Saturday, June 19, 2010

Entrevista: José Serra


"Ouvir, argumentar, decidir"

O candidato do PSDB à Presidência da República diz que
o loteamento de cargos no governo do PT turbinou a corrupção
e dá sua receita de governabilidade sem clientelismo


Eurípedes Alcântara e Fábio Portela

"A manutenção da estabilidade
é inegociável. Isso significa
manter a inflação baixa"
Paulo Vitalle


Nenhum outro político brasileiro tem no currículo uma vida pública como a de José Serra, 68 anos, candidato do PSDB à sucessão de Lula. Jovem, presidia a União Nacional dos Estudantes (UNE) quando veio o golpe de 64, que o levou ao exílio, expatriação que duraria até 1978. De volta ao Brasil com diploma de economia no bolso, foi secretário do Planejamento, deputado constituinte, senador, ministro do Planejamento e da Saúde, prefeito e governador. Sobre Dilma Rousseff, ele diz: "Hoje me choca ver gente que sofreu sob a ditadura no Brasil cortejando ditadores que querem a bomba atômica, que encarceram, torturam e matam adversários políticos, fraudam eleições, perseguem a imprensa livre, manipulam e intervêm no Legislativo e no Judiciário. Isso é incompatível com a crença na democracia e o respeito aos direitos humanos".

O senhor já enfrentou todo tipo de adversário em eleições, mas, desta vez, a se fiar nas palavras do presidente Lula, vai concorrer com um "vazio na cédula", preenchido com o nome de Dilma Rousseff. Afinal, quem é seu adversário nesta eleição?
Só tenho a certeza de que não vai ser Lula, cujo mandato termina no próximo dia 31 de dezembro. Adversários são todos os demais candidatos à Presidência da República. Por trás dos nomes na tela da urna eletrônica há a história, as propostas e a credibilidade de cada um. Minha obrigação é me apresentar aos brasileiros sem subestimar nem superestimar os demais. Deixemos que os eleitores julguem. É muito bom que os candidatos sejam diferentes entre si
e também em relação aos presidentes que já deram sua contribuição ao Brasil. A beleza da vida está justamente em cada um ter seus próprios atributos.

Depois que os repórteres da sucursal de VEJA em Brasília desvendaram uma tentativa de aloprados do PT de, uma vez mais, montar uma central de bisbilhotagem de adversários, as operações foram desautorizadas pela cúpula da campanha. O senhor responsabiliza a candidata Dilma Rousseff diretamente pelas malfeitorias ali planejadas?
Só cabe lamentar e repudiar as tentativas de difusão de mentiras, de espionagem, às vezes usando dinheiro público, às vezes usando dinheiro de origem desconhecida, como em 2006. São ofensas graves e crimes que ferem até mesmo direitos básicos assegurados pela Constituição brasileira. Isso não é honesto com o eleitor. É coisa de gente que rejeita a democracia. A candidata disse que não aprova esse tipo de atitude, mas não a repudiou, não pediu desculpas públicas nem afastou exemplarmente os responsáveis. Essa reação tímida e a tentativa de culpar as vítimas fazem dela, a meu ver, responsável pelos episódios.

Por que para a democracia brasileira é positivo experimentar uma alternância de poder depois de oito anos de governo Lula?
Querer se pendurar no passado é um erro, não de campanha, mas em relação ao país. Eleição diz respeito ao futuro. Por isso, a questão que se coloca agora aos eleitores é escolher o melhor candidato, aquele que tem mais condições de presidir o Brasil até 2014. Eu ofereço aos brasileiros a minha história de vida e as minhas realizações como político e administrador público. Ofereço as minhas ideias e propostas. Espero que os demais candidatos façam o mesmo, para que os brasileiros possam comparar.

Como o senhor conseguiu governar a cidade e o estado de São Paulo sem nunca ter tido uma única derrota importante nas casas legislativas e sem que se tenha ouvido falar que lançou mão de "mensalões" ou outras formas de coerção sobre vereadores e deputados estaduais?
Em primeiro lugar, é preciso ter princípios firmes, não substituir a ética permanente pela conveniência de momento. É vital ter e manifestar respeito à oposição, ao Judiciário, à imprensa e aos órgãos controladores. Exerci mandatos de deputado e senador durante onze anos. Todos os que conviveram comigo no Congresso sabem que minhas moedas de troca são o trabalho, a defesa de ideias e propostas, o empenho em persuadir os colegas de todos os partidos e regiões. O segredo está em três palavras: ouvir, argumentar, decidir. Há o mito de que emendas de deputado são sempre ruins. Não são. Na maioria das vezes, elas visam a resolver ou aliviar problemas reais que afligem as pessoas de sua região. Portanto, atender os deputados segundo critérios técnicos é atender seus eleitores. Outra coisa fundamentalmente diferente é distribuir verbas ou cargos em troca de votos. Isso eu nunca fiz e nunca farei.

