Quadro: A geografia do aborto
Revista VEJA | Edição 2097 | 28 de janeiro de 2009
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Revista VEJA | Edição 2097 | 28 de janeiro de 2009
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Revista VEJA | Edição 2097 | 28 de janeiro de 2009
EM IPANEMA
TODOS OS RICOS MORAM
NA VIEIRA SOUTO. ENGRADADOS.
A CACA DA CACOGRAFIA
O trema foi abolido.
"Tremei, pais de família!" (como dizia Castro
Alves).
Os donos do mundo,
dos países, municípios, quintas e cercanias,
formam a Nomenklatura. Que manda no mundo. Generais pensam
mandar no exército. Quem manda é a Nomenklatura
do exército. Ministérios pensam ministeriar,
quem ministeria é a Nomenklatura. Escritores, jornalistas
e assemelhados pensam que escrevem o que querem. Quem escreve
é a Nomenklatura.
Não é
à toa que Nomenklatura é palavra russa.
Quer dizer, isso
no pequeno período comunista. Mas antes, lá
mesmo, na Rússia, você já tinha lido Gogol.
Está lá todo o horror burocrático da
Visita do Inspetor.
Penso e repenso.
Pode ser que se me tenha escapado. Mas, pra implantar essa
estúrdia (!) hifeniano-desacentada reforma, houve um
plebiscito? Alguém te ouviu, grande escritor? Alguém
te consultou, dedicado professor? Ou apenas os velhinhos da
Academia daqui (38, mais dois mortos em rodízio) resolveram
isso combinando com os 38 velhinhos (restantes) de lá?
É isso, não
adianta chiar. Foram muitas viagens, conferências, convescotes,
assessores (palavra com muito esse, vamos economizar: aceçores),
conselheiros/as e olheiros durante as inúmeras viagens
nesses quinze anos de estudos. Natural. Portugal e derivados
são países extremamente agradáveis pros
nossos velhinhos. E o Brasil é muitíssimo tropical
pros galegos (vocês se lembram quando português
era chamado de galego? Os americanos, cheios de culpas ancestrais,
ainda não tinham inventado o politicamente correto).
Ué, vocês
não sabiam pra que servem essas conferências
– linguísticas, médicas, geográficas,
políticas? Pra marcar outras conferências.
Ah, lá
em cima citei Castro Alves, o primeiro baiano marqueteiro
do país. Bem-sucedido, seguro, poeta emérito
e recitador ainda mais, Castro sabia-se. Foi à noite,
em frente ao espelho, satisfeito, com razão, pela bela
aparência, que ele pronunciou esta frase (ajeitando
a aba do chapéu): "Tremei, pais de família!".
E não
é que os pais tremiam? O homem era phoga!
Já passei,
em minha curta existência, por 37 reformas ortográficas
e orográficas. É, mudaram até o nome
de algumas montanhas de minha intimidade, embora isso não
tivesse afetado o alpinismo social de muitos letristas,
a começar pelo fundador da liga principal, a de Letras.
Por natureza, não
por ideologia, nunca respeitei nenhuma dessas convenções.
Pois convenções são muito convencionais.
Só respeito coisas respeitáveis, indubitáveis:
tombo de escada, queda da bolsa, escorregão em cocô
de cachorro.
Agora, se tem traço,
se tem ponto, se tem pesponto, posponto, chapeuzinho, eu faço
como fazia o Aurélio, Aurélio vírgula
ou Aurélio Cabeleira, nosso companheiro
na revista O Cruzeiro. Examinava nossos textos com
a maior sem-cerimônia – já era um sábio
no ramo – e tascava vírgulas.
Uma vez, pegando
uma lauda de um colega, na qual o dito não tinha posto
nenhuma pontuação, e não por rebeldia,
por pura ignorância, Aurélio encheu de vírgulas
tudo o que sobrou da página, e decretou: "Taí,
rapaz, agora pega essas vírgulas e salpica onde couber".
Mas não se
preocupem demais com essas besteiras. Isso não dura.
Como nos ensinava Rubem Braga, uns dos dez maiores escritores
brasileiros do futuro, quando tínhamos algum problema
ao compor uma frase: "Não quebra a cabeça,
não. Dá uma voltinha".
Agora, me ensina
aqui, Rubem: como é que se dá uma voltinha num
hífen?
Posted by Artigos at 12:57 AM
Celso MingÀ espera do amanhecer
"A hora mais escura é a que precede o amanhecer."
