Saturday, January 30, 2010

Percy Jackson conquista os adolescentes

O Olimpo é pop

Na série Percy Jackson, de Rick Riordan, um adolescente
problemático descobre que é filho de um deus grego. Os livros
vendem milhões - e fazem a garotada se entusiasmar por mitologia


Bruno Meier

Divulgação
INSPIRAÇÃO MÁGICA
Percy Jackson (no centro) e seus amigos fiéis no filme O Ladrão de Raios:J.K. Rowling, de Harry Potter, cruza com Homero


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A arte e a literatura deram uma longa sobrevida aos mitos gregos. Escritores, poetas, pintores e escultores seguiram usando como tema o Olimpo e seu elenco de deuses brigões - mesmo quando ninguém mais acreditava na existência deles. E seguem ainda. Ex-professor do ensino fundamental de São Francisco, o americano Rick Riordan, de 45 anos, deu uma guinada pop nessa tradição. Na série Percy Jackson e os Olimpianos, as divindades da Grécia antiga circulam pelos Estados Unidos de hoje. Inseridos em uma saga jovem nos moldes de Harry Potter, Zeus e seus colegas (veja exemplos no quadro) fazem o papel de super-heróis (ou, no caso de Ares, deus da guerra, supervilões). "É fácil para um jovem se interessar por esses deuses. Eles são poderosos e imortais, mas ao mesmo tempo têm defeitos humanos. Sentem fome e ciúme", disse Riordan a VEJA. A série Percy Jackson, com cinco volumes, já vendeu 9 milhões de livros no mundo todo. No Brasil, foram 130 000 - e a editora Intrínseca ainda não publicou a coleção completa: o quarto título, A Batalha do Labirinto(tradução de Raquel Zampil; 392 páginas; 29,90 reais), deve chegar às livrarias a partir do dia 10. O sucesso permitiu que Riordan abandonasse as salas de aula para se dedicar apenas a escrever. Em certo sentido, ele continua educando: seus livros são uma introdução acessível e empolgante ao repertório cultural da Grécia antiga.

SEMIDEUS DISLÉXICO
O escritor americano Rick Riordan: história criada para o próprio filho, que também sofre de dislexia

Shaienne Aguiar, de 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio e presidente de um fã-clube de Percy Jackson, encontrou na série um incentivo para mergulhar nos clássicos. "Os livros de Riordan me deram gás para ler a Odisseia, de Homero", diz a jovem. Riordan orgulha-se de receber cartas de bibliotecários escolares contando que livros sobre mitologia que andavam empoeirados nas prateleiras passaram a ser disputados depois que os alunos se enfronharam nas aventuras de Percy Jackson - um garoto americano que descobre ser filho de Poseidon, o deus dos mares. O autor criou a história para um filho, Haley, que ouviu falar dos mitos gregos na escola e pediu ao pai que narrasse uma aventura com deuses. A despeito dos poderes fantásticos que herdou do pai aquático, Percy, herói e narrador dos livros, sofre de dislexia e déficit de atenção - problemas que afligem Haley. "Foi o meu modo de homenagear todas as crianças que conheci com essas condições", diz Riordan.

O primeiro livro da série, O Ladrão de Raios - sexto lugar na lista de ficção desta semana em VEJA -, já foi adaptado para o cinema. O filme estreia no dia 12 e foi dirigido por Chris Columbus, que deu o pontapé inicial nas adaptações de Harry Potter. As duas séries, aliás, guardam outras e mais profundas similaridades. Antes de descobrir sua natureza divina, Percy Jackson é um garoto-problema, expulso de várias escolas. Só vai encontrar seu lugar quando frequenta um acampamento para meios-sangues (é como são chamados, nos livros, os filhos de deuses com mortais), onde faz amizade com Annabeth, filha da deusa Atena, e Grover, filho de um sátiro. De lá, parte para uma busca aventurosa por um certo raio de Zeus que teria sido escondido em local secreto há muito tempo - e que poderia levar a humanidade a uma guerra de proporções catastróficas. É o modelo consagrado de Harry Potter: um garoto com poderes que vai encontrar seus iguais em uma instituição especial e de lá sai para enfrentar as forças do mal, com a ajuda indispensável de uma dupla de amigos fiéis.

Riordan admite alegremente a sua dívida com J.K. Rowling. "Ela estabeleceu o padrão para a nova literatura infantojuvenil", diz. "Mas Percy e Harry são crianças muito diferentes, que vivem em mundos diferentes." A mitologia de Harry Potter é mais bagunçada, misturando criaturas de origens diversas - centauros gregos e trolls escandinavos, para ficar em dois exemplos. O mundo de Percy Jack-son é povoado por respeitáveis deuses e monstros clássicos. Mas é também o mundo cotidiano da adolescência - escola, brigas com os pais, relacionamentos complicados. Essa combinação do prosaico com o fantástico tem se revelado uma grande receita para best-sellers juvenis.


