Sunday, January 10, 2010

Entrevista: Sérgio Guerra


"A esquerda somos nós"

O presidente do PSDB diz que Lula faz política com as "mãos sujas"
e que haverá mudanças na economia caso os tucanos elejam
o próximo presidente


Diego Escosteguy

Rolf h. Seyboldt
"Iremos mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes"

O senador pernambucano Sérgio Guerra, de 62 anos, prepara-se para a tarefa mais difícil de sua carreira: coordenar a campanha que pode reconduzir seu partido à Presidência da República. Ele já dá como certa a candidatura do governador de São Paulo, José Serra. Juntos, eles preparam a estratégia para enfrentar a ministra Dilma Rousseff, que representará o governo mais bem avaliado da história. Será a segunda vez que Serra vai disputar a Presidência da República. Na primeira, em 2002, perdeu para Lula. Naquela ocasião, Serra era visto como o candidato de centro-direita, por representar o governo "neoliberal" de FHC. Lula era o homem da esquerda, que fazia oposição. Oito anos depois, o redemoinho da política inverteu os papéis. O PT lançará a candidatura governista, defendendo a mesma política econômica de FHC, e o PSDB, agora na oposição, apostará numa posição mais à esquerda, como explica o senador nesta entrevista a VEJA.

O governador José Serra é o candidato do PSDB à Presidência da República?
Nós trabalhamos com esse cenário.

Com a desistência do governador de Minas, Aécio Neves, por que o PSDB não anuncia de uma vez a candidatura de Serra?
Serra tem compromissos com o estado de São Paulo. A população paulista espera que ele cumpra suas obrigações até o fim do mandato. Quando ainda existia a disputa entre Serra e Aécio, nós sentíamos que havia a necessidade de definir logo o nome. Como o governador de Minas Gerais desistiu, o anúncio se tornou irrelevante. Virá no momento apropriado. Isso não vai demorar.

Aécio já disse que não aceita ser vice na chapa tucana. Quem será?
A definição do vice se dará apenas depois do anúncio da candidatura Serra. O nome pode vir do PSDB ou do DEM, que é nosso grande parceiro. Há bons quadros nos dois partidos.

O governador de Minas parece bem descontente com o desfecho dessa disputa...
Tenho 100% de certeza que Aécio estará ao nosso lado durante a campanha. Desistir não foi uma decisão fácil para ele. A população de Minas esperava a candidatura dele a presidente. Não é fácil para Aécio administrar essa pressão. Mas cada coisa no seu tempo. Agora, ele poderá se dedicar à campanha dos nossos aliados no seu estado.

Sem Aécio na chapa, o PSDB não enfrentará ainda mais dificuldades na disputa com a candidata governista, Dilma Rousseff, que terá no seu palanque o presidente mais popular da história?
Temos um candidato fortíssimo, que não está à frente nas pesquisas por mera sorte. Serra é um político inteligente, preparado, que sabe governar e já mostrou isso. Tem história e compromisso com o país. O governo vai de Dilma, que não tem nada disso. Ela nunca foi candidata, não tem história, hospedou-se por algum tempo no PDT e agora foi para o PT. Dilma não tem o que dizer nem o que mostrar. Qual o currículo dela? Dilma é candidata porque o presidente assim quis. Mas essa história de Lula de saias não funciona.

Ela será a candidata de um governo que beira a unanimidade. O PT vai comparar os números do governo Lula com os do governo tucano.
Isso não vai colar. Eles querem impor essa campanha
plebiscitária, uma pauta artificial, mas o eleitor não é bobo. Na hora da campanha, quem vai disputar a eleição serão Dilma e Serra, cada um com sua biografia. A não ser que a Lula se
esconda… (risos) Ato falho. Que a Dilma se esconda.

Como Serra poderá conquistar o eleitorado do Nordeste, que idolatra o presidente e foi largamente beneficiado por programas como o Bolsa Família?
Ninguém terá os votos que Lula tem no Nordeste. Nem Dilma. Fala-se muito em transferência de votos, mas isso acontece até certo ponto. Não acredito que haverá tanta transferência para Dilma. Tenho visto isso no interior do Nordeste: o povo não ama a ministra. Mas muita gente gosta do Serra. Não será como em 2006, quando os nordestinos votaram maciçamente em Lula. Naquele ano, só fizemos campanha em Sergipe. Nos outros estados, não havia organização. Aliás, eu não podia nem falar no nome de Alckmin (então candidato do PSDB). Só queriam saber do Lula. Agora é diferente. Estamos mais organizados, temos um candidato fortíssimo.

Caso Serra vença, haverá mudanças substanciais na política econômica?
Sem dúvida nenhuma. Iremos mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes. Nós não estamos de acordo com a taxa de juros que está aí, com o câmbio que está aí. Estamos criando empregos no exterior. Os últimos resultados da balança comercial são negativos. Precisamos estabelecer mecanismos para criar empregos no Brasil. Espero que a sociedade nos compreenda. Será necessário fazer um rigoroso ajuste das contas públicas. Hoje, o governo gasta muito – e mal. Os gastos cresceram além da capacidade fiscal do país.

E como transcorreriam essas mudanças?
Se ganharmos, agiremos rápida e objetivamente. A forma de fazer será discutida no momento adequado. Haverá um Ministério do Planejamento que realmente planeje, e não o desastre que está aí hoje. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não se realizou. Não há prioridades programáticas, só números inflados. Apenas os projetos eleitoreiros, os que têm padrinhos políticos, estão andando. As estradas estão esburacadas, os aeroportos estão na iminência de outro apagão, a infraestrutura de transportes, como os portos, foi entregue a políticos e a grupos de pressão. Isso é o PAC na realidade – e nós vamos acabar com ele.