O PT fez?
Fez. Cito como exemplo as agências que criei quando fui ministro da Saúde, a Anvisa e a ANS. Sabendo como eu atuo, nenhum parlamentar, nem mesmo os do meu partido, sequer me procurou em busca de alguma indicação. Eles sabiam que não teriam êxito. E qual é a situação agora? O atual governo loteou totalmente as agências entre partidos, fatiando-as entre grupos de parlamentares e facções de um mesmo partido. A mesma partilha se abateu sobre os Correios e sobre a maioria – se não todos – dos órgãos públicos. O loteamento foi liberado e se generalizou. Essa prática é uma praga que destrói a capacidade de gestão governamental e turbinou como nunca a corrupção. Mais ainda, a justificativa oferecida foi a de que se tratava de "um mal necessário" para garantir a governabilidade. Se eleito, vou acabar com isso à base de um tratamento de choque.

Por que criar um Ministério da Segurança Pública e como ele atuaria exatamente no combate ao crime, que, no atual regime federativo, é uma atribuição estadual?
A segurança é um problema em todos os estados. Portanto, é um problema nacional. O governo federal e o presidente, que é o chefe do governo, não podem mais fingir que o problema da segurança está equacionado. Não está. Segurança é um dos três grandes problemas do Brasil. Temos de enfrentá-lo. O Brasil não pode continuar a ter 50 000 homicídios por ano. É um número escandaloso. Apenas o crescimento econômico não arrefece os criminosos. O Nordeste é um exemplo disso. A região experimentou um crescimento expressivo, mas a população sofre com a explosão da criminalidade. Só a Presidência da República reúne as condições para coordenar uma ação nacional da magnitude que o problema exige. Precisamos criar um SUS da segurança. O Ministério da Segurança será o símbolo e a ferramenta dessa prioridade. Com ele, estou dizendo o seguinte: brasileiros, vamos encarar o desafio para valer, vamos resolver essa situação. Esse será meu compromisso como presidente.

Falando em federação, como concertar com os governadores uma reforma tributária em que ninguém se sinta lesado ou pagando a conta?
É menos complicado do que parece, e nem é necessário mexer na Constituição. Para começar, é preciso aprovar uma lei que preveja que os impostos sejam explicitados nos preços das mercadorias. Isso aumentará a consciência das pessoas a respeito da carga tributária. Em São Paulo, fizemos uma lei para criar a Nota Fiscal Paulista, um instrumento de grande sucesso através do qual 30% do imposto estadual sobre o varejo é devolvido aos contribuintes, com crédito direto na conta bancária. Vamos criar a Nota Fiscal Brasileira, para devolver parte dos tributos federais. A reforma que farei vai aliviar a carga tributária incidente sobre os indivíduos, desonerar os investimentos, simplificar a formidavelmente complexa estrutura de tributos atuais. Além disso, restabeleceremos a neutralidade em relação à distribuição de recursos. É uma proposta coerente.

Segundo o folclore, o senhor seria seu próprio ministro da Fazenda, seu ministro do Planejamento, seu presidente do Banco Central e seu ministro da Saúde...
Nossa! É folclore mesmo. Quem trabalha ou trabalhou comigo sabe que não centralizo a administração, que dou grande autonomia às diferentes áreas. Fixo metas, objetivos, acompanho, cobro, mas nunca imponho nada exótico ou irrealista. E mais: tenho grande capacidade de ouvir.

Como seria a política econômica em um eventual governo Serra? Qual é o perfil ideal para o cargo de ministro da Fazenda?
A manutenção da estabilidade é inegociável. Isso significa manter a inflação baixa. Com a combinação dos regimes fiscal, monetário e cambial, caminharíamos sem rupturas para um ambiente macroeconômico cujo resultado inevitável seria a trajetória descendente dos juros. Uma taxa de juros menor é, aliás, condição para atrair mais investimentos privados destinados à infraestrutura, sem ter de dar os subsídios que hoje distorcem o processo. Quanto mais alta a taxa real de juros, maior é a taxa interna de retorno exigida pelos investidores privados em infraestrutura. Para compensar o juro alto, o governo é obrigado a dar subsídios.

E o perfil do seu ministro da Fazenda?
É preciso ganhar a eleição primeiro. Mas sempre cuidei de reunir à minha volta, na administração e no Congresso, pessoas preparadas, prudentes, com reconhecido espírito público. Escolho gente experiente, com senso prático e desapegada de doutrinas – ou que, pelo menos, prefere acertar abandonando suas convicções acadêmicas a errar por fidelidade a elas. No governo federal, será desse mesmo jeito. Precisarei ter comigo auxiliares que entendam que a política econômica é um processo político também. Na política, para fazer com que as
coisas aconteçam, você tem de se equilibrar sobre o fio da navalha. É uma eterna balança entre paralisar-se por se aferrar a certas concepções ou abandoná-las de vez e se perder no caminho. Isso fica claro na negociação política. É menos evidente mas tão válido quanto na condução da política econômica.

Dê o exemplo de um economista que preencha os requisitos acima, a quem o senhor admire e com quem ainda não trabalhou.
Olhe lá! Não estou fazendo nenhuma nomeação antecipada. Mas teria muitos exemplos. Um deles? O Arminio Fraga, como perfil. Sabe economia, é pragmático, não doutrinário. Soube navegar em mar revolto e deu enorme contribuição à estabilidade econômica do país ao instituir o regime de metas de inflação.