Fotos Album/Latinstock, AFP, Michelangelo Buonarroti/Getty Images e divulgação


LIVROS

Trecho de A Batalha do Labirinto,
de Rick riordan

UM

Enfrento as líderes de torcida

A última coisa que queria fazer nas férias de verão era destruir outra escola. Mas lá estava eu naquela manhã de segunda-feira, primeira semana de junho, sentado no carro da minha mãe diante da Goode High School, na rua 81 Leste.

A Goode ficava em um prédio grande de arenito com vista para o Rio East. Um monte de bmws e Lincoln Towns estava estacionado diante dela. Olhando os elegantes arcos de pedra, eu me perguntei quanto tempo levaria até ser expulso daquele lugar.

— Relaxe. — A voz de minha mãe não parecia nada relaxada.

— É só uma visita de orientação. E lembre, querido: esta é a escola de Paul. Portanto, tente não... Você sabe.

— Destruí-la?

— É.

Paul Blofis, namorado da minha mãe, estava de pé no portão da escola, recebendo os futuros alunos do primeiro ano do ensino médio à medida que subiam os degraus. Com seus cabelos grisalhos, roupa de brim e casaco de couro, parecia um ator de tevê, mas ele era só um professor de inglês. Paul conseguira convencer a Goode High School a me aceitar no primeiro ano, apesar de eu ter sido expulso de todas as escolas que frequentei. Tentei avisá-lo de que aquela não era uma boa ideia, mas ele não me deu ouvidos.

Olhei para minha mãe.

— Você não contou a ele a verdade sobre mim, contou?

Ela tamborilava os dedos nervosamente no volante. Estava vestida para uma entrevista de emprego — seu melhor vestido azul e sapatos de salto alto.

— Pensei que seria melhor esperarmos — ela admitiu.

— Para não o espantarmos.

— Tenho certeza de que vai dar tudo certo na visita de orientação, Percy. É só uma manhã.

— Ótimo — murmurei. — Posso ser expulso antes mesmo de começar o ano letivo.

— Pense positivo. Amanhã você vai para o acampamento! Depois da orientação, você tem o encontro...

— Não é um encontro! — protestei. — É só a Annabeth, mãe. Puxa!

— Ela está vindo do acampamento até aqui para ver você.

— É, eu sei.

— Vocês vão ao cinema.

— Sim.

— Só os dois.

— Mãe!

Ela ergueu as mãos em sinal de rendição, mas eu podia ver que estava fazendo força para não rir.

— É melhor entrar, querido. Até a noite.

Eu estava prestes a sair do carro quando olhei para a escadaria da escola. Paul Blofi s cumprimentava uma garota de cabelos ruivos frisados. Ela vestia uma camiseta marrom e um jeans surrado customizado com desenhos feitos com caneta hidrográfi ca. Quando se virou, vi seu rosto de relance, e os pelos do meu braço se eriçaram.

— Percy? — chamou minha mãe. — O que foi?

— N-nada — gaguejei. — A escola tem uma entrada lateral?

— Descendo a rua, à direita. Por quê?

— Até mais tarde.

Mamãe começou a dizer algo, mas saltei do carro e corri, torcendo para que a garota ruiva não me visse.

O que ela estava fazendo ali? Nem mesmo a minha sorte poderia ser assim tão ruim.

Pois, sim. Eu estava prestes a descobrir que minha sorte poderia ser muito pior.

Entrar sorrateiramente na escola não deu muito certo. Duas líderes de torcida de uniforme roxo e branco estavam na entrada lateral, esperando para emboscar os calouros.

— Oi! — Elas sorriram, e eu deduzi que aquela era a primeira e a última vez que uma líder de torcida seria tão simpática comigo. Uma delas era loura, com gélidos olhos azuis. A outra era afro-americana, com cabelos escuros e enroscados como o da Medusa (e, pode acreditar, eu sei do que estou falando). Ambas tinham o nome bordado em letras cursivas no uniforme, mas, com a minha dislexia, as palavras pareciam espaguete, sem nenhum sentido.

— Bem-vindo à Goode — disse a loura. — Você vai amar muito isso aqui. Mas, enquanto me olhava de cima a baixo, sua expressão parecia dizer algo como:Argh, quem é este perdedor?

A outra garota se aproximou tanto que me senti desconfortável. Examinei o bordado em seu uniforme e consegui decifrar Kelli. Ela cheirava a rosas e a algo que reconheci das aulas de equitação no acampamento — o cheiro de cavalos recém-lavados. Era um perfume estranho para uma líder de torcida. Talvez tivesse um cavalo, ou algo assim. De qualquer modo, ela estava tão perto de mim que tive a sensação de que ia tentar me empurrar escada abaixo.


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