Falando assim, até parece que o PSDB está à esquerda do PT...
Mas nós estamos à esquerda mesmo. Se ganharmos, vamos acelerar os investimentos na educação e na saúde. Manteremos o Bolsa Família, que é um mecanismo eficiente de erradicação da miséria e da fome. O PT não é de esquerda. Já foi; não é mais. O PT se transformou num partido populista. Antes, o PT tinha militância nas grandes cidades. Agora, tem cabos eleitorais nos grotões, pagos com dinheiro público, que escorre por meio de ONGs. Isso é esquerda? Não, é populismo. A verdade é que o PT só gosta de democracia quando lhe convém. Na eleição passada, quando estávamos atrás nas pesquisas, o PT introduziu o crime na campanha, com o dossiê fajuto dos aloprados e aquela pilha de dinheiro que ninguém sabe de onde surgiu. Agora que estamos na frente, imagine o que eles vão fazer. Será uma campanha sangrenta. Eles vão fazer de tudo para impedir uma possível vitória nossa. O que está acontecendo atualmente são apenas ensaios.

Como assim?
Dilma e o PT estão fazendo campanha eleitoral sem a menor cerimônia. Isso é contra a lei. Estamos assistindo a um banho de propaganda, na linha "Pra frente, Brasil", do Médici (general Emílio Garrastazu, presidente entre 1969 e 1974, na ditadura militar). É uma estratégia bem articulada de propaganda, na qual as empresas públicas entraram fortemente. O incrível é que empresas privadas também participam disso. O filme sobre Lula (Lula, o Filho do Brasil, em cartaz) foi financiado assim. Isso é inconcebível numa democracia.

As empresas não são livres para apoiar o governo?
Apoiam para se aproximar do poder. Mas não é só isso. Em 2002, a máquina pública não foi usada na campanha de Serra a presidente. Agora, há comícios de Dilma e Lula toda semana. É um espanto. Eu vi isso no meu estado. No ano passado, Dilma passou dois dias visitando as obras de transposição do Rio São Francisco. Eu as visitei em duas horas. O que justifica ficar tanto tempo lá? É claro que se trata de campanha, e ainda por cima paga com dinheiro do contribuinte. Isso é reflexo do trato do PT com a coisa pública. Nenhum governo até hoje tinha sido capaz de aparelhar a máquina estatal de alto a baixo. Isso é péssimo para o país.

Por exemplo?
A Petrobras. É a maior empresa do país, um governo dentro do governo, e sempre foi poupada da sanha do fisiologismo. Era aceitável que se nomeassem diretores, mas a interferência parava por aí. No governo do PT, virou uma esculhambação. Puseram apaniguados em todos os setores e cargos.

"Acho que Lula foi o último presidente a fazer política com as mãos sujas. Não há mais espaço para esse tipo de mentalidade que redundou no mensalão, na compra espúria do Parlamento"


Mas a Petrobras não está divulgando lucros recordes a cada trimestre?

Certamente seriam bem maiores, não fosse o loteamento. Essas nomeações causaram perda de eficiência e corrupção. No nosso governo, liquidaríamos essa prática. Seriam nomeados apenas técnicos que tivessem interesse no bem da Petrobras – e não no de um partido político. É preciso moralizar as ações políticas.

O PSDB vai mesmo usar esse discurso na campanha? Os maus costumes já se estabeleceram como aceitáveis no mundo político.
Eu votei em Lula várias vezes, mas nesse quesito ele me decepcionou. Acho que Lula foi o último presidente a fazer política com as mãos sujas. O clima político está saturado. A convivência parlamentar não suportará mais uma legislatura com tantas crises. Atingimos o limite. Não há mais espaço para esse tipo de mentalidade que redundou no mensalão, na compra espúria do Parlamento. É a mesma mentalidade que troca votos no Congresso por cargos no governo, por emendas
parlamentares.

Essas práticas já eram empregadas antes do governo Lula.
Não estou dizendo que antes era o céu e que agora vivemos no inferno. Mas o PT levou ao limite essas atitudes corruptas. O mensalão não morreu. Ele sobrevive nessas práticas, no desrespeito às normas democráticas. Os mensalões têm se expandido pelo país, nas assembleias e nas câmaras municipais.

"Cometemos nossos equívocos, mas o PT destruiu o Congresso. Montou tropas de choque, com parlamentares inexpressivos, que não se constrangem em defender o indefensável. A gasolina dessa tropa é o dinheiro público"


Qual a autoridade do PSDB para criticar os petistas, no momento em que o senador Eduardo Azeredo acaba de se tornar réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de liderar o mensalão mineiro?

Eu não concordo que tenha havido mensalão em Minas. O senador Azeredo é um dos homens públicos mais íntegros do país. Temos certeza de que ele será inocentado no STF.

Por que o PSDB não consegue fazer oposição?
Tentamos fazer, mas é difícil. O Congresso está desmoralizado, e o exercício da oposição sempre se deu no Parlamento. Se o Parlamento não tem força, a oposição fica limitada. As comissões parlamentares de inquérito, que são o instrumento mais poderoso da minoria, foram
exterminadas. O governo aprendeu a aniquilar CPIs.

O governo FHC também enterrava CPIs, como a da Corrupção, que foi barrada no fim da gestão tucana.
Cometemos nossos equívocos, mas o PT destruiu o Congresso. Crises como a do mensalão nascem no Executivo. Não há diálogo do governo com o Congresso. O PT montou tropas de choque, com parlamentares inexpressivos, que não se constrangem em defender o indefensável, atacam os outros sem pudor e agridem a imprensa. A gasolina dessa tropa é o dinheiro público. Foi o que se viu na CPI dos Cartões Corporativos e na CPI da Petrobras, que terminaram sem começar.