Por que no Brasil, apesar do enorme destaque atual no cenário da economia mundial, a discussão de política econômica é sempre revestida de ansiedade, como se vivêssemos em um estado permanente de emergência?
O instantâneo da economia brasileira é realmente bastante satisfatório. Não diria o mesmo sobre o filme. Ou seja, se não forem corrigidas a tempo, as distorções atuais podem se desenvolver de maneira desfavorável. Essa é uma questão complexa que, infelizmente, talvez não possa ser tratada da maneira que merece em um clima de campanha, muito menos no escopo de uma entrevista. Mas, a título de fazer refletir, sugiro que se comece por responder a certas questões. A saber, por que razão o Brasil tem a maior taxa real de juros do mundo, a maior carga tributária do mundo em desenvolvimento e é lanterninha nas taxas de investimento governamental do planeta? Por que o suado dinheiro dos contribuintes brasileiros não está sendo bem aplicado em investimentos na infraestrutura econômica e social que garantam o crescimento sustentado da economia? É evidente que há um problema com esse modelo. É essa a discussão que precisa ser feita no Brasil.

O que o senhor faria para consertar esse modelo?
Tenho experiência para equacionar as principais questões, a partir do primeiro dia de trabalho, caso eleito. Não existe uma bala mágica, um golpe que bem aplicado resolva todos os problemas. Isso exige um leque de ações coordenadas e bem planejadas, muitas das quais citei aqui e tenho exposto em fóruns e seminários. Minhas passagens pelo Executivo federal, estadual e municipal me permitem afirmar que, para começar, na saúde, mesmo sem gastar muito mais do que é gasto hoje, seria possível fazer uma revolução com resultados positivos a curto prazo. Na educação, logo no início do governo, trabalharia para atingir a meta de abrir 1 milhão de novas vagas em escolas técnicas de nível médio em todo o país, com cursos de duração variada e vinculados à vocação econômica de cada região e localidade. O Brasil tem pressa e precisa aproveitar o ciclo da economia mundial altamente favorável aos países emergentes. Temos de aproveitar o empuxo desse ciclo e emergir dele com uma economia moderna, exportadora de produtos de alto valor agregado, produzidos aqui por uma mão de obra sadia, preparada e consciente de que para ela o futuro chegou.

Uma vitória da vida


Como os avanços notáveis nos tratamentos estão
derrotando o câncer e fazendo com que ele perca
a imagem sombria de predador. Para a sua desmitificação,
contribuem – e muito – os depoimentos de gente famosa,
como José Alencar, Hebe Camargo, Christina Applegate e
Lance Armstrong, que resiste à doença com bravura e otimismo


Adriana Dias Lopes

Istockphoto



VEJA TAMBÉM

O câncer é aquele ônibus que
ninguém quer mas com que
se conta; não se corre atrás
dele, mas quando ele passa se toma

Os versos acima são de João Cabral de Melo Neto, morto em 1999 – não de câncer, mas de causas associadas a uma doença degenerativa. Poeta virtuoso, um dos maiores da língua portuguesa, João Cabral conseguiu condensar seu tema numa imagem cotidiana, de alcance universal: para além do alto grau de incidência da doença, a fatalidade com que o diagnóstico de câncer costuma ser recebido. De fato, está longe de ser uma banalidade ouvir que se é hóspede de um tumor maligno. Mas também é verdade que isso deixou de significar, necessariamente, a emissão de um atestado de óbito. Pegue-se, a título de exemplo, o caso do vice-presidente José Alencar. Em setembro do ano passado, em entrevista a VEJA, ele disse: "Estou preparado para morrer". Naquela ocasião, Alencar iniciava sua 11ª batalha contra um câncer na região abdominal, detectado em 2006. Com um prognóstico sombrio, a declaração à revista soou como a rendição de um homem até então otimista. De lá para cá, no entanto, Alencar apareceu mais 28 vezes nas páginas de VEJA – em meio, principalmente, a notícias políticas e econômicas. A quimioterapia a que ele vem sendo submetido tem dado resultados positivos. Os médicos não falam em cura, mas Alencar tem levado uma vida praticamente normal. Foi padrinho de casamento do irmão e chegou até a cogitar candidatar-se ao Senado nas eleições de outubro. O quadro clínico do vice-presidente ilustra não só a sua resistência física e emocional, como a evolução impressionante da medicina diante do câncer nos últimos dez anos.