Este é um antigo provérbio irlandês lembrado em 1940 pelo então primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, quando se referia ao momento de maior prostração da 2ª Guerra Mundial para os aliados, aquele que abrangeu a queda da França e a invasão da Rússia pelas forças alemãs.
O significado mais profundo desta frase não é o de que é simples identificar o pior momento de uma calamidade, mas o de que sempre há esperança, mesmo que a hora mais difícil não tenha ainda sido identificada.
O presidente Barack Obama, que toma posse hoje no comando do país mais poderoso e mais rico do mundo, tem transmitido esta mensagem, com outras palavras. Ainda no domingo, no seu pronunciamento no Lincoln Memorial, em Washington, não escondeu a prostração do momento. Advertiu que serão necessários mais de um mês e mais de um ano, e provavelmente "muitos anos" para acabar com a crise. Lembrou, também, que a solução não está fora; tem de ser encontrada no coração de cada americano.
Esta é a hora de grande insegurança, de descontrole, de falta de confiança e de falta de perspectiva para o americano médio. A insegurança não decorre apenas das perdas patrimoniais que a crise impôs às empresas, ao assalariado e ao aposentado. Decorre de mil outras razões.
Esta é uma crise sem precedentes. Ninguém sabe ainda como pode se desdobrar. São mares não mapeados que podem esconder recifes traiçoeiros. A insegurança maior é o desemprego que ataca 72 a cada 1.000 trabalhadores americanos e pode se aprofundar.
Nisso vai sendo abalada a base da autoconfiança americana, que é a crença de que o futuro pode ser construído com inteligência, planejamento e trabalho duro e de que basta confiar e perseverar.
Mas a percepção da hora é a de que as autoridades estão às cegas. Não previram, não identificaram a tempo, não evitaram o estouro da bolha. Quando reagiram, fizeram bobagem, como entregar o banco Lehman Brothers à sua própria sorte. Depois, trilhões de dólares passaram a ser despejados sobre focos sucessivos de incêndio, sem conseguir debelá-los. E tudo isso vem sendo feito sem prestação de contas à sociedade.
Quem está no comando não sabe quanto valem os ativos que estão sendo comprados com recursos públicos. É uma administração pública que não passa segurança. Quando o presidente Bush foi à TV e tentou reerguer o moral da população, ninguém o levou a sério.
Até agora, não foi atacada a fonte primária da aflição que tomou conta das classes médias americanas: a desvalorização dos imóveis. A deterioração do poder aquisitivo dos mutuários e a execução das hipotecas, por sua vez, acentuam a desvalorização dos imóveis.
A mensagem central de Barack Obama é de que chegaram os tempos de mudança que, no entanto, não mudam o principal: o de que tem de se fundamentar no retorno aos valores deixados pelos ancestrais ("father founders").
O desafio é imenso, o amanhecer pode demorar, a confiança tem de ser maior ainda.
CONFIRA
Inesperado - O governo Lula parece espantado com a violência do fechamento de postos de trabalho: 650 mil só em dezembro, a mais forte em dez anos.
Quem apostava na marolinha deve agora estar muito preocupado com a tempestade.
Essa queda abrupta pode não ter a ver com a crise externa. Pode ser consequência da expansão rápida do crédito nos três últimos meses.
O consumidor ficou endividado, está pagando carro, geladeira, o cruzeiro marítimo com as crianças... Assim, o mercado encolheu de repente e as empresas passaram a demitir.
Posted by Artigos at 10:28 PM
A indústria brasileira sofreu uma queda de quase 10% nas vendas de novembro frente outubro, divulgou hoje a CNI. Isso significa que a crise chegou ao país de forma muito mais rápida do que se imaginava.
Isso porque a indústria produz basicamente para o comércio. E se já houve redução nas vendas em novembro, significa que no mês de outubro o comércio varejista já havia sofrido uma retração tanto nas vendas quanto nas expectativas.
De acordo com o economista Antônio Madeira, da MCM Consultores, como o comércio estava muito estocado, a opção diante do agravamento da crise financeira internacional foi fazer menos pedidos à indústria.
- É um processo doloroso quando se deixa um ritmo de crescimento de 5% para menos da metade. Todos estavam muito estocados, e isso significa menos pedidos e menos produção. Com menos receita a solução é cortar custos o que quer dizer redução de salários, férias coletivas e demissões - explicou.