Como o PSDB poderia fazer diferente, se a qualidade do próximo Congresso provavelmente será a mesma?
Primeiro, não podemos partir do princípio de que o Parlamento não presta. É preciso respeitar todos os partidos e buscar diálogo com quem queira conversar. Vamos acabar com a linguagem dos cargos e das emendas. É claro que há elementos que não se dobram a argumentos republicanos. Com esses, não haverá conversa. Para isso, é preciso ter capacidade de liderança, o que Serra sempre demonstrou ter. Nosso candidato terá autoridade política e moral para conduzir esse processo de limpeza. Dilma, por outro lado, não poderá fazer isso. Ela é filha desse contexto ruim.

VEJA Recomenda e Os mais vendidos


DVDs

UM ANJO EM MINHA MESA
(An Angel at My Table, Nova Zelândia/Austrália/Inglaterra, 1990. Lume)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Um Anjo em Minha Mesa: o pesadelo de uma escritora tida como esquizofrênica - e não é mais um "filme de doença"


• Demasiado tímida e sujeita a depressões, na juventude a neozelandesa Janet Frame (1924-2004) foi erroneamente diagnosticada como esquizofrênica e passou extensos períodos internada em manicômios, levando eletrochoques (mais de duas centenas de sessões, segundo seus registros médicos). Janet quase sofreu também uma lobotomia - uma secção no córtex cerebral que, segundo as teorias hoje desacreditadas da antiga psiquiatria, era a melhor maneira de combater a doença. Só escapou dessa cirurgia mutiladora porque seu romance de estreia, o primeiro de uma série de escritos que publicaria, ganhou um prêmio importante e atraiu atenção para sua pessoa. Contada pela diretora Jane Campion (que no ano seguinte rodaria O Piano), a trajetória dramática da escritora não soa como manifesto nem vira filme de doença: transmite a sensação de uma vida que se desenrola, ora iluminada pelo espírito vigoroso daquela jovem ruiva (Kerry Fox, em belíssima interpretação), ora sombreada pelo estigma da doença mental e da sensação de que não se pertence ao mundo.

MONTY PYTHON: ALMOST THE TRUTH - THE LAWYER’S CUT
(Estados Unidos, 2009; ST2)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Cena de A Vida de Brian, do Monty Python: documentário sobre os bastidores do nonsense


• O humor anárquico e nonsense do sexteto inglês Monty Python influenciou os mais diversos sucessores, do americano Saturday Night Live ao brasileiro Casseta & Planeta, Urgente!. O grupo teve um programa de TV, de 1969 a 1974, e em seguida foi para as telas de cinema com obras-primas do humor como O Cálice Sagrado e A Vida de Brian. Este documentário traz a história do Monty Python contada por seus próprios integrantes (que não se reuniam desde 1983). Nos Estados Unidos, ele foi lançado numa caixa tripla, repleta de extras. No Brasil, o espectador tem de se contentar com a versão reduzida. Ainda assim, é um prazer rever trechos das principais produções do grupo - e descobrir seus bastidores. O filme revela, por exemplo, que o ator Graham Chapman atuou bêbado na maior parte de O Cálice Sagrado - filme no qual esteve hilário. E não há como não se emocionar (e rir) com o discurso de John Cleese no funeral de Chapman, morto de câncer em 1989: ao perceber que os amigos estavam a ponto de chorar, ele simplesmente parou de elogiar o colega para cobri-lo de imprecações.

BEETHOVEN: SYMPHONIES, Claudio Abbado e Filarmônica de Berlim
(Music Brokers)


• O regente italiano Claudio Abbado assumiu a direção artística da Filarmônica de Berlim em 1989, arejando o clima ditatorial imposto por seu antecessor, Herbert von Karajan. Pediu para ser chamado de "Claudio" - Karajan preferia herr direktor - e aceitou palpites dos músicos. Sem comprometer a excelência instituída por Karajan, Abbado mexeu na sonoridade da filarmônica, buscando interpretações mais delicadas, nas quais se percebiam os detalhes das partes de cada instrumento. Um dos momentos antológicos do período de Abbado em Berlim (encerrado em 2002) foi esta gravação das sinfonias de Beethoven. É fascinante assistir à Filarmônica de Berlim, famosa por seu Beethoven forte e tonitruante, der-reter-se nas mãos de Abbado. Na Terceira, naQuinta, na Sexta e na Sétima sinfonias, os DVDs oferecem ao espectador a opção de assistir ao concerto da perspectiva da orquestra, admirando os movimentos seguros do regente.

LIVRO

DESILUSÕES DE UM AMERICANO,
de Siri Hustvedt (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 368 páginas; 49 reais)

Ulf Andersen/Getty Images
LIVRO
Siri Hustvedt: romance que incorpora as memórias do próprio pai


• A investigação do passado familiar é o motor da narrativa em Desilusões de um Americano: logo após a morte do pai, Lars, o psicanalista Erik Davidsen e sua irmã filósofa, Inga, descobrem que o falecido havia deixado um livro de memórias. Imigrante norueguês, Lars narrava sua difícil adaptação aos Estados Unidos, onde se estabeleceu como fazendeiro no estado de Minnesota, antes de se converter em professor de história. Em uma nota no fim do livro, Siri Hustvedt, de 54 anos, informa que esses trechos do romance foram retirados, com poucas adaptações, das memórias de seu próprio pai, Lloyd Hustvedt, morto em 2003. Há outras sombras autobiográficas nessa ficção: Inga é viúva de um escritor cult que se assemelha muito a Paul Auster, marido da própria Siri. Esses componentes pessoais imbricam-se à perfeição em uma narrativa que conjuga o drama familiar e a especulação intelectual - no meio de suas investigações sobre o pai, Inga e o irmão conversam a respeito de filosofia e das repercussões da neurociência atual sobre a concepção que as pessoas têm da própria identidade.

