Saturday, May 22, 2010

Leia entrevistas com opositores das Farc


21/05/2010 21:35

Por Ana Claudia Fonseca

(Foto: )

"Os terroristas estão encurralados"

Juan Manuel Santos preparou-se a vida toda para chegar à Presidência, mas acabou vítima do próprio sucesso. Perdeu o favoritismo porque o combate ao narcoterrorismo deixou de ser prioridade para os eleitores. Santos deu a seguinte entrevista para a jornalista Ana Claudia Fonseca, por e-mail.


O senhor acha que os colombianos já estão prontos para encerrar o capítulo da guerra civil?
O que temos aqui não é guerra civil, mas uma ameaça terrorista. Deu muito trabalho chegar onde chegamos. Custou-nos muito esforço, sacrifício, sangue e persistência. E agora que os terroristas estão encurralados, poderemos prestar mais atenção ao investimento social, à saúde, à educação, à construção de casas para todos. Devemos defender o legado do melhor presidente que a Colômbia já teve. Para o bem dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos, temos que continuar avançando para que todos os colombianos tenham trabalho, trabalho e mais trabalho. Meu governo será o governo do trabalho.

Como pretende lidar com a corrupção no governo?
Vamos apresentar reformas constitucionais e legais para duplicar as penas dos corruptos. Buscaremos que esses delitos não prescrevam porque a luta contra a corrupção tem que ser tão contundente quanto a luta contra a guerrilha, o narcotráfico e os paramilitares, que somados são os “quatro cavaleiros do Apocalipse” que vêm assolando a Colômbia. Usando um termo militar, formaremos uma força-tarefa dedicada exclusivamente a perseguir os corruptos.

O senhor faria uma revisão do acordo militar com os EUA se isso ajudasse a melhorar a relação da Colômbia com os vizinhos?
Não renegociaria o acordo, já que fui eu quem o negociou sendo ministro da Defesa de Uribe. Cada vez que me perguntam sobre esse tema, repito a mesma coisa: fizeram uma tempestade em copo d’água. Quem ler esse acordo vai ver que não há nada nele, absolutamente nada, que permita pensar que se busca agredir um terceiro país.

Nas pesquisas de opinião o senhor aparece empatado com Mockus. O que explica o crescimento do candidato do Partido Verde?
É um modismo. Espero que possamos decantar o conteúdo dessa onda: o que ele propõe, qual é seu conhecimento de governo e quais são

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"Não negocio com as Farc"

Filho único de imigrantes lituanos, esse ex-professor de matemática de fala mansa, andar hesitante e gestos tranquilos se transformou, em apenas dois meses, num dos favoritos para vencer a eleição presidencial colombiana. Sua ascensão meteórica e seu discurso duro contra as Farc renderam-lhe várias ameaças de morte, que ele teima em ignorar. Mockus falou com a jornalista Ana Claudia Fonseca durante uma viagem de carro entre as cidades de Manizales e Pereira.


Se eleito, o que pretende manter e o que pretende mudar da política de seguridade democrática de Álvaro Uribe?
Quero rediscutir o tema do narcotráfico, que hoje corresponde a entre 1 e 2% do nosso PIB. Além dos custos econômicos, o tráfico de drogas custa a vida de milhares de jovens por ano. Isso tem de acabar. Minha ideia é transformar essas mortes em um tabu. Acho que o temor às sanções, mais o temor às crenças, mais o temor à culpa, que compõem o tabu, podem mudar essa situação. Por isso repetimos sempre nos nossos comícios a frase “a vida é sagrada”. Temos de recuperar o mandamento “não matarás” como proibição absoluta, e não relativa.

Acha que os eleitores entendem essa mensagem?
A maioria acha estranho eu falar de vidas sagradas em vez de mortes. Mas o bordão acabou pegando e hoje é repetido inclusive por outros políticos. Estou acostumado a ser incompreendido.

