Sunday, January 10, 2010

Um golpe em andamento

Coisa de maluco

Ai, ai... Um decreto do governo defende a censura à imprensa
e ataca o direito de propriedade. Pelo jeito, eles não desistem

DESUMANO
O secretário Paulo Vannuchi, ex-militante de organização terrorista e artífice do decreto: se não foi com revólver, vai com caneta


Era pior do que parecia - e a aparência já não era nada boa. Em dezembro, o Decreto dos Direitos Humanos, gestado pelo secretário especial de Direitos Humanos, o ex-terrorista de esquerda Paulo Vannuchi, provocou uma crise nas Forças Armadas ao propor a revisão da Lei da Anistia e a punição dos militares que cometeram crime de tortura durante o regime ditatorial. O surto de revanchismo constrangeu até o presidente Lula - obrigado a dizer que havia assinado o documento sem lê-lo. A afirmação do presidente fica tanto mais surpreendente agora, quando se revela a amazônica extensão do decreto cuja parte mais relevante ainda deve ser votada no Congresso. É praticamente uma revogação da Constituição Federal na garantia dos direitos democráticos mais básicos. Ao longo de 73 páginas eivadas de vociferações ideológicas e ataques ao "neoliberalismo" e ao agronegócio, o documento volta a propor o controle da imprensa, a prática de referendos e outras práticas de "democracia direta", e a criação de leis que protegem invasores de terra em detrimento de suas vítimas. Nos três casos, fica claro que a preocupação com os "direitos humanos" figura no documento muito menos como propósito do que como pretexto para tentar fazer descer goela abaixo da sociedade propostas que o governo já tentou impingir-lhe de outras formas, sem sucesso.

Além de propor punições, que vão de multa à cassação de outorgas, a veículos de comunicação que publiquem informações consideradas contrárias aos direitos humanos, o decreto prevê um "acompanhamento editorial" das publicações de modo a elaborar um ranking de veículos que mais respeitam ou violam os ditos direitos (da forma como eles são compreendidos pelo governo, evidentemente). Em relação à questão agrária, as medidas que o Executivo pretende aprovar no Congresso não são menos estarrecedoras: o governo quer a "priorização" de "audiências públicas" entre fazendeiros e sem-terra antes que a Justiça conceda liminares no caso de invasões. Se houver mandado de reintegração de posse, o decreto sugere, candidamente, que o cumprimento da ordem seja "regulamentado". Como liminares constituem, por definição, medidas urgentes que se destinam a evitar prejuízos e ordem judicial é para ser cumprida e não regulamentada, resta evidente que o decreto visa a proteger os invasores e obstruir o acesso dos fazendeiros à Justiça.

O decreto produzido pelo ex-terrorista de esquerda Vannuchi - com a colaboração dos ministros Tarso Genro, da Justiça, e Franklin Martins, da Comunicação Social, sempre eles - não se limita, porém, a lançar ideias sobre como censurar a imprensa, extinguir o direito à propriedade e emular o sistema chavista de "consultas populares" como forma de neutralizar os poderes da República. Numa espécie de samba do petista doido, ele dispõe ainda sobre assuntos que vão do apoio às organizações de catadores de materiais recicláveis à mudança de nomes de ruas e prédios públicos - aqueles que não estiverem de acordo com o gosto dos bolcheviques que ora habitam o Planalto, claro.

Na juventude, o secretário Vannuchi tentou transformar o Brasil em uma ditadura comunista por meio da guerrilha - ele foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização terrorista esquerdista. Agora, no crepúsculo da vida, tenta fazê-lo à base de canetadas. De uma forma e de outra, o ex-terrorista de esquerda Vannuchi entrou para a história pela porta dos fundos. Seu decreto é como achar que se pode matar inocentes em nome de uma causa política: coisa de maluco.


