Monday, October 19, 2009

19/10/2009 - EDITORIAIS




AJUSTE À REALIDADE
EDITORIAL
O GLOBO
19/10/2009

Não está mais longe o dia em que o Brasil passará a ter um perfil populacional semelhante ao de países europeus ou até mesmo do Japão, nação com maior percentual de idosos no planeta.

A queda na taxa de fecundidade, fenômeno mais acentuado entre os brasileiros com mais instrução, começa a se espraiar. Face à participação crescente das mulheres no mercado de trabalho (em média, elas também hoje têm mais anos de instrução do que os homens) e às campanhas bem-sucedidas de prevenção a doenças transmitidas sexualmente, a gravidez indesejada vem diminuindo no país. Desse modo, há também progressiva redução na diferença das taxas de fecundidade entre o Norte/Nordeste e o Sul/Sudeste; entre os mais pobres e os mais ricos.

Assim, o número de brasileiros com mais de 60 anos já supera o de crianças até 6 anos. E, no máximo em duas décadas, chegará o momento em que o percentual dos considerados idosos (acima de 65 anos) será maior que o de jovens até 29 anos.

Temporariamente, essa mudança no perfil demográfico traz enormes vantagens ao país. Na educação, ficou mais fácil atender à demanda pela pré-escola que, se bem estruturada pedagogicamente, proporciona saltos qualitativos no aprendizado e pode contribuir para eliminar rapidamente o problema da evasão escolar, que leva ao analfabetismo funcional e à falta de preparo para o trabalho.

No entanto, se pelo lado dos mais jovens será possível investir em melhora substancial na qualidade de vida, por outro o envelhecimento da população poderá significar graves problemas se o país não se preparar para enfrentar essa realidade.

Há questões objetivas que precisam começar a ser resolvidas o quanto antes, até porque esse processo de envelhecimento já está em curso: a população com mais de 80 anos crescerá, já na próxima década, a um ritmo de 6% ao ano. Da previdência social ao planejamento urbano, da saúde ao mercado de trabalho, há muito o que ser ajustado.

ESTADO DE DIREITO E PARALELO ACUADOS
EDITORIAL
JORNAL DO BRASIL
19/10/2009

RIO - Há muito a tarefa de combater o crime organizado no Rio de Janeiro tomou proporções tão complexas que não basta à polícia subir morros e favelas à caça dos bandidos. As facções do tráfico tornaram-se tão poderosas e audaciosas que suas ações não se restringem à administração estática de pontos de vendas de drogas – que retalha a cidade geograficamente em áreas dominadas. A dinâmica própria do confronto entre grupos rivais, com a prática das invasões de morros, mostra o quanto o crime organizado é ousado a ponto de se movimentar pela cidade, criando a sensação de que há uma guerra particular, para além do controle das forças de segurança do Estado.
Os episódios deste fim de semana, que amedrontaram a população na Zona Norte do Rio e cujas imagens foram divulgadas internacionalmente, são um retrato do tamanho do desafio a ser enfrentado, ainda mais agora que a cidade receberá os dois maiores eventos esportivos mundiais, a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, dois anos depois.
Pela primeira vez, um helicóptero da polícia foi abatido durante uma troca de tiros com traficantes. A cena foi impactante. Alvejada por rajadas de fuzil, a aeronave começou a pegar fogo e explodiu quando fazia um pouso de emergência numa vila olímpica. Dois dos seis tripulantes, que não conseguiram escapar a tempo, morreram carbonizados. O sobrevoo do helicóptero se dava em meio às tentativas da polícia de acabar com a guerra entre duas facções de traficantes, que já durava a madrugada inteira de sexta para sábado.
Não bastasse o trágico acidente provocado, a violência dos bandidos continuou e se espalhou para longe dos arredores do Morro dos Macacos, epicentro da disputa entre as facções criminosas. Cercados pela Polícia Militar, os traficantes que invadiram a favela de Vila Isabel comandaram uma série de ataques a ônibus, incendiados em diversos pontos da cidade, com o objetivo de dividir as forças da polícia. Dez veículos foram destruídos, causando um prejuízo de R$ 2,5 milhões. Ao todo, as seguidas horas de violência deixaram um saldo de 14 pessoas mortas, sendo três vítimas inocentes. Eram primos que voltavam de uma festa e, por azar, encontraram pelo caminho o “bonde” dos traficantes invasores, que os executaram.
Esses aterrorizantes acontecimentos mostram a audácia e a brutalidade dos bandidos, cada vez mais armados. E deixam a sociedade preocupada. Mas também podem revelar certo desespero do crime organizado, em razão da criação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que começaram a expulsar, pela primeira vez, o tráfico de drogas pesado de algumas comunidades. O resultado das UPPs ainda é irregular, o que é natural, até pelas diferentes condições de cada favela. Mas caso o exemplo bem-sucedido do Dona Marta, em Botafogo, se dissemine, como pretende o governo do estado, as grandes facções tendem a ficar acuadas. Ao perderem territórios, alguns bastante lucrativos, como os da Zona Sul da cidade, é esperado que elas invadam pontos rivais para manter seus ganhos. É um efeito colateral, mas que deve ser previsto e combatido pelo setor de inteligência da polícia. Antecipar essas movimentações é o melhor caminho para que a cidade não fique refém das consequências imprevisíveis de guerras entre representantes do Estado (ou da barbárie) paralelo.

MANOBRAS PARA A GASTANÇA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
19/10/2009

É engenhoso, reconheça-se, o conjunto de manobras legais que o governo vem colocando em prática para, sem deixar isso explícito, reduzir as metas do superávit primário de 2010 e assim assegurar mais dinheiro para gastar no ano que vem, quando, não se pode esquecer, será eleito o sucessor ? ou sucessora ? de Luiz Inácio Lula da Silva. São notáveis os esforços que o governo está fazendo na área orçamentária para alcançar seu objetivo político. Mas a engenhosidade não esconde a nocividade dessas medidas para o equilíbrio das finanças públicas nem tampouco disfarça a perda de nitidez da política fiscal do governo Lula.