A sua campanha baseia-se no combate à corrupção e à má qualidade da educação na Colômbia. Como pretende lidar com esses problemas?
A distribuição desigual da educação é um dos grandes problemas do país. Se no campo os jovens estudam em média seis anos, nas grandes cidades estudam dez anos. E, se olharmos para a qualidade de ensino, essa desigualdade aumenta ainda mais. Na Colômbia ainda há muita desigualdade, de propriedade e de educação, então precisamos consertar isso através de uma reforma tributária que corrija o desequilíbrio de rendas. A economia de mercado em sua versão colombiana tende a gerar desigualdades muito grandes. A carga tributária na Colômbia é de 18%, a do Brasil, acredito, é de 32%. Uma carta alta não é o problema. O problema é usar os recursos de maneira ineficiente.
Eu acredito que a corrupção na Colômbia seja periférica. Explico: Quando eu era reitor (da Universidade Nacional de Bogotá), recebi uma carta de um senador recomendando uma estudante para o curso de Medicina. Ignorei e não interferi no processo do concurso. Não digo mentiras. Se uma pessoa passa em um concurso por um favor, é uma infâmia. Mas se passa por esforço próprio, vê sua auto-estima aumentada. Precisamos melhorar a auto-estima do país.

Como vê a relação entre Colômbia e Brasil?
É uma relação boa, de respeito mútuo. Obviamente, a interdependência tende a crescer, o comércio bilateral tende a crescer. No momento, a relação é um pouco desequilibrada. Mas há muitos colombianos interessados em investir no Brasil, há muitos jovens estudantes colombianos doutorando-se no Brasil. Acredito que, hoje em dia, os países não podem se isolar. Têm que aceitar um destino comum.

Como seria sua relação com Hugo Chávez?
Acredito que a Colômbia só atingirá seu potencial econômico se contar com os países limítrofes. Quanto mais dependermos uns dos outros, mais incentivos teremos para manter as relações diplomáticas no melhor estado. Mas temos que pensar com prudência e muita diplomacia as relações com o governo de Caracas.

Por que o senhor diz que seria mais fácil as Farc fecharem um acordo com Uribe?
Porque o presidente Uribe tem um treinamento técnico em negociações. E ele adoraria obter esse troféu antes do fim do seu mandato. Minha posição é que a Constituição é indiscutível. As fontes econômicas das Farc são a extorsão, o sequestro e o narcotráfico. É uma diferença importante com o que o grupo era nos anos 70. Hoje o grupo não tem mais uma ideologia política. Por isso, é imprescindível que as Farc aceitem a Constituição colombiana. Se não aceitarem, serão vistas como uma força extraterritorial. Seus membros serão detidos e processados conforme a Constituição. Por isso eu digo, se as Farc estão atrás de um acordo, que tentem obtê-lo de Uribe. Ainda restam dois meses. Corram.

Como explica o entusiasmo dos jovens com sua candidatura?
Tenho uma equipe muito boa que sabe falar a mesma língua dos jovens. Hoje tenho mais de 3.000 seguidores no Twitter e mais de 600.000 amigos no Facebook. Quando era prefeito de Bogotá, investi 5 milhões de dólares em computadores para as escolas. Acredito que a internet é um meio democrático. Não há hierarquia na rede, não é preciso fazer reverências. Há um grande nível de cidadania. Os jovens colombianos encontraram na minha campanha uma maneira forte de se expressar, de expressar o descontentamento com o país.

Quando era prefeito de Bogotá, o senhor saiu na rua de jaleco branco com um coração pintado no peito como alvo para os franco-atiradores. Isso em um país onde três presidentes foram assassinados. As ameaças de morte não o preocupam?
Nem um pouco. Acho que, de algum modo, minha incapacidade de sentir ódio me protege. Seria um desperdício me matar porque todos os colombianos perderiam com isso. Posso ser útil de várias maneiras. Se quiserem me tirar da disputa, basta inventarem rumores como o de que sou ateu.

O senhor é a favor da descriminalização das drogas para combater o narcotráfico?
Não. Sei que alguns países fazem isso, mas na Europa e nos Estados Unidos as pessoas não se matam por drogas como acontece no México e na Colômbia. Hoje, se vejo um traficante com correntes de ouro no pescoço, logo penso que é um traficante. Daqui a cinco anos espero que, quando vir um colombiano usando correntes de ouro, ache um crime de mau gosto, mas não fique com medo.