Radar Lauro Jardim

Panorama



Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Governo

Solução salomônica
Há uma corrente no governo que defende uma solução intermediária no imbróglio dos caças, para satisfazer tanto Lula quanto a Aeronáutica: compra-se um lote do francês Rafale, como quer Lula, e um outro do sueco Gripen, como desejam os militares.

Expansão em Cuba
Certamente guiado pela extraordinária relevância que Cuba vem ganhando nos últimos anos no cenário internacional, o Itamaraty resolveu ampliar a embaixada brasileira em Havana. Na semana passada, contratou uma imobiliária cubana para providenciar mais um escritório no edifício que hoje já abriga a chancelaria.

Eleições 2010

Um ministro em apuros

Roosewelt Pinheiro/ABR
Sinuca eleitoral
Costa: com Pimentel, ele não divide nem mesmo um pão de queijo


Aliados de Hélio Costa garantem que se o ministro tiver de abrir mão da candidatura ao governo de Minas Gerais não será para apoiar o petista Fernando Pimentel. A relação dos dois é mais do que azeda. Pimentel, por sua vez, só deixará de ser candidato se Lula der um soco na mesa e ordenar - e, se o presidente o fizer, imporá um candidato, mas não alguém que entusiasme o PT mineiro. A outra opção de Hélio Costa, tentar a reeleição para o Senado, é o pior dos mundos para ele: são duas vagas, e tirá-las das mãos de Aécio Neves e José Alencar parece missão impossível. Por isso, alguns plantaram nos últimos dias a possibilidade (remota, ressalte-se) de Costa ser vice de Dilma Rousseff.

Amigo no Senado
O pecuarista de Mato Grosso do Sul José Carlos Bunlai, amigo do peito de Lula, deve ser o suplente do petista Delcídio Amaral, que tenta a reeleição como senador neste ano. Na cabeça dos petistas, o plano é o seguinte: Delcídio se reelege e, se Dilma Rousseff vencer, ele vira ministro de Minas e Energia, deixando a cadeira de senador livre para o amigão do presidente.

O melhor de cada um
Do cientista político e marqueteiro Antonio Lavareda, sintetizando o que, para ele, é o grande obstáculo do PSDB em 2010: "A oposição tem o melhor candidato, mas o governo tem as melhores circunstâncias".

Economia

A Super-Braskem
Depois de engolir a Quattor, o que deve acontecer no início da semana, a Braskem irá às compras fora do Brasil.

O Multi avança
Nos próximos dias, o grupo Multi, dono das redes de ensino de idiomas Wizard (a maior do Brasil, com 1200 unidades) e Skill, anuncia a compra da paulista SOS Computadores, a segunda maior rede de escolas de ensino profissionalizante do país, com 150 unidades Brasil afora.

Brasil

Caminho das Índias

Lucio Tavora/Ag. A Tarde/AE
Com a mão na massa
Zuleido: uma vez empreiteiro, sempre empreiteiro


Zuleido Veras,
dono da empreiteira Gautama e preso na Operação Navalha, tem nova ocupação: é o cabeça da construtora Mandala, oficialmente tocada por seu filho, Rodolpho.

Carnaval

Vaias para Brasília?
A cúpula da Beija-Flor está temerosa de que a escola receba uma tremenda e inédita vaia no Sambódromo no Carnaval. E já levou essa preocupação a seu patrocinador: o governo Arruda, que bancou, com 3 milhões de reais, o Carnaval da escola. O enredo da Beija-Flor não é lá muito adequado ao momento: "Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança".

Está faltando escritório

Andre Arruda/Getty Images
Agora vai?
Centro do Rio de Janeiro: mercado imobiliário efervescente


A excitação pela realização da Olimpíada teve efeitos na taxa de ocupação dos escritórios corporativos classe A do Rio de Janeiro. Segundo pesquisa da consultoria Cushman & Wakefield, somente 4% dos metros quadrados para escritórios estão vagos na cidade (há um ano, esse porcentual era de 11%). Isso tudo, apesar de 92 000 metros quadrados de escritórios terem sido concluídos em 2009, um recorde histórico. Como a lei da oferta e demanda não falha, é o Rio que tem o preço médio mais alto de aluguel de espaços comerciais: 90 reais o metro quadrado (em São Paulo, custa 82 reais).