A manobra mais recente, como mostrou reportagem de Fabio Graner e Adriana Fernandes, publicada no Estado de quinta-feira, é a permissão legal para o governo abater do cálculo do superávit primário de 2010 todos os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ? a principal peça de propaganda eleitoral do governo e de sua candidata ? já empenhados em 2009, mas que, por não terem sido pagos no próprio exercício, deverão ser incluídos nos "restos a pagar" em 2010.

Essa permissão abre um grande espaço para o governo gastar em outros itens que lhe sejam mais interessantes do ponto de vista eleitoral ou mesmo vitais em algumas regiões para assegurar bom desempenho de seus candidatos nas urnas, aparentemente sem colocar em risco o cumprimento da meta fiscal. Recorde-se que a meta já foi reduzida legal e explicitamente e, mesmo assim, medidas recentes permitem que, na prática, ela seja ainda menor, pois de seu cálculo já foram excluídas outras despesas, além desses "restos a pagar".

Neste caso, se, por exemplo, o governo tiver empenhado R$ 10 bilhões de investimentos do PAC, mas ainda não pagou esse dinheiro ao fornecedor ? ou seja, o dinheiro continua no Tesouro Nacional ?, lança o valor em "restos a pagar", o que facilita o alcance da meta do superávit de 2010. Assim, poderá gastar o mesmo valor sem se preocupar com a meta. É uma brecha para a gastança eleitoral.

Resta saber que dimensões terá essa brecha. No processo orçamentário brasileiro, a despesa pública é feita em três estágios. O primeiro é o do empenho, momento no qual o governo assume a obrigação do pagamento ao fornecedor de bens, obras ou serviços. O segundo é o da liquidação, que consiste na verificação do direito do credor. Por fim, emite-se a ordem de pagamento e a despesa é paga. Quando uma despesa é liquidada num exercício, mas não é paga, é incluída nos "restos a pagar" no exercício seguinte.

O resultado financeiro desse novo afrouxamento da política fiscal dependerá da competência do governo em administrar o PAC, que até agora tem sido sofrível. Os Orçamentos da União incluem verbas volumosas para obras listadas no PAC ? desde o anúncio desse programa eleiçoeiro, em 2007, os valores para elas reservados nos orçamentos alcançaram R$ 57 bilhões ?, mas o balanço da execução orçamentária tem mostrado grande lentidão no empenho das verbas, ou seja, na execução das obras. O governo terá que melhorar muito a gestão do PAC para poder reservar valores expressivos a serem gastos no ano que vem.

Independentemente da competência ou incompetência gerencial do governo no caso do PAC, o que já lhe está assegurado para 2010 é uma grande liberdade para gastar. A meta de superávit fiscal para o setor público não financeiro em 2010 foi estabelecida em 3,3% do PIB, e o governo federal deverá responder por 2,15% do PIB. Dessa conta, porém, o governo já foi autorizado, pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a excluir R$ 22,5 bilhões referentes ao PAC, além do excesso da meta do superávit primário que for apurado em 2009. Além disso, também os quase R$ 17 bilhões do Fundo Soberano do Brasil (FSB) flexibilizam a meta de superávit fiscal de 2010 e abrem espaço para outros gastos do governo do PT.

As seguidas manobras geram cada vez mais dúvidas sobre o rigor com que o governo administra os recursos públicos, alimentam temores de que, mesmo reduzida e "flexibilizada", a meta fiscal não seja alcançada no ano de eleições e deixam cada vez mais claro que existe uma diferença entre a gestão da política fiscal - perdulária - e a da política monetária - austera.

ESTATIZAÇÃO À MINEIRA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
19/10/2009

A Cemig, estatal de energia de Minas Gerais, expandiu-se nos últimos cinco anos, investindo R$ 4,9 bilhões em cinco aquisições de empresas do setor fora do Estado onde tem sede. Neste ano, o ritmo de crescimento da Cemig acelerou-se ainda mais, com a compra da empresa de capital italiano Terna e o avanço das negociações para adquirir a Light.

A Cemig é uma das maiores companhias de energia do País, com 63 usinas e capacidade de geração de 6,7 mil MW, correspondendo a 6,4% da capacidade total do País. Bem administrada, lucrou R$ 1,88 bilhão, em 2008, e R$ 545 milhões, no segundo trimestre de 2009. O valor de mercado de suas ações, negociadas no Brasil, em Nova York e na Espanha, é da ordem de R$ 20 bilhões, três vezes mais do que valiam em 2003, no início do governo Aécio Neves.

Com disponibilidades de caixa superiores a R$ 2 bilhões, a Cemig está emitindo notas promissórias no montante de R$ 2,7 bilhões para fortalecer sua capacidade de aquisição de outras companhias e manter um ritmo acelerado de investimentos. Ela já opera em 19 Estados, o que lhe confere abrangência nacional, só inferior à da holding federal Eletrobrás.

Em 2006, a Cemig comprou 25% das ações de controle da Light por R$ 172 milhões, além de uma participação na concessionária de transmissão TBE por R$ 348 milhões. Depois, pagou R$ 213 milhões por 49% das ações da Energimp, que gerará 99,6 MW de energia eólica no Ceará, e ganhou a concorrência para construir uma linha de transmissão de energia elétrica no Chile. E participa com 10% do consórcio que está construindo a Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira.

Em abril, desembolsou R$ 2,33 bilhões pelo controle da Terna, que tem 3,3 mil km de linhas de transmissão em 11 Estados. E, em maio, anunciou uma parceria com a Companhia Energética de Brasília (CEB) para interligar a distribuição de energia de Minas Gerais e do Distrito Federal. Um acordo, ainda não concluído, está sendo negociado entre os governadores de Minas, Aécio Neves, e do Distrito Federal, José Roberto Arruda, envolvendo a aquisição, pela Cemig, de metade das ações da CEB, por cerca de R$ 1 bilhão. "Precisamos desse apoio, porque nos anos anteriores à minha gestão não se fizeram os investimentos necessários, o que resultou em um serviço de má qualidade", disse Arruda.

Em meados de setembro, a Cemig confirmou o início dos estudos para aumentar sua participação na Rio Minas Energia, que controla a Light. O valor estimado da aquisição é da ordem de R$ 1,4 bilhão.

O mercado brasileiro de energia elétrica desperta o interesse dos investidores. Com a retomada da produção industrial, aumenta a demanda de eletricidade ? o consumo cresceu 3,08% entre julho e agosto.