Quais foram os acertos e desacertos da diplomacia colombiana nos últimos oito anos?
Os acertos foram apresentar a Colômbia como um destino de oportunidades para o turismo e o investimento e a política de co-responsabilidade com países consumidores de drogas. O maior erro foi não investir numa política exterior. Por exemplo, com os vizinhos privilegiou-se uma política de microfones, personalista. Em meu governo, a relação com os países será a nível de Estado, não de pessoas.

Por que decidiu contar que tem Mal de Parkinson?
Minha campanha é baseada na transparência e na honestidade. Estaria mentindo se escondesse minha condição.

A campanha está sendo muito cansativa?
Sim e não. Em certos sentidos, acho que daqui a algumas semanas vou sentir saudades dessa correria. Minha esposa insiste muito para que me deixem dormir.
suas propostas concretas. Digo isso porque as ondas passam, aproximam-se da costa, quebram contra a orla e deixam de existir. Assim, é importante esperar a onda passar para ver o que ela deixou para trás. Nesta eleição precisamos decidir se daremos um salto ao vazio ou se protegeremos o legado do presidente Uribe. Não podemos correr o risco de destruir a obra do presidente, que nos ajudou a deixar para trás esses anos infernais de violência. Se o símbolo desse governo foi a “seguridad democrática”, o símbolo do meu governo será a prosperidade democrática, a prosperidade para todos.

Quadro: Como um país normal


Esperteza Atômica


Passada a marolinha diplomática do Brasil no Oriente Médio,
ficou claro que o megalonanismo da diplomacia brasileira
serviu mesmo para acobertar os objetivos bélicos dos iranianos


Duda Teixeira

Atta Kenare/AFP
RAPOSA ESPERTA E CANARINHO MEGALONANICO
À direita, Ahmadinejad canta vitória ao lado de Lula, em Teerã: o "acordo" não durou um dia

Nada do que aconteceu na última semana – nem o "acordo" celebrado com euforia por Brasil e Turquia em Teerã, nem a proposta americana de sanções ao regime dos aiatolás – alterou a seguinte realidade:

• O Irã continua tocando no mesmo ritmo seu projeto nuclear bélico, do qual faz parte também um veículo lançador de ogivas e para o qual até o primeiro alvo já foi escolhido e reiteradamente declarado – Israel, país que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, não perde a chance de dizer que precisa ser "varrido do mapa."

Os cientistas iranianos já transpuseram a fase mais difícil, que consiste em enriquecer o urânio a 3,5%. A partir desse ponto, a infraestrutura e o conhecimento necessários para produzir urânio a 90%, o combustível das armas nucleares, estão praticamente garantidos. Bastam algumas modificações, como instalar as centrífugas em cadeia. "O país já trilhou 80% do caminho para ter um arsenal nuclear", diz a física búlgara Ivanka Barzashka, da Federação de Cientistas Americanos, em Washington. O Irã tem 2.300 quilos de urânio, quantidade suficiente para produzir material para duas bombas atômicas. Em menos de um ano, o país conseguirá adaptar as instalações já existentes e enriquecer o urânio a 90%. O passo seguinte é colocar o material em uma ogiva e instalá-la na ponta de um míssil, com um detonador eficiente. Os engenheiros a serviço dos aiatolás estão projetando esses artefatos. Estima-se que essa fase demore entre três e cinco anos. Ou seja, no cenário mais pessimista, em 2013, antes que o Brasil consiga terminar de reformar os seus estádios para a Copa do Mundo, o Irã já terá a bomba atômica. Enquanto isso, a comunidade internacional assiste a tudo inerte.

Em relação ao "acordo", acertado depois de onze horas de negociação entre diplomatas brasileiros, turcos e iranianos em Teerã, este se desintegrou menos de 24 horas depois de ser assinado. A Declaração Conjunta de Irã, Turquia e Brasil foi divulgada na segunda-feira 17, com a presença do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, do presidente Lula e do iraniano Mahmoud Ahmadinejad. O texto traz uma série de palavras que parecem tiradas de uma reunião de terapia de casais, como "processo prospectivo" e uma "atmosfera positiva, construtiva, não confrontacional", mas não fala em momento algum em suspender o enriquecimento de urânio pelo Irã. Isso prova que o "acordo" foi elaborado como uma peça de propaganda da liderança global almejada por Brasil e Turquia e como um instrumento para o Irã adiar as sanções que os Estados Unidos querem lhe impor. No mesmo dia em que Lula, Erdogan e Ahmadinejad se abraçaram e ergueram os dedos em V de vitória, o ministro de Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, disse que seu país não abdicará de enriquecer urânio a 20% – a meio caminho para a tecnologia da bomba.