A boa notícia, segundo Madeira, é que como a indústria vinha investindo muito, houve também uma redução na capacidade instalada do país. Como não teremos risco de falta de oferta, é menos uma preocupação para o BC e mais um motivo para corte de juros na reunião que termina amanhã.
Posted by Artigos at 8:58 PM
Fuga anunciada
Hosmany Ramos, o médico transformado em assassino
e assaltante, anuncia que vai fugir da cadeia e a polícia
nada faz. A quem interessar possa, ele informa que
está a caminho "de um país vizinho"
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Laura Diniz
Fotos Alcyr Cavalcanti/Ag. O Globo e arquivo/AE![]() | ASCENSÃO E QUEDA |
Henrique Manreza/Folha Imagem![]() |
O ex-cirurgião plástico Hosmany Ramos, 61 anos, há muito não maneja um bisturi. Ex-bandido perigoso, aposentado por força da última prisão, em 1996, desde então também não pega numa arma. Uma característica, porém, ele mantém intacta desde a década de 70, quando seu nome ainda não havia migrado das colunas sociais para as páginas policiais dos jornais: o gosto por chamar atenção. Exibicionista serial, o ex-pupilo preferido de Ivo Pitanguy, cujo endereço oficial até a semana passada era a Penitenciária de Valparaíso, no interior de São Paulo, convocou entrevista coletiva no último dia 2 para anunciar que não pretendia cumprir o restante de sua pena, de 47 anos. Agraciado com o benefício da saída temporária da cadeia para passar as festas de fim de ano com a família, o ex-cirurgião declarou que, em "protesto contra as condições do sistema prisional brasileiro", havia decidido não voltar ao xadrez. Como a polícia nada fez para evitar que ele cumprisse a promessa, Hosmany deu no pé – e passou a ser considerado oficialmente foragido no último dia 3. Desde então, tem dado, por telefone, entrevistas diárias à imprensa, em que relata seus planos para o futuro. A VEJA, informou candidamente na quarta-feira: "Viajo amanhã para um país vizinho, onde vou trabalhar como médico de uma ONG internacional no atendimento a crianças carentes". Quem o ouvisse pensaria que se tratava de um cidadão livre, pagador de impostos e cumpridor de seus deveres falando – e não de um detento foragido e condenado, entre outras coisas, por homicídio, roubo e sequestro.
Não é a primeira vez que Hosmany "decide" deixar a cadeia. Em 1996, ele não retornou da saída temporária que lhe permitiu deixar o Instituto Penal Agrícola de Bauru para comemorar o Dia das Mães em família. Na ocasião, como agora, uma das primeiras providências que tomou ao se autoconceder a liberdade foi dar uma entrevista. Ao programa Fantástico, da Rede Globo, disse que pretendia fazer um curso de explosivos com o IRA, a então ativa organização terrorista da Irlanda do Norte. Hosmany gosta de parecer louco, mas, ainda que fosse (hipótese que seu prontuário desmente), estaria longe de ser um louco inofensivo. Prova disso é que, durante o período que durou sua primeira fuga, cerca de um mês, o ex-médico não foi visto praticando nenhuma atividade associada aos psicóticos, como rasgar dinheiro, por exemplo. Em vez disso, juntou-se a dois comparsas para improvisar o sequestro de um empresário. Capturado, perdeu o benefício da liberdade condicional a que teria direito em breve e foi condenado a outros 32 anos de prisão.
Como criminoso, pode-se dizer que Hosmany foi um ótimo cirurgião. O fato de ser um dos bandidos conhecidos presos há mais tempo no Brasil – nesse quesito, ele perde apenas para Chico Picadinho e praticamente empata com José Márcio Felício, o Geleião (veja quadro) – mostra que ele nunca teve grande sucesso no mundo do crime. No tempo em que atuava como cirurgião plástico, chegou a fazer, se não fortuna, ao menos fama. A bordo de carrões, frequentava festas da alta sociedade carioca e namorava as mulheres mais ricas e bonitas no Rio de Janeiro. Da sua lista de conquistas, fizeram parte as socialites Becki Klabin,Vera Bocayuva Cunha, Tania Caldas e Yonita Salles Pinto. Quando foi preso pela primeira vez, em 1981, namorava a jornalista Marisa Raja Gabaglia. Entre uma e outra cirurgia plástica, dedicava-se ao roubo (de joias, carros e um avião) e ao contrabando de carros importados. Sua prisão se deveu ao assassinato de dois cúmplices. Em três das muitas vezes em que tentou fugir da cadeia – sem a ajuda do benefício da saída temporária –, arquitetou planos tão pueris que não conseguiu passar do primeiro portão. Numa ocasião, quando se encontrava preso no extinto Complexo do Carandiru, tentou disfarçar-se pintando o rosto com chocolate em pó. Em outra, arrancou parte da (hoje escassa) cabeleira, na esperança de não ser reconhecido pelos guardas. Anos antes, havia tentado escapar vestindo-se de mulher. Todos os planos fracassaram.