DISCO

ERIC CLAPTON
(Universal)

Elliott Landy/Corbis/Latinstock
DISCO
O jovem Eric Clapton: produção exemplar no primeiro disco-solo


• Em sua autobiografia, o guitarrista inglês Eric Clapton confessa que tomou tantas drogas nos anos 70 que mal se lembra da maioria dos trabalhos que lançou nesse período (e tem vergonha daqueles que consegue recordar). Eric Clapton, seu primeiro disco-solo, é uma das poucas exceções. Inclui After Midnight (do guitarrista J.J. Cale) e Blues Power, que se tornaram marca registrada de Clapton. Feito com a colaboração do cantor e compositor Delaney Bamlett, o álbum não padece daquela produção desleixada que é um defeito comum na discografia do guitarrista. O repertório é calcado não apenas no blues, mas no gospel e no funk. Eric Clapton tem ainda Let it Rain, uma das mais belas baladas compostas pelo guitarrista. A reedição especial que acaba de chegar às lojas traz o disco oficial, um disco extra com as mesmas músicas mixadas por Bamlett - algumas têm andamentos diferentes - e as canções Comin’ Home e Groupie (Superstar), que ele gravou ao lado do grupo Delaney Bonnie & Friends.

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J.R. Guzzo

Longe da luz

"Se a Aeronáutica não tem condições de entender os altos
propósitos estratégicos do país, nem de tomar uma decisão
sobre os caças que deve utilizar em sua própria frota,
por que, então, pedir a sua opinião sobre o assunto?"

Qualquer manual de instruções sobre o bom exercício da chefia, mesmo os que não são lá nenhuma obra-prima, traz sempre uma regra clara. Toda vez que o chefe diz "aqui quem manda sou eu", cuidado - é sinal de que alguma coisa está errada, para ele, para os subordinados ou para ambos. Quem manda de verdade não precisa ficar dizendo isso; se diz, é porque acha que não está mandando como gostaria, ou, pior ainda, é porque os outros não acreditam que mande mesmo, a começar pelos que deveriam obedecer a suas ordens. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nestes últimos tempos, está começando a falar muito que quem manda é ele. Por que será? Aconteceu mais uma vez na semana passada, agora em relação a essa esquisita história dos 36 jatos que o Brasil quer comprar, mas parece não estar conseguindo, para renovar a frota de caças da Força Aérea Brasileira.

Concorrem como vendedores três modelos, um americano, um sueco e um francês; o governo não quer o americano porque é americano, e não quer o sueco porque está querendo mesmo o francês. Trata-se do modelo mais caro, com o menor alcance e a característica de não ter sido comprado até agora por nenhum país, salvo a própria França. Nada disso, assegura o governo brasileiro, tem nenhuma importância; há outras questões a considerar, complicadas demais para o entendimento dos leigos que pagarão essa conta, sendo a principal delas a formação de uma "parceria estratégica" com a França. Só Deus sabe o que seria essa "parceria estratégica" na vida real - espera-se que seja coisa boa, pois se for coisa ruim não vai dar para consertar mais tarde, quando os aviões estiverem comprados e pagos. Em todo caso, Lula e os cérebros internacionais do governo estão convencidos de que a compra do avião francês é fundamental para os seus projetos de reorganização geopolítica do planeta. O diabo é que a Aeronáutica brasileira, a quem cabe voar com os jatos, preparou um relatório técnico no qual fica claro, conforme antecipou a coluna Radar na última edição de VEJA, que o modelo com mais vantagens é o sueco. Pronto: o presidente ficou bravo, partiu para um "aqui quem manda sou eu" e avisou que a FAB vai comprar, no fim das contas, o modelo que ele achar melhor.

Eis aí, é claro, o tumulto formado. "Essa visão da Aeronáutica é equivocada e parcial", disse o deputado e líder petista José Genoino, recém-saído do purgatório para onde fora enviado pelas desventuras do homem-cueca, personagem inesquecível do mensalão. "Não se pode comprar equipamento militar como se fosse um objeto de prateleira num shopping." É um alívio para todos, realmente, receber essa informação do deputado; os brasileiros podem, a partir de agora, ficar sossegados, pois ele nos garante que ninguém do governo, ou da FAB, vai entrar numa loja das Casas Bahia e sair de lá com 36 jatos supersônicos no carrinho de compras. Muito justo, mas, se a Aeronáutica não tem condições de entender os altos propósitos estratégicos do país, nem de tomar uma decisão sobre os caças que deve utilizar em sua própria frota, por que, então, pedir a sua opinião sobre o assunto? Para que perder tempo, fazer viagens de estudo, gastar dinheiro e escrever relatórios se o presidente da República já resolveu que modelo o Brasil vai comprar? É como se os oficiais envolvidos no processo tivessem recebido a seguinte instrução: aprovem o modelo que quiserem, desde que seja o francês.

