Wednesday, October 17, 2012

Um lustro de baixo crescimento - PAULO R. HADDAD


O ESTADÃO - 17/10



Geralmente, no último trimestre de cada ano, a opinião pública fica atenta ao que os diferentes meios de comunicação destacam como as perspectivas econômicas mais prováveis para o ano seguinte. Instituições e agentes econômicos apresentam os seus prognósticos sobre as principais variáveis macroeconômicas: a taxa de crescimento, a taxa de inflação, o nível de desemprego, o balanço de pagamentos, etc. No atual contexto da economia brasileira, trata-se de antecipar o futuro da crise que está nos envolvendo de maneira inequívoca e inexorável.

Dispõe-se, atualmente, de um amplo conjunto de roteiros metodológicos alternativos para a análise dos estados futuros de uma economia. Esses roteiros vão desde o tratamento do futuro como extrapolação do comportamento recente das variáveis econômicas até o tratamento do futuro como algo desconhecido ("cisnes negros") que estaria além dos atuais níveis de conhecimento e da experiência de analistas. Contudo, muito se aprendeu com as inúmeras crises econômicas que se seguiram no pós-2.ª Guerra Mundial, desde a depressão econômica de 1929.

Os roteiros metodológicos mais confiáveis apresentam os futuros a partir de cenários. Cenários não são projeções, mas mapas de possibilidades e opções particularmente úteis para contextos de rápidas mudanças e inflexões. Mal elaborados, podem levar a sérios erros de planejamento e a graves consequências sociais.

Muitas vezes, ao construir o cenário futuro de uma economia, as restrições e condicionalidades, internas e externas, que a ela se impõem acabam por se constituir num imperativo determinante de suas perspectivas imediatas e mediatas. Os graus de liberdade para formular e implementar políticas públicas se reduzem e "o que fazer" fica limitado apenas pelo "como fazer".

Esta parece ser a situação atual dos ventos dominantes sobre a economia brasileira: os limites do possível se encolheram. O governo federal dispõe de limitado nível de controle sobre uma política fiscal anticíclica de defesa dos níveis de emprego e de renda, por diversos motivos.

O seu nível de endividamento bruto cresceu muito, quando nele se incorpora o endividamento público indireto por meio dos repasses do Tesouro ao BNDES e às outras instituições financeiras federais. O grau de comprometimento e de vinculação das receitas do governo federal é muito acentuado com as despesas de pessoal e de custeio, com as políticas sociais compensatórias, com os serviços da dívida, etc. Daí os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estarem quase todos empacados em seus cronogramas físicos e financeiros.

Finalmente, a capacidade de gestão e de implementação da máquina administrativa do governo federal é precária, sitiada por processos de corrupção administrativa e por interesses velados. Mesmo quando a queda na taxa de juros dá um alívio nas despesas com os serviços da dívida, a avalanche das despesas correntes ocupa de prontidão os espaços de novos investimentos em infraestrutura econômica indiretamente produtivos.

Por outro lado, as restrições e condicionalidades do setor externo de nossa economia têm assumido um caráter dramático nos últimos meses. A crise internacional deixou de ser espacialmente localizada, para se tornar interdependente e consanguínea, levando ao desalento a maioria das economias nacionais, sem respeitar o seu padrão de estabilidade ou suas potencialidades de crescimento. Crises globais são mais dramáticas em termos de duração, amplitude e volatilidade do que os ciclos de negócios típicos do período pós-2.ª Guerra Mundial, tanto nas economias avançadas quanto nas economias emergentes. E crises bancárias internacionais muitas vezes resultam em ondas de moratórias nacionais poucos anos mais tarde.

Neste contexto, não seria exagero sugerir que o lustro que se estende até 2015 poderá ser de traumático baixo crescimento para a economia brasileira, contendo espasmos ocasionais de expansão de curta duração seguidos de instabilidades regressivas.

Emergente, mas muito caro - EDITORIAL O ESTADÃO



O Estado de S.Paulo - 17/10


A economia é grande, o país é emergente, mas os custos são de país desenvolvido, parecidos com os europeus e muito próximos dos americanos. Essa combinação, desastrosa quando é preciso enfrentar exportadores dinâmicos em mercados cada vez mais disputados, caracteriza o Brasil e é hoje reconhecida até pelo governo. Ainda assim, há novidades importantes num relatório recém-publicado pela empresa de consultoria KPMG e destinado a orientar decisões de investimento internacional. O estudo apresenta comparações de custos de 14 países, confrontando as condições de produção de 12 indústrias e 7 tipos de operações (como pesquisa, desenho de software e serviços de apoio). A análise chega até o nível de cidades, porque os custos podem variar de forma relevante dentro de um mesmo país.