Rogerio Marques/Valeparaibano/Pagos![]() |
FIM DA FESTA |
Na penitenciária de Valparaíso, onde estava desde agosto, Hosmany costumava receber apenas esporadicamente visitas de familiares. Seu advogado, Marco Antônio Arantes de Paiva, disse não ter notícias de namoradas do ex-cirurgião nos últimos anos. "Acho que desde a morte da Marisa, em 2003, ele não se interessou mais por nenhuma mulher", afirmou. Desde 2006, Hosmany se corresponde com Anna Flávia Schmitt, de 28 anos, professora de ensino infantil e fundamental de Santa Catarina. Ela nega que seja namorada do detento e diz que ainda não o encontrou pessoalmente: "Sou vocacionada para a vida religiosa". A professora afirma que decidiu entrar em contato com Hosmany pela primeira vez com o objetivo de "consolá-lo", logo depois de vê-lo na TV durante a rebelião ocorrida na penitenciária de Araraquara.
| Todos os anos, uma média de 7% dos presos beneficiados com a saída temporária de Natal e Ano-Novo no estado de São Paulo não retornam para a prisão |
A defesa do ex-cirurgião tenta diminuir sua pena alegando na Justiça que o tempo que ele dedicou para escrever seus oito livros deve ser contado como dias de trabalho. Por telefone, Hosmany disse que a "dificuldade para escrever na cadeia" pesou na sua "decisão" de novamente descumprir a lei e não voltar da saída temporária. Na penitenciária em que estava anteriormente, em Presidente Bernardes, ele ocupava uma cela individual. Transferido para Valparaíso, passou a dividir um alojamento com mais de oitenta presos. "Não conseguia mais me concentrar para escrever", reclamou. Hosmany também ficou insatisfeito ao ter negados seus pedidos de transferência para a capital.
Assim, no dia 23, deixou a prisão decidido a não mais voltar. Foi direto encontrar o filho Erik, que vive na Noruega e veio ao Brasil passar o Natal e o réveillon com ele. No dia 26, acompanhado do filho e da neta, filha de Erik, passou pela sede da editora que publica seus livros e retirou 200 dos cerca de 25 000 reais que tem a receber da empresa por direitos autorais. De lá, o grupo seguiu para Governador Valadares (MG), onde reside parte da família do ex-cirurgião, e, depois, para uma praia no Espírito Santo. A mãe de Hosmany, Anésia, que mora em Palmas (TO), não foi visitada. De volta a São Paulo, Hosmany contratou um assessor de imprensa, que convocou a entrevista coletiva na qual ele anunciou, por telefone, que não voltaria à cadeia. A polícia ignorou o aviso. A Secretaria de Segurança Pública justificou-se dizendo que não poderia prender Hosmany com base em uma declaração e que a outra opção, a de monitorá-lo, não foi considerada, dado que ele "não é o criminoso número 1 do estado" para merecer tamanho esforço. A economia de nada adiantou, já que, diante da repercussão do caso, a polícia foi obrigada a designar uma equipe especialmente para capturar o ex-cirurgião.
A saída temporária é um benefício previsto em lei para presos em regime semiaberto que apresentem bom comportamento e já tenham cumprido um sexto da pena (no caso dos primários). A cada ano, cerca de 7% dos beneficiados (20 514 no estado de São Paulo, neste ano) não retornam à cadeia. A fuga anunciada de Hosmany Ramos, bem como a estulta reação da polícia diante dela, não deverá ajudar a reduzir as estatísticas nos próximos anos.
Os bandidos brasileiros que, como Hosmany Ramos, estão presos há mais de duas décadas têm em comum a condenação por homicídio. Entre os mais conhecidos, o campeão de permanência na cadeia é Chico Picadinho, preso aos 23 anos
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Com reportagem de Kalleo Coura
![]() FOTOS: AP, RAFAEL ANDRADE/FOLHA IMAGEM, ROGÉRIO REIS/TYBA, GETTY IMAGES E LATINSTOCK |