Saturday, March 13, 2010

VEJA Recomenda Os livros mais vendidos


TELEVISÃO

Adam Chapman
TV
A série Vida: a nova parceria entre Discovery e BBC supera até Planeta Terra

VIDA (Estreia nesta quinta-feira, às 22h, no Discovery Channel)

• Há quatro anos, a rede inglesa BBC elevou os documentários sobre a natureza a um novo patamar de qualidade com a série Planeta Terra. A superprodução esquadrinhou as paisagens de todos os continentes, colhendo imagens nunca registradas da vida selvagem por meio de lentes ultrapotentes. Pois eis que a BBC (em coprodução com o Discovery) acaba de superar seu próprio feito. Produzidos durante quatro anos pela mesma equipe do programa anterior, os dez episódios de Vidacentram-se numa temática darwinista: as estratégias que permitiram às mais variadas espécies garantir seu sucesso na evolução. Em cenas captadas com proximidade e resolução impressionantes, o programa mostra animais como um sapo da Venezuela capaz de rolar montanha abaixo como uma bola para escapar de uma aranha predadora. Ou uma sequência em que dragões-de-komodo abatem um búfalo com dez vezes seu tamanho. Câmeras especiais permitiram que se seguissem de perto as migrações de renas e elefantes, assim como a realização de um registro estonteante do voo de borboletas. O narrador é o mesmo de Planeta Terra: sir David Attenborough, com mais de cinquenta anos de experiência nessa seara.

DVD

SUA ÚLTIMA SAÍDA (Pursued, Estados Unidos, 1947. Versátil)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Sua Última Saída: em início de carreira, Mitchum já mostrava suas qualidades

• Conhecido pelos olhos de alcova, jeito cínico – devasso, até – e pendor para personagens ambíguos, Robert Mitchum era pouco mais do que um estreante quando o grande diretor Raoul Walsh o escolheu para o papel de Jeb Rand neste faroeste. Mas os sinais do ator – e astro – único que ele se tornaria já estão todos lá. Feito órfão em um tiroteio num rancho, do qual quase nada se recorda, Jeb é criado por uma mulher que tem uma ligação obscura com seu passado – que ela se recusa a revelar. Desde que ele é levado para sua nova casa, a tensão se instaura: Jeb tem um vínculo estreito com a filha de sua protetora, mas uma rivalidade incontornável com seu irmão adotivo. Com o senso de ritmo que era um de seus maiores dons, Walsh vai acumulando os desdobramentos dessa história em entrechos ora sinistros, ora quase indecentes. Não obstante a habilidade do diretor (que dribla sem dificuldade a modéstia da produção, valendo-se de uma cinematografia superlativa), é a atuação de Mitchum a peça em torno da qual gira toda essa engrenagem. Uma excelente chance de ver um astro que hoje não mais desfruta o prestígio que fez por merecer.

LIVROS

SENHORES E CRIADOS E OUTRAS HISTÓRIAS, de Pierre Michon (tradução de André Telles; Record; 160 páginas; 28 reais)

• Nascido em 1945, o francês Pierre Michon estreou na literatura aos 37 anos, com o romance Vidas Minúsculas, em que oito relatos diversos compõem um retrato desolado do vilarejo de Creuse, onde ele nasceu e cresceu. Senhores e Criados e Outras Histórias é uma compilação de três textos seus – todos centrados no mundo da arte. Senhores e Criados, por exemplo, reúne a biografia fictícia de cinco pintores colossais: Vincent van Gogh, Cláudio de Lorena, Francisco de Goya, Antoine Watteau e Piero della Francesca. Em A Vida de Joseph Roulin, o autor reconstrói a figura de Van Gogh a partir da visão do carteiro Roulin, que vive bêbado pelos cantos e é amigo de um pobre pintor holandês. A última história – O Rei do Bosque – narra a batalha de um jovem camponês que quer entrar no mundo do luxo e da beleza, e tenta sua sorte por meio de um serviço para o pintor francês Claude Lorrain. Erudito, rigoroso no estilo até a última filigrana e profundamente familiarizado com o universo de que trata, Michon é uma voz singular no cenário atual – ainda que
pouco conhecida.