Lailson Santos
Sobrevida (muito) maior
Em janeiro, a apresentadora Hebe Camargo, de 81 anos, foi diagnosticada com um câncer no peritônio, a membrana que reveste os órgãos da região pélvica e abdominal. A doença está controlada graças ao tratamento quimioterápico ao qual ela foi submetida. Dos anos 90 para cá, com o surgimento de medicações mais precisas contra esse tipo de tumor, as chances de sobrevida aumentaram 50%

"O câncer moldou a sua própria mitologia de um predador obsceno e demoníaco, um caçador sombrio e invencível", definiu o biólogo inglês Mel Greaves. A aura de obsceno, demoníaco e sombrio é difícil de cancelar, em que pese o comportamento de pessoas corajosas como Alencar. Invencível, contudo, o câncer não é mesmo, enfatize-se. Hoje, 75% dos casos flagrados em estágio inicial podem ser curados. Quarenta por cento a mais em relação ao que ocorria na década de 70. Isso, na média. O índice de remissão total no tratamento de um tumor como o de fígado, antes altamente letal, hoje é de 85% – contra 35% na década passada. Resultados tão exuberantes estão fazendo com que os pacientes comecem a falar abertamente da doença, com uma esperança que aviva em si próprios e em seus semelhantes a disposição para enfrentar o câncer – melhorando, assim, o grau de adesão às terapias, num círculo virtuoso que ajuda a elevar as estatísticas de cura. Nesse sentido, as celebridades atingidas pela doença têm dado um bom exemplo ao expor sua luta. "A batalha contra o tumor trouxe um novo sentido à minha vida", disse, em 2008, a atriz americana Christina Applegate, então com 36 anos, à rede de televisão ABC. Na entrevista que emocionou milhões de americanos, ela contou que havia sido submetida à extirpação total das duas mamas em decorrência de um câncer de origem hereditária. No ano seguinte, ela recebeu uma homenagem da revista americana People: foi capa da publicação na condição de "a mulher mais bonita do mundo". Recentemente, foi a vez de a apresentadora brasileira Hebe Camargo, de 81 anos, dar seu testemunho, relatando, "toda serelepe", como enfrentou a quimioterapia a que foi submetida para eliminar um câncer no peritônio, a membrana que reveste os órgãos da região abdominal. "Descobri que a doença não é o monstro de que tanto falam. É preciso acabar com essas besteiras", disse Hebe a VEJA.

Chris Floyd/Camera Press/Other Images
Genética contra os tumores
Aos 36 anos, em 2008, a atriz americana Christina Applegate anunciou ter passado por uma mastectomia bilateral – a retirada da mama onde o tumor foi encontrado e a extração preventiva da outra, sadia. Christina tomou essa decisão radical por ser portadora de uma alteração genética que funciona como uma condenação ao câncer de mama. Hoje, graças à profilaxia genética, a probabilidade de ela ter uma recidiva da doença gira em torno de 1% (sempre sobram células mamárias depois da mastectomia).

As notícias estão melhores também para os pacientes sem chance de cura. Hoje, no Brasil, há cerca de 170 000 homens e mulheres nessa condição. "Pelo menos a metade deles consegue manter uma rotina razoavelmente normal, por causa das novas medicações desenvolvidas pela oncologia", diz Sergio Simon, oncologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ou seja, podem tocar o dia a dia livres de dor e com mais autonomia. Um dos tumores mais agressivos e resistentes a tratamentos é o de pulmão em fase de metástase, quando já se alastrou para pelo menos outro órgão. Mesmo assim, a média de sobrevida de um paciente nessas condições pulou para dois anos. Na década de 90, era de apenas sete meses."Qualquer tempo a mais é essencial para que o doente tenha a oportunidade de apaziguar-se, pondo em ordem a vida prática, familiar e emocional", diz o oncologista Bernardo Garicochea, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Pode parecer pouco, mas a possibilidade de antever o fim da própria existência com tranquilidade é algo belo – desde que se adote a perspectiva do pensador romano Cícero, ecoada pelo francês Montaigne, segundo a qual "filosofar não é outra coisa que preparar-se para a morte".

Um dos caminhos de tratamento contra o câncer mais investigados pela medicina refere-se à criação de vacinas terapêuticas – medicamentos que estimulam o sistema imunológico no combate às células cancerosas. Há dois meses, a FDA, a agência americana de controle de remédios, aprovou a primeira dessas vacinas. Desenvolvida pelo laboratório Dendreon, a Provenge é destinada a pacientes com câncer de próstata. Nos testes, doentes com tumor em estágios avançados ganharam, em média, cinco meses a mais de uma vida relativamente boa. O entusiasmo dos médicos com a Provenge não se explica apenas pelo aumento da sobrevida dos pacientes. "Só de se revelar eficaz, essa vacina simboliza um marco nas terapias anticâncer", diz o oncologista Gustavo Guimarães, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. O maior feito dos inventores da Provenge foi ter vencido um grande obstáculo no desenvolvimento das vacinas terapêuticas: o de levar o organismo a identificar apenas as células cancerosas como agentes nocivos e, assim, passar a tentar destruí-las. "O corpo tem extrema dificuldade em reconhecer o câncer como um ser estranho, já que ele surge de células sadias", explica o médico Marcello Fanelli, também do Hospital A.C. Camargo.

A frente imunológica de combate ao câncer foi inaugurada nos anos 70, com a chegada ao mercado do interferon. Lançado originalmente para o combate de viroses respiratórias, o remédio logo teve seu uso ampliado para pacientes com tumores malignos, por ter se mostrado um potente estimulador do sistema de defesa do organismo. Mas, apesar de todas as esperanças depositadas no interferon, ele não se revelou eficaz. Ao contrário das novas vacinas, desenhadas para facilitar o reconhecimento das células cancerosas, ele não conseguia deter a proliferação dos tumores, porque sua ação era muito difusa. O interferon só é usado hoje como ultimíssima cartada contra tipos raros de câncer. Entre esses tumores estão alguns linfomas e o melanoma. O seu efeito, no entanto, é muito limitado.

