Saturday, May 22, 2010

• Quadro: Pesados no estúdio


Fotos Michael Ochs Archives/Getty Images/Ian Dickson/Giuseppe Aresu/Rex Features

O sucesso do editor pop


Jorge Oakim era um economista sem experiência no mercado livreiro.
Como a Intrínseca, a editora que ele fundou em 2003, acabou se tornando
uma das maiores usinas de best-sellers do país


Jerônimo Teixeira

Ernani d’Almeida
MUITAS CORES
Jorge Oakim, o editor da série Crepúsculo: expansão nas vendas e na sede da editora


No jargão das artes gráficas, "quatro cores" é sinônimo de "multicolorido". Refere-se às tintas ciano, magenta, amarelo e preto, que, combinadas, compõem todas as demais cores. No fim de 2003, quando estava para lançar o primeiro título de sua editora – o escandaloso Hell, romance da francesa Lolita Pille que falava do comportamento desregrado das adolescentes ricas de Paris –, o economista carioca Jorge Oakim conversava com o responsável pela impressão do livro quando este perguntou se a capa teria quatro cores. "Não, não, vai ter muito mais", replicou Oakim, orgulhoso. O episódio ilustra a ousadia (ou a temeridade) do empresário que se lançava em uma área sem sequer dominar seu vocabulário básico. Passados menos de sete anos, porém, a editora de Oakim surge como uma das mais competitivas do país. Hoje associada à Sextante, a Intrínseca tem uma bela lista de best-sellers – ocupa cinco posições na relação de mais vendidos em ficção de VEJA nesta semana, e já chegou a ocupar sete delas.

O sucesso recente da Intrínseca está amparado sobretudo em duas séries juvenis da fantasia –Crepúsculo, a saga romântico-vampiresca de Stephenie Meyer, e O Ladrão de Raios, estrelada pelos semideuses adolescentes criados por Rick Riordan. Na origem, porém, Oakim pensava em fundar uma editora dedicada à não ficção. Formado em economia pela PUC do Rio, em 1994, ele trabalhou brevemente no mercado financeiro. "Era muito infeliz", lembra. Depois, dedicou-se a administrar negócios imobiliários, também sem entusiasmo. Fundar uma editora era sua ideia fixa. "Eu gostava do ambiente das livrarias, de ver os lançamentos expostos. Queria fazer uma editora pop, mais de mercado", diz. E foi exatamente essa editora – pop, agressiva no marketing e na compra de direitos autorais – que ele montou.

Seu primeiro lance ousado ocorreu em 2002, na Feira de Frankfurt, o mais importante evento mundial do mercado livreiro. Oakim foi lá, na cara e na coragem, só para descobrir que as reuniões de negócios eram marcadas com antecedência. Mesmo assim, acertou a compra dos direitos de Hell. O salto da Intrínseca se deu em 2007, com A Menina que Roubava Livros,romance do australiano Markus Zusak que venderia mais de 1 milhão de exemplares. O acordo com os irmãos Marcos e Tomás Pereira, da Sextante, que adquiriram 50% da Intrínseca, permitiu que a editora expandisse as tiragens do novo best-seller, para atender à demanda. "A Sextante me possibilitou uma colocação mais agressiva no mercado. E nós temos filosofias parecidas", diz Oakim. Marcos Pereira concorda: "O negócio foi uma oportunidade de reconhecer o talento de um editor que é parecido conosco".

Nas próximas semanas, a Intrínseca está se mudando de uma simpática mas acanhada casinha na Gávea para um escritório de 290 metros quadrados em um prédio comercial no mesmo bairro. A expansão física responde ao impressionante aumento das vendas: de 725 000 exemplares em 2008 para 3,8 milhões em 2009 (marca que deve ser superada neste ano: até aqui, contabiliza-se 1,6 milhão de livros). O carro-chefe é a série Crepúsculo, cujos quatro títulos venderam 4,5 milhões de exemplares. A nova aposta da editora, recém-chegada às livrarias, é outro título juvenil com um pé na fantasia: Sussurro, de Becca Fitzpatrick, espécie de Crepúsculocom anjos no lugar de vampiros. Oakim, no entanto, resiste à ideia de classificar a Intrínseca como um selo juvenil: nesta semana, está lançando A Economia das Crises, de Nouriel Roubine, economista americano conhecido por seus prognósticos pessimistas. Mas, quando indagado sobre seus livros preferidos, Oakim cita sem hesitar O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, e O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Não é só a editora que tem espírito jovem, enfim – o editor também.