O QUE EU NÃO CONTEI, de Azar Nafisi (tradução de Mauro Pinheiro; Record; 378 páginas; 55 reais)

Camera Press/Other Images
LIVRO
A iraniana Azar Nafisi: assuntos proibidos

• Quando dava aula de literatura na Universidade de Teerã, a iraniana Azar Nafisi reunia em casa um grupo de alunas para ler e discutir obras proibidas em seu país, como as de Henry James e Vladimir Nabokov, além dos clássicos de Flaubert, Jane Austen e F. Scott Fitzgerald. O resultado de tais encontros foi o best-seller Lendo Lolita em Teerã, sobre a experiência dessas aulas clandestinas e a situação das mulheres no Irã, submetidas ao fanatismo do regime islâmico. "Para uma mulher, viver no Irã é comparável a fazer sexo com o homem que ela mais odeia: é um estupro dissimulado", disse ela a VEJA em 2004. Em O que Eu Não Contei, seu segundo livro de memórias, Nafisi narra passagens de seu passado, como a atribulada guerra de personalidades com sua mãe e o primeiro casamento com um homem que não amava. A ideia do livro surgiu a partir de uma lista que Nafisi começou a elaborar, após a revolução islâmica de 1979, de tópicos sobre os quais era preciso silenciar no país, aproveitando-se ainda de trechos do diário deixado por seu pai, ex-prefeito de Teerã.

DISCO

AN EDUCATION: ORIGINAL MOTION PICTURE SOUND-TRACK, vários intérpretes (Universal)

Cornel Lucas/Bips/Getty Images
DISCO
Juliette Gréco, a musa da chanson: ponto alto da trilha
sonora de Educação

• Jenny, protagonista do filme Educação, é uma adolescente que, na Londres dos anos 60, se recusa a aceitar o destino prescrito para ela. Jenny não quer estudar em Oxford, muito menos tornar-se professora: quer frequentar salas de concerto, clubes de jazz e conhecer Paris e os existencialistas. A trilha de Educação é perfeita no retrato dos seus dilemas e aspirações. Eles se fazem presentes nos delicados temas de Paul Englishby, responsável pela parte instrumental, no jazz do cantor Mel Tormé e nas canções pop pré-Beatles (entre as quais figuram o rhythm’n’blues de Ray Charles e o rock de Billy Fury). Mas o ponto alto são duas canções de Juliette Gréco, que Jenny adota como modelo de comportamento. Sous le Ciel de Paris e Sur les Quais du VieuxParis são superiores a qualquer coisa que Carla Bruni ou outras divas da nova chanson tenham gravado. A trilha recruta ainda artistas contemporâneas com um pé no jazz e no pop de meio século atrás – caso das cantoras Duffy, Melody Gardot e Madeleine Peyroux.

Os mais vendidos

Clique aqui para acessar a lista estendida de livros mais vendidos

[A|B#]
A] posição do livro na semana anterior
B] há quantas semanas o livro aparece na lista
#] semanas não consecutivas

Fontes: Balneário Camboriú: Livrarias Catarinense; Belém: Laselva; Belo Horizonte: Laselva, Leitura; Betim: Leitura; Blumenau: Livrarias Catarinense; Brasília: Cultura, Fnac, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Siciliano; Campinas: Cultura, Fnac, Laselva, Siciliano; Campo Grande: Leitura; Caxias do Sul: Siciliano; Curitiba: Fnac, Laselva, Livrarias Curitiba, Saraiva, Siciliano; Florianópolis: Laselva, Livrarias Catarinense, Siciliano; Fortaleza: Laselva, Siciliano; Foz do Iguaçu: Laselva; Goiânia: Leitura, Saraiva, Siciliano; Governador Valadares: Leitura; Ipatinga: Leitura; João Pessoa: Siciliano; Joinville: Livrarias Curitiba; Juiz de Fora: Leitura; Jundiaí: Siciliano; Londrina: Livrarias Porto; Maceió: Laselva; Mogi das Cruzes: Siciliano; Mossoró: Siciliano; Natal: Siciliano; Navegantes: Laselva; Niterói: Siciliano; Petrópolis: Nobel; Piracicaba: Nobel; Porto Alegre: Cultura, Fnac, Livrarias Porto, Saraiva, Siciliano; Recife: Cultura, Laselva, Saraiva; Ribeirão Preto: Paraler, Siciliano; Rio Claro: Siciliano; Rio de Janeiro: Argumento, Fnac, Laselva, Saraiva, Siciliano, Travessa; Salvador: Saraiva, Siciliano; Santa Bárbara d’Oeste: Nobel; Santo André: Siciliano; Santos: Siciliano; São José dos Campos: Siciliano; São Paulo: Cultura, Fnac, Laselva, Livrarias Curitiba, Livraria da Vila, Martins Fontes, Nobel, Saraiva, Siciliano; São Vicente: Siciliano; Sorocaba: Siciliano; Uberlândia: Siciliano; Vila Velha: Siciliano; Vitória: Laselva, Leitura, Siciliano; internet: Cultura, Fnac, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Siciliano, Submarino.