Os EUA são o ponto de referência de todas as comparações. No resultado geral, os custos brasileiros são 7% menores que os americanos. A posição é pouco mais vantajosa que as de outros países desenvolvidos e muito menos favorável que as dos outros emergentes incluídos na mostra. Na Rússia, o conjunto dos custos é 19,7% menor que nos EUA; no México, 21%; na Índia, 25,3%; e na China, 25,8%.

O câmbio pode ter alguma influência, mas os principais fatores são outros. O texto destaca, de início, o peso dos salários e dos tributos diretos e indiretos. A desvantagem brasileira é especialmente notável no caso da tributação, 42,6% mais pesada que a dos EUA.

Três países desenvolvidos têm uma carga inferior à americana, com vantagem de 22,8% para a Holanda, 26,7% para o Reino Unido e 40,9% para o Canadá. Os demais emergentes estão bem nesse quesito. A Rússia aparece com impostos 28,3% mais leves que os dos EUA. A tributação é 36,4% menor no México, 40,3% na China e 50,3% na Índia.

A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda já admitem a importância de redução da carga, mas ainda rejeitam a ideia de uma reforma ampla. Preferem concessões setoriais, em alguns casos transitórias, insuficientes, em todo caso, para tornar mais racional o sistema.

Há, no entanto, um avanço. O presidente Lula mandou ao Congresso um projeto de reforma, no começo do primeiro mandato. A proposta nunca foi integralmente aprovada e, além disso, o presidente nunca se esforçou de fato para aliviar a tributação. Foi quase sempre um defensor aberto da carga de impostos, complemento de sua concepção de Estado. Esse Estado, por ele descrito como forte, é na realidade apenas balofo e ineficiente, mas como sustentar o empreguismo e o populismo sem escorchar a parte produtiva da sociedade?

Para o conjunto das manufaturas, os custos brasileiros são em média 6,6% menores que os americanos. Austrália e Japão têm custos maiores, 3,2% e 6,7%, respectivamente. Os da Alemanha empatam com os dos EUA. Itália, Canadá, França, Holanda e Reino Unido têm produção mais barata, com vantagens na faixa de 2,8% a 5,1%. A posição brasileira, portanto, é pouco melhor que as desses países. Os custos do Brasil são muito próximos, na indústria manufatureira, dos de países desenvolvidos. Mas são muito mais altos que os dos emergentes. Na comparação com o padrão americano, a vantagem é de 15,4% para a Rússia, 15,6% para o México, 18,7% para a Índia e 21,1% para a China.

Os números variam em torno dessas médias, quando se examinam separadamente os vários setores (automobilístico, aeroespacial, agroalimentar, eletrônico, metalúrgico e químico, entre outros), mas, de modo geral, a posição brasileira é muito menos favorável que as dos demais emergentes. Mesmo no caso da indústria agroalimentar, a posição do Brasil só é melhor que as dos desenvolvidos da amostra.

Esforço adicional - DORA KRAMER



O Estado de S.Paulo - 17/10


Advogados criminalistas de um modo geral têm demonstrado grande contrariedade com a linha adotada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão.

Ouve-se a reclamação em toda parte, sejam os advogados defensores ou não dos acusados na ação penal 470. A despeito de toda a consistência de argumentação transmitida ao vivo pela televisão, alegam desrespeito ao "devido processo legal".

Falam em "absurdos" sem apontar precisa e incontestavelmente quais desatinos estariam sendo cometidos. Tampouco conseguem explicar o que esperavam que o STF fizesse diante de todos os atos e fatos presentes nos autos, e pelo relator perfeitamente concatenados.

Subjacente às inflamadas alusões à agressão ao Estado de direito, parece mesmo haver o temor de que o rigor na aplicação da lei torne daqui em diante mais difícil o trabalho das defesas tão acostumadas à supervalorização de formalidades quando o figurino dos réus é o do colarinho branco.

Prova de que esperavam atuar em zona de conforto foi a fragilidade da argumentação apresentada no início do julgamento. Confiantes, os advogados não entraram no jogo à altura do enfrentamento que os esperava.

Para conferir, basta revisar as sustentações orais feitas antes do início da manifestação dos ministros: pífias, notadamente se cotejadas com a substância dos votos que viriam depois.