Com o atraso na licitação de grandes projetos, como Belo Monte, com problemas de licenciamento ambiental, os investidores parecem dispostos a ampliar a participação nas usinas existentes, o que se justifica, do ponto de vista empresarial. Para o especialista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, predominará a tendência de concentração no setor, com a necessidade de ganho de escala para assegurar a rentabilidade no longo prazo.

Nada haveria a criticar nos avanços da Cemig, fosse ela uma empresa privada e não de capital misto. Não estão claras as intenções políticas ? e muito menos os objetivos econômicos ? do governo de Minas Gerais com o aumento da participação da Cemig na geração, distribuição e transmissão de energia elétrica, mediante a compra de ativos já existentes, ou seja, que nada acrescentam à capacidade instalada nacional. Segundo a Agência Estado, o governador Aécio Neves pretenderia usar a estatal mineira como uma bandeira para se defender da "pecha de privatista" atribuída ao PSDB pelo presidente Lula. O então candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, por exemplo, não conseguiu se desvencilhar dessa crítica nas eleições presidenciais de 2006.

Mas o dinheiro do governo de Minas Gerais, o controlador da Cemig, não deve ser empregado para esse fim. O certo seria aplicá-lo em investimentos novos e produtivos, para o benefício direto da população.

A CREDIBILIDADE DO ENEM
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
19/10/2009

Os problemas em cadeia gerados pelo vazamento da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), frustrando estudantes e desorganizando os vestibulares das universidades, são mais uma amostra do que pode ocorrer quando os interesses eleiçoeiros são postos à frente da racionalidade administrativa nos órgãos técnicos do Estado. Os efeitos foram tão avassaladores que podem desmoralizar a própria prova, que há mais de dez anos vinha sendo uma das principais ferramentas do Ministério da Educação (MEC) para tentar melhorar a qualidade do ensino brasileiro.

Aplicado pela primeira vez em 1998, o Enem, em suas primeiras versões, limitava-se a divulgar as notas individuais dos estudantes que a ele se submetiam espontaneamente. Hoje, graças à experiência acumulada e ao respeito que conquistou entre os estudantes, a prova permite avaliar o desempenho das escolas públicas e privadas, dando às autoridades educacionais condições de identificar as diferenças entre elas e tomar as medidas necessárias para reduzi-las. A avaliação também permite a elaboração de um ranking de qualidade, o que orienta os pais na escolha dos colégios. Em primeiro lugar, o Enem vinha sendo um indutor de mudanças qualitativas não apenas do ensino médio, mas também do ensino superior. Foi o sucesso desse mecanismo de avaliação que estimulou muitas universidades a reformularem inteiramente seu processo seletivo e assegurou aos estudantes uma alternativa aos anacrônicos "cursinhos preparatórios".

Resultante do açodamento com que o ministro Fernando Haddad tentou introduzir mudanças no Enem de 2009, para utilizá-las como bandeira política na campanha eleitoral de 2010, o vazamento da prova praticamente anulou o planejamento das universidades para o próximo ano. Instituições de ponta, como a USP e a Unicamp, desistiram de levar em conta os resultados da prova. O mesmo ocorreu com importantes universidades confessionais, como o Mackenzie e as PUCs de São Paulo e Campinas. As universidades federais que aceitaram a proposta do MEC de converter a prova em vestibular unificado foram obrigadas a reformular o calendário escolar. Por seu lado, as universidades privadas reclamam dos prejuízos financeiros e acadêmicos.

As inscrições para o ProUni, umas das poucas iniciativas bem-sucedidas do governo Lula no campo educacional, também terão de ser adiadas. Para tentar evitar atrasos no início do próximo semestre letivo, a Secretaria de Ensino Superior (Sesu) terá de adotar uma gambiarra nesse programa, aceitando a pré-matrícula dos bolsistas e deixando para depois a fase de comprovação de informações referentes à renda familiar e ao histórico escolar dos candidatos a bolsas de estudos. E, obrigado a devolver a taxa de inscrição de R$ 35 aos alunos de escolas privadas que desistirem de fazer o Enem, por causa do adiamento das provas para os dias 5 e 6 de dezembro, o MEC está montando às pressas um esquema de reembolso para o qual não tem qualquer expertise. Os alunos terão de enviar uma carta para o Inep, o órgão responsável pela prova, mas a data e a forma de devolução do dinheiro até agora não foram definidas.

Para custear todos esses gastos não previstos o MEC será obrigado a desviar recursos de suas atividades-fim. Mais uma vez, infelizmente, prevalece o velho vício da administração pública brasileira, em cujo âmbito as verbas orçamentárias acabam ficando no meio do caminho, jamais chegando integralmente aos seus destinatários finais para a execução de políticas públicas eficientes. Somente o custo da impressão da nova prova consumirá cerca de R$ 33 milhões dos R$ 110 milhões de que o MEC dispunha para aplicar o Enem a 4,1 milhões de estudantes em 1,8 mil cidades este ano. Além disso, há ainda que se contabilizar os gastos com o aluguel dos locais para a prova ? e assessores de Haddad já reconheceram que eles podem ser muito superiores aos custos de contratação de uma nova gráfica.

Evidentemente, a bagunça em que se converteu o Enem de 2009 afetou a credibilidade da prova, o que é reconhecido até dentro do próprio governo. Ela poderá ser recuperada a médio e longo prazos, é certo. Mas, para que isso ocorra, é preciso que a racionalidade administrativa, e não o interesse eleitoral, volte a prevalecer no MEC.