Anulação sedutora


Um poeta analisa o fraco dos intelectuais pelo totalitarismo


Nelson Ascher

Philippe Matsas/Opale
TESTEMUNHA DO HORROR
Czeslaw Milosz: em ensaios, o poeta polonês que viveu sob o nazismo e o comunismo tenta entender por que tantos se tornaram servos das ditaduras

Mente Cativa (tradução de Dante Nery; Novo Século; 248 páginas; 39,90 reais), do polonês Czeslaw Milosz, prêmio Nobel de Literatura de 1980, é um dos livros indispensáveis do século XX. Disseca um tipo moderno de política – o totalitarismo – que pretende se sobrepor à vida individual, conquistando-a e ocupando-lhe todas as esferas. O livro pertence à estirpe de 1984,de George Orwell, e O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Mas, ao contrário destes, é uma obra de não ficção. E Milosz, ao contrário dos outros dois autores, viveu mesmo sob um sistema totalitário – a Polônia comunista.

Considerado por muitos o melhor poeta polonês moderno, Milosz, em seus 93 anos de vida (morreu em 2004), foi testemunha dos horrores do século passado. Nascido em território que hoje pertence à Lituânia, então parte do império russo dos czares, ele começou a escrever na época do renascimento nacional da Polônia, que estivera desde o fim do século XVIII sob ocupação estrangeira. Foi a invasão alemã de seu país em 1939 que levou sua poe-sia a amadurecer, conforme buscava uma forma capaz de incorporar as tragédias de sua era. Vendo, de início, a chegada das tropas soviéticas como uma libertação, ele se aliou ao regime comunista, trabalhando como diplomata. Incapaz, porém, de se calar diante de tudo o que havia presenciado, em 1951 o poeta pediu asilo na França. Livre, enfim, para dizer o que queria, pôs-se imediatamente a redigir o livro que o tornaria famoso no estrangeiro, Mente Cativa. A obra foi atacada tanto pela esquerda, que via o autor como um traidor, quanto pela direita, que o acusava de tentar entender o comunismo em vez de apenas estigmatizá-lo.

Mente Cativa compõe-se de uma série de ensaios encadeados nos quais Milosz analisa o que leva intelectuais a abrir mão da liberdade para se render a um regime que pensa por eles. O autor estuda o caso de quatro escritores que conhecera – e que acabaram se tornando servos voluntários da ditadura absoluta. Escrevendo antes da morte de Stalin, ele fala do totalitarismo ainda em seu esplendor, antes que o contraste entre as promessas megalomaníacas do governo e a miséria cotidiana de seus prisioneiros tivesse reduzido o bloco soviético a uma farsa habitada por cínicos profissionais. Se isso poderia aparentemente tornar obsoleta a obra, o fato é que, em dias como os nossos, nos quais intelectuais defendem acordos com teocracias islâmicas e tentam impor a unanimidade de uma pretensa linha justa, sua análise da atração que estes sentem pelas piores tiranias continua atual e necessária.

Tsunami literário


2666, o caudaloso romance póstumo de Roberto Bolaño,
faz jus à fama heroica do escritor chileno. É uma torrente
de citações, ironias – e, sobretudo, de boas histórias,
narradas com prazer contagiante


Moacyr Scliar

Basso Cannarsa /Opale
ENCICLOPÉDICO E ANÁRQUICO
Roberto Bolaño: seu livro tem assassinatos em série e um escritor
de identidade misteriosa. Mas o maior enigma ainda é o título