O consolo é que o documento não possui nenhuma legitimidade. Lula viajou para Teerã sem representar ninguém, exceto o Brasil. Não falava em nome da ONU, do Conselho de Segurança (CS) ou de qualquer outro grupo de países capazes de desempenhar a tarefa mais difícil: policiar o cumprimento das promessas iranianas. Pelo "acordo", o Irã deve entregar 1 200 quilos de urânio levemente enriquecidos à Turquia. Em menos de um ano, o Grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia, França e AIEA) devolveria 120 quilos de urânio a 20% para uso médico e pesquisas. Mas o Grupo de Viena não participou das conversas em Teerã nem de sua preparação. "É como se uma pessoa vendesse a alguém 1 tonelada de pão sem combinar antes com o padeiro", diz Maristela Basso, professora de direito internacional da Universidade de São Paulo. Em direito, quem faz isso é chamado de gestor de negócios alheios. "O resultado é que, para outros chefes de estado, Lula se tornou um interlocutor não confiável, que negocia sem procuração", diz Maristela. A diplomacia brasileira entrou nessa enrascada com o intuito de aumentar sua influência internacional, mas saiu com uma estatura política ainda menor.

O único vencedor foi o Irã, que espertamente ganhou um álibi para se fazer de vítima quando o CS votar as sanções propostas pelos Estados Unidos. O assessor especial de Lula, Marco Aurélio "top, top" Garcia, numa demonstração de que o seu negócio é mesmo defender os interesses iranianos e não a segurança mundial, rogou uma praga: "Se os Estados Unidos optarem pela sanção, vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política". Em junho, o México substituirá o Líbano na presidência do CS e deve abrir caminho para a votação das sanções contra o Irã. Rússia e China, que relutavam em aprovar mais punições por ter negócios com os iranianos, consentiram depois de os americanos abrandarem as medidas do embargo. O objetivo principal ago-ra é sufocar a Guarda Revolucionária, criada após a revolução islâmica, em 1979, e que hoje domina boa parte da economia, incluindo a indústria nuclear. "Mais do que conter o programa militar iraniano, a esta altura já bastante adiantado, essas sanções servem como mensagem a outros países árabes que também poderiam desejar a bomba", diz o embaixador Rubens Barbosa. Se os Estados Unidos, sob o presidente Barack Obama, assumem com timidez o seu papel de superpotência e não conseguem barrar a ameaça atômica do Irã, ao menos pode-se esperar que o problema não se alastre.

A nota mais alta da TV


A série Glee tomou o mais boboca dos gêneros – o musical escolar – e
o converteu em um programa ao mesmo tempo ácido e comovente.
É um fenômeno de audiência. E ainda emplaca discos nas paradas


Marcelo Marthe

Fotos divulgação
QUAL É A MÚSICA?
Os cantores juvenis de Glee: a vingança dos desajustados


Com seus modos delicados e voz efeminada, o americano Chris Colfer era ridicularizado pelos colegas de escola. Sua maior humilhação se deu em um concurso de canto, no qual foi proibido de interpretar um número de um musical da Broadway, porque a direção achou aquilo coisa de mulherzinha. Em 2008, aos 18 anos, o rapaz amargou outro fracasso: foi reprovado em uma audição para uma série de TV. Logo em seguida, contudo, os produtores lhe acenaram com novo teste, para o papel de um jovem gay que busca superar a baixa autoestima devotando-se ao coral da escola. A série era Glee. Seu autor principal, Ryan Murphy, criou o personagem Kurt Hummel inspirado em Colfer – que deu a volta em seu histórico de pária. "Chegou a hora de aqueles que me humilhavam pagarem", disse ele à revista Rolling Stone. Esse espírito de retribuição é um dos nortes da série. Glee fala de um grupo de alunos que, na escala darwinista da escola secundária americana, são tachados de losers (perdedores). Além de Kurt, a turma inclui um paraplégico, uma negra gordinha e uma judia filha de pais gays. Sob a batuta de um professor de espanhol – portanto, ele próprio no último degrau da cadeia alimentar docente –, eles buscam a redenção no clube Glee do título, atividade extracurricular que inclui apresentações de canto e dança. A própria série era um azarão: o musical era tido como gênero apropriado unicamente a reality shows e ao universo pré-pubescente de programas como High School Musical. Fora desses nichos, pontificava-se, seria receita certeira para o fiasco. Lançada nos Estados Unidos no ano passado, Glee revelou-se, ao contrário, um sucesso de audiência instantâneo. Também se tornou uma série cultuada no Brasil, onde terá sua primeira leva de treze episódios lançada em DVD nesta semana, enquanto se aguarda a estreia da segunda parte da temporada inaugural no canal pago Fox, em julho.