Quando resolveu fechar esse negócio do seu jeito, e de nenhum outro, o presidente Lula bem que poderia ter ficado quieto, dado as ordens que caberia dar e anunciado, um belo dia, que a compra estava feita. Em vez disso, saiu falando em público de suas preferências, deixou promessas no ar e agora tem de escolher entre dois males: ou desautoriza a força aérea que comanda ou não cumpre o que prometeu aos franceses ou deu a entender que estava prometendo. A situação não melhora em nada, é claro, quando se considera a tenebrosa reputação que o governo vem construindo sempre que se dispõe a comprar alguma coisa e pagar por ela; conforme demonstrado na mesma VEJA da semana passada, o metro cúbico pago numa obra federal tem a mania de custar o dobro, o triplo ou muito mais do que custa pelos preços correntes no mercado, seja em fundações, drenagem de areia ou tubos de aço-carbono. Para quebrar essa escrita, uma transação de impacto mundial como a dos jatos da FAB deveria estar sendo feita com a maior exposição possível à luz do sol. É o contrário, justamente, do que se vê.

Diogo Mainardi Herbert Richers vive

sábado, 9 de janeiro de 2010
“Herbert Richers transformou nossa linguagem. Ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido”

A morte de Herbert Richers foi o acontecimento mais marcante de 2009. O mais marcante e, desoladoramente, o mais negligenciado. Herbert Richers montou seu estúdio de dublagem em 1950. Em seis décadas de trabalho, adaptando filmes, seriados de TV e desenhos animados, ele contribuiu de maneira decisiva para moldar e disseminar o dialeto tapuio com o qual passamos a nos comunicar.

Se a língua portuguesa teve Camões – com seus latinismos, com seus volteios eruditos, com sua sonoridade épica –, o patoá nacional teve Herbert Richers – com seus estrangeirismos, com seus falsos cognatos, com sua sonoridade de locutor de rádio. De dublagem em dublagem, Herbert Richers transformou nossa linguagem. Violentando predicados, pervertendo complementos, corrompendo particípios, ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido. Mas ele foi mais longe do que isso. Além de revolucionar nossa linguagem, Herbert Richers revolucionou também nossa moral. Quando Jack Lemmon, numa comédia de Billy Wilder, tem a mesma voz e, principalmente, os mesmos atributos estéticos de Salsicha, num episódio do desenho animado Scooby-Doo (ambos – Jack Lemmon e Salsicha – dublados por Mário Monjardim), o resultado só pode ser uma sociedade como a nossa, em que todos os valores se equivalem e, portanto, se anulam.

No Brasil, atualmente, Dilma Rousseff é quem melhor encarna a reviravolta moral e linguística realizada por Herbert Richers. Ela é o epígono ideal de Carlos Campanile (dublador de Clint Eastwood, Al Pacino, Robert de Niro e Thor dos Cavaleiros do Zodíaco), de Garcia Neto (dublador de Gregory Peck e do Homem-Fera) e de Sumara Louise (dubladora do desenho Gasparzinho e de Meryl Streep). Se alguém lhe pergunta por que as obras do programa Minha Casa, Minha Vida continuam paradas, Dilma Rousseff responde como um médico-legista, num filme estrelado por Bruce Willis (ambos – Dilma Rousseff e Bruce Willis – dublados por Newton da Matta): “Olha, não é isso que nós estamos vendo. Não é isso que a gente está vendo e eu vou te falar a partir do que. Hoje, já tem mais de 400 projetos apresentados para a Caixa, dominantemente naquela distribuição em que zero a três é o pessoal que faz a moradia para renda de zero a três salários mínimos, é a grande maioria”.

Sim, a morte de Herbert Richers, ocorrida dois meses atrás, foi o acontecimento mais marcante de 2009. Mas ele estará sempre presente em 2010.

Monday, January 04, 2010

A Petrobrás de Gabrielli João Almeida

A entrevista de José Sérgio Gabrielli ao Estado ("PSDB teria vendido a Petrobrás", 25 de dezembro de 2009, página B1) marca a volta triunfante à cena política do presidente da Petrobrás depois do estrangulamento governista da CPI do Senado que deveria ter investigado a gestão do petista na companhia

Poupado de qualquer questionamento sobre as graves suspeitas de irregularidades que motivaram a instalação da CPI e de outras perguntas "inconvenientes", Gabrielli ficou à vontade para usar e abusar das meias-verdades e absolutas mentiras com que os petistas costumam fantasiar seus supostos êxitos e a "herança maldita" do governo anterior.

É preciso reconhecer, sem nenhum favor, que ele se superou nesse mister. O atestado de "idoneidade" que ganhou do próprio líder do governo, senador Romero Jucá, no relatório final da CPI, talvez tenha subido à cabeça do principal responsável direto pela transformação da maior empresa do Brasil em comitê político do PT e aliados. Se não fosse a intervenção providencial do presidente Lula - por intermédio de seu fiel escudeiro Gabrielli, subentende-se -, a Petrobrás "teria investimento e crescimento menores do que teve. Provavelmente teria menos preocupação com o controle nacional, portanto, teria menos impacto no estímulo da indústria brasileira."

Começando pelos resultados, que são o que interessa ao País: ao contrário do que sugere Gabrielli, a produção de petróleo da Petrobrás cresceu muito menos no governo Lula do que no governo FHC. Foram meros 3% ao ano, em média, desde 2003, ante 10% ao ano entre 1995 e 2002. O que cresceu mais no governo Lula foi o faturamento da empresa, por causa do boom dos preços internacionais do petróleo. Somente por isso. Foi esse aumento extraordinário da receita da companhia, provocado pelo aumento dos preços promovido pelos sheiks árabes, que encobriu os efeitos da péssima gestão petista.