DÍVIDA SANITÁRIA
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
19/10/2009

Empréstimo do BID à Sabesp promete ampliar coleta e tratamento de esgoto em São Paulo, mas avanço no país é lento

O SANEAMENTO básico, apesar de figurar como prioridade no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), avança no país em ritmo bem mais lento do que seria recomendável para um investimento com tanto peso na redução da mortalidade infantil e na incidência de doenças infecciosas e parasitárias.
De acordo com a última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), estagnou o percentual de casas com algum tipo de esgotamento sanitário adequado -o que inclui soluções como as fossas. Entre os anos de 2007 e 2008, o indicador oscilou de 73,4% a 73,2%.
Houve algum progresso, de 51,1% para 52,5%, na parcela de residências ligadas à modalidade mais apropriada, a rede de esgoto. Mas em partes do país, como na região Norte, o percentual de ligações de esgoto retrocedeu. A ampliação da rede coletora não acompanhou o avanço do número de domicílios -hoje, só 9,5% deles têm acesso ao esgotamento no Norte, pior índice do Brasil.
Diante desse quadro, pode parecer animadora a situação da região metropolitana de São Paulo, onde vive um décimo da população nacional. Afinal, 84% do esgoto produzido aqui termina coletado, um pouco acima da média do Sudeste (80,6%). E a Sabesp acaba de obter um financiamento de US$ 600 milhões do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para passar à terceira etapa do Projeto Tietê, que promete aumentar a taxa de coleta para 87% até 2015.
Ainda aquém da meta da universalização, mas significativamente melhor que o indicador em escala nacional. Quem transita pela avenida marginal do Tietê, contudo, conhece bem o estado do rio. As melhoras podem ser talvez percebidas a jusante, com o encolhimento da mancha de poluição que adentra o interior do Estado, mas na capital e nas cidades vizinhas o efeito é quase imperceptível.
Uma razão para tanto está na taxa ainda mais reduzida de tratamento do esgoto gerado. Na Grande São Paulo, ela se encontra em meros 70% do total. Isso equivale a dizer que quase um quinto dos dejetos recolhidos acaba despejado na rede de drenagem sem o processamento para retirada de agentes danosos à saúde. A outra meta do Projeto Tietê é aumentar tal índice de tratamento de 70% para 84%.
O Estado de São Paulo tem programadas 122 obras com investimentos por meio da Sabesp, que não contam com recursos federais. No restante do país, o PAC projeta um dispêndio de R$ 10 bilhões ao ano em saneamento básico (acesso a água encanada incluído). Com as conhecidas dificuldades do governo federal para fazer o programa andar, parece óbvio que o nó do saneamento ainda demorará a ser desatado, e essa parte da dívida social, resgatada.
O alerta já foi dado pelo próprio Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), um centro de resto mais inclinado a destacar dados favoráveis ao governo Lula: no ritmo do período 2003-2008, o acesso a saneamento básico só ultrapassará o limiar simbólico dos 95% no ano 2055.

A POLÍTICA SE RENOVA
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
19/10/2009

MODERNIDADE não faz mal a ninguém. Enquanto muitos políticos ainda recorrem a expedientes conhecidos, como o de enviar pelo correio publicações impressas gratuitamente pela Gráfica do Senado, há quem inove nas técnicas de propaganda e comunicação com o eleitor.
É assim que o site da Câmara dos Deputados, reformulado recentemente, oferece um novo atrativo. Trata-se de uma seção dedicada exclusivamente ao presidente da Casa, o deputado Michel Temer (PMDB-SP).
Pode-se comprovar ali que o deputado não gasta todo o seu tempo articulando a sua candidatura à vice-presidência da República. Entre fotos, artigos, vídeos e áudios de seus pronunciamentos, o eleitor haverá de tomar contato detalhado com uma personalidade que, sem dúvida, não parece se restringir aos limites de seu papel institucional como presidente da Casa.
É a modernidade, com efeito, servindo a uma cara tradição da política brasileira -a do uso personalista das instituições públicas. Vai ficando para trás o tempo dos santinhos e panfletos.
Um exemplo curioso desse fenômeno provém de um deputado estadual catarinense, que aderiu aos serviços do Twitter.
Certa inconsequência de atitudes parece ser inerente a esse sistema rápido e breve de comunicação eletrônica, como bem sabe quem acompanhou, nos últimos tempos, as mensagens e contramensagens do senador Aloizio Mercadante (PT-SP).
Deve-se convir, entretanto, que o parlamentar catarinense exagerou. Promete realizar o sorteio de um aparelho de DVD e de uma televisão entre a sua clientela no Twitter, tão logo atinja o patamar de mil seguidores. Escusado dizer, o deputado é candidato à reeleição. Assim se renova a política brasileira: é a tecnologia chegando aos currais eleitorais.