Nenhum deles exibiu visão do conjunto. Nada que pudesse nem de leve abalar a descrição da montagem do esquema de arrecadação fraudulenta de recursos e da distribuição delituosa entre partidos e políticos com a finalidade de comprar apoio ao governo no Congresso.

Os advogados pecaram por excesso de confiança - seria ofensivo falar em preguiça - e agora reclamam porque o Supremo não caiu na conversa fiada nem se deixou impressionar pela ofensiva mistificadora da dicotomia entre julgamento "técnico" e "político".

Menosprezaram a contundência dos termos com que o tribunal recebeu a denúncia em 2007, perderam tempo em desqualificar o trabalho do Ministério Público e se escoraram na tese do crime eleitoral.

Venderam um peixe deteriorado aos clientes que, se alertados a tempo, provavelmente não teriam ficado tão calados.

Mesmo peso. O Supremo absolveu Duda Mendonça das acusações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas basicamente pelo mesmo motivo que inocentou Fernando Collor em 1994: falhas formais na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral.

Nada a ver com tolerância ao uso do caixa 2.

Joga a chave. O PT tergiversa, fala em lançar um manifesto logo após a eleição, mas está matutando como fazer algo mais para marcar posição contra as condenações.

O que se diz nas "internas" é que o partido não pode assistir calado às prisões de José Dirceu e José Genoino.

Há quem defenda "botar fogo", sem dizer exatamente o que significaria isso.

E há quem nutra a esperança de que a presidente Dilma Rousseff assine o indulto dos prisioneiros, desconsiderando o potencial deflagrador de crise entre Poderes desse gesto.

Zumbi. A CPI do Cachoeira virou um cadáver insepulto sem ter alcançado nenhum de seus objetivos: não foi eficaz como instrumento de vingança contra "os autores da farsa do mensalão" nem revelou os laços do crime organizado com políticos e empresários envolvidos em negócios governamentais ilícitos.

Complicou a vida do governador Marconi Perillo? Sim, e daí?

Daí que só serviu para explicitar o quanto o Congresso, no contraste com o Judiciário, é um vexame completo.

Os vários tons - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 17/10


O julgamento do mensalão caminha para seu término sem que existam itens ainda por julgar que possam interferir no resultado final, que já foi dado com a definição pela maioria do STF de que houve desvio de dinheiro público para a compra de apoio político no Congresso e a identificação e condenação dos atores dos crimes, tanto ativos quanto passivos.

A acusação de formação de quadrilha, da qual o ex-ministro José Dirceu seria "o chefe", que parecia ser a base para a acusação, acabou sendo relegada a plano secundário. Ainda é mais provável que o núcleo político do PT - Dirceu, Genoino e Delúbio, mais Silvinho Pereira, que está fora do julgamento por ter feito acordo - seja condenado por quadrilha também, mas, mesmo que tal não venha a ocorrer, por desentendimento entre os ministros sobre a definição do crime, nada mudará a essência do esquema criminoso, cuja acusação passará a ser de coautoria criminosa.

A definição de "formação de quadrilha" está sendo debatida no plenário do Supremo em vários outros itens, e há divergências de conceituação. Elas foram suficientes, até agora, para absolver uns poucos da acusação, mas a condenação de alguns chegou a ter quatro votos pela absolvição. Mesmo que não veja confirmada no STF sua condição de chefe de quadrilha, Dirceu já foi identificado como aquele que detinha "o domínio do fato", isto é, quem comandava a ação considerada criminosa pelo Supremo. Também a absolvição do marqueteiro Duda Mendonça das acusações de evasão de divisas e lavagem de dinheiro não muda a essência da denúncia, embora afaste da campanha presidencial de 2002, na qual Duda Mendonça ajudou a eleger Lula pela primeira vez, a pecha de ter sido financiada com dinheiro do mensalão.

Mas a parte importante do julgamento vem depois de seu término, na definição da dosimetria das penas. Essas questões, que incluem agravantes e atenuantes e até mesmo a definição legal dos crimes, já estão sendo negociadas nos bastidores, através da ação dos advogados que buscam razões para convencer os juízes de que os réus não merecem penas muito graves. O caso politicamente mais delicado é o de Dirceu, condenado por enquanto por corrupção ativa nove vezes: na página 103, (item a) da denúncia está dito que "José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino, Silvio Pereira, Marcos Valério etc, em concurso material, estão incursos 3 vezes nas penas do artigo 333 do Código Penal; Na página 112, (item a), a denúncia diz que o crime foi praticado 2 vezes em concurso material; na página 117, (item a), diz que o crime foi praticado três vezes em concurso material; e na página 120, (item a) imputa o crime mais uma vez, sempre em concurso material.