Bravura e uma dezena de tratamentos
Desde 2006, quando recebeu o diagnóstico para o câncer na região abdominal, o vice-presidente José Alencar, de 78 anos, vem resistindo bravamente à doença. Está no seu 11º tratamento. Ele já foi submetido a cirurgias agressivas, sessões de radioterapia e até a um medicamento ainda em fase experimental. Os médicos não falam em cura, mas Alencar tem conseguido levar uma vida praticamente normal. Dez anos atrás, mesmo um paciente com tanta coragem como ele não teria como enfrentar a doença

Para desenvolverem a vacina Provenge, seus idealizadores escolheram trabalhar com a célula CD54, uma proteína do linfócito responsável por disparar o alarme do sistema imunológico contra a presença de um corpo estranho no organismo. Eles a marcaram com uma proteína criada em laboratório muito semelhante à PAP, encontrada em 95% dos tumores de próstata. Ao ser injetada no paciente, a CD54 modificada ensina as outras células de defesa a identificar como agente agressor aquelas que contêm a proteína PAP. A Provenge representa uma conquista e tanto, mas ela demorará a se tornar um tratamento de rotina. Suas três doses custam 98 000 dólares. Isso porque seu processo de fabricação é complicado, visto que as CD54 a ser modificadas precisam ser retiradas de cada paciente.

Estudam-se vacinas terapêuticas para glioma, o tipo mais comum e letal de tumor de cérebro (que vitimou o senador americano Ted Kennedy), melanoma e cânceres de pulmão e mama. Elas foram um dos assuntos de maior destaque durante o 46º Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), realizado há três semanas em Chicago, nos Estados Unidos. Um dos trabalhos que alvoroçaram os participantes foi o da vacina ipilimumabe, contra o melanoma, do laboratório Bristol-Myers Squibb. Os últimos resultados mostraram que a ipilimumabe pode dobrar a expectativa de vida de pacientes vítimas da doença em estágios avançados. Isso significa dois anos a mais, em média, em comparação com os doentes submetidos a tratamentos convencionais. A vacina contra o glioma, batizada pelo laboratório Pfizer de CDX-110, impediu a progressão da doença por, em média, cinco meses. Vale repetir: por enquanto, o grande mérito de tais vacinas, muito mais do que o aumento da sobrevida em si, é a comprovação de que a imunoterapia é um caminho viável na luta contra o câncer.

Além das vacinas, existem 295 novos medicamentos em estudo contra os mais diversos tipos de câncer – o triplo em relação há dez anos. Eles são quimioterápicos e, em grande parte, pertencem ao grupo das terapias-alvo – que impedem a proliferação das células tumorais, sem afetar as células saudáveis. Com esse mecanismo, reduzem-se enormemente os efeitos colaterais. Os primeiros remédios dessa classe surgiram no início dos anos 2000. Entre os mais utilizados estão o Avastin (contra os tumores de intestino, mama e rim), o Erbitux (intestino), o MabThera (linfoma), o Herceptin (mama), o Nexavar (fígado e rim) e o Sutent (rim).

Com o aprimoramento da análise genética dos tumores, tais medicamentos da terapia-alvo são o primeiro passo rumo ao tratamento individualizado – um sonho dos oncologistas, visto que, não bastasse haver 802 tipos de neoplasia, tumores idênticos podem responder de formas diferentes a um mesmo procedimento. Veja-se o caso do Erbitux. Em 2007, um ano depois de ter sido lançado, descobriu-se que os pacientes com câncer de intestino em fase avançada portadores de uma mutação no gene KRAS, específica de alguns tumores no órgão, não respondem ao medicamento. Quatro em cada dez doentes apresentam essa alteração genética. Ou seja, ao abandonarem um tratamento ineficaz, eles não perdem tempo para tentar buscar armas mais efetivas contra o seu problema. Na conferência em Chicago, foram apresentados resultados de um estudo com o remédio crizotinib, contra câncer de pulmão. Fabricado pelo laboratório Pfizer, ele está na fase dois de pesquisa, aquela que atesta a eficácia e a segurança do produto. O novo medicamento destina-se a pacientes cujo tumor possui uma mutação no gene ALK. Diz o oncologista Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo: "A personalização dos tratamentos pode ser a peça que faltava para entender esse quebra-cabeça complexo chamado câncer".

Jeff Ridel/Contourphotos.com/Getty Images
A cura possível
Aos 25 anos, o ciclista Lance Armstrong era um dos maiores campeões do seu esporte, quando foi diagnosticado com câncer nos testículos A doença já estava em fase avançada e havia atingido o cérebro, os pulmões e a região abdominal. Armstrong, então, passou por duas cirurgias: uma para a retirada de tumores nos testículos e uma no cérebro. Além disso, foi submetido a quatro meses de quimioterapia. Pacientes como Armstrong, dez anos antes, não sobreviveriam a esse quadro. A cura do ciclista se deve em grande parte ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas e à ação mais específica dos medicamentos modernos – que, catorze anos depois, estão ainda mais eficientes.