Morto aos 50 anos, em 2003, de uma doença hepática, o chileno Roberto Bolaño converteu-se no escritor mais badalado deste início de século. Ganhou certa aura de herói das letras: o latino-americano exilado que levou vida errante até se estabelecer na Espanha e fazer nome como ficcionista. Certos episódios de sua biografia ocupam uma zona indecisa entre a lenda e a realidade – como a história de que teria sido preso no Chile, em 1973, logo depois do golpe de estado que levou o general Augusto Pinochet ao poder (amigos de Bolaño ouvidos em uma reportagem do The New York Times acreditam que ele estava a salvo no México ao tempo do golpe). A publicação póstuma de 2666 (tradução de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 856 páginas; 55 reais), romance em que o autor trabalhou nos seus últimos cinco anos, e que acaba de chegar às livrarias brasileiras, provocou uma previsível comoção. Lançada há dois anos nos Estados Unidos, a obra angariou entusiastas de todos os naipes, do escritor cult Jonathan Lethem a Stephen King. A aclamação justifica-se: 2666 é uma narrativa torrencial, caudalosa, um tsunami literário. Dotado de um esplêndido domínio da técnica ficcional, Bolaño é um compulsivo contador de histórias. Narra com volúpia, com um prazer que contagia o leitor.

Que a obra é intrigante, mostra-o já o título, um número ao qual não há referência alguma no texto (em Amuleto, outro livro póstumo, uma via na Cidade do México é comparada a "um cemitério do ano 2666", mas, de novo, não se explica por que esse ano). O copioso texto está dividido em cinco partes relativamente autônomas. Por razões práticas, de mercado, Bolaño – que via em 2666 um pecúlio para os dois filhos ainda pequenos – pensava em dividir a obra em cinco volumes. Mas os herdeiros, assessorados pelo crítico Ignacio Echevarría, consultor literário da edição póstuma, decidiram respeitar a unidade de 2666, publicando-a como um livro único.

A narrativa começa seguindo a vida acadêmica de quatro críticos obcecados pela obra de um misterioso escritor alemão, Benno von Archimboldi – cuja identidade real só se esclarece na parte final. Daí progride para um enredo policial, envolvendo o assassinato de dezenas de mulheres em Santa Teresa, cidade mexicana fictícia inspirada em Ciudad Juarez, na fronteira com os Estados Unidos. É um gigantesco painel ficcional, no qual uma trama puxa a outra. Citações de eventos, livros e figuras históricas sucedem-se vertiginosamente. A certa altura, dois personagens falam sobre fobias, e nada menos do que 31 delas são comentadas. Outro trecho fala de erros ridículos cometidos por escritores, e treze desses cochilos são arrolados (como este, do francês Alphonse Daudet: "O duque apareceu seguido de seu séquito, que ia na frente"). Essa cultura enciclopédica é modulada pelo humor e pela ironia com que Bolaño tratava até mesmo a vida literária – como a referência ferina à "coorte de escritores inúteis" cooptados pelo estado no México. 2666 é uma obra desde já consagrada. Merecidamente.

Eclipse total


O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, é um suspense excelente.
Mas a ficha policial do diretor hoje ofusca sua obra


Isabela Boscov

Everett Collection/Keystone
À ESPREITA
Ewan McGregor, como o ghost writer que descobre bem mais
do que gostaria de saber: todo passado guarda um segredo

Em O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, Inglaterra/França/Alemanha, 2010), que estreia no país na próxima sexta-feira, Ewan McGregor vive um ghost writer profissional que aceita uma incumbência que desde o princípio lhe parece arriscada: redigir a autobiografia do ex-primeiro-ministro inglês Adam Lang (Pierce Brosnan). Bonitão e bom de voto, Lang foi uma estrela neoliberal. Mas caiu em desgraça por conta de seu alinhamento com a política americana – mais ou menos como Tony Blair. Em uma casa estupenda, isolada numa ilha, o escritor conhece seu personagem e é enredado em um clima de paranoia. O ghost writer anterior morreu de forma suspeita. A mulher do ex-premiê (Olivia Williams) dá sinais de desequilíbrio. A assessora dele (Kim Cattrall) tem uma fachada lisa e impenetrável que sugere haver muita coisa estranha correndo por trás dela. Nada se encaixa, e tudo cheira a perigo. O Escritor Fantasma é um suspense excelente. Não há atores menos do que afiados no elenco. A trilha do francês Alexandre Desplat é exemplar. A condução da história e a linguagem visual, esparsas e rigorosas, são evidência de um talento superior. E, no entanto, qualquer comentário há de contemplar não apenas as qualidades da direção, como os defeitos do diretor – Roman Polanski, envolvido em um desagradabilíssimo imbróglio legal por causa do estupro de uma menina de 13 anos, em 1977. O angu do diretor, aliás, não para de encaroçar: na semana passada, a atriz Charlotte Lewis alegou ter sido também ela abusada pelo cineasta, em 1982, quando contava 16 anos.

