preocupa é a forma como as exportações estão caindo. O governo argentino acabou com a licença automática de importação. Só pode importar quem o governo autoriza e a decisão é arbitrária, segundo empresários.

- A indústria de calçados tem 2,2 milhões de pares que já foram vendidos mas aguardam liberação para entrar. Há mais de 50 mil pares pendentes de 2011. São mais de nove meses de espera e ninguém sabe os critérios técnicos da restrição - disse o diretor da Abicalçados (Associação da Indústria de Calçados) Heitor Klein.

O diretor de comércio exterior da Abimaq (Associação da Indústria de Máquinas), Klaus Curt Müller, disse que a perda está na casa de 30%, com picos de 50%. A saída é buscar outros mercados.

- A Argentina é um mercado importante, mas os empresários brasileiros estão tendo que mirar outros países na América do Sul, como a Colômbia, para compensar - disse Muller.

De janeiro a setembro, a receita de manufaturados caiu de US$ 15 bilhões para US$ 12 bi, em relação a 2011. A venda de veículos de transporte, que inclui veículos, aeronaves e embarcações, foi US$ 1 bilhão menor, uma queda de 16%. A exportação de automóveis leves caiu quase 30%; de tratores, 20%.

A Argentina passa por uma crise de divisas. Está faltando dólares no país. O governo decidiu que as empresas só podem importar se comprovarem que estão exportando. É a volta do comércio compensado, dos anos 70.

- Regredimos 30 anos na Argentina. Os empresários brasileiros também estão sendo prejudicados e não podemos contar nem com uma postura mais firme do governo brasileiro - disse o empresário argentino.

O normal seria o governo usar os canais diplomáticos para defender os interesses das empresas brasileiras atingidas pelo intervencionismo e protecionismo da Argentina.

A zelite - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O Estado de S.Paulo - 21/10



Vejamos aqui, que novidades há, neste que espero ser um domingo ensolarado e ameno, em que o distinto leitor e a cativante leitora (cartas sobre como estas designações são machistas devem, por caridade, ser encaminhadas ao editor) possam tirar muito proveito do que ainda nos dadiva a Natureza? Não muitas, acho eu. Talvez as novidades mesmo estejam nas páginas de medicina ou ciência dos jornais, onde sempre anunciam o sensacional estudo que desmente outro sensacional estudo de anos atrás, como acontece principalmente em relação a alimentos. A notícia mais recente, se não me trai outra vez a vil memória, é a respeito do camarão. Parece que aboliram a vingança do camarão. A vingança do camarão estava em que o freguês podia comê-lo, mas, em compensação, o colesterol entrava em órbita. Agora não mais, pelo menos até realizarem novo estudo. Periodicamente, a verdade científica vira mentira e, pensando bem, não há grandes novidades nem nas páginas de ciência.

E, infelizmente, não são tampouco grande novidade os acontecimentos terrificantes em hospitais. De cabeça, lembro agora o da senhora que mataram, injetando-lhe café com leite na veia. Anteriormente, em outro hospital, um paciente morreu, após lhe darem sopa também por via endovenosa. Mataram um terceiro, trocando por glicerina o soro que receberia. Administraram a recém-nascidos remédio contra verrugas por via oral, causando lesões horrendas e permanentes. Amputaram por engano o braço de um bebê. E, como é de nossa prática de povo cordial, tolerante e compreensivo, não vai haver responsáveis em qualquer desses casos e de inúmeros outros como eles, muito menos reparação para as vítimas. Nenhuma novidade.

No setor das grandes questões nacionais, o julgamento do mensalão se aproxima do fim, grande parte do suspense inicial já se foi e agora o que se espera é, no interessante dizer do comentarista que escutei no rádio de um táxi, a customização das penas, ou seja, a definição das punições que receberá cada um dos réus condenados, por sinistro desígnio da zelite. Acho difícil haver um problema que não tenha sido causado pela ação da zelite, é um grande achado. E talvez nele esteja, afinal, uma novidade. Não muito importante, quiçá, mas, na falta de outra, quebra o galho. Creio que já podemos cogitar da inclusão de "zelite" nos dicionários como mais um coletivo da lavra popular, com a observação de que por enquanto leva o predicado ao plural, mas no futuro talvez perca essa peculiaridade. Acredito que logo estaremos dizendo coisas como "a zelite não vai aceitar" ou "ele pertence à zelite paulista". Não deixa de ser uma contribuição ao vocabulário da perseguida língua portuguesa.