Com Paulo Celso Pereira.
Colaborou Felipe Patury

Entrevista: Sérgio Guerra


"A esquerda somos nós"

O presidente do PSDB diz que Lula faz política com as "mãos sujas"
e que haverá mudanças na economia caso os tucanos elejam
o próximo presidente


Diego Escosteguy

Rolf h. Seyboldt
"Iremos mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes"

O senador pernambucano Sérgio Guerra, de 62 anos, prepara-se para a tarefa mais difícil de sua carreira: coordenar a campanha que pode reconduzir seu partido à Presidência da República. Ele já dá como certa a candidatura do governador de São Paulo, José Serra. Juntos, eles preparam a estratégia para enfrentar a ministra Dilma Rousseff, que representará o governo mais bem avaliado da história. Será a segunda vez que Serra vai disputar a Presidência da República. Na primeira, em 2002, perdeu para Lula. Naquela ocasião, Serra era visto como o candidato de centro-direita, por representar o governo "neoliberal" de FHC. Lula era o homem da esquerda, que fazia oposição. Oito anos depois, o redemoinho da política inverteu os papéis. O PT lançará a candidatura governista, defendendo a mesma política econômica de FHC, e o PSDB, agora na oposição, apostará numa posição mais à esquerda, como explica o senador nesta entrevista a VEJA.

O governador José Serra é o candidato do PSDB à Presidência da República?
Nós trabalhamos com esse cenário.

Com a desistência do governador de Minas, Aécio Neves, por que o PSDB não anuncia de uma vez a candidatura de Serra?
Serra tem compromissos com o estado de São Paulo. A população paulista espera que ele cumpra suas obrigações até o fim do mandato. Quando ainda existia a disputa entre Serra e Aécio, nós sentíamos que havia a necessidade de definir logo o nome. Como o governador de Minas Gerais desistiu, o anúncio se tornou irrelevante. Virá no momento apropriado. Isso não vai demorar.

Aécio já disse que não aceita ser vice na chapa tucana. Quem será?
A definição do vice se dará apenas depois do anúncio da candidatura Serra. O nome pode vir do PSDB ou do DEM, que é nosso grande parceiro. Há bons quadros nos dois partidos.

O governador de Minas parece bem descontente com o desfecho dessa disputa...
Tenho 100% de certeza que Aécio estará ao nosso lado durante a campanha. Desistir não foi uma decisão fácil para ele. A população de Minas esperava a candidatura dele a presidente. Não é fácil para Aécio administrar essa pressão. Mas cada coisa no seu tempo. Agora, ele poderá se dedicar à campanha dos nossos aliados no seu estado.

Sem Aécio na chapa, o PSDB não enfrentará ainda mais dificuldades na disputa com a candidata governista, Dilma Rousseff, que terá no seu palanque o presidente mais popular da história?
Temos um candidato fortíssimo, que não está à frente nas pesquisas por mera sorte. Serra é um político inteligente, preparado, que sabe governar e já mostrou isso. Tem história e compromisso com o país. O governo vai de Dilma, que não tem nada disso. Ela nunca foi candidata, não tem história, hospedou-se por algum tempo no PDT e agora foi para o PT. Dilma não tem o que dizer nem o que mostrar. Qual o currículo dela? Dilma é candidata porque o presidente assim quis. Mas essa história de Lula de saias não funciona.

Ela será a candidata de um governo que beira a unanimidade. O PT vai comparar os números do governo Lula com os do governo tucano.
Isso não vai colar. Eles querem impor essa campanha
plebiscitária, uma pauta artificial, mas o eleitor não é bobo. Na hora da campanha, quem vai disputar a eleição serão Dilma e Serra, cada um com sua biografia. A não ser que a Lula se
esconda… (risos) Ato falho. Que a Dilma se esconda.