PROJETO DE REPATRIAÇÃO AVANÇA, MAS SANÇÃO NÃO É GARANTIDA
EDITORIAL
VALOR ECONÔMICO
19/10/2009

Tramitam no Congresso dois projetos que concedem anistia e benefício fiscal a brasileiros que enviaram dinheiro ilegalmente para o exterior e querem, agora, repatriar esses bens. Ambos são patrocinados por parlamentares do PT : o do deputado José Mentor (PT-SP) foi aprovado no dia 23 de setembro na Comissão de Finanças e Tributação por 16 a 4; e o do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) está na Comissão de Assuntos Econômicos para ser votado em breve em caráter terminativo.
Os dois receberam sinal verde do Executivo para serem votados, apesar de sua natureza polêmica tanto econômica quanto moral. Se aprovada na Câmara, a proposta de Mentor segue para o Senado onde pode ser consolidada com a de Delcídio. O PT incluiu a proposta de Mentor na pauta de votações deste ano da Câmara. O projeto consta da lista apresentada pelo líder do partido, Cândido Vaccarezza (SP), ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), na semana passada e Vaccarezza acha possível que ele seja votado até 10 de novembro. Um senso de urgência tomou conta do governo, que orientou a base aliada a acelerar a tramitação dos projetos. O de Mentor estava parado há 4 anos. O de Delcídio Amaral foi apresentado no ano passado.
As estimativas indicam que há no exterior algo entre US$ 70 bilhões a US$ 150 bilhões remetidos por brasileiros de forma ilegal.
Os ilícitos fiscais são, em geral, associados à outras práticas delituosas como contrabando, extorsão mediante sequestro, narcotráfico, corrupção. É extremamente difícil separar o que é resultado de ilícitos fiscais e financeiros do que é produto de outros crimes.
Pela legislação vigente, já é possível repatriar capitais desde que o detentor do dinheiro pague os impostos devidos. O contribuinte paga uma multa de 20% que, se quitada à vista cai para 10%, e o crime contra a ordem tributária automaticamente se extingue. É a figura do "arrependimento eficaz".
A ideia da repatriação não é nova. Tão logo assumiu o governo, Lula recebeu trabalho do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que indicava haver no exterior cerca de US$ 80 bilhões pertencentes a brasileiros e sugeria incentivos à repatriação. Na ocasião, diante da escassez de dólares no país, o governo avançou na análise da medida. Em 2005, quase propôs projeto ao Congresso, mas a ideia foi abortada pela crise do "mensalão".
"O dinheiro já existe, só vai mudar o país em que está depositado. Vai gerar riqueza aqui, em vez de gerar riqueza em outro lugar. É importante num momento em que estamos saindo da crise", alegou Mentor, na defesa do seu projeto, aprovado na Comissão de Finanças com os votos de parlamentares do PT, PR, PMDB, PC do B, PP e PMN, todos da base. Contra, votaram somente dois deputados do PSDB, um do DEM e um do PSOL.
"Há um problema ético, de beneficiar fraudadores, e vários problemas práticos", comentou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP), após a votação, em setembro.
Em nenhum momento a questão cambial representou empecilho ao debate e aprovação do projeto na Câmara. A apreciação do real frente ao dólar tende a se acentuar com o ingresso de recursos estrangeiros no país que, só nestes meses finais do ano pode chegar a US$ 25 bilhões. A taxa de câmbio já rompeu a marca de R$ 1,70 e uma eventual enxurrada adicional de dólares seria ainda mais danoso para os exportadores brasileiros. Portanto, do ponto de vista macroeconômico, a repatriação é uma medida totalmente inoportuna
"O dólar já esteve em R$ 1,40 e, também, em R$ 4", alega Mentor . "Estamos comprando dólar e vamos continuar comprando para estabilizar a taxa de câmbio", diz.
São muitas e sérias as críticas já feitas às propostas em tramitação hoje: elas anistiam "bandidos"; têm como verdadeiro objetivo o financiamento de campanhas eleitorais em 2010; consideram "idiota" o bom contribuinte, que paga 27,5% de Imposto de Renda pelos recursos mantidos no país, enquanto quem praticou o crime de evasão de divisas ou evasão fiscal receberia o benefício de pagar apenas 10% de IR para trazer de volta esses recursos.
Se o país não enfrenta escassez de dólares, ao contrário; e se há tantos "senões" éticos, será difícil o governo sancionar e defender essa medida, se ela for aprovada no Congresso.

MOTIVAÇÃO PARA QUALIDADE
EDITORIAL
A GAZETA (ES)
19/10/2009

O Bônus Desempenho é mais uma ferramenta para elevar a qualidade do ensino na rede pública estadual. Professores e servidores das escolas receberão até um salário a mais como prêmio pela melhoria do desempenho de estudantes no aprendizado de Português e de Matemática.

O critério de avaliação é o Paebes (Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo), que diagnostica a aprendizagem em Alfabetização, Leitura, Escrita e Matemática. As maiores notas nesse teste significarão melhores chances de obtenção de 100% do bônus.

Mas há mais duas condições para a conquista da gratificação, criada pela Secretaria de Educação. Uma delas é a redução da evasão escolar; a outra, é a assiduidade do profissional da educação. Assim, mesmo que uma escola atinja 100% da meta estabelecida, seus professores e demais servidores podem receber percentuais diferentes do próprio salário como bônus.

A evasão escolar é problema de causas complexas. É um dos vilões do ensino. Tem relação com a vida do aluno fora da escola, incluindo fatores como baixa renda familiar, desestruturação de ambiente doméstico, má convivência comunitária, etc.

O processo de evasão também é alimentado por deficiências pedagógicas refletidas em metodologias inadequadas, reprovação escolar, curriculum, etc. No entanto, a experiência educacional tem demonstrado que por meio de motivação é possível ampliar e consolidar o interesse do aluno pelos estudos e, assim, aumentar sua vontade de estar na escola. Em consequência, cai o número de jovens que a abandona. É esse aspecto que o governo estadual pretende trabalhar utilizando o bônus.

Essa questão merece atenção especial. Os índices de evasão são altos na rede estadual de ensino. Chega a 30% nas escolas de nível médio. Elas perderam 21,7 mil alunos em 2008, de acordo com dados da Secretaria de Educação. Mas o quadro já foi pior. Em 2003, mais de 48 mil alunos deixaram as salas de aula no Espírito Santo. No ensino fundamental, o percentual de interrupção dos estudos recuou de 30% para 10,5% entre 2003 e 2008. Ainda assim, é muito elevado.

Na condição de critério do Bônus Desempenho, o Paebes ganha destaque como instrumento de avaliação escolar. Observa-se nas autoridades educacionais do Espírito Santo, de outros estados e também na esfera federal, uma saudável inquietação relacionada a métodos de acompanhamento e aferição da qualidade do ensino. Nunca houve tantos.

São ferramentas de grande importância. Com apoio do PDE (Plano de Desenvolvimento do Ensino), o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é fundamental para planejamento a longo prazo. Fixa metas de desempenho dos colégios das redes estatais até 2022. Já a Prova Brasil mede as habilidades dos estudantes de ensino fundamental, de 4ª e 8ª séries, das escolas públicas localizadas em área urbana.

Já o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) vem induzindo a reforma de currículos visando a preparar os alunos para curso superior. Essa prova passou a fazer parte do processo seletivo para ingresso nas universidades e nos institutos federais. Por sua vez, os universitários são acompanhados por intermédio do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

Resta esperar que a Assembléia Legislativa aprove o projeto de criação do Bônus Desempenho, para implantação em 2010. É um instrumento de valorização do professor e dos demais agentes de ensino - sem conotação de política salarial. Por certo, proporcionará avanços na qualidade da educação.

INSENSATA TRIBUTAÇÃO
EDITORIAL
ESTADO DE MINAS
19/10/2009

Taxação das exportações de minério pode custar caro ao país

Há entre os projetos em preparação na cozinha de equívocos do governo um que pode remeter o país a um grosseiro retrocesso em política tributária e em gestão da economia. O governo estaria cogitando taxar em 5% as exportações de minério de ferro. O vazamento dessa informação pode ter sido só mais uma pressão sobre a diretoria da Vale. A empresa desagradou ao governo ao praticar a mais elementar das recomendações da boa governança: ajustou o volume da produção e o ritmo dos investimentos à realidade do mercado mundial de minério, afetado pela crise. Não foi, aliás, outra coisa que fizeram seus concorrentes e a maioria das empresas exportadoras nesta e em outras fases de retração dos mercados mudo afora. Por isso mesmo essas empresas costumam sobreviver e comprar as concorrentes menores ou menos prudentes. Mesmo que não passe de uma ameaça, a proposta não deixa de expor o risco que corre o país com a perigosa produção cerebral de certos mágicos alojados em vários escaninhos do poder em Brasília.