Com reportagem de Carolina Romanini

Quadro: Vive-se mais e melhor


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DISCOS

THIS IS HAPPENING, LCD Soundsystem (EMI)

Divulgação
DISCO
James Murphy, do LCD Soundsystem: despedida gloriosa

• Em Hey Hey Ma Ma, uma de suas mais famosas composições, o canadense Neil Young pregava que era melhor "queimar do que esvanecer". Embora nunca tenha se declarado fã de Young, o americano James Murphy seguiu esse conselho na condução de seu grupo, o LCD Soundsystem. Este é o terceiro e último disco do LCD – depois, Murphy partirá para outros projetos. É uma bela despedida. Surgida em 2002, a banda buscou uma mistura original para compor sua sonoridade: música eletrônica e rock alternativo, temperados pela influência da parceria entre Brian Eno e David Bowie nos anos 70. O toque pessoal está nas letras do músico e produtor, que falam tanto de baladas – ele é um farrista notório – quanto da angústia de sua geração, que está ultrapassando a juventude (Murphy acaba de chegar aos 40). Podem-se perceber essas atitudes distintas no primeiro single, Drunk Girls, sobre personagens da noite de uma cidade qualquer, e em I Can Change, uma derramada canção de amor. Murphy ainda reverencia Bowie e Eno no rock All I Want e revela ironia em You Wanted a Hit, sobre sua incapacidade de produzir uma canção de sucesso.

LAS VÊNUS RESORT PALACE HOTEL, Cibelle (ST2)

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DISCO
Cibelle: juntando o melhor de dois mundos

• Cantora paulistana radicada em Londres, Cibelle reflete o que há de mais interessante nesses dois mundos. Tem a bossa e o balanço brasileiros, além de um sotaque gostoso quando interpreta letras em inglês. E tem a chance de trabalhar com bons produtores europeus de música eletrônica. Neste seu terceiro disco ela assume um alter ego, Sonja Khalecallon, e apresenta canções que vão do trip hop ao rock, do pop com cores brasileiras a um tema que parece saído do teatro musical. Por vezes, pode soar um tanto kitsch. Mas Cibelle – perdão, Sonja – canta com tanto charme e delicadeza que é praticamente impossível não se maravilhar com baladas como Sad Piano, ou com as releituras de Underneath the Mango Tree (de um dos filmes de James Bond) e It’s Not Easy Being Green (do infantil Muppet Show). Mas é em Escute Bem e Sapato Azul, ambas cantadas em português, que ela mostra a que veio. Ali, acompanhada por nomes importantes de sua geração como o guitarrista Fernando Catatau, o baterista Pupilo e o produtor Apollo Nove, Cibelle mostra uma voz afinada, que vai além das brincadeiras juvenis.

DVD

TESTEMUNHAS DE UMA GUERRA (Triage, Irlanda/Espanha, 2009. Flashstar)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Testemunhas de uma Guerra: as coisas tenebrosas que se passam em um conflito

• Há oito anos, o diretor bósnio Danis Tanovic causou sensação com seu filme de estreia: Terra de Ninguém, em que usava sua experiência como documentarista na Guerra da Bósnia em uma história mordaz sobre um soldado bósnio e um sérvio obrigados a dividir uma mesma trincheira na "terra de ninguém", a zona entre as duas frentes inimigas. Depois de fazer um belo drama familiar, Inferno, o cineasta retorna agora ao tema. Colin Farrell é Mark, um repórter que, em 1988, vai ao Curdistão fotografar os choques entre curdos e iraquianos e registrar o trabalho de um médico que tenta atender os feridos e, quando não é possível salvá-los, os executa. David (Jamie Sives), o colega de Mark, não suporta mais esses horrores. Quer voltar para a Irlanda e para a mulher grávida. Em dado momento, os dois se separam. Mark é ferido, retorna para casa, e diz não estar preocupado com o sumiço do amigo – logo ele vai reaparecer, explica. Não é verdade. Embora inferior aos trabalhos anteriores de Tanovic, Testemunhas oferece algo incomum: uma visão crua, quase casual, e sem diluição das coisas tenebrosas que podem se passar com os homens durante uma guerra.

LIVROS

ESTRANHA PRESENÇA, de Sarah Waters (tradução de Ana Luiza Dantas Borges; Record; 448 páginas; 57,90 reais)

• Ambientado no fim dos anos 40, quando a Inglaterra vivia as duras restrições econômicas do pós-guerra, Estranha Presença, da inglesa Sarah Waters, combina a crônica realista de conflitos de classe com os elementos mais sinistros da literatura gótica. O narrador da história é o doutor Faraday, médico de origem humilde que tenta se estabelecer como clínico geral na sua cidade natal. Ele pensa ter encontrado sua chance de ascensão social quando é chamado a Hundreds Mill, a mansão da família Ayres, que, apesar de estar se aproximando da insolvência, ainda se mantém como o clã mais rico e poderoso da região. A doente que precisa de seus serviços é a empregada adolescente que faz, sozinha, todo o serviço da casa – mas Faraday aproveita a oportunidade para criar laços com a senhora Ayres, rígida matriarca, e seu casal de filhos um tanto problemáticos. É pelos olhos céticos de Faraday que o leitor vai tomando conhecimento da "estranha presença" de que fala o título – um fantasma que parece a emanação malévola dos ressentimentos de classe daquela casa decadente.