Resta, porém, definir direito o que é zelite. Não é muito fácil, pelo menos para quem acompanha o noticiário brasileiro. Por enquanto, lembra um pouco o que sucede com a palavra "democracia" e cognatas. Qualquer regime - e tem sido assim em toda a História contemporânea - pode apregoar ser uma democracia. A Alemanha Oriental era a República Democrática Alemã e a Coreia do Norte é oficialmente a República Democrática Popular da Coreia. Fenômeno semelhante acontece com a zelite, na direção oposta. É desejável ser democrático e é odioso ser da zelite; elogia-se com o primeiro e xinga-se com a segunda.

Além disso, a zelite vem desempenhando um papel comparável ao dos comunistas de antigamente. No Brasil, com a notável exceção de Oscar Niemeyer e Zecamunista, sofremos de uma lastimável escassez de comunistas sobre os quais fazer recair a culpa de tudo o que diabo apronta. Os comunistas, como testemunharão os mais velhos, tinham muita serventia e até moças de conduta avançadex, como se dizia, eram fruto da doutrinação dos comunistas. A zelite e seu braço direito, a imprensa venal, corrupta e a serviço de interesses tenebrosos, vêm preenchendo essa lacuna, tão aflitiva para quem não tem nada de substancial a dizer em sua defesa, a não ser, talvez, o inconfessável.

Mas que diabo é a zelite? Sabemos que a palavra vem de "elite". No caso, elite política e econômica. Imagina-se que a elite política seja composta por quem está no poder. Presidente da República é zelite política, assim como os que exercem alguma fatia do poder. Que outro critério haveria? Ou a elite política está diretamente no governo ou o exerce mediante fantoches e paus-mandados, caso em que, ao denunciar a zelite, estaria denunciando a si mesma. Qual a zelite que se opõe aos que estão no poder? A zelite financeira está com eles, os bancos prosperando e ganhando dinheiro como nunca, como já comentou o próprio ex-presidente Lula. A zelite empresarial também não parece descontente, a não ser quanto a um ponto ocasional ou outro. A zelite das empreiteiras, então, nem se fala. A zelite artístico-intelectual, além de não ter poder concreto para nada, não costuma pensar uniformemente. Não me ocorre nenhuma outra zelite à qual se possa atribuir a culpa dos infortúnios enfrentados pelos réus do mensalão. Quem aprontou a trapalhada foram eles, mas a culpa não é do despreparo e dos erros deles, é da zelite.

A palavra já cria raízes em nossa terminologia política e, ao que tudo indica, terá vida longa, porque serve para fingir que se está explicando alguma coisa. Foi pegado com a boca na botija ou mentindo deslavadamente, os planos deram errado? Distribua uma nota ou faça um discurso, mostrando como a responsável é a zelite. O pessoal ganha, chega ao poder já pela terceira vez, está no topo da zelite governante e, no entanto, a zelite, até mesmo através do voto, fica atrapalhando. É por essas e outras que dá vontade de arrolhar a zelite e sua imprensa e estabelecer aqui uma verdadeira democracia, igual à da Coreia do Norte.

Busca da renovação - MERVAL PEREIRA



O GLOBO - 21/10


Confirma-se uma tendência que já havia dominado o primeiro turno das eleições: o número recorde de votos brancos e nulos registrado pela pesquisa Datafolha, juntamente com o grande índice de indecisos às vésperas do segundo turno, mostra o eleitor em busca do novo, insatisfeito com as opções que os partidos políticos estabelecidos lhe oferecem. E não apenas de nomes novos, mas de atitudes novas.