Decidido a patrocinar um novo marco regulatório para a atividade de mineração, o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, acerta ao constatar que a legislação em vigor é antiga. Além disso, os instrumentos de regulação e os órgãos de fiscalização com que conta o governo estão há muito tempo demandando profunda reestruturação. Mas Lobão e sua equipe se equivocam ao enfrentar uma velha injustiça. Os estados e os municípios que têm suas entranhas abertas para garantir ao país divisas responsáveis pelos saldos positivos das contas externas – inestimáveis contribuições para a festejada redução da dívida e recente acumulação de R$ 230 bilhões de reservas cambiais – nunca tiveram compensação justa pelo impacto devastador dessa atividade. É o oposto do tratamento que o país dá aos estados litorâneos, por conta da exploração de petróleo em alto-mar, sem o menor risco a seu território e sem nenhum sacrifício de suas terras ou destruição de suas rodovias. É hora, sim, de uma discussão séria sobre a correção dessa injustiça.

Desde 2007 tramita na Câmara o Projeto de Lei 1.453, que propõe um novo padrão de tributação sobre a mineração. A matéria bem merecia alguma atenção do governo. Quando nada como ponto de partida para se buscar o equilíbrio entre uma compensação decente às regiões de mineração e a necessidade de não retirar das empresas brasileiras a condição de competir no disputado mercado transoceânico de minérios. Taxar exportações – e não apenas as de minério – é andar na contramão do mundo e o preço é o que a Argentina vem pagando ao perder para o Brasil sua cota no cobiçado mercado mundial de carnes. Num momento em que o dólar barato favorece importações que precisam ser neutralizadas com a exportação de commodities, essa tributação é ainda menos inteligente. Que o bom senso de Lula funcione mais uma vez e livre o Brasil de mais essa insensata proposição.

DESTAQUE NACIONAL, EDUCAÇÃO PRECISA AVANÇAR MAIS NO DF
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE
19/10/2009

Estar no topo de uma estatística positiva é, sem dúvida, motivo de orgulho, mas nem sempre de satisfação plena. Ao comemorar o fato de ser a única unidade da Federação em que mais da metade dos moradores (51,3%) têm pelo menos 10 anos de estudo, o Distrito Federal não pode ignorar que o nível de escolaridade no país não é boa referência de comparação, que esse tempo de escola nem sequer é suficiente para concluir o ensino fundamental e que quase metade da população ainda está nos primórdios da aprendizagem, se é que foi iniciada nela.

Outra boa notícia de sucesso relativo revelada pela Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), divulgada pelo IBGE na semana passada, confere ao DF a segunda menor taxa de anafabetismo do Brasil: 5,62%, atrás apenas de Santa Catarina, com 5,58%. Mais uma vez fica explícito que a capital federal tem conseguido avançar mais que o restante do país na área educacional, mas também que precisa ir além. Afinal, o índice embute a informação de que 132 mil brasilienses não sabem ler nem escrever. É essa leitura crítica, mais realista que otimista, que deve motivar os responsáveis pelo setor a buscarem novas conquistas.

Bom passo nesse sentido foi dado no início deste ano letivo, quando a educação infantil passou a ser mais valorizada no DF, recebendo apoio pedagógico, com profissionais (professores, coordenadores, monitores) qualificados. A ideia é a de que, além de cuidar das crianças de até 5 anos, escolas e creches comecem logo a educá-las. Quanto mais cedo for iniciada a formação, melhor será o rendimento futuro dos alunos. Essa, aliás, é uma tendência nacional. Por imposição da Lei nº 11.274/2006, já em 2010 meninos e meninas terão que ser matriculados na escola (ensino fundamental) a partir dos 6 anos. Logo será a vez dos de 4 anos, se aprovado projeto de lei do governo federal em tramitação no Congresso.

Até lá, a educação infantil é um direito que o poder público tem a obrigação de assegurar (conforme decisão do Supremo Tribunal Federal), mas cuja aplicação ainda depende do interesse das famílias. Nesse ponto, os 51,35% dos moradores (mais de 1 milhão) do DF com 10 ou mais anos de estudo são uma força multiplicadora — quando pouco, pelo próprio exemplo (em geral, cada ano em sala de aula representa um aumento de 15% na renda da pessoa), mas também como incentivadores da matrícula, sabedores que são do valor do ensino, e até usando o conhecimento adquirido para contribuir diretamente para a formação de parentes, amigos e vizinhos.

A VEZ DO BOM LOBBY
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
19/10/2009