A GUIMBA, de Will Self (tradução de Cássio de Arantes Leite; Alfaguara; 336 páginas; 48,90 reais)

Guillen Lopez/Camera Press/Other Images
LIVRO
Will Self: sátira inspirada em Joseph Conrad

• De férias em um país tropical indeterminado, o americano Tom Brodzinski relaxa na varanda de seu quarto de hotel, fumando aquele que será (assim ele promete a si mesmo) seu último cigarro. Ele joga fora a guimba acesa – e ela vai aterrissar, abaixo, na careca de outro americano. Deveria ser um acidente banal, mas Brodzinski infringiu as draconianas normas antitabagistas do lugar. Para reparar seu erro, ele deverá adentrar o inóspito interior do país, na companhia de outro americano acusado de um crime provavelmente mais grave (Brodzinski suspeita que ele é um pedófilo). Esse entrecho absurdo é pontuado de referências à Guerra do Iraque e de alusões aCoração das Trevas, clássico de Joseph Conrad sobre o pesadelo colonialista na África. Autor deGrandes Símios e de Como Vivem os Mortos, Will Self tende a pesar a mão nos elementos mais caricaturais da narrativa, o que resulta em uma prosa algo grosseira. Mas ele é sem dúvida um dos mais vitriólicos satiristas da literatura contemporânea, como o leitor de A Guimba poderá comprovar.

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J. R. Guzzo


Esse é o hino

"A letra do Hino Nacional talvez nem seja pior que a média
das letras dos hinos de outros países, em geral obcecadas
por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores"

Se quatro em quatro anos, por ocasião das Copas do Mundo de futebol, milhões de pessoas pelo planeta afora têm a oportunidade de entrar em contato com uma das melhores realizações que o Brasil já foi capaz de pôr em pé – o Hino Nacional Brasileiro, tocado e transmitido globalmente antes do começo de cada jogo. É sempre um momento de sucesso garantido junto ao público. O time, no campo, pode ir melhor ou pior, mas o hino não falha nunca. Seus primeiros acordes já deixam claro para a plateia presente aos estádios que ela vai ouvir, nos instantes que se seguem, música de primeira qualidade no gênero; dali para a frente as coisas só melhoram. Ao se executar a última nota, todos os que prestaram atenção ao que estavam ouvindo ficam com a impressão de ter recebido um brinde inesperado antes do jogo: em vez da monotonia habitual dos hinos nacionais, em geral áridas arrumações de movimentos marciais que têm como característica mais notável o fato de parecerem todas iguais umas às outras, o que se ouve é uma das melodias mais vibrantes, calorosas e inspiradas que se podem escutar numa cerimônia oficial.

Não há um momento sequer de tédio no Hino Nacional; tudo ali é energia, emoção e vigor. Com quase 200 anos de vida, a peça composta por Francisco Manuel da Silva em 1822 mantém intactas até hoje todas as qualidades que fizeram dela uma das composições mais bem-sucedidas na história da música brasileira. Escrita originalmente em homenagem à Independência, e oficializada como Hino Nacional Brasileiro após a proclamação da República, a obra de Francisco Manuel tem um longo histórico de aplausos. Louis Gottschalk, o grande compositor americano do século XIX, que morreu no Brasil em 1869 e tinha entre seus admiradores Chopin, Liszt e Berlioz, considerava-a um dos melhores momentos da criação musical de sua época; em sua homenagem, escreveu a celebrada Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro. É bom notar, também, que nas Copas do Mundo o Hino Nacional costuma ter competidores de primeiríssima linha, como agora – a começar, por exemplo, pelo extraordinárioDeutschland Über Alles, o hino nacional da Alemanha, composto por ninguém menos que Joseph Haydn. Concorre, também, com grandes clássicos como o God Save the Queen, o hino não oficial da Inglaterra, e outros sucessos habituais como os hinos da Itália e dos Estados Unidos – isso sem falar na Marselhesa, da França, provavelmente o hino nacional mais conhecido do mundo. Não é fácil brilhar nessa companhia.

Mas e a letra? Já se falou mal o suficiente da letra do Hino Nacional para que se ganhe alguma coisa insistindo no assunto. Sua linguagem, provavelmente, já era antiquada na época em que foi escrita, 101 anos atrás; é confusa, às vezes absurda, e muito pouca gente consegue decorá-la direito, mesmo porque muito pouca gente entende o que ela está dizendo. Mas isso não afeta a melodia nem embaça o gênio de Francisco Manuel – que, por sinal, já estava morto quase meio século antes de colocarem palavras em sua música. Além do mais, a letra do Hino Nacionalnunca causou prejuízo a ninguém – e, francamente, talvez nem seja pior que a média das letras presentes em hinos de outros países, em geral obcecadas por sangue, morte, canhões, tiranias e outros horrores. O mais prático, portanto, é deixar tudo como está, antes que venha a ideia de adotar uma nova letra através de concurso público. Com certeza teríamos muita saudade, aí, do lábaro estrelado e dos raios fúlgidos.