Album/Latinstock
ANTES DO PESADELO
Polanski, no set de Escritor: talento
versus iniquidade


Polanski montou O Escritor Fantasma em sua casa em Gstaad, na Suíça, onde está em prisão domiciliar e luta contra o processo da Justiça americana para extraditá-lo (deve perder a briga). Antes de cumprir sua pena – muito branda, aliás – pelo abuso sexual de Samantha Geimer, em 1978, o diretor decidiu fugir dos Estados Unidos. Viveu as três décadas seguintes na Europa, livre e celebrado. Na versão de sua biografia que prevalecia, ele era um sujeito com um passado meio selvagem, é verdade – como qualquer outro sujeito que tivesse fama e dinheiro entre os anos 60 e 70. No fim de 2008, Polanski tentou invalidar sua condenação. Assim, reacendeu o interesse da Justiça americana e fez com que todos os detalhes escabrosos do estupro de Samantha finalmente viessem à luz. Com o apoio de alguns equivocados, tingiu ainda sua defesa com um viés covarde – o de que os artistas não podem ter seus atos julgados pelas mesmas medidas que se aplicam às pessoas comuns.

Nada disso deveria ter a ver com O Escritor Fantasma. Mas, a esta altura, não resta dúvida de que tanto este filme quanto qualquer outro que o diretor venha a fazer trarão sempre, como aposto, esse passado. Polanski só tem a si mesmo a culpar por se ver na situação constrangedora de ter sua obra suplantada por sua ficha policial. Tanto pior, no caso, que a obra tenha luminosos momentos de grandeza. E que o episódio que o colocou nesse novo relevo seja de uma iniquidade flagrante.

Trailer

VEJA Recomenda e Os mais vendidos


EXPOSIÇÃO

OUROS DE ELDORADO: ARTE PRÉ-HISPÂNICA DA COLÔMBIA
(em cartaz a partir de sábado 29, na Pinacoteca do Estado de São Paulo)

Divulgação
• No século XVI, conquistadores espanhóis embrenharam-se pela América do Sul em busca do lugar onde viveria o El Dorado – ou "homem dourado", chefe de uma tribo indígena tão aquinhoada com ouro que ele cobriria seu corpo com o metal precioso em pó. Tal personagem, é claro, nunca foi encontrado (e, com o tempo, sua história se transmutaria na lenda do Eldorado, cidade imaginária toda construída de ouro). Mas, ao se dirigirem à região do povo mítico em questão, os muíscas – nas proximidades de onde hoje se localiza Bogotá, capital da Colômbia –, os espanhóis depararam com tesouros não menos impressionantes. Ao longo de 2 000 anos, os muíscas e outras tribos colombianas desenvolveram processos avançados de ourivesaria. Boa parte do que resistiu à corrida pela riqueza dos séculos seguintes integra o acervo de mais de 30 000 peças do Museu do Ouro de Bogotá – o testemunho mais extraordinário da opulência das culturas pré-colombianas. A mostra paulistana traz 250 desses artefatos pela primeira vez ao país, em um apanhado que inclui desde adornos, como pingentes e braceletes, até itens de cunho religioso.
EXPOSIÇÃO
Estátua pré-colombiana:
o acervo do Museu do Ouro
de Bogotá revela a arte
de tribos como os muíscas

DVD

A BATALHA DOS TRÊS REINOS (Red Cliff, China, 2008. Europa)

Everett Collection/Keystone
DVD
A Batalha dos Três Reinos: depois de muito tempo, um filme inédito do diretor John Woo


• Entre as décadas de 80 e 90, o chinês John Woo foi tido como o mais original e vigoroso diretor de filmes de ação em atividade, em uma ascensão que culminaria com A Outra Face, de 1997, eMissão: Impossível – 2, de 2000. E, então, a estrela de Woo começou a se apagar: há mais de cinco anos não se ouvia falar em filme novo seu por aqui. A Batalha dos Três Reinos remedeia em parte a situação – chega diretamente em DVD, uma arena acanhada para as gigantescas cenas de batalha deste épico histórico (novidade na carreira do diretor). Mas mostra que Woo é ainda dono de um senso de ritmo inigualável, e mantém seu dom para cortar se-quências colossais com cenas de singelez absoluta. Um exemplo admirável: a aparição do senhor da guerra Zhou Yu (o sempre impressionante Tony Leung), em que um exercício de combate é interrompido pelo som distante de uma flauta. A história é aquela coisa – no século III, suseranos com nomes difíceis de lembrar travam guerra entre si, requisitando milhares de figurantes. Mas não é pelo enredo que se assiste aos filmes de Woo, e sim pela sua capacidade de tornar o simples movimento algo belo e cheio de emoção.