O tropeço do PIB


Pela primeira vez em dezessete anos, a economia brasileira
encolheu – mas isso não significa que o país vai mal


Benedito Sverberi

Sérgio Lima/Folha Imagem
Otimismo
O ministro Guido Mantega: ele prevê crescimento de 5,7% em 2010



VEJA TAMBÉM

A economia brasileira apresentou em 2009 um desempenho negativo – algo que não se via desde 1992. Anunciado na semana passada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, o produto interno bruto (PIB), soma de toda a riqueza produzida pelo país, teve retração de 0,2% em relação a 2008. Uma primeira interpretação possível é que a economia doméstica se saiu muito mal. Em termos comparativos, no entanto, o Brasil não fez feio. Nas nações desenvolvidas, a crise financeira global bateu com muito mais força. A queda do PIB foi de 5% no Japão; de 4,1% na zona do euro (grupo de países da União Europeia que adotam essa moeda); e de 2,4% nos Estados Unidos. Outra boa notícia é que o PIB do ano passado retrata algo já superado. Se setores como indústria e agropecuária sofreram com a turbulência internacional, a retomada do crescimento começou cedo, logo no segundo trimestre, e não parou de ganhar força graças ao consumo das famílias (e aos gastos do governo). A recuperação só não foi suficiente para fazer com que a estatística fechasse o ano no positivo.

Caso não haja outra crise internacional, a economia brasileira deve continuar em expansão em 2010. "O ritmo do fim do ano passado estava bem acelerado, o que já sinaliza que a perspectiva de crescimento é maravilhosa", diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli. Se o ritmo observado no último trimestre de 2009, quando o PIB registrou uma alta de 2%, se repetisse por mais três trimestres, o PIB anualizado atingiria a impressionante taxa de 8,2% (veja o quadro). Seria um crescimento digno da China ou da Índia – que, aliás, foram as únicas nações a nadar de braçada no ano passado, com PIBs de 8,7% e 5,6%, respectivamente. O mais provável é que a taxa não seja tão alta. Nos próximos trimestres, o crescimento deverá ficar em torno de 1%, o que aponta para um PIB anual da ordem de 5,5% na visão dos economistas (o governo, mais otimista, espera uma taxa de 5,7%, conforme as palavras do ministro Mantega). Isso, em boa parte, porque os juros devem subir neste ano, para manter sob controle a inflação. Bancos e consultorias aumentaram na semana passada, pela sétima vez consecutiva, sua projeção para o IPCA, o índice oficial de variação dos preços. Ele poderá chegar a 4,99% neste ano, estourando a meta estipulada pelo governo, de 4,50%. A inflação está ligada a um consumo aquecido – e um dos meios de esfriar o consumo é subir os juros. Assim, a taxa básica (a Selic), caso se confirme a expectativa do mercado, deve encerrar 2010 em 11,25% ao ano, 2,5 pontos porcentuais acima da vigente.

Independentemente de qual seja o número efetivo de crescimento do PIB, 2010 dará continuidade ao ciclo de prosperidade instaurado há dezesseis anos no país, desde que o Plano Real conseguiu estabilizar a economia. "O desafio do presidente Fernando Henrique Cardoso foi consertar o caminhão enquanto ele estava andando. Sua equipe teve de perseguir o crescimento e, ao mesmo tempo, fazer reformas institucionais para assegurar que ele fosse sustentável ao longo do tempo", explicou o economista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski. O governo Lula pegou um país em condições melhores, não mexeu nos fundamentos da economia e tomou medidas que ajudaram a dar forma a uma nova classe média, como, por exemplo, a realização de aperfeiçoamentos no sistema financeiro que ajudaram a expandir fortemente o crédito.