Mais importante, Glee ascendeu à categoria de fenômeno cultural. Os CDs com seus números musicais entraram na parada americana. E as versões de hits do passado entoadas por seus personagens colocaram velharias no ranking das faixas mais baixadas do iTunes. Glee se beneficia do interesse do público por programas que exploram os percalços da construção de estrelas musicais, como American Idol e Britain’s Got Talent. Não à toa, a maior revelação desse último, a cantora Susan Boyle – tão improvável quanto os desajustados do clube Glee –, poderá fazer uma participação na série em breve. Glee vale-se de músicas conhecidas, verdadeiros clichês do pop, de forma tão inesperada quanto precisa. No episódio piloto, ressuscitou Don’t Stop Believing, sucesso de 1981 do grupo Journey, para exprimir de maneira verdadeiramente tocante a vontade de vencer dos alunos enjeitados. Em outro episódio, Dancing with Myself, de Billy Idol, embalou o momento em que Artie, o aluno da cadeira de rodas, expressa sua solidão. É como se, ao serem encaixadas na trama, essas canções banalíssimas encontrassem enfim um sentido. Ao perceber a força dessa vitrine, Madonna liberou suas músicas para um programa exibido há algumas semanas. Lady Gaga seguiu seu exemplo. Na próxima terça-feira, vai ao ar nos Estados Unidos o episódio em que o gay Kurt – que já foi pego no flagra pelo pai dançandoSingle Ladies, de Beyoncé, com um colante preto – soltará suas feras imitando o figurino extravagante da cantora.

O clímax do episódio de Madonna é uma recriação do clipe de Vogue estrelada por uma dublê insólita da cantora: Sue Sylvester, a treinadora masculinizada do time de animadoras de torcida. Interpretada pela atriz Jane Lynch com canastrice ora odiosa, ora patética, a personagem teria participação curta. Mas, graças à habilidade da atriz, impôs-se como vilã – e também como a principal porta-voz da incorreção política de Glee. Transbordante de preconceitos contra as minorias, a megera caricata rouba a cena, mas não é o único canal da subversão. Glee celebra a tolerância, mas o faz sem hipocrisia. Os membros do clube podem ser ferozmente competitivos e até mesquinhos. A cantorinha Rachel (Lea Michele) passa por cima dos colegas diante de qualquer chance de se impor como estrela. Sua rival, a cheerleader Quinn (Dianna Agron), posa de cristã pró-virgindade – mas fica grávida de um bad boy e mente ao dizer que o pai da criança é o cantor-galã do colégio. O produtor Ryan Murphy já havia exercitado a provocação na série sobre cirurgia plástica Nip/Tuck. Homossexual militante, ele se esbalda nas referências coloridas (o termo Glee alude a uma forma antiga de coral, mas também à cantoria alegre – não sem conotação gay). Recentemente, acusou a revista Newsweek de homofobia, por publicar um artigo em que se defendia a ideia de que atores gays não deveriam fazer papéis de machões. Retrucou Murphy: "Glee é a prova de que a diversidade é possível. Temos atores homossexuais fazendo personagens héteros, e vice-versa". Bem de acordo com o espírito instigante da série, ele não informa quem é quem.