Na semana passada, o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Michel Temer, manifestou a sua intenção de fazer com que, até o fim do ano, a Casa regulamente a ainda nebulosa atividade do lobby. Para tanto, Temer indicou que deverá priorizar o Projeto de Lei de n.º 1.202/2007, de autoria do deputado Carlos Zarattini (PT-SP), o qual já se encontra em fase bastante adiantada de tramitação.
Pois bem, é preciso destacar que a atuação de lobistas é comum em quase todos os países do Ocidente. Na sua essência, não se trata, necessariamente, de um “mal em si mesmo” ou de uma prática que possa ser considerada, pela sua na¬¬tureza, abominável. Em um Estado Democrático de Direito, o Legislativo, por exemplo, é o palco das disputas e dos debates entre os mais diversos e conflitantes interesses presentes na sociedade. É um espaço de luta pelo convencimento e, assim, é absolutamente natural e previsível o surgimento de pessoas que passem a defender e a trabalhar em prol de determinados interesses ou pontos de vista. Nesse sentido, o projeto de lei de Zarattini pretende regulamentar a atividade dos lobistas no âmbito da Administração Pública Federal. Pretende regulamentar as habituais atividades tendentes a influenciar decisões de natureza administrativa ou legislativa.
Pelo projeto, pessoas físicas ou jurídicas que exerçam tais atividades devem ser cadastradas e credenciadas pela Controladoria-Geral da União, órgão esse que negará o credenciamento a pessoas que, por exemplo, nos 12 meses imediatamente anteriores ao requerimento de cadastramento, tenham exercido cargo público efetivo ou em comissão “em cujo exercício tenham participado, direta ou indiretamente, da produção da proposição legislativa objeto de sua intervenção profissional”. Uma espécie de quarentena. Algo ainda muito brando, mas, sem dúvida, um avanço.
A proposta prevê também a necessidade de recadastramento anual e a obrigatoriedade de participação dos lobistas em curso de formação específica, “do qual constarão como conteúdos mínimos as normas constitucionais e regimentais aplicáveis ao relacionamento com o poder público, noções de ética e de métodos de prestação de contas”. Além disso, fixa a obrigatoriedade da apresentação de uma declaração anual com discriminação das atividades exercidas, das matérias de interesse do lobista e de quaisquer gastos realizados no último exercício relativos à atuação perante órgãos da Administração Pública Federal, em especial pagamentos a pessoas físicas ou jurídicas, a qualquer título, de valor superior ao equivalente a 1.000 Unidades Fiscais de Referência - UFIR.
Adiante e como não poderia deixar de ser, o projeto estabelece que constitui ato de improbidade “a percepção, por servidor público ou agente político, de qualquer vantagem, doação, benefício, cortesia ou presente com valor econômico que possa afetar o equilíbrio e a isenção no seu julgamento, ou que caracterize suborno ou aliciamento, concedido por pessoa física ou jurídica que exerça atividade destinada a influenciar a tomada de decisão administrativa ou legislativa”. Por fim e em bastante consonância com uma visão democrática, o projeto estabelece que, dentre outras exceções, a lei em questão não se aplica a pessoas que, com o propósito de influenciarem o processo legislativo em seu interesse pessoal, atuem em caráter esporádico e sem qualquer espécie de pagamento ou remuneração.
Como o projeto de lei de Zarattini tramita em caráter conclusivo – rito pelo qual o projeto precisa ser aprovado apenas pelas comissões designadas e não pelo plenário –, depende apenas da aprovação da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara para seguir direto ao Senado Federal.
A proposta não está isenta de falhas. Porém, ainda que elas existam, não parecem ser suficientes para a interrupção da iniciativa. O lobby é uma realidade. Se bem regulamento e fiscalizado, não apresenta significativa diferença em relação a qualquer outra atividade profissional. É exatamente por isso que diversos países já o regulamentaram há muitos e muitos anos. O que não se pode mais admitir é a cômoda posição de “fazer de conta” que a atividade lobista não existe no Brasil. A prevalecer isso, nada se sabe, nada se fiscaliza e, por consequência, nada se pune.
No atual momento da história política deste país, é preciso ir em frente. Não há como não se desejar o bom pela momentânea impossibilidade de se atingir o ótimo. A iniciativa é louvável. É a vez do bom lobby entrar em cena. É a vez do lobby em favor de um grupo bastante grande e significativo: a sociedade brasileira.

TENTAÇÃO ESTATIZANTE
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
19/10/2009

Antes mesmo de a polêmica sobre o modelo de partilha para o petróleo da camada pré-sal ter sido aplacada, o Planalto já está às voltas com outra estratégia na qual não consegue disfarçar suas intenções estatizantes. O mais recente episódio é o constituído por uma série de ataques à mineradora Vale do Rio Doce, envolvendo integrantes do governo e políticos aliados, cujo objetivo óbvio é assegurar maior interferência na empresa, que é privada e, como tantas outras no país, conta com capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Assim como o modelo estatizante revisto a partir da última década, porém, também essas constantes ingerências no caso da mineradora brasileira precisam ser revistas, para evitar a continuidade de prejuízos na empresa e na economia brasileira.

O recrudescimento deste viés estatizante não se constitui em fato isolado e está longe de ser associado exclusivamente às futuras reservas de petróleo do pré-sal, por meio de um modelo no qual o setor público é que dita as cartas. Graças ao poder que detém sobre alguns dos maiores fundos de pensão no país e respaldado pela atuação do BNDES, o governo federal ainda detém considerável poder de decisão em casos como o do Banco do Brasil, por exemplo.

Recentemente, o governo federal patrocinou a compra da Brasil Telecom pela Oi e participou de negociações pouco ortodoxas no caso da Varig. Mas é a pressão pela ingerência na Vale que chama uma atenção especial. O Planalto não tem o direito de invocar um suposto interesse nacional para concretizar o esforço de transformar uma empresa como a Vale do Rio Doce, que se constitui num exemplo bem-sucedido de privatização, em mero instrumento político. E é exatamente isso o que ocorre quando interesses privados se misturam aos de governo, o que se constitui no mínimo em brecha para a concretização de uma série de deformações.

Entre as justificativas apontadas no meio oficial para a interferência na gestão da maior mineradora do país está a intenção de ver a empresa dirigida por figuras simpáticas ou subservientes ao poder central. Governistas se queixam também de que a empresa, criticada por ter recorrido a demissões imediatas quando as consequências da crise econômica global se manifestaram no país, contribui pouco para os esforços desenvolvimentistas do governo. Uma das razões seria a opção por se dedicar mais à condição de mineradora do que à produção de aço, menos rentável.

Em épocas recentes, governantes já se aliaram a segmentos mais nacionalistas da sociedade, entre os quais se incluem igualmente pessoas de tendências políticas de esquerda e de direita, para reforçar o papel do Estado na atividade produtiva. Diferentemente do que ocorria até há alguns anos, porém, não há mais espaço no país para esse tipo de visão econômica num mundo globalizado, numa economia de livre iniciativa e numa democracia.

EM MARCHA LENTA
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
19/10/2009

Apontado frequentemente entre os países nos quais a educação avança em rankings internacionais, o Brasil perde a corrida para a maioria deles quando é levada em conta a velocidade dos ganhos registrados. A dificuldade fica expressa tanto na Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada recentemente, quanto no estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado a cada ano. Por isso, o tema deveria merecer mais atenção dos responsáveis pelas políticas oficiais de ensino, para que o país não venha a perder a corrida entre os grandes nessa área.