O principal desafio para os próximos anos será elevar a taxa nacional de investimento. Essa é medida pela chamada formação bruta de capital fixo (FBCF), que, grosso modo, revela quanto as empresas aumentaram seus bens de capital, ou seja, as máquinas e os equipamentos que servem para produzir. São eles que asseguram, a longo prazo, a expansão da economia. Essa taxa caiu 9,9% no ano passado em relação a 2008, atingindo o patamar de 16,7% do PIB (o menor desde 2006). O setor privado realiza a maior parte do esforço em investir para garantir o crescimento do Brasil. O estado, às voltas com a necessidade de custear a mastodôntica máquina pública, pouco contribui nessa tarefa. Um governo que assumisse o compromisso de reduzir seus gastos teria recursos para investir em infraestrutura e financiar o setor produtivo (inclusive nos momentos em que o dinheiro escasseasse em razão de qualquer choque externo), o que ampliaria ainda mais o potencial de crescimento do país nos próximos anos.


Apesar do mergulho da economia em 2009


Cinecorrupção

Brasil

9/12/2009
Brasil

Cinecorrupção

O escândalo de corrupção que ameaça limar do poder o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do Democratas, começou a se desenhar em junho. Acossado por 32 processos na Justiça, o ex-delegado e então secretário de Relações Institucionais do governo local, Durval Barbosa, decidiu contar tudo que sabia ao Ministério Público de Brasília. Em troca, ele espera diminuir sua pena. Durval denunciou um milionário esquema de desvio de dinheiro público no governo do DF, que envolvia o pagamento de mensalão aos deputados locais. O ex-delegado entregou às autoridades vídeos de conversas que manteve nos últimos anos com políticos, empresários e lobistas, nas quais seus interlocutores – inclusive Arruda – recebem dinheiro vivo e articulam negociatas. Na semana passada, vieram a público alguns trechos desses diálogos, que causaram estupor na opinião pública. VEJA teve acesso à totalidade do acervo entregue pelo delator ao MP. A seguir, uma seleção com sete conversas inéditas – e a íntegra do espantoso diálogo do governador do DF com o delator.

Vídeos:
"Paulo Octávio pediu para mandar alguma coisa"Abraço amigo
Nota queimadaRacha na quadrilha
Panetone milionário"Contratei por que o Roriz pediu"
"Pago ou não pago?"Piratão

• • •

"Paulo Octávio pediu para mandar alguma coisa"
Marcelo Toledo, operador clandestino do governo Arruda, diz a Durval que o vice-governador precisa de mais dinheiro.

• • •

Nota queimada
O empresário Abdon Bucar, dono de uma produtora que presta serviços para o Democratas e para o governo de Brasília, reclama do atraso no pagamento de “750 mil do PFL”. E conta que precisou destruir uma nota fiscal fria, usada para esquentar dinheiro sujo na campanha de Arruda ao governo local, em 2006.

• • •

Panetone milionário
Em setembro de 2006, durante as eleições, Arruda despacha com Durval Barbosa, então seu coordenador de campanha. Nos 23 minutos de conversa, além de receber um pacote de dinheiro vivo, que disse ter usado para comprar panetones, o então deputado e candidato ao governo apronta de tudo. Pede emprego para o filho, pede ajuda para uma empresa-amiga, pede cuidado na arrecadação da campanha... "Estou com medo desse troço aí", diz Arruda, em referência à coleta clandestina de dinheiro. Ao final do encontro, Arruda fala ao celular com o então governador Joaquim Roriz, a quem promete "levar uns documentos" – segundo Durval, propina. Em seguida, Arruda confidencia ao delator que o pagamento em questão relaciona-se a um misterioso voto no Tribunal Superior Eleitoral.

• • •

"Pago ou não pago?"
O chefe da Casa Civil do governo do DF, José Geraldo Maciel, consulta Durval a respeito de pagamento de propina a aliados – e informa que Arruda ordenou que a Brasif, empresa ligada ao DEM, faturasse uma licitação. "Esse pessoal (da Brasif) vai assumir os compromissos com você", explica Maciel. Por "compromissos", entenda-se dinheiro.

• • •

Abraço amigo
A empresária Cristina Boner, empresária do ramo de informática, abraça Durval Barbosa depois que o ex-secretário informa que realizará um contrato emergencial, sem licitação, com a empresa dela, a TBA.

• • •

Racha na quadrilha
Ex-chefe de gabinete e amigo do governador Arruda, o lobista Renato Malcotti admite a Durval que participa de um esquema de corrupção na Secretaria de Saúde do DF. Eles criticam os "exageros" do PPS, que comanda a Secretaria, no achaque aos empresários do ramo.