LIVRO

EM CASA, de Marilynne Robinson (tradução de Adriana Lisboa; Nova Fronteira; 400 páginas; 39,90 reais)


• A americana Marilynne Robinson, 63 anos, publicou apenas três livros em três décadas de carreira. É daquelas autoras que constroem pacientemente uma geografia, um universo autônomo onde transcorrem suas histórias – no caso, a pequena cidade de Gilead, no Iowa. Seu romance anterior, prêmio Pulitzer de 2005, é intitulado Gilead e tem como protagonista John Ames, um velho reverendo que, nos anos 50, reconstitui sua vida e a história de sua família em uma carta ao filho. Embora Ames reapareça no novo romance,Em Casa não é uma continuação. Trata-se de uma nova história, centrada na família do melhor amigo de Ames, o também reverendo Robert Boughton. Doente, ele recebe de volta em casa a filha Glory, que vem cuidar dele nos seus dias finais. E Jack, o filho alcoólatra e desregrado, também retorna, causando uma certa comoção na pacata e conservadora cidadezinha. Com uma narrativa delicada, mas densa, o romance de Marilynne atualiza, com grande sensibilidade, o tema bíblico do retorno do filho pródigo.

DISCOS

NOS QUINTAIS DO MUNDO, DJ Tudo (Mundo Melhor)

• DJ Tudo é o pseudônimo do instrumentista e produtor Alfredo Bello. Em dezenove anos de carreira, ele trabalhou com artistas promissores da MPB atual, como o compositor pernambucano Junio Baretto, e participou do CD mais recente do produtor jamaicano Lee Perry. Mas seu melhor projeto é o estudo de ritmos folclóricos brasileiros, que deu origem a uma coleção de quinze discos. A pesquisa e a mistura também pontuam Nos Quintais do Mundo. Bello pinça trechos de cantadores nordestinos, percussão africana ou gêneros como maxixe e maracatu e dá a eles ambientação de dub ou música dançante. Que não fique a impressão de que Nos Quintais do Mundo é um álbum estranho ou de utilidade apenas antropológica: Bello está mais para a contemporaneidade da dupla Brian Eno e David Byrne (autores de My Life in the Bush of Ghosts, um dos primeiros discos a explorar a world music) que para os estudos folclóricos de Mário de Andrade. Faixas como Gaita Mestra e Baião Antigo têm poder de combustão para incendiar qualquer pista de dança.

PYROTECHNICS: VIVALDI ARIAS, Vivica Genaux (Emi)

Divulgação
DISCO
Vivica Genaux: a meio-soprano que veio do Alasca canta
as árias pirotécnicas de Vivaldi

• Nascida no Alasca, Vivica Genaux é uma das raras unanimidades do mundo do canto lírico: é admirada por seu virtuosismo, por suas apresentações arrebatadoras – como as que fez em São Paulo, no ano passado, quando interpretou peças de Händel –, pelo bom gosto de seu repertório e pela beleza de traços exóticos. A meio-soprano começou cantando óperas de Rossini, como O Barbeiro de Sevilha e La Cenerentola. No fim dos anos 90, ela conheceu o regente belga Rene Jacobs, que sugeriu à cantora que se aprofundasse no repertório barroco. Desde então, Vivica lançou discos importantes dedicados ao período (mas sem abandonar completamente as óperas de Rossini), como uma coletânea de árias celebrizadas pelo castrato Farinelli e a ópera Rinaldo, de Händel. Pyrotechnics une Vivica a outro especialista em música barroca, o violonista e maestro Fabio Biondi. O título do álbum – "pirotecnias" – tem boa razão de ser: Vivaldi era famoso por criar árias que exigiam excepcional virtuosismo e precisão de seus intérpretes – qualidades que Vivica tem de sobra.