PROVOCAÇÃO DA TORCIDA
A treinadora Sue Sylvester (Jane Lynch, à esquerda), vilã da série,
e a cheerleader dissimulada Quinn (Dianna Agron): trama colegial eivada
de incorreção política e subversões

Os palanques vespertinos


Programas como os de Ratinho e Datena ganharam relevância inédita
na atual corrida eleitoral. O que os candidatos e os apresentadores
buscam faturar com isso

Fotos Luiz maximiniano e Danilo Verpa/Folha Imagem
ENTRE O CIRCO E O SANGUE
Dilma Rousseff, com novo penteado, no programa de Ratinho na semana passada (à esq.),
e José Serra na entrevista com Datena: "Bom para todo mundo", diz o apresentador


Na última segunda-feira, Dilma Rousseff desembarcou de helicóptero na sede do SBT, na Grande São Paulo, para gravar uma entrevista que foi ao ar naquela tarde no Programa do Ratinho. Ao ver a pré-candidata do PT à Presidência com novo penteado e toda maquiada, o apresentador não se conteve. "Foi aquele japonês chato que consertou o seu cabelo?", perguntou (Ratinho se referia ao cabeleireiro Celso Kamura). Dilma se submeteu então a mais de vinte minutos de bate-papo. Na semana anterior, o tucano José Serra havia passado por maratona semelhante. E assim se confirma: na atual pré-campanha presidencial, os programas populares ganharam uma relevância inédita. Em março, Serra admitiu pela primeira vez sua candidatura em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da Band. Depois, foi ao policialesco comandado por ele, o Brasil Urgente. Dilma também esteve lá. "Serra deu um banho. Já Dilma começou nervosa, mas se recuperou. Acabou sendo bom para todo mundo", diz Datena.

Ao comparecerem a esses programas, os candidatos têm na mira principalmente as mulheres da classe C, que são parte significativa da audiência deles. "Esse público é uma espécie de sensor dos anseios da população. São elas que levam as crianças à escola e vão aos postos de saúde", diz o cientista político Rubens Figueiredo. Por isso, os candidatos se esforçam para exibir uma linguagem simples e falar de temas que preocupam essa audiência. No Programa do Ratinho,Serra falou sobre segurança e prevenção do câncer no colo do útero, enquanto Dilma enalteceu os programas sociais do governo petista. Mas os dois perseguiam objetivos distintos. Para Serra, interessa consolidar a vantagem nas pesquisas entre as mulheres. Já Dilma deseja quebrar a resistência delas à sua candidatura. Ela passou a entrevista tentando colar sua imagem à de Lula e vendendo a ideia de que é "gente como a gente". No que, aliás, teve uma forcinha. Se havia sido simpático com Serra (e, semanas antes, com Marina Silva), Ratinho estava visivelmente efusivo na entrevista com Dilma. "Levanto a bola para todos. Senão os candidatos ficam com medo de voltar", diz.

Serra e Dilma mantiveram inalterada a média de Datena, na casa dos 5 pontos. No Ratinho,Serra levantou o ibope, com 6 pontos, enquanto Dilma derrubou o índice para 4. A audiência não é, contudo, o que mais conta nesses casos. Para Ratinho, cuja atração é um verdadeiro circo, e Datena, que inunda os lares com sangue, a presença dos candidatos traz respeitabilidade. E isso atende a um cálculo comercial: nada melhor do que uma imagem de seriedade para atrair anunciantes mais qualificados – que, ao contrário dos presidenciáveis, têm sérias reservas aos programas popularescos.

Órfãos da ilha

Será difícil que o último capítulo da série Lost consiga resolver todos

os enigmas acumulados ao longo de seis temporadas. Sem sua dose
semanal de mistério, uma legião de fãs fica desamparada


Bruno Meier

Divulgação
SOBREVIVENTES DA AUDIÊNCIA
O elenco da última temporada de Lost faz pose de Santa Ceia: distorções temporais,
monstros e ursos-polares