• • •

"Contratei por que o Roriz pediu"
O deputado Benício Tavares, do PMDB, admite ter fraudado uma licitação, quando era presidente da Câmara Legislativa, em favor da agência SMP&B, do lobista Marcos Valério. Diz que agiu a pedido do ex-governador Joaquim Roriz. Ele aproveita a conversa e pede a Barbosa que facilite sua entrada num esquema de corrupção comandado pelo secretário de Transportes, Alberto Fraga.

• • •

Piratão
Durval Barbosa entrega 20 mil de propina a um homem identificado por ele como Paulo Roberto, do departamento de Transporte de Brasília, referente ao acerto de uma licitação na área.

copyright © Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados

…impunidade


Eis a principal razão da praga da corrupção que assola o
país. Ela só deixará de nos assombrar a cada novo vídeo
quando definirmos que tipo de nação queremos construir


Otávio Cabral e Gustavo Ribeiro

Fotos J.F.Diorio/AE e divulgação
FLAGRANTES
Maurício Marinho, do mensalão (à esq.), o deputado dos dólares na cueca e o dinheiro misterioso dos petistas aloprados: crimes comprovados, mas sem punição


VEJA TAMBÉM

O governador José Roberto Arruda já tinha tentado outras vezes, mas só agora conseguiu obter as credenciais definitivas para se juntar a um seleto clube de personalidades do mundo político. Revelada uma parte de sua devastadora cinebiografia, antes restrita a uma singela violação do painel eletrônico do Congresso, o governador voltou a traçar planos para o futuro. Em conversas com amigos, disse que não há a mínima possibilidade de renunciar ao mandato. Acredita que, até o fim de 2010, outros escândalos de corrupção vão surgir e o dele será esquecido. Se não for expulso do DEM, como deseja, ainda se candidata a uma vaga de deputado federal, garantindo com isso a imunidade, o foro privilegiado e o santo graal de políticos como ele: a impunidade. Impunidade significa falta de castigo. A punição de culpados por crimes é uma das pedras angulares da civilização. Mas não no Brasil, e muito menos para políticos que se associam a malas de dinheiro e corrupção, como Arruda.

Leon Neal /AFP
PONTO DE INFLEXÃO
Lula inaugurou a era da moral restrita
ao passar a mão na cabeça de corruptos


A punição existe para impor limites, refrear instintos naturais e permitir que os indivíduos possam se proteger uns dos outros. A impunidade é o avesso de tudo isso. Impunitas peccandi illecebra (a impunidade estimula a delinquência), lembra o ditado em latim. Ou, quando não chega a tanto, ao menos produz a impressão de que vivemos em um mundo sem limites. Na semana passada, VEJA ouviu cientistas políticos, filósofos, advogados e historiadores sobre as raízes da corrupção. Eles são unânimes em apontar a impunidade como a principal causa da corrupção. "Enquanto não colocarem um corrupto graúdo na cadeia, nada vai mudar", diz o filósofo Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Parece mesmo estar longe o dia em que um corrupto estrelado pagará por seus crimes. O máximo que se vê são admoestações. O STF, a corte encarregada de punir os incomuns, nunca condenou nenhum. Os envolvidos nos principais escândalos recentes estão livres, leves e soltos - revelando um terrível costume que não vem de hoje.

No Império, havia até pena de morte para crimes graves - sempre aplicada às camadas mais baixas da sociedade. Já naquela época, os políticos se beneficiavam da impunidade. José Carlos Rodrigues foi um dos primeiros corruptos notórios do Brasil. Em 1866, ele era chefe de gabinete do ministro da Fazenda, Conselheiro Carrão, quando foi flagrado tentando sacar dinheiro da tesouraria do ministério com uma assinatura falsificada do seu superior. Condenado a vinte anos de prisão, fugiu do Brasil para os Estados Unidos. Com a proclamação da República, acabou nomeado para um cargo na Embaixada do Brasil em Londres, mesmo sendo considerado fugitivo pela Justiça brasileira. Outro caso notório: o sobrinho do presidente Deodoro da Fonseca foi flagrado falsificando atos do governo para favorecer banqueiros amigos. Também deixou o Brasil para escapar da punição.