O que isso quer dizer? O "concurso material" definido no artigo 69 do Código Penal é quando "o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não". Nesse caso, diz o CP, "aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido". Pela denúncia, portanto, o ex-chefe da Casa Civil poderá responder a um mínimo de 18 anos e a um máximo de 108 anos de cadeia. Se pegar a pena mínima de dois anos (a máxima é de 12), terá que cumprir três anos em regime fechado (1/6 da pena) para ter direito à progressão da pena.

Mas o STF não precisa concordar com a denúncia. Na hora da aplicação da pena, a tal da dosimetria, os ministros terão de decidir se entendem que os crimes foram praticados em concurso material, formal ou se é caso de crime continuado.

O Código Penal define, em seu artigo 71, o crime continuado como aquele em que "o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplicasse-lhe a pena de um só crime, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços". Se incluído nessa categoria, Dirceu poderá pegar condenação de menos de 8 anos, em regime semiaberto, só dormindo na cadeia. Talvez mais por isso do que pela eleição paulistana, Dirceu decidiu desistir, pelo menos por enquanto, de convocar as massas em sua defesa contra o STF.

Um debate sem sentido - MIRIAM LEITÃO



O GLOBO - 17/10


Discussão sem sentido é a que mobilizou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de um lado, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, do outro. É evidente que todos têm razão. Tanto as políticas monetárias expansionistas dos EUA têm impacto no mercado de moedas quanto a recuperação norte-americana será melhor para mundo.

Se o Fed nada fizesse para resolver a crise de crédito americana é que o mundo estaria realmente encrencado. Os Estados Unidos ainda são a maior economia do planeta e a que tem o maior déficit comercial, encomenda bens e serviços de países do mundo inteiro. A dosagem das emissões monetárias do banco central americano parece às vezes exagerada, sem dúvida, mas imagine se nada tivesse sido feito pelo Fed desde o começo desta crise?

O que preocupa Ben Bernanke sempre foi o fantasma da depressão, e ele assumiu disposto a entrar para a história como o presidente do Fed que evitou a repetição do evento econômico que assombrou os EUA nos anos 30. Acabou desatento aos riscos de outros desequilíbrios que cobrarão a conta mais tarde.

O ministro Mantega criticou no FMI a política monetária norte-americana. Recentemente, como se sabe, o Fed decidiu pela terceira injeção de recursos na economia através da compra de títulos lastreados em hipotecas, em US$ 40 bilhões por mês. Nas hipotecas está o caroço inicial da crise que desde 2008 tem produzido a desordem que o mundo tem enfrentado.

Bernanke reagiu, dizendo que tudo tem sido feito para elevar o ritmo da economia americana, o que tem reflexo positivo na economia mundial. Para ele não é claro que a política monetária de estímulo da instituição prejudique os países emergentes. Mas a desvalorização do dólar, de fato, aumentou a competitividade dos produtos americanos prejudicando o comércio com outros países.

O Brasil sentiu mais o impacto. O que era superávit virou déficit com os Estados Unidos. No ano passado, chegou a US$ 8 bilhões, e neste ano está em US$ 3 bilhões até setembro. Mas o comércio bilateral sofreu também pela falta de iniciativa brasileira para buscar o mercado americano. A proporção das exportações brasileiras que vão para os Estados Unidos despencou. Nem tudo é câmbio. Empresários ouvidos pelo Valor dizem que é preciso ter uma política de mais facilidade de negócios e mais acordos entre os dois países. E são presidentes de empresas grandes, como a Embraer e Coteminas.

Tombini rebateu Bernanke dizendo que a política monetária prejudica, sim, as políticas macroeconômicas brasileiras. Segundo ele, a entrada excessiva de capital “dificulta o controle da inflação”. Bom, aí fica difícil concordar. Se há um efeito positivo da valorização da moeda local é tornar mais fácil controlar a inflação. Desequilibra o comércio, mas derruba preços de produtos afetados pela cotação do dólar. Ele poderia dizer que essa não é a melhor forma de combater a inflação já que desorganiza a produção, mas o país só não estourou a meta em 2011 porque houve a “ajuda” do dólar baixo. Em alguns setores, chegou a haver deflação, atenuando o impacto da elevação de outros preços.