Como Serra poderá conquistar o eleitorado do Nordeste, que idolatra o presidente e foi largamente beneficiado por programas como o Bolsa Família?
Ninguém terá os votos que Lula tem no Nordeste. Nem Dilma. Fala-se muito em transferência de votos, mas isso acontece até certo ponto. Não acredito que haverá tanta transferência para Dilma. Tenho visto isso no interior do Nordeste: o povo não ama a ministra. Mas muita gente gosta do Serra. Não será como em 2006, quando os nordestinos votaram maciçamente em Lula. Naquele ano, só fizemos campanha em Sergipe. Nos outros estados, não havia organização. Aliás, eu não podia nem falar no nome de Alckmin (então candidato do PSDB). Só queriam saber do Lula. Agora é diferente. Estamos mais organizados, temos um candidato fortíssimo.

Caso Serra vença, haverá mudanças substanciais na política econômica?
Sem dúvida nenhuma. Iremos mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes. Nós não estamos de acordo com a taxa de juros que está aí, com o câmbio que está aí. Estamos criando empregos no exterior. Os últimos resultados da balança comercial são negativos. Precisamos estabelecer mecanismos para criar empregos no Brasil. Espero que a sociedade nos compreenda. Será necessário fazer um rigoroso ajuste das contas públicas. Hoje, o governo gasta muito – e mal. Os gastos cresceram além da capacidade fiscal do país.

E como transcorreriam essas mudanças?
Se ganharmos, agiremos rápida e objetivamente. A forma de fazer será discutida no momento adequado. Haverá um Ministério do Planejamento que realmente planeje, e não o desastre que está aí hoje. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não se realizou. Não há prioridades programáticas, só números inflados. Apenas os projetos eleitoreiros, os que têm padrinhos políticos, estão andando. As estradas estão esburacadas, os aeroportos estão na iminência de outro apagão, a infraestrutura de transportes, como os portos, foi entregue a políticos e a grupos de pressão. Isso é o PAC na realidade – e nós vamos acabar com ele.

Falando assim, até parece que o PSDB está à esquerda do PT...
Mas nós estamos à esquerda mesmo. Se ganharmos, vamos acelerar os investimentos na educação e na saúde. Manteremos o Bolsa Família, que é um mecanismo eficiente de erradicação da miséria e da fome. O PT não é de esquerda. Já foi; não é mais. O PT se transformou num partido populista. Antes, o PT tinha militância nas grandes cidades. Agora, tem cabos eleitorais nos grotões, pagos com dinheiro público, que escorre por meio de ONGs. Isso é esquerda? Não, é populismo. A verdade é que o PT só gosta de democracia quando lhe convém. Na eleição passada, quando estávamos atrás nas pesquisas, o PT introduziu o crime na campanha, com o dossiê fajuto dos aloprados e aquela pilha de dinheiro que ninguém sabe de onde surgiu. Agora que estamos na frente, imagine o que eles vão fazer. Será uma campanha sangrenta. Eles vão fazer de tudo para impedir uma possível vitória nossa. O que está acontecendo atualmente são apenas ensaios.

Como assim?
Dilma e o PT estão fazendo campanha eleitoral sem a menor cerimônia. Isso é contra a lei. Estamos assistindo a um banho de propaganda, na linha "Pra frente, Brasil", do Médici (general Emílio Garrastazu, presidente entre 1969 e 1974, na ditadura militar). É uma estratégia bem articulada de propaganda, na qual as empresas públicas entraram fortemente. O incrível é que empresas privadas também participam disso. O filme sobre Lula (Lula, o Filho do Brasil, em cartaz) foi financiado assim. Isso é inconcebível numa democracia.