A corrupção e a impunidade na República Velha serviram de matéria-prima para a obra literária de Machado de Assis e Lima Barreto e consagraram imagens e personagens nos tempos mais recentes. Adhemar de Barros, político paulista a quem foi atribuída a frase "rouba mas faz", chegou a ser condenado em primeira instância pela Justiça. Não pelos escandalosos casos de desvio de recursos públicos, mas pelo sumiço de uma obra de arte, a "urna marajoara". Para escapar da prisão, fugiu para o Paraguai e a Bolívia. Na volta, elegeu-se prefeito de São Paulo, foi o candidato mais votado no estado em duas eleições presidenciais e ainda foi eleito governador. Com a ditadura militar, a corrupção foi escondida e os corruptos ligados ao regime agiam impunemente. Com a redemocratização, houve um alento com a cassação de um presidente por corrupção. Mas a punição foi um ponto fora da curva. A regra nos governos seguintes continuou sendo a impunidade.

A corrupção tem se revelado uma calamidade que consome o resultado do trabalho de milhões de brasileiros, envergonha o país e mancha a imagem do Brasil no exterior. É um problema que, como se viu nos últimos anos, independe de ideologia ou de partidos políticos. O PT, desde que chegou ao poder com Lula, viveu uma série de escândalos, sendo os mais notáveis o do mensalão e o dos aloprados. Seu parceiro preferencial, o PMDB, tem em seus quadros alguns dos políticos mais notórios do Brasil, como Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney. E o PSDB viu na semana passada o Supremo Tribunal Federal acolher a denúncia contra o senador Eduardo Azeredo, operador de um esquema similar ao mensalão quando governava Minas Gerais. São todos casos comprovados, fartamente documentados, mas todos ainda sem punição.

Segundo o último levantamento da Transparência Internacional, divulgado em novembro, o Brasil ocupa a 75ª posição no ranking das nações mais corruptas do planeta. O país teve uma nota de 3,7 em uma escala que vai de zero (países mais corruptos) a 10 (países considerados pouco corruptos). Foram analisadas 180 nações. Em relação ao ano anterior, o Brasil melhorou cinco posições. A Transparência faz pesquisas com especialistas de cada país, que avaliam a presença da corrupção nas instituições públicas locais. Com base nessas avaliações, são dadas as notas a cada nação e monta-se um ranking. Segundo a ONG, os problemas do Brasil e da América Latina são instituições fracas, burocracia extrema, excesso de influência privada sobre o setor público e restrições à liberdade de imprensa. O Haiti foi considerado o país mais corrupto da América e a Somália, do mundo. A Nova Zelândia ficou no topo do ranking dos países menos corruptos. Na América do Sul, apenas duas nações aparecem à frente do Brasil no ranking da corrupção: Uruguai e Chile.

Os especialistas ouvidos por VEJA são unânimes em afirmar que a impunidade está na raiz do problema. A ausência de punição funciona como um atrativo à ilegalidade, passando uma ideia de que o crime no Brasil compensa, principalmente entre os criminosos de colarinho-branco. Mas não é só a impunidade que colabora para a perpetuação da corrupção no país. Há pelo menos outros nove pontos levantados pelos estudiosos do assunto que precisam ser atacados para que a corrupção deixe de ser uma endemia. E eles não se restringem ao Poder Judiciá-rio, ao qual cabe, em última instância, a punição dos corruptos. O sistema político também tem sua parcela de responsabilidade. Uma de suas piores mazelas é a distribuição política de cargos. Há no Brasil cerca de 25 000 cargos de livre nomeação pelo presidente da República. Nos Estados Unidos, não chegam a 5 000. Na Inglaterra, mal passam de 100. No Brasil, o chefe do Executivo loteia o governo entre os partidos para garantir o apoio necessário para aprovar seus projetos no Legislativo. Os políticos considerados honestos por eles próprios usam os cargos para arrecadar dinheiro e financiar campanhas. Os desonestos fazem o mesmo para enriquecer. Quase sempre as duas coisas andam juntas, como revelou o ex-diretor dos Correios Maurício Marinho, flagrado levando a peteca de 3 000 reais que expôs o mensalão. "Uma medida urgente e simples para combater a corrupção é reduzir o número de cargos de nomeação política, que está na origem de todo escândalo", afirma Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil. "O roubo existe por causa do ladrão. O álibi do financiamento de campanha usado pelo corrupto precisa ser espancado. O corrupto rouba para viajar para o exterior, para comprar iate, para comprar bolsa Louis Vuitton. Não rouba só para financiar campanha", afirma o deputado federalMiro Teixeira (PDT-RJ).