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Para além de seus resultados de audiência – ótimos nos primeiros anos, decepcionantes a partir da terceira temporada –, a série Lost é um fenômeno de repercussão. Os mistérios que cercam a ilha do seriado, onde se abrigaram os sobreviventes da queda de um avião que saiu da Austrália com destino aos Estados Unidos, alimentam inúmeros fóruns de fãs na internet, com as mais doidas especulações sobre a chave dos enigmas. Os lostmaníacos discutem cada episódio como quem faz a exegese de um texto sagrado – e até fotos de divulgação como a que aparece acima, em que os heróis estão dispostos em torno de uma mesa à maneira da Santa Ceia, foram microscopicamente examinadas à cata de significados secretos. O criador da série, J.J. Abrams, sempre jurou que sabia exatamente para onde estava conduzindo a história. Os fãs esperam que uma solução abrangente e satisfatória para os muitos mistérios que ele levantou seja dada no último episódio, que será exibido neste domingo nos Estados Unidos e na terça-feira no Brasil, pelo canal pago AXN. Mas, há duas semanas, em um evento pomposo organizado pela rede ABC, em Los Angeles, para celebrar o encerramento do programa, o ator Michael Emerson – que interpreta o manipulador Benjamin Linus – providenciou um choque de realidade. "Teremos pontas soltas em número suficiente para passar o resto da vida tentando entender tudo", disse aos jornalistas presentes.

Repleta de laboratórios subterrâneos, distorções do espaço-tempo, monstros de fumaça e ursos-polares, a ilha tropical de Lost de fato guarda esquisitices demais para explicar em um único episódio final, ainda que com duas horas e meia de duração (e a versão em DVD, que sai em agosto nos Estados Unidos, terá vinte minutos extras). Nesta sexta e última temporada, surgiu um universo paralelo, no qual o avião não caiu. O produtor executivo da série, Carlton Cuse, afirmou ao jornal The New York Times que essa realidade alternativa "vai provocar um debate saudável depois da série" (exatamente: depois da série). Esse volume avassalador de enigmas, somado ao excesso de personagens, tornou-se um problema a partir da terceira temporada – quando se firmou a impressão de que os autores estavam mais perdidos que os sobreviventes do acidente. Com 18 milhões de espectadores nos episódios de estreia nos Estados Unidos, a série teve uma queda brusca de 30% em sua audiência a partir do terceiro ano. Seu final, porém, está muito bem cotado no mercado publicitário americano: um comercial de trinta segundos custará de 850 000 a 950 000 dólares (em um episódio da temporada anterior, o mesmo tempo saía por 210 000 dólares).

Para os fãs brasileiros, a ansiedade de acompanhar a evolução dos enigmas foi mitigada por uma nova forma de ver televisão – pela internet. Sem paciência para esperar a exibição no país, muitos baixavam os episódios de sites piratas logo depois de eles terem ido ao ar nos Estados Unidos. Ainda que irregular na qualidade, a série sem dúvida foi fenomenal no modo como galvanizou a atenção do público em torno de suas esquisitices. Os recém-cancelados Heroes eFlashForward tentaram seguir Lost em sua mistura eclética de elementos – ficção científica, sobrenatural e drama, tudo bem sacudido por uma narrativa que dá saltos no tempo. Mas não chegaram lá. Fringe, também de J.J. Abrams, ainda resiste no ar, mas nem de longe ocasionou a mesma explosão de teorias pela internet – algumas mais criativas (ou doidas, dependendo da perspectiva) do que o próprio roteiro da série (veja três exemplos no quadro ao lado). A aposta da rede americana ABC para substituir Lost é a série No Ordinary Family, sobre uma família que, após um acidente de avião (outro) na Floresta Amazônica, descobre possuir superpoderes. A lacuna que Lost deixa, porém, vai além da televisão: uma legião de fãs ficará órfã dos mistérios da ilha. E, pelo que parece, de solução para eles.


A conspiração das teorias

Três explicações populares em discussões de fãs para os mistérios de Lost

Purgatório
Os passageiros morreram em 2004, no acidente do voo 815 da Oceanic Airlines. Todas as temporadas, portanto, se passariam no além
Ponta solta: seis sobreviventes saíram da ilha na quarta temporada e voltaram para o mundo real. Teriam ressuscitado?

Universo paralelo
O personagem conhecido como Homem de Preto (ou Monstro de Fumaça) consegue liberar o eletromagnetismo (!) da ilha, criando o universo paralelo mostrado na sexta temporada
Pontas soltas: todas. Se o que vale é o universo em que o avião não caiu, então nenhum dos mistérios da ilha precisa ser esclarecido?