A Petrobrás entrou na rota do crescimento acelerado a partir da vigência da Lei do Petróleo de 1997 e da reorganização interna que preparou a companhia para atuar num ambiente de competição. Isso sem que o Estado brasileiro tivesse de abrir mão do controle do ritmo de exploração das reservas de petróleo, das receitas respectivas, nem do fortalecimento dos outros elos da cadeia produtiva do petróleo com os instrumentos previstos na lei.

A Petrobrás que chegou ao pré-sal foi aquela que saiu das reformas de 1997. Sua profissionalização, não o seu aparelhamento político, a transformou numa multinacional brasileira bem-sucedida - uma das gigantes da indústria petrolífera, na vanguarda tecnológica de exploração de petróleo em águas profundas. Cabe reconhecer dois feitos espetaculares da gestão petista da Petrobrás: o quadro de pessoal saltou de 45 mil empregados efetivos e 100 mil terceirizados em 2002 para 85 mil efetivos e 300 mil terceirizados em 2008; e os negócios obscuros sangram o enorme caixa da companhia - números sobre produção e pessoal da Petrobrás citados por Luiz Paulo V. Lucas na reportagem PSDB busca agenda para oposição a Lula (Estado, 23/2/2009,

Entregue a pressões e manipulações políticas de todo tipo, a Petrobrás petista conseguiu o prodígio de entrar em dificuldades financeiras com o preço do petróleo nas nuvens, em 2008. Dizem que o melhor negócio do mundo é uma empresa petrolífera bem administrada e o segundo melhor, uma empresa petrolífera mal administrada. A administração encabeçada por Gabrielli garantiu um lugar à parte nessa escala de (in)competência, ao colocar uma empresa do porte da Petrobrás na UTI das manobras tributárias e injeções de dinheiro de bancos oficiais. Algo nunca antes registrado na história deste país e, possivelmente, do mundo.

É de uma desfaçatez sem limite que Gabrielli, com essa folha de serviços, se arvore em defensor da Petrobrás contra o fantasma muito invocado e nunca materializado de uma suposta ameaça de privatização. Das ameaças reais ao caixa, à eficiência e à capacidade de expansão da empresa os atuais responsáveis, incluindo Gabrielli, livraram-se de prestar contas à CPI. Não deixarão de responder por isso ao Tribunal de Contas da União, que já apontou graves irregularidades em contratos da companhia com fornecedores, e ao Ministério Público Federal, ao qual o PSDB encaminhou 18 pedidos fundamentados de investigação.

Quem privatiza a Petrobrás por vias tortas, de forma desavergonhada, é o próprio Gabrielli e os apaniguados de seu partido. São eles que confundem uma empresa de economia mista com o fundo do quintal da sua organização político-negocial. São eles que usam as verbas de patrocínio da companhia como uma espécie de orçamento paralelo, livre do crivo do Congresso, no melhor estilo da estatal petrolífera venezuelana nas mãos de Hugo Chávez. Foram eles, aliás, que entregaram o patrimônio nacional a estrangeiros sem um gesto de defesa no vergonhoso episódio da expropriação da refinaria da Petrobrás na Bolívia. Tudo isso e muito mais sob os olhos cegos ou cúmplices da ministra Dilma Rousseff, presidente do conselho de administração da companhia.

Gabrielli falou como alguém que de fato é: um instrumento de um projeto de poder que pretende substituir a direção das estatais pelo partido, o comando dos fundos de pensão pelo partido, os Ministérios pelo partido, a sociedade pelo partido...

Os que, como nós, realmente valorizam a Petrobrás querem-na sob o controle do povo brasileiro, não sob o controle do partido que a explora.

A Petrobrás precisa ser reestatizada: precisa sair da esfera do controle privado petista para ser devolvida à Nação brasileira.

Sunday, January 03, 2010

Recordando e vivendo num boteco do Leblon JOÃO UBALDO RIBEIRO

-Esse clima de festa de fim de ano não te deixa meio deprê, não? Acho que mais triste que eu só o peru do Natal.

— Ah, nem me fale, cara, cada ano fica pior. Eu hoje quase nem venho aqui, só vim mesmo porque a Leninha faz questão que eu passe a tarde de sábado no boteco.

— É, você já me contou. Pelo menos isso, companheiro, poucos podem se orgulhar de que a mulher é que insiste que ele vá para o boteco.

E depois tu diz que a Leninha não te compreende.

— Continuo dizendo. Ela me bota pra fora para eu não atrapalhar o carteado dela, pergunte a ela. Mas hoje quase que eu fico em casa mesmo assim.

Eu me trancava no quarto, botava uma ampola de uísque e um balde de gelo perto da cabeceira da cama, ligava a televisão num canal com filme de bicho e ia esquecer tudo, inclusive o carteado, por mim ela podia perder até a casa de Búzios, não estou ligando pra mais nada, essa é que é a verdade.

— Pera aí, também não é assim. Está certo que no fim do ano se cria essa atmosfera meio melancólica, mas tem o outro lado. Mais um Natal na companhia da família, mais um ano se iniciando...

— Menos um ano, você quer dizer.

— Como assim? Não entendi.

— Tu ainda conta um ano a mais no réveillon? Mas é claro que não é um ano a mais, é um a menos, pode ir ticando no calendário da tua vida: menos um, cada dia está mais perto a passagem pela catraca. Você só tem menos dois anos que eu, também pegou latim no ginásio. Eu fui aluno do velho Messias, que era um terror, mas sabia ensinar e até hoje eu sei uns troços em latim. Tu sabe aqueles relojões antigos, de corda e pêndulo? Eles costumavam ter no mostrador uma frase em latim que o velho Messias repetia e a gente não ligava, mas hoje eu ligo muito, todo dia eu me lembro dessa frase.