Ueslei Marcelino/Folha Imagem
"O problema do Brasil é a impunidade. Enquanto não colocarem os corruptos graúdos na cadeia, nada vai mudar."
Denis Lerrer Rosenfield, Filósofo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Roberto Jayme/Valor
"Não existe uma tradição de condenar corruptos. Nas principais democracias, porém, as causas da corrupção são combatidas. No Brasil, nem isso."
Claudio Weber Abramo, Diretor executivo da Transparência Brasil


Roberto Setton
"Os corruptos sempre se deram bem. No mundo político, bobo é quem é honesto. Os ladrões são os espertos."
Marco Antonio Villa, Historiador da Universidade Federal de São Carlos


Oscar Cabral
"O político corrupto rouba para comprar iate, para comprar bolsa Louis Vuitton, não para financiar campanha."
Miro Teixeira, deputado federal (PDT-RJ)

IMPUNIDADE GARANTIDA

Não são raros os casos em que políticos são surpreendidos com dinheiro de origem duvidosa. Raros são os casos em que alguém vai para a cadeia.

FORTUNA NO ARMÁRIO
Em 2002, a pré-candidata à Presidência da República Roseana Sarney abriu mão de disputar a eleição depois que a polícia descobriu 1,3 milhão de reais no cofre da empresa Lunus. O casal apresentou várias versões para a origem do dinheiro.
O que aconteceu: ninguém está preso.

PROPINA NOS CORREIOS
Em 2005, o então chefe do Departamento de Administração dos Correios, Maurício Marinho, foi pilhado negociando o pagamento de propina com empresários para o PTB. O caso deu origem ao escândalo do mensalão.
O que aconteceu: ninguém está preso.

DINHEIRO NA CUECA
Assessor do irmão do deputado José Genoíno, José Adalberto da Silva foi flagrado com 100 000 dólares escondidos na cueca e 200 000 reais em uma valise. O episódio ocorreu durante a crise do mensalão nacional.
O que aconteceu: ninguém está preso.

DÍZIMO MILIONÁRIO
Então presidente da Igreja Universal do Reino de Deus, o ex-deputado federal João Batista Ramos da Silva foi pego com 10 milhões de reais distribuídos em um jatinho particular.
O que aconteceu: ninguém está preso.

OS ALOPRADOS DE LULA
Em 2006, durante a campanha presidencial, a polícia flagrou petistas com 1,7 milhão de reais supostamente para comprar um dossiê contra adversários. O presidente Lula chamou os envolvidos de "aloprados", mas ninguém explicou de quem era ou de onde vinha o dinheiro.
O que aconteceu: ninguém está preso.

As raízes da corrupção

VEJA ouviu cientistas políticos, filósofos, advogados e historiadores sobre o tema. Levantamentos de entidades internacionais colocam o Brasil no patamar dos países com altos índices de corrupção. A impunidade é a causa número 1 do problema, mas existem outros pontos importantes:

2. Morosidade da Justiça
Investigados com nível superior, poder e dinheiro, como os políticos corruptos, conseguem contratar bons advogados que usam as brechas da lei para retardar os inquéritos. A possibilidade de chicanas é tamanha que muitas vezes o crime prescreve antes de chegar à condenação

3. Distribuição política de cargos
Em regra, o chefe do Executivo loteia o governo entre os partidos para garantir maioria no Legislativo. Esses partidos usam os cargos públicos para financiar suas campanhas, aumentar seu poder político e, principalmente, para enriquecer. Daí para os escândalos é um pulo. Basta uma gravação

4. Conivência da sociedade
Políticos envolvidos em escândalos continuam em atividade. Lula, apesar dos escândalos, tem uma popularidade recorde. A explicação é simples: em um país com tantas carências, o eleitorado até se preocupa com a ética, mas tem uma série de preocupações mais urgentes na hora de definir seu voto

5. Excesso de burocracia
Os processos de compra e contratação do estado são lentos, cheios de instâncias intermediárias e com uso limitado de meios eletrônicos. Assim, funcionários públicos e políticos têm um campo farto para criar dificuldades e vender facilidades. Situação ideal para a ação de quadrilhas ligadas a políticos

6. Caixa dois nas campanhas
Os escândalos recentes de corrupção tiveram parte do butim destinado ao financiamento irregular de campanhas, que são caras e mal fiscalizadas. Nos últimos anos, os políticos passaram a usar o caixa dois como justificativa para qualquer flagrante de corrupção, em uma tentativa de reduzir a punição

7. Ausência de políticas anticorrupção
Os políticos priorizam o combate à corrupção nos discursos de campanha, mas deixam o tema de lado quando chegam ao poder. Ou pior: passam a atacar os responsáveis pela fiscalização. Caso de Lula, que abriu uma guerra contra o Tribunal de Contas da União e já ameaçou amordaçar o Ministério Público