Todo mundo louco
Tudo é alucinação dos personagens – estariam todos internados em um instituto, para tratamento de esquizofrenia
Pontas soltas: ilusões compartilhadas por mais de uma pessoa são difíceis de verificar. E, ao longo da série, nas várias cenas do passado dos personagens, todos pareciam bem lúcidos

Antes da música, muito barulho


Relançado em uma edição especial, Exile on Main St., dos Stones, foi criado em um ambiente de devassidão babilônica.É um dos discos malditos da mitologia roqueira – e a obra-prima da banda


Sérgio Martins

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Era 1971, e o caos reinava numa casa do sul da França que servira de bunker para os nazistas na II Guerra. O anfitrião, entorpecido pela heroína, dirigia perigosamente pelas ruas da cidade e chegou a ameaçar um casal de turistas com uma faca. Sua mulher oferecia drogas até para as babás do filho. E os demais hóspedes formavam uma trupe indômita, que instaurou um clima de vale-tudo sexual. Foi nesse ambiente de devassidão babilônica que o guitarrista Keith Richards – então casado com a modelo Anita Pallenberg – e seus convidados, os Rolling Stones, criaram um dos mais influentes álbuns do rock. Exile on Main St., que acaba de ser relançado em edição especial, com dez faixas inéditas e um DVD com um documentário sobre as gravações (imperdoavelmente ausente na edição brasileira), é um disco emblemático. Poucas vezes o grupo inglês soou tão sujo e sem adornos, em canções que iam do blues ao rock cru. E nunca mais os Rolling Stones reuniriam composições tão espetaculares em um único álbum. Alguns pagaram caro por isso. O guitarrista Mick Taylor chegou limpinho ao refúgio francês. Saiu viciado em heroína. Deixaria a banda três anos depois. Na mitologia do rock, Exile tem seu lugar entre os discos "malditos" – aqueles que são gravados em meio a consumo desenfreado de drogas e choque de egos inflados.

Há exemplos ainda mais lapidares: Smile, dos Beach Boys, é tão maldito que não chegou a ser gravado pela banda. Depois do elogiado Pet Sounds, de 1966, Brian Wilson, líder criativo do grupo, afundou-se nos alucinógenos e não conseguiu mais pôr suas ideias em prática – ou realizou só as piores delas, como gravar latidos de cachorro. No lugar do projetado Smile, em 1967 apareceu Smiley Smile, um álbum irregular feito em parte com sobras de Pet Sounds. Em carreira-solo, Wilson lançaria sua versão de Smile, quarenta anos mais tarde. Poucos anos depois, também os Beatles viveriam dias de tensão para gravar Let It Be – agravada pelas hostilidades palpáveis provocadas pela presença de Yoko Ono, a mulher de John Lennon. Em 1970, quando a gravadora EMI afinal lançou o disco, a banda já se havia desfeito. The Wall(1979), do Pink Floyd, é outra obra de um grupo em vias de dissolução. Do alto de sua egotrip, o baixista Roger Waters demitiu o tecladista Richard Wright e passou a falar com os outros membros da banda por intermédio do produtor Bob Ezrin – que também não estava em seus melhores dias, por causa de um divórcio. O pior dos mundos, porém, se dá quando brigas, estrelismo e abuso de substâncias se combinam, como ocorreu em Be Here Now, do Oasis. O clima era tão ruim que alguns dos músicos tocavam com desleixo apenas para boicotar o arrogante Noel Gallagher, principal compositor do grupo, que andava se achando o gênio do pop.

Talvez não haja disco mais maldito, porém, do que Presence (1976), do quarteto inglês Led Zeppelin. A relação dos músicos até ia bem, mas a bruxa andava solta: o vocalista Robert Plant sofreu um acidente de automóvel na Grécia e, depois de meses imobilizado na cama, gravou em uma cadeira de rodas. O guitarrista Jimmy Page quebrou um dedo e teve de tocar sedado. E a turnê do álbum foi interrompida quando um vírus raro matou Karac, filho de Plant. Presence é um dos trabalhos mais fracos do Led Zeppelin – ao passo que Exile é um título essencial dos Stones. Como em qualquer obra artística, o saldo final, sempre imponderável, não parece depender das circunstâncias da criação. O rock, porém, vive tanto do som quanto da lenda, que se reforça com esses casos de tumulto no estúdio. O barulho, enfim, precede a música.

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