— Tempus fugit, eu me lembro.

— Não, essa aí é mole, isso qualquer um diz. A que o velho Messias ensinou não se refere ao tempo, se refere às horas, a cada hora. Diz assim: “Omnes feriunt, ultima necat”.

Sacou? Claro que não sacou, tu não foi aluno do velho Messias. Quer dizer: “Todas ferem, a última mata”.

Tu conhece coisa mais terrível? Todas as horas ferem e a última mata, é isso mesmo. Cada horinha que passa é menos uma hora. Menos uma hora, menos uma hora...

— Isola, cara, e tu ainda fica olhando o relógio enquanto fala? — É, a gente pode se enganar como quiser, mas da verdade ninguém escapa.

E nem que eu quisesse escapar, não podia, tudo conspira em contrário, inclusive esse final de ano.

— É, mas por causa da tua interpretação, com essa ideia do menos um.

— Não tem nada de interpretação, é a realidade sem filtro. Esse ano eu fui pela primeira vez à reunião que minha turma de faculdade faz de cinco em cinco anos. Era de dez em dez, mas me disse o Gominhos, que é quem organiza tudo, que de dez em dez dava tempo demais para morrer uma porção, menos griloso é de cinco em cinco. Bem, eu nunca fui a nenhuma, mas este ano, 45 anos de formado, a Leninha também quis ir e aí eu fui. Triste decisão, devia ter continuado sem ir.

— Eu sei como são essas coisas, a gente chega lá e não se lembra nem do nome da maioria.

— Não, comigo não teve esse problema, eu não esqueço o nome de ninguém, lembrei todos, falei com todos. E o problema não era o nome, isso não seria problema, mesmo se eu esquecesse. Mas tu te lembra da Marcinha? — Eu me lembro, o pessoal dizia que ela não tinha calcinha, tinha portajoias, Ipanema inteira vivia aos pés dela, claro que eu me lembro. Deve estar meio velhusca, ainda é bonita? — Um pouco menos que a Brigitte Bardot depois de velha, tu já viu a Brigitte depois de velha? Pois a Marcinha conseguiu embuchar mais que a Brigitte, a cara dela parece um pergaminho de banheiro do Tutancamon.

Uma coisa tristíssima, tudo despencado, eu quase não conseguia olhar.

— É, tem gente que cai muito com a idade.

— Tem gente, não, todo mundo.

Daquelas gatas de nosso tempo, não tem uma que não perca para uma ameixa seca em matéria de aparência, parece praga.

— É, mas elas devem estar dizendo o mesmo de você. Eu também conheci você na juventude com o apelido de Meio Quilo e hoje você tem meio quilo por centímetro cúbico de barriga.

— Olha quem fala! Quem tem mais pelanca no pescoço de toda a turma de nossa faixa aqui é você, parece até aquelas golas roulées de antigamente. E tua barriga já está dando a segunda volta por cima do umbigo, não vem botar banca em cima de mim, não.

— Tudo bem, mas isso só confirma que a gente nota a decadência dos outros e não vê a nossa, a gente tem de se enxergar.

— E por que é que você pensa que eu quase não desci hoje? Eu fiquei me olhando nos espelhos. Na suite lá de casa, os armários embutidos têm espelho nas portas, a porta do banheiro tem espelho, só não tem espelho no teto. Aí eu estava de cueca, me olhando assim e a Leninha sentada na cama e aí eu me avaliei, aquelas pernas finas e sem cabelo, aquela careca, aquela bunda chocha... aí eu falei: “Leninha, vocês mulheres comem qualquer coisa”.

— Graças a Deus, bebamos a isso.

Como é mesmo a frase latina?