8. Falta de informação
O eleitor médio brasileiro tem pouco acesso à informação de qualidade, não se interessa por política e decide seu candidato, principalmente ao Legislativo, apenas às vésperas da eleição, priorizando aqueles que lhe prestam algum favor. As campanhas na TV são fracas e pouco informativas

9. Tolerância política
Os partidos permitem - e até incentivam - que políticos enrolados tenham legenda para disputar eleições. Isso porque na maioria das vezes esses políticos ajudam a financiar os partidos. O Congresso e o Judiciário tampouco tomam medidas para proibir a candidatura dos políticos de ficha suja

10. Falta de renovação
Os partidos são comandados pelos mesmos grupos há mais de uma década, cuidando dos cargos como se fossem patrimônio pessoal e dificultando o surgimento de novas lideranças. O excesso de escândalo provoca o descrédito da atividade política, afugentando pessoas de bem da vida pública

Contra a parede


O STF processará o senador Eduardo Azeredo, do PSDB,
pelo "mensalão mineiro". A defesa do tucano é bem petista:
ele diz que nunca soube de nada

Celso Junior /AE

"O RECIBO É FALSO"
Azeredo (acima) afirma que o documento citado pelo ministro Barbosa, do STF,
foi forjado. Quando é que vão parar de fabricar papelórios fajutos no Brasil?


VEJA TAMBÉM

Apartir de agora, o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas Gerais, é réu. O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu processo para apurar o envolvimento dele no escândalo conhecido como "mensalão mineiro". Azeredo será julgado pelos crimes de peculato (desvio de recursos cometido por um agente público) e lavagem de dinheiro. O caso que ameaça a carreira do senador se deu em 1998, quando ele governava Minas Gerais e se candidatou à reeleição. A campanha de Azeredo precisava de dinheiro. E ele foi obtido, em boa parte, graças a um esquema que desviava verbas de empresas estatais, "esquentava" os recursos simulando empréstimos bancários e, por fim, os injetava no caixa dois da campanha. O operador do trambique era um até então obscuro lobista chamado Marcos Valério – que se agigantaria seis anos depois, ao colocar-se a serviço do mensalão petista.

No caso mineiro, a investigação da Polícia Federal indica que 3,5 milhões de reais foram desviados de empresas estatais para a campanha de Azeredo. É, em menor escala, o que o PT fez no primeiro mandato do governo Lula. A diferença é que, pelo que se sabe até agora, em Minas todo o dinheiro desviado foi usado na campanha eleitoral. No mensalão federal, o butim serviu, também, para subornar deputados em troca de apoio político – e para engordar o nó da gravata da companheirada, claro. Essa distinção não diminui a gravidade do que ocorreu em Minas. Desvio de dinheiro público é crime – e precisa ser punido independentemente de credo político. Tucano ou petista, verde ou comunista, pouco importa.

Em sua defesa, Azeredo alegará que não sabia dos supostos crimes cometidos em sua campanha. De fato, não há na denúncia do Ministério Público nenhum documento que comprove de forma cabal sua ligação com o caixa dois. Ele foi denunciado porque era governador e candidato, ou seja: comandava as estatais que deram dinheiro à sua própria campanha. A alegação, no entanto, é frágil. É difícil acreditar que o maior beneficiário do esquema não soubesse o que acontecia debaixo de suas barbas. Para fortalecer a tese de que o tucano deveria ser processado, o ministro Joaquim Barbosa, relator do caso no STF, se apoiou em um recibo de 4,5 milhões de reais entregue à polícia por um informante. Ele mostraria que Azeredo recebeu essa bolada de Valério. O senador garante que o papel é falso. Uma perícia, também. Nem a polícia atesta a autenticidade do documento. É temeroso que um documento suspeito vá parar no STF e seja usado para formar juízo. O correto seria que o tribunal entregasse o recibo ao Ministério Público, para que fosse iniciada uma investigação que visasse a descobrir quem o produziu. O Brasil precisa se livrar da indústria de documentos e dossiês forjados. Em Minas Gerais, por exemplo, existe um lobista chamado Nilton Monteiro, a quem se atribui a produção de papéis apócrifos usados como munição em campanhas eleitorais. A tal "Lista de Furnas" está entre eles. Espera-se que, na próxima disputa, personagens desse tipo não continuem a agir nas sombras.

Blog Archive