Segundo Tombini, o impacto inflacionário do fluxo de capitais ocorre porque ele produz “crescimento do crédito”. Ora, quem tem feito um enorme esforço para manter alta a oferta de crédito é o próprio governo brasileiro. O BC chegou a liberar compulsório para se criar crédito para compra de automóveis. O Banco Central deveria ver onde tem errado, já que do Ministério da Fazenda não se tem muita esperança de uma autocrítica.

Apagão logístico - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 17/10


Uma velha história conta qual foi o resultado de uma sindicância instaurada em algum ponto da França no início do século 19.

Ao passar por uma aldeia, Napoleão Bonaparte ficara indignado porque os sinos da igreja local não repicaram em sua homenagem, como era de praxe. Imediatamente, mandou instaurar um inquérito para apurar responsabilidades. Os mais velhos do lugar se reuniram e apresentaram uma longa exposição de motivos para tentar explicar por que não acontecera o que deveria ter ocorrido.

A lista começava com a informação de que o sacristão estava doente e, sendo assim, se encontrava impedido de cumprir suas funções. E prosseguia: a escada de madeira que dava acesso ao campanário estava deteriorada e nela faltavam alguns degraus; havia cinco anos, a cordinha do sino tinha sido danificada e, dois anos depois, o sino perdera o badalo... A relação se estendia por mais e mais explicações. A última delas era de que não existia mais sino, por impossibilidade de uso, tinha sido removido.

Será mais ou menos o que a Agência Nacional de Aviação Civil vai encontrar no relatório que, dentro de alguns meses, lhe será encaminhado com as razões pelas quais um estouro de um pneu de avião cargueiro na pista de Viracopos paralisou o aeroporto por 46 horas, causou o cancelamento de nada menos que 495 voos, bagunçou a vida pessoal e profissional de cerca de 40 mil passageiros e impôs prejuízos milionários às companhias de aviação.

Se for até às suas últimas consequências, a sindicância acabará concluindo que a administração deste país não se comove com os problemas de infraestrutura pelos quais passa a economia, mesmo tendo de entregar serviços de Primeiro Mundo durante a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

A administração atual do Brasil entende que concessões e parcerias com o setor privado não passam de privataria e que tudo o que não é estatal ou não serve ou não presta. É a mesma que segue imaginando que estimular o consumo seja o suficiente para assegurar automaticamente os investimentos do setor privado e o aumento da produção nacional.

O apagão dos aeroportos é somente um dentro de uma lista enorme de apagões de logística que emperrem o avanço da economia. Há os apagões elétricos, das ferrovias, dos metrôs, das rodovias, dos portos e das comunicações (em especial da telefonia). Há o apagão do trânsito das grandes cidades, o da segurança pública, o dos sistemas de saúde e o da educação e do ensino. E há, ainda, o apagão da produção de petróleo e derivados, da Previdência Social, do sistema tributário, os provocados pela poluição do ar e da água, o dos licenciamentos ambientais, o dos marcos regulatórios, o das agências de regulação, o do Judiciário, o apagão da governança pública, o do sistema político - e ninguém deixe de incluir nesta lista o apagão moral.

Eis por que um simples estouro de pneu no aeroporto de melhores condições meteorológicas do País pode provocar um pandemônio. O Brasil vive uma situação em que os serviços públicos operam no limite. Qualquer imprevisto ou qualquer imponderável pode ser suficiente para provocar o colapso de tudo... e a falta de badaladas.

CLAUDIO HUMBERTO


“PMDB de Ulysses costurou a anistia e o fim do bipartidarismo”

Senador Renan Calheiros (AL), sobre Ulysses Guimarães, o “Senhor Diretas”


‘BALÃO DE ENSAIO’ DE PAES AFASTA CABRAL DE DILMA
A presidente Dilma desautorizou o “balão de ensaio” do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), que sugeriu Sérgio Cabral em lugar de Michel Temer para vice-presidente, em 2014. Siameses na política, Paes e Cabral combinaram a jogada após o sucesso da ocupação das forças de segurança em áreas controladas por traficantes. Paes sabe que Dilma preferiria até ele a Cabral, que saiu “queimado” do episódio.

PACIFICADOR
Eduardo Paes testemunhou uma bronca de Dilma em Sérgio Cabral a bordo do teleférico do Alemão, há meses, a agora tenta reaproximá-los.

DEVASTADOR
A iniciativa do prefeito do Rio queimou Cabral com tal eficácia que os profissionais da intriga já suspeitam que Paes o fez de caso pensado.