Los argentinos, muy críticos con la política Por Joaquín Morales Solá

Eduardo Duhalde suele decir (y lo ha dicho en público) que la sociedad argentina parece caminar hacia un período en el que reclamará otra vez que se vayan todos. ¿Dramatismo? ¿Una simple especulación para que los argentinos vuelvan a mirarlo a él? La intención de Duhalde puede ser alguna de esas o cualquier otra. El dilema crítico de la política es, sin embargo, que una reciente medición nacional sobre el estado de la opinión pública le da la razón al ex presidente.
La encuesta fue hecha por una de las más prestigiosas empresas de análisis de opinión pública, reconocida por sus recientes aciertos en los pronósticos electorales. Según esa medición concluida hace pocos días, los conflictos de la política son, para la mayoría social, el tercer problema del país, después de la inseguridad y el desempleo (que volvió a encaramarse en uno de los principales lugares de la preocupación social).
La política estuvo peor en septiembre; entonces, era el segundo problema para los argentinos, sólo superado por la inseguridad pública. Es fácil suponer las razones de esa extensa frustración social de hace tres meses. Un gobierno derrotado en las elecciones nacionales estaba desplegando una furia de poder como no lo había hecho ni aun cuando ganaba elecciones. Un Congreso vencido por el furor del kirchnerismo parecía inclinarse entonces, dócil e impotente, ante los caprichos de la dinastía gobernante.
La peligrosa caída de la política se detuvo en diciembre y comenzó a remontar lentamente, aunque todavía son muy altos los índices sociales que la perciben como un problema. Esa modificación de la curva tiene también su explicación: el 3 de diciembre ocurrió la célebre reunión preparatoria de la nueva Cámara de Diputados, en la que la oposición se impuso claramente al oficialismo. La sociedad no quiere un gobierno acorralado (el 60 por ciento prefiere que la oposición acuerde con la administración), pero aquella reunión de los nuevos diputados cristalizó de alguna manera el viejo resultado electoral. La política demoró seis interminables meses en llevar a los hechos el espíritu social de junio.
Esa crítica de la sociedad a la política debe completarse con otro resultado alarmante: una enorme mayoría social (alrededor del 70 por ciento) cree que el país estará igual o peor en el futuro inmediato. Si los conflictos de la política son un problema y si lo que viene es peor que lo que está, ¿dónde hay un mínimo capital político en condiciones de reconstruir la ilusión social?
Encontrar las partículas de ese capital imperceptible es el mayor desafío actual de la política. La democracia necesita existencialmente de la política, pero es la política la que debe cimentarse como una solución y no como un problema para los argentinos, cansados de crispaciones y enfrentamientos, según se deduce de la encuesta.
La crisis de la política se nota, incluso, en la valoración de los principales líderes. El más popular de todos es el vicepresidente Julio Cobos, pero sólo convoca el 44 por ciento de imagen positiva. Cristina Kirchner llegó a tener más del 60 por ciento cuando fue candidata y cuando ya llevaba sobre sus espaldas cuatro años de gestión de su esposo. Francisco de Narváez, Gabriela Michetti y Ricardo Alfonsín lo siguen a Cobos muy cerca, con el 42 por ciento de imagen positiva.
Un problema no menor es que ni Michetti ni Alfonsín (ni Pino Solanas, contiguo a ellos) registran números cuando se hurga en la intención de votos para presidente. De Narváez sí tiene un lugar entre los primeros presidenciables, pero él debe sortear todavía su problema con la Constitución. No nació en la Argentina y el presidente debe ser argentino nativo.
El conflicto entre la ley y su ambición sólo podría ser zanjado por una relectura de la Constitución por parte de la Corte Suprema de Justicia, pero eso no ha sucedido aún ni el caso está en las oficinas del máximo tribunal de justicia.
El primer peronista hecho y derecho que aparece en la cima es Carlos Reutemann. No obstante, el senador santafecino ha deslizado en los últimos días que es probable que nunca se meta en la selva implacable de la lucha presidencial. Reutemann no tiene el cuerpo ni el alma para soportar el rigor de una campaña presidencial cargada de ambiciones y candidatos. Los otros peronistas (Duhalde, Felipe Solá o el propio Kirchner) están más abajo que arriba de las preferencias sociales.
Una noticia predecible es que dos gobernantes que venían con ambiciones presidenciales, Daniel Scioli y Mauricio Macri, han descendido en las mediciones de opinión pública. Scioli ha caído mucho más que Macri. La novedad puede ser también una contradicción con el resto de la encuesta: el principal problema de Scioli y de Macri es que sus errores son producto de una escasa experiencia política.
La reacción social ante las cosas de la dirigencia política puede descifrarse también mirando la lista de los impopulares. Guillermo Moreno es el personaje público más impopular del país, seguido de cerca por Luis D´Elía, Hugo Moyano y el propio Kirchner. El poder que gobierna está en ese cuarteto. El despótico Moreno es más importante que Amado Boudou a la hora de definir la economía. Moyano tiene tanto poder como Kirchner y D´Elía es la expresión pública y prepotente de los que mandan. ¿Se puede ignorar impunemente durante tanto tiempo a la mayoritaria opinión social?
Surgen también dirigentes con alta popularidad, pero con un enorme desconocimiento público. Es el caso del senador Ernesto Sanz, presidente del radicalismo, que es muy bien valorado por la dirigencia y por los argentinos que lo conocen, pero seis de cada diez consultados dicen no saber de él o saben muy poco. Le sucede lo mismo al gobernador de Chubut, Mario Das Neves: cinco de cada diez argentinos no lo conocen.
Los Kirchner están en la línea descendente que padecen desde la crisis con el sector rural. La curva de la caída del matrimonio comenzó claramente cuando hostilizó a los productores del campo. Los Kirchner han perforado ahora el piso del 20 por ciento de aceptación, pero el rechazo supera el 60 por ciento de la opinión social. No hay experiencia de presidentes que hayan logrado recomponerse después de haber tocado tales índices de impopularidad.
Ni siquiera la posibilidad de un 2010 mejor en actividad económica debería despertarles esperanzas. Como recordó un analista de opinión pública, Carlos Menem también tuvo buenos años económicos en 1997 y 1998, pero su contrato con la sociedad ya estaba definitivamente roto.
El período de Cristina Kirchner será recordado por dos circunstancias: el poder en manos de su marido y la regresión de la economía. Si se concretara el decreto de necesidad y urgencia que dispuso de más de 6500 millones de dólares para pagar deuda pública durante 2010, el Banco Central habrá perdido un 20 por ciento de sus reservas durante los dos años de Cristina Kirchner. La Presidenta recibió 50.000 millones de dólares, que se reducirían a 40.000 millones.
El poder que se opaca lucha por conservar su derecho a la arbitrariedad, como lo demostró la pelea a sangre y fuego por el dominio de la comisión parlamentaria sobre los decretos de necesidad y urgencia. La oposición no es un solo partido; tiene la dificultad constante de abroquelar a sus fragmentos dispersos. Nada cambiaría sin la vocación de los políticos para renovar los estilos, los programas y también las personas. Ese es el mayor clamor social que se desprende de la encuesta.
No existen, es cierto, todas las condiciones para otro alarido social buscando que se vayan todos. Pero el riesgo es demasiado alto. El principio de año, entre tales lamentos, no significa nada. La política no se define por el invariable trámite del calendario. Como escribió Borges, la mañana sólo finge un comienzo.

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