As empresas não são livres para apoiar o governo?
Apoiam para se aproximar do poder. Mas não é só isso. Em 2002, a máquina pública não foi usada na campanha de Serra a presidente. Agora, há comícios de Dilma e Lula toda semana. É um espanto. Eu vi isso no meu estado. No ano passado, Dilma passou dois dias visitando as obras de transposição do Rio São Francisco. Eu as visitei em duas horas. O que justifica ficar tanto tempo lá? É claro que se trata de campanha, e ainda por cima paga com dinheiro do contribuinte. Isso é reflexo do trato do PT com a coisa pública. Nenhum governo até hoje tinha sido capaz de aparelhar a máquina estatal de alto a baixo. Isso é péssimo para o país.

Por exemplo?
A Petrobras. É a maior empresa do país, um governo dentro do governo, e sempre foi poupada da sanha do fisiologismo. Era aceitável que se nomeassem diretores, mas a interferência parava por aí. No governo do PT, virou uma esculhambação. Puseram apaniguados em todos os setores e cargos.

"Acho que Lula foi o último presidente a fazer política com as mãos sujas. Não há mais espaço para esse tipo de mentalidade que redundou no mensalão, na compra espúria do Parlamento"


Mas a Petrobras não está divulgando lucros recordes a cada trimestre?

Certamente seriam bem maiores, não fosse o loteamento. Essas nomeações causaram perda de eficiência e corrupção. No nosso governo, liquidaríamos essa prática. Seriam nomeados apenas técnicos que tivessem interesse no bem da Petrobras – e não no de um partido político. É preciso moralizar as ações políticas.

O PSDB vai mesmo usar esse discurso na campanha? Os maus costumes já se estabeleceram como aceitáveis no mundo político.
Eu votei em Lula várias vezes, mas nesse quesito ele me decepcionou. Acho que Lula foi o último presidente a fazer política com as mãos sujas. O clima político está saturado. A convivência parlamentar não suportará mais uma legislatura com tantas crises. Atingimos o limite. Não há mais espaço para esse tipo de mentalidade que redundou no mensalão, na compra espúria do Parlamento. É a mesma mentalidade que troca votos no Congresso por cargos no governo, por emendas
parlamentares.

Essas práticas já eram empregadas antes do governo Lula.
Não estou dizendo que antes era o céu e que agora vivemos no inferno. Mas o PT levou ao limite essas atitudes corruptas. O mensalão não morreu. Ele sobrevive nessas práticas, no desrespeito às normas democráticas. Os mensalões têm se expandido pelo país, nas assembleias e nas câmaras municipais.

"Cometemos nossos equívocos, mas o PT destruiu o Congresso. Montou tropas de choque, com parlamentares inexpressivos, que não se constrangem em defender o indefensável. A gasolina dessa tropa é o dinheiro público"


Qual a autoridade do PSDB para criticar os petistas, no momento em que o senador Eduardo Azeredo acaba de se tornar réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de liderar o mensalão mineiro?

Eu não concordo que tenha havido mensalão em Minas. O senador Azeredo é um dos homens públicos mais íntegros do país. Temos certeza de que ele será inocentado no STF.

Por que o PSDB não consegue fazer oposição?
Tentamos fazer, mas é difícil. O Congresso está desmoralizado, e o exercício da oposição sempre se deu no Parlamento. Se o Parlamento não tem força, a oposição fica limitada. As comissões parlamentares de inquérito, que são o instrumento mais poderoso da minoria, foram
exterminadas. O governo aprendeu a aniquilar CPIs.

O governo FHC também enterrava CPIs, como a da Corrupção, que foi barrada no fim da gestão tucana.
Cometemos nossos equívocos, mas o PT destruiu o Congresso. Crises como a do mensalão nascem no Executivo. Não há diálogo do governo com o Congresso. O PT montou tropas de choque, com parlamentares inexpressivos, que não se constrangem em defender o indefensável, atacam os outros sem pudor e agridem a imprensa. A gasolina dessa tropa é o dinheiro público. Foi o que se viu na CPI dos Cartões Corporativos e na CPI da Petrobras, que terminaram sem começar.