Um caminho para o Brasil andar mais depressa seria inspirar-se em países de perfil semelhante. Mantido o ritmo atual, por exemplo, mesmo depois dos avanços registrados consecutivamente desde 1998, o país só alcançaria um patamar equivalente ao do Chile daqui a três décadas. Nos cálculos da OCDE, 64% dos chilenos com idade entre 25 e 34 anos têm o correspondente ao ensino de nível médio completo. Nessa mesma faixa de idade, o Brasil tem 26 pontos a menos. A diferença exigiria um longo tempo para ser eliminada.

Um dos problemas é que, ao contrário de outras prioridades, como ênfase à saúde e estabilidade econômica, educação não costuma assegurar votos no Brasil. Os últimos governantes tiveram pelo menos o mérito de conferir prioridade à questão, assegurando os investimentos necessários e iniciativas essenciais, como o aprofundamento dos métodos de avaliação. Mas é pouco.

O país deveria aproveitar o fato de ter universalizado o acesso ao Ensino Fundamental para dar um novo salto na educação. Foi esse movimento que assegurou à maioria dos países avançados as condições para poderem figurar entre os grandes.

A TRANSPOSIÇÃO E A POLÍTICA
EDITORIAL
JORNAL DO COMMERCIO (PE)
19/10/2009

Agora que não tem mais como ficar reduzida a objeto de contenda judicial e de questionamento ecológico, a transposição do Rio São Francisco entra em uma etapa de extrema importância para o Nordeste, independente das encenações político-eleitorais que sempre foram a cruz dos nordestinos, documentada desde os primeiros anos de colonização portuguesa, como descrito pelo padre Fernão Cardim. De tão recorrentes, os relatos das tragédias da seca – “desceram do Sertão apertados pela fome, socorrendo-se aos brancos, quatro ou cinco mil índios”, entre 1580 e 1583 –, já deixaram de ter força literária ou acadêmica. São partes de uma história que deveria ter sido mudada desde o Império, inclusive com a transposição do São Francisco, trabalho que ficou para um nordestino vítima de tremenda seca, fugitivo da miséria há pouco mais de meio século.
Ao visitar as obras de transposição do rio, o presidente Lula chegou com a mesma desenvoltura com que tem se saído de ocasiões igualmente complexas, que envolvem relações de difícil gerenciamento. Ele passou ao largo, por exemplo, dos questionamentos postos pelos que se opuseram às obras desde os anos 80, quando o antigo Departamento Nacional de Obras e Saneamento produziu o anteprojeto de engenharia de transposição. De lá para cá, a soma de questionamentos cresceu, chegou ao ápice com o protesto com greve de fome, para virar o que é hoje, pura matéria de palanque, a que o sertanejo dá pouca atenção, preocupado que está com a chegada da água e perenização de rios capazes de mudar o cenário do Semiárido.
Mesmo ao se transformar apenas em matéria de palanque a questão não deixa de ser complexa, como tendem a ser empreendimentos públicos de grande vulto. A mistura das obras com datas eleitorais, nomes e partidos políticos termina sendo inevitável. E de certa forma tende a tornar mais complicado o processo eleitoral que está próximo, pelo uso do que deveria ser apenas uma obra importante para o País e, principalmente, para o Nordeste, deixando no ar uma dúvida que nos preocupa: a forma com que os que questionam as obras poderiam tratá-la uma vez chegando ao poder. Mudariam o curso, estagnariam, mudariam as prioridades, submeteriam os nordestinos mais uma vez à incerteza diante das adversidades climáticas? Não são questões impertinentes, principalmente porque poderiam se abrigar por trás de que já foi produzido até hoje contra o processo de transposição.
Fica no ar a dúvida, mas torcemos para que tudo não passe de encenação, como costuma ser o processo político-eleitoral, dependendo do tempo e dos personagens. Assim, podemos relatar personagens e obras que foram execrados no passado por pertencerem a determinada legenda e que hoje gozam de generosas avaliações porque subiram no mesmo palanque. O que não pode é misturar os vícios eleitorais com as necessidades fundamentais de milhões de nordestinos, para os quais não cabe mais retórica. O que permanece como uma curiosidade é a simplicidade com que políticos contrários à obra tendem a questionar o que entendem por uso eleitoral. Desde que não estejam eles no poder, claro.
Enquanto isso não acontece, melhor será deixar as filigranas de lado e partir para o essencial quando se trata de uma questão vital como é a do nosso Semiárido. Não cabe mais sugerir que essa ou aquela solução seria melhor para manter o sertanejo em suas terras, produzindo e gerando riquezas como é feito na terra irrigada pelo São Francisco e poderá ser feito nos braços que ele estenderá por leitos de rios que secaram ou terras em processo de desertificação. O fundamental está posto, as obras estão em andamento e apontam para uma enorme responsabilidade da sociedade civil organizada: fiscalizar, cobrar, exigir, impedir que o jogo político-eleitoral atrapalhe o que poderá ser a redenção para milhões de nordestinos.

VISÃO DE FUTURO
EDITORIAL
O POVO (CE)
19/10/2009

Segundo avaliação de entidades de classe ligadas ao comércio e ao serviço no estado, estaria sobrando vaga por falta de mão-de-obra qualificada

O Governo do Ceará apresentou ao ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, o plano de capacitação para a Copa do Mundo de 2014 prevendo a necessidade de qualificar cerca de 40 mil cearenses. O plano estabelece a capacitação de 24 mil pessoas nas áreas de Turismo e Hotelaria e o restante - 16 mil vagas - seria destinado à formação no setores de Esporte, Cultura, Lazer e Entretenimento. De acordo com o trabalho elaborado pelo governo estadual todos os profissionais capacitados terão que saber falar pelo menos dois idiomas.

A estimativa da criação de postos de trabalho apresentada ao ministro reflete a importância da Copa do Mundo para o Estado, mas para além disso, mostra um quadro da nossa formação profissional que precisa ser enfrentado o mais rapidamente possível, que é a ausência de pessoal hoje para ocupar essas vagas. Outro aspecto, é que a vinda de empreendimentos de grande porte para o Ceará é um fato que estará se tornando realidade nos próximos anos com a perspectiva de vir a gerar muitas outros empregos além dos previstos