MESMO VICE
O vice-presidente Michel Temer revelou ontem que Dilma, em conversa com ele, descartou a troca de vice, em sua reeleição.

BEM NA FOTO
Tão elegante quanto eficiente no estilo e nas tratativas, último “lorde” da política, Michel Temer conquistou de vez o respeito da presidente. 

MINISTRO PROMETE ‘APERTAR’ A TIM POR MELHORIAS
O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) disse ontem a esta coluna que vai mesmo “apertar” a TIM para a efetiva melhoria dos seus serviços ou essa empresa de telefonia celular ficará sujeita a sério corretivo. Paulo Bernardo já havia atuado na suspensão das vendas de novos chips da TIM, mas interrompeu a medida após a empresa assumir compromissos de investimentos, que ainda não surtiram efeito. 

MAIS DO MESMO
Clientes do plano Infinity, da TIM, que pagam pelo número de ligações, não pela duração, ainda se queixam de telefonemas “derrubados”. 

TUFÃO
Dilma, que adiou o comício para Haddad temendo o último capítulo da novela Avenida Brasil, terá que adiar de novo: sábado tem reprise. 

SONÍFERA ILHA
Bem pensado ontem, no Twitter: Cuba será o único país do mundo que não pede visto de entrada, mas de saída. 

JUÍZA DO BRASIL
Vítima de ataques injustos, covardes, pelos seus votos corajosos e independentes no Supremo, a ministra Cármen Lúcia tem dito a pessoas próximas que isso não a abala: “Ou eu julgo de acordo com os autos do processo ou rasgo a toga e vou embora”.

GRAVE DESRESPEITO
Sem ter quem os defenda, estudantes estrangeiros no Brasil sofrem para circular com situação regularizada. O Ministério da Justiça leva 120 dias para expedir a identidade que é válida... por um ano.

DIFERENÇA INJUSTA
Policiais federais retornaram ao trabalho, mas continuam as queixas. Enquanto agentes, escrivães e papiloscopistas ganham salário inicial de R$ 7,5 mil, analistas de seguros privados ou da Ancine e técnicos do Ipea, de nível idêntico, ganham R$ 12,9 mil em início de carreira. 

VOCÊ JÁ SABIA
O jornal argentino Clarín confirmou notícia desta coluna, de que Dilma admite discutir a reincorporação do Paraguai ao Mercosul. Afinal, o objetivo da violência foi alcançado: enfiar a Venezuela no bloco. 

PRIMO RICO
O Brasil vai dar US$ 1 milhão para a organização das eleições locais no Haiti. Mas, segundo o site Haiti News, precisa combinar primeiro com a oposição, cada vez mais insatisfeita com a “ingerência externa”. 

O PASSADO CONDENA
Lula está numa sinuca de bico: o governador Tarso Genro (PT) quer que ele vá a Pelotas ajudar o candidato petista no 2º turno. Num vídeo, há anos, ele foi, digamos, politicamente incorreto com homossexuais. 

ASSÉDIO CURITIBANO
O senador Sérgio Souza (PMDB-PR), suplente de Gleisi Hoffmann (Casa Civil), tem sido assediado para apoiar Gustavo Fruet à Prefeitura de Curitiba. O PMDB apoia Ratinho Jr. (PSC) e Gleisi está com Fruet.

CAOS SULAMÉRICA
Após a morte da avó que pagava seu seguro de saúde Sulamérica, uma cliente de Brasília tenta sem sucesso, há quatro meses, transferir o débito automático para sua própria conta corrente. E não consegue. 

VIRA, VIROU
Três dias fechado para remover avião avariado, Viracopos tem um novo apelido: sai aeroporto “Luiz Inácio”, entra “Viracaos”. 


PODER SEM PUDOR
BRONCA MAL COMPREENDIDA

Locutor da rádio Tabajara, do governo da Paraíba, Pascoal Carrilho transmitia a chegada do presidente Ernesto Geisel a João Pessoa. Ao anunciar o desembarque do general com sua voz engraçada, ouviu-se uma sonora vaia. Enquanto a comitiva descia do avião, ele atacou:

- Acaba de desembarcar o presidente... e esses moleques...

O ênfase em "moleques" soou como um xingamento aos ministros e assessores. Pascoal não pôde concluir a frase: a transmissão foi interrompida. E ele passou boa parte dos anos seguintes tentando explicar que sua bronca era contra a multidão, e não contra o ditador.

Blog Archive