O fenômeno foi exacerbado em São Paulo, onde 30% dos eleitores se abstiveram ou votaram branco ou nulo, atitude que as pesquisas indicam se repetirá no segundo turno da escolha do prefeito paulistano. Mas essa tendência foi registrada em todo o país, com uma média de 25% de não voto, índice muito fora do padrão histórico das últimas eleições.

Em várias capitais, mesmo naquelas em que o resultado foi definido no 1º turno, o não voto foi o segundo colocado, isto é, o candidato que chegou em segundo lugar, muitas vezes indo para o 2º turno, teve menos votos do que a soma dos eleitores que optaram por não votar.

Tudo indica que estamos entrando em uma fase de nossa vida partidária em que vai se revelando o desgaste de material do sistema que está montado em torno de partidos políticos esterilizados por uma mecânica de coalizão autofágica. O país põe em marcha sistemas que tentam organizar minimamente essa orgia de siglas que nada significam, como a Lei da Ficha Limpa, que começou a vigorar aos trancos e barrancos nestas eleições.

Mas ainda temos muito a caminhar para chegarmos a um sistema político-partidário que reflita uma sociedade madura. Em uma votação obrigatória, haver 30% de não votantes é sem dúvida uma marca que merece registro dos que se preocupam com o rumo de nossa sociedade, uma clara reação negativa do eleitor médio.

Se o Parlamento representa com justeza a média da sociedade que o elege, há um registro de parte ponderável dela se recusando a continuar participando do jogo nos termos em que ele está colocado. E por outra parte a busca do novo reflete essa espécie de angústia existencial do eleitor, mesmo que se revista de equívocos, como seria o caso de uma vitória de Celso Russomano em São Paulo, ou a de Ratinho Jr., em Curitiba.

Ambos casos emblemáticos, o curso da história está sendo transformado pelos próprios eleitores. Em Curitiba, a busca do novo vai se encaminhando para o leito certo, o ex-deputado Gustavo Fruet, uma das lideranças jovens mais promissoras do PSDB que, por questões de política regional, foi buscar votos em outras paragens.

Em São Paulo, o que parecia novidade acabou desconstruído a tempo de não chegar ao 2º turno, prevalecendo nesse caso as máquinas partidárias mais fortes. Provavelmente qualquer candidato dos dois partidos teria ido para o 2º turno, mas é preciso ressaltar que o PT levou ao eleitor uma alternativa diferente do prato feito tradicional, mesmo que tenha realizado esse aggiornamento de maneira autoritária, com um dedazo de Lula.

Diante do desfecho favorável iminente, fica demonstrado mais uma vez que Lula tem um faro político que lhe permite compreender com antecedência para que lado o vento sopra, e a busca do novo foi sua decisão fundamental. O PT reafirmou ser uma formidável máquina partidária, e não apenas em SP. O que não impediu que sofresse derrotas memoráveis, como em Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre. E provavelmente sofrerá outras, importantes, no 2º turno, em Salvador e Manaus.

O mesmo movimento inevitável terá que ser feito necessariamente pelo PSDB, que passará por uma ampla revisão nacional sob o comando explícito do senador Aécio Neves, que saiu da eleição municipal fortalecido na imagem de líder nacional e assumindo o papel de candidato potencial do partido em 2014.

A modernização da direção nacional do partido, em nomes, atitudes e posicionamento, será o ponto de partida para a união das forças oposicionistas. Embora esfacelada a nível congressual por essa política de coalizão autofágica a que já nos referimos, a oposição mostrou-se nas urnas capaz de ação política importante.

Fora do poder há dez anos, o PSDB continua sendo o segundo maior partido em número de prefeituras e vereadores, o que sinaliza uma boa votação para o Congresso em 2014. E a oposição encontrou fôlego para dar sinais vitais importantes no Norte e Nordeste, regiões onde o governismo lidera.

Outro polo de poder saído das eleições, o PSB marca sua independência, ensaia movimentos conjuntos com o PSDB, mas tende a permanecer na base aliada enquanto for possível conviver com a hegemonia petista. Há tempo para amadurecer o projeto de alternância à sombra do poder atual, até que o quadro se ilumine.

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