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J. R. Guzzo


Preço a pagar

"O ponto que merece todos os olhares é simples:
para ser grande, como a UE quer, é preciso pagar
um preço alto, tão alto quanto o tamanho do sonho"

Ninguém duvida, já há muito tempo, que a União Europeia é provavelmente o maior projeto político da atual geração – ou que o euro, a moeda comum a dezesseis dos países que fazem parte dela, é o seu projeto econômico mais ambicioso. Nada parecido foi tentado antes, nem depois da formação do grupo, a partir de 1960. A ideia matriz de tudo isso, como vem sendo dito há cinquenta anos, é que a união faz a força; melhor ser forte como parte de um conjunto do que ser apenas mais ou menos por conta própria. No embalo desse princípio, construiu-se um bloco multinacional que hoje reúne 27 países, tem 500 milhões de habitantes e se tornou uma potência mundial indiscutível, com um PIB próximo aos 12 trilhões de euros. Em troca, abriu-se mão de passaportes nacionais, de muita soberania para os governos e até de uma moeda própria para a maioria dos países-membros – e, sobretudo, foi distribuído um convite permanente para que as ações individuais de um ou de alguns sócios criem problemas para todos. O temporal financeiro que a UE vem vivendo neste mês de maio, e que ela pretende superar fornecendo o equivalente a até 1 trilhão de dólares em créditos para socorrer a economia de membros aflitos, mostrou que será preciso bem mais que uma Grécia, onde a crise começou, ou mesmo uma Espanha, para quebrar a união e destruir a sua moeda comum. Mostrou definitivamente, também, que projetos dessa grandiosidade são assim mesmo: a partir de certo ponto, tornam-se difíceis de desmanchar, mas também dão um extraordinário trabalho para ficar de pé.

Os responsáveis pela UE devem saber disso. Mas, até cederem na convicção de que não se deve premiar a delinquência, como falaram em seus discursos em público, e resolverem se unir na ajuda aos principais devedores, como acabaram fazendo para evitar um primeiro calote de países que têm o euro como moeda nacional, gastaram bom tempo numa caça aos culpados tão neurastênica quanto improdutiva. Muito se lamentou a "falta de liderança" dentro da comunidade, algo que seria uma das principais razões do tumulto – numa sociedade com 27 governos, ninguém decide, nem é capaz de convencer os outros a decidir. Foram culpados, é óbvio, os "especuladores internacionais", embora não se tenha identificado de maneira satisfatória, desta vez, quem seriam eles. A certa altura, denunciaram-se com ira santa as agências de rating sediadas nos Estados Unidos, que dão notas a países e empresas segundo a capacidade que têm de pagar suas dívidas, dentro de critérios que permanecem um perfeito mistério. Ao rebaixarem subitamente a avaliação da Grécia, elas estariam, segundo seus acusadores, "causando a crise", pois espalham o pânico nos mercados e fecham as torneiras de empréstimos para quem já está em dificuldade – ou tornam muito mais caro o dinheiro que pode sair delas. Curiosamente, não se questionou por que as notas da Grécia estavam entre as melhores do mundo até as vésperas de se saber que sua contabilidade oficial era uma piada. O problema das agências era ficarem dizendo que um país à beira da bancarrota mantinha plena capacidade de pagar o que devia – e não a sua decisão de mudarem a nota, quando perceberam o desastre. Na confusão, falou-se em "controles públicos" sobre as empresas de rating e até numa "agência europeia" para fazer o trabalho de avaliação. Nada se disse, depois, sobre como seria possível fazer a primeira coisa, e qual o propósito da segunda. Só dar notas altas a países da Europa?

A maior parte da pancadaria, naturalmente, caiu em cima dos próprios gregos. Foram acusados de gastar demais, endividar-se, falsificar números, mentir para as autoridades centrais da UE e não fazer nenhum esforço que gerasse, dentro de casa, o dinheiro necessário para pagar suas despesas. Por que os gregos podem se aposentar aos 53 anos? Por que têm 14º salário? Por que os bem conectados não pagam imposto de renda? Por que não vendem umas ilhas para pagar o que devem? De novo, aí, é indignação depois da porta arrombada. Todo mundo sabia que a economia da Grécia não produzia riqueza suficiente para pagar isso tudo, e mais uma Olimpíada, um novo metrô em Atenas, um aeroporto de última geração. Mas, enquanto a casa não caiu, preferiu-se olhar para o outro lado.

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