Como o PSDB poderia fazer diferente, se a qualidade do próximo Congresso provavelmente será a mesma?
Primeiro, não podemos partir do princípio de que o Parlamento não presta. É preciso respeitar todos os partidos e buscar diálogo com quem queira conversar. Vamos acabar com a linguagem dos cargos e das emendas. É claro que há elementos que não se dobram a argumentos republicanos. Com esses, não haverá conversa. Para isso, é preciso ter capacidade de liderança, o que Serra sempre demonstrou ter. Nosso candidato terá autoridade política e moral para conduzir esse processo de limpeza. Dilma, por outro lado, não poderá fazer isso. Ela é filha desse contexto ruim.

VEJA Recomenda e Os mais vendidos


DVDs

UM ANJO EM MINHA MESA
(An Angel at My Table, Nova Zelândia/Austrália/Inglaterra, 1990. Lume)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Um Anjo em Minha Mesa: o pesadelo de uma escritora tida como esquizofrênica - e não é mais um "filme de doença"


• Demasiado tímida e sujeita a depressões, na juventude a neozelandesa Janet Frame (1924-2004) foi erroneamente diagnosticada como esquizofrênica e passou extensos períodos internada em manicômios, levando eletrochoques (mais de duas centenas de sessões, segundo seus registros médicos). Janet quase sofreu também uma lobotomia - uma secção no córtex cerebral que, segundo as teorias hoje desacreditadas da antiga psiquiatria, era a melhor maneira de combater a doença. Só escapou dessa cirurgia mutiladora porque seu romance de estreia, o primeiro de uma série de escritos que publicaria, ganhou um prêmio importante e atraiu atenção para sua pessoa. Contada pela diretora Jane Campion (que no ano seguinte rodaria O Piano), a trajetória dramática da escritora não soa como manifesto nem vira filme de doença: transmite a sensação de uma vida que se desenrola, ora iluminada pelo espírito vigoroso daquela jovem ruiva (Kerry Fox, em belíssima interpretação), ora sombreada pelo estigma da doença mental e da sensação de que não se pertence ao mundo.

MONTY PYTHON: ALMOST THE TRUTH - THE LAWYER’S CUT
(Estados Unidos, 2009; ST2)

Everett Collection/Grupo Keystone
DVD
Cena de A Vida de Brian, do Monty Python: documentário sobre os bastidores do nonsense


• O humor anárquico e nonsense do sexteto inglês Monty Python influenciou os mais diversos sucessores, do americano Saturday Night Live ao brasileiro Casseta & Planeta, Urgente!. O grupo teve um programa de TV, de 1969 a 1974, e em seguida foi para as telas de cinema com obras-primas do humor como O Cálice Sagrado e A Vida de Brian. Este documentário traz a história do Monty Python contada por seus próprios integrantes (que não se reuniam desde 1983). Nos Estados Unidos, ele foi lançado numa caixa tripla, repleta de extras. No Brasil, o espectador tem de se contentar com a versão reduzida. Ainda assim, é um prazer rever trechos das principais produções do grupo - e descobrir seus bastidores. O filme revela, por exemplo, que o ator Graham Chapman atuou bêbado na maior parte de O Cálice Sagrado - filme no qual esteve hilário. E não há como não se emocionar (e rir) com o discurso de John Cleese no funeral de Chapman, morto de câncer em 1989: ao perceber que os amigos estavam a ponto de chorar, ele simplesmente parou de elogiar o colega para cobri-lo de imprecações.