O que seria do futebol, principalmente em momentos de Copa do Mundo, se fosse proibido falar mal do técnico? Ou dos jogadores? E dos cartolas, então? O técnico Dunga acha injusto o tratamento que ele e sua equipe vêm recebendo da imprensa em geral; julga que tem sido visado porque acabou com entrevistas exclusivas, favoritismos em relação a este ou aquele veículo, "panelinhas" etc. Pode haver muito de verdadeiro nisso tudo, mas o problema é outro. Futebol é paixão, e a imprensa reflete a paixão da torcida – se ela aplica vaias selvagens aos seus próprios times, por que seria diferente com a seleção e seu técnico? Torcidas não são imparciais, e não esperam imparcialidade da cobertura esportiva. Não é justo, mas é o preço que Dunga e seus jogadores têm de pagar pela remuneração que recebem. Se vencerem, levam as batatas; se perderem, não levam. É a vida. Ao que parece, eles querem levar as batatas mesmo em caso de perda, por achar que têm "raça" e são "guerreiros". Aí já fica difícil.

Wednesday, June 16, 2010

MÍRIAM LEITÃO Momentos opostos

O Globo - 16/06/2010
O Brasil está aqui nas comemorações do crescimento e da copa. Melhor
para nós. Lá fora, a crise continua em novos desdobramentos. Agora se
espera uma onda de balanços ruins dos bancos europeus. O mercado
interbancário deles está parado. Nos Estados Unidos, a expectativa é
de uma queda do ritmo de recuperação no segundo semestre. No Brasil,
há motivos para otimismo

Este ano o crescimento do Brasil está garantido. O país crescerá menos
nos outros trimestres em relação ao primeiro, mas terminará com número
exuberante. O ritmo do consumo e o nível da euforia não são garantias
de vitória do governo nas eleições, mas, sem dúvida, vão ajudar a
candidata governista.

Nos EUA e principalmente na Europa a conjuntura tem tido sinais
preocupantes: — A Europa está muito preocupante. A crise bancária
continua e acho que o risco no horizonte é mais ou menos o que está
acontecendo na Bélgica (na última eleição, os separatistas tiveram um
crescimento expressivo). Lá, são os separatistas, em outros países
podem aparecer demagogos de todo o tipo. O sofrimento econômico longo
sempre cria situações perigosas — disse Luiz Carlos Mendonça de
Barros.

A crise dos países ricos está fazendo movimentos circulares.

Os governos se endividaram e aumentaram o déficit para socorrer os
bancos, agora os bancos que têm títulos das dividas de governos nos
ativos terão prejuízos.

Papéis de alguns países se desvalorizaram muito e os bancos terão que
dar baixa nos seus balanços desses ativos.

Dois problemas: eles estão com menos capacidade de financiar a
recuperação; o interbancário travou porque todos desconfiam de todos e
isso está aumentando o nível de empréstimo do Banco Central Europeu
aos bancos.

O novo rebaixamento da dívida grega para nível especulativo só piora o quadro.

A "Carta Galanto", dos economistas Dionísio Dias Carneiro e Monica de
Bolle, mostra bem o efeito dominó: "A crise, que era grega, é
claramente europeia e pôs em dúvida os títulos dos países cujas
dúvidas sofrem do mesmo mal fundamental: orçamentos insustentáveis.
Afetou a liquidez bancária da região e atingiu o BCE, espalhou a
desconfiança no euro, derrubou bolsas em todo mundo, provocou aumento
considerável da volatilidade cambial e deslocou o prêmio de risco das
dívidas públicas e privadas." Pela análise, isso fez com que o
lançamento de bonds de bancos e empresas, inclusive brasileiras,
fossem adiados e aumentou os temores de um novo mergulho da economia
mundial em 2011. Se acontecer isso, o Brasil certamente será afetado.

Mas este ano há razões de sobra para comemoração, segundo Mendonça de
Barros: — Alguns dados sustentam a boa fase do Brasil. Primeiro a
valorização dos produtos vendidos pelo país. Os termos de troca,
segundo levantamento que fizemos, estão no ponto mais alto dos preços
dos produtos que o Brasil exporta. O outro é o aumento da capacidade
de compra do brasileiro. Fizemos o cálculo de quantos salários mínimos
são necessários para a compra de um carro popular. O gráfico
impressiona porque caiu o preço do carro em relação ao IPCA, subiu o
salário mínimo além da inflação. Isso tudo fez despencar a relação.

Os gráficos estão abaixo.

Num, mostrando como base 100 o ano de 2006, fica claro que os termos
de troca estão num ponto favorável, ou seja, o preço dos produtos
brasileiros subiu muito em relação ao preço do que o país importa. Por
outro lado, o consumo interno pode ser sustentado pelo poder de
compra. O que pode ameaçar esse segundo pilar é a inflação.

Por isso todo cuidado é pouco. Ninguém ganha de goleada subestimando o
adversário.

Na economia, como no futebol, quem acha que o adversário é fraco pode
até ganhar, mas passa sufoco.

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