BEETHOVEN: SYMPHONIES, Claudio Abbado e Filarmônica de Berlim
(Music Brokers)


• O regente italiano Claudio Abbado assumiu a direção artística da Filarmônica de Berlim em 1989, arejando o clima ditatorial imposto por seu antecessor, Herbert von Karajan. Pediu para ser chamado de "Claudio" - Karajan preferia herr direktor - e aceitou palpites dos músicos. Sem comprometer a excelência instituída por Karajan, Abbado mexeu na sonoridade da filarmônica, buscando interpretações mais delicadas, nas quais se percebiam os detalhes das partes de cada instrumento. Um dos momentos antológicos do período de Abbado em Berlim (encerrado em 2002) foi esta gravação das sinfonias de Beethoven. É fascinante assistir à Filarmônica de Berlim, famosa por seu Beethoven forte e tonitruante, der-reter-se nas mãos de Abbado. Na Terceira, naQuinta, na Sexta e na Sétima sinfonias, os DVDs oferecem ao espectador a opção de assistir ao concerto da perspectiva da orquestra, admirando os movimentos seguros do regente.

LIVRO

DESILUSÕES DE UM AMERICANO,
de Siri Hustvedt (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 368 páginas; 49 reais)

Ulf Andersen/Getty Images
LIVRO
Siri Hustvedt: romance que incorpora as memórias do próprio pai


• A investigação do passado familiar é o motor da narrativa em Desilusões de um Americano: logo após a morte do pai, Lars, o psicanalista Erik Davidsen e sua irmã filósofa, Inga, descobrem que o falecido havia deixado um livro de memórias. Imigrante norueguês, Lars narrava sua difícil adaptação aos Estados Unidos, onde se estabeleceu como fazendeiro no estado de Minnesota, antes de se converter em professor de história. Em uma nota no fim do livro, Siri Hustvedt, de 54 anos, informa que esses trechos do romance foram retirados, com poucas adaptações, das memórias de seu próprio pai, Lloyd Hustvedt, morto em 2003. Há outras sombras autobiográficas nessa ficção: Inga é viúva de um escritor cult que se assemelha muito a Paul Auster, marido da própria Siri. Esses componentes pessoais imbricam-se à perfeição em uma narrativa que conjuga o drama familiar e a especulação intelectual - no meio de suas investigações sobre o pai, Inga e o irmão conversam a respeito de filosofia e das repercussões da neurociência atual sobre a concepção que as pessoas têm da própria identidade.

DISCO

ERIC CLAPTON
(Universal)

Elliott Landy/Corbis/Latinstock
DISCO
O jovem Eric Clapton: produção exemplar no primeiro disco-solo


• Em sua autobiografia, o guitarrista inglês Eric Clapton confessa que tomou tantas drogas nos anos 70 que mal se lembra da maioria dos trabalhos que lançou nesse período (e tem vergonha daqueles que consegue recordar). Eric Clapton, seu primeiro disco-solo, é uma das poucas exceções. Inclui After Midnight (do guitarrista J.J. Cale) e Blues Power, que se tornaram marca registrada de Clapton. Feito com a colaboração do cantor e compositor Delaney Bamlett, o álbum não padece daquela produção desleixada que é um defeito comum na discografia do guitarrista. O repertório é calcado não apenas no blues, mas no gospel e no funk. Eric Clapton tem ainda Let it Rain, uma das mais belas baladas compostas pelo guitarrista. A reedição especial que acaba de chegar às lojas traz o disco oficial, um disco extra com as mesmas músicas mixadas por Bamlett - algumas têm andamentos diferentes - e as canções Comin’ Home e Groupie (Superstar), que ele gravou ao lado do grupo Delaney Bonnie & Friends.

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J.R. Guzzo

Longe da luz

"Se a Aeronáutica não tem condições de entender os altos
propósitos estratégicos do país, nem de tomar uma decisão
sobre os caças que deve utilizar em sua própria frota,
por que, então, pedir a sua opinião sobre o assunto?"

Qualquer manual de instruções sobre o bom exercício da chefia, mesmo os que não são lá nenhuma obra-prima, traz sempre uma regra clara. Toda vez que o chefe diz "aqui quem manda sou eu", cuidado - é sinal de que alguma coisa está errada, para ele, para os subordinados ou para ambos. Quem manda de verdade não precisa ficar dizendo isso; se diz, é porque acha que não está mandando como gostaria, ou, pior ainda, é porque os outros não acreditam que mande mesmo, a começar pelos que deveriam obedecer a suas ordens. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nestes últimos tempos, está começando a falar muito que quem manda é ele. Por que será? Aconteceu mais uma vez na semana passada, agora em relação a essa esquisita história dos 36 jatos que o Brasil quer comprar, mas parece não estar conseguindo, para renovar a frota de caças da Força Aérea Brasileira.

Concorrem como vendedores três modelos, um americano, um sueco e um francês; o governo não quer o americano porque é americano, e não quer o sueco porque está querendo mesmo o francês. Trata-se do modelo mais caro, com o menor alcance e a característica de não ter sido comprado até agora por nenhum país, salvo a própria França. Nada disso, assegura o governo brasileiro, tem nenhuma importância; há outras questões a considerar, complicadas demais para o entendimento dos leigos que pagarão essa conta, sendo a principal delas a formação de uma "parceria estratégica" com a França. Só Deus sabe o que seria essa "parceria estratégica" na vida real - espera-se que seja coisa boa, pois se for coisa ruim não vai dar para consertar mais tarde, quando os aviões estiverem comprados e pagos. Em todo caso, Lula e os cérebros internacionais do governo estão convencidos de que a compra do avião francês é fundamental para os seus projetos de reorganização geopolítica do planeta. O diabo é que a Aeronáutica brasileira, a quem cabe voar com os jatos, preparou um relatório técnico no qual fica claro, conforme antecipou a coluna Radar na última edição de VEJA, que o modelo com mais vantagens é o sueco. Pronto: o presidente ficou bravo, partiu para um "aqui quem manda sou eu" e avisou que a FAB vai comprar, no fim das contas, o modelo que ele achar melhor.

Eis aí, é claro, o tumulto formado. "Essa visão da Aeronáutica é equivocada e parcial", disse o deputado e líder petista José Genoino, recém-saído do purgatório para onde fora enviado pelas desventuras do homem-cueca, personagem inesquecível do mensalão. "Não se pode comprar equipamento militar como se fosse um objeto de prateleira num shopping." É um alívio para todos, realmente, receber essa informação do deputado; os brasileiros podem, a partir de agora, ficar sossegados, pois ele nos garante que ninguém do governo, ou da FAB, vai entrar numa loja das Casas Bahia e sair de lá com 36 jatos supersônicos no carrinho de compras. Muito justo, mas, se a Aeronáutica não tem condições de entender os altos propósitos estratégicos do país, nem de tomar uma decisão sobre os caças que deve utilizar em sua própria frota, por que, então, pedir a sua opinião sobre o assunto? Para que perder tempo, fazer viagens de estudo, gastar dinheiro e escrever relatórios se o presidente da República já resolveu que modelo o Brasil vai comprar? É como se os oficiais envolvidos no processo tivessem recebido a seguinte instrução: aprovem o modelo que quiserem, desde que seja o francês.

Quando resolveu fechar esse negócio do seu jeito, e de nenhum outro, o presidente Lula bem que poderia ter ficado quieto, dado as ordens que caberia dar e anunciado, um belo dia, que a compra estava feita. Em vez disso, saiu falando em público de suas preferências, deixou promessas no ar e agora tem de escolher entre dois males: ou desautoriza a força aérea que comanda ou não cumpre o que prometeu aos franceses ou deu a entender que estava prometendo. A situação não melhora em nada, é claro, quando se considera a tenebrosa reputação que o governo vem construindo sempre que se dispõe a comprar alguma coisa e pagar por ela; conforme demonstrado na mesma VEJA da semana passada, o metro cúbico pago numa obra federal tem a mania de custar o dobro, o triplo ou muito mais do que custa pelos preços correntes no mercado, seja em fundações, drenagem de areia ou tubos de aço-carbono. Para quebrar essa escrita, uma transação de impacto mundial como a dos jatos da FAB deveria estar sendo feita com a maior exposição possível à luz do sol. É o contrário, justamente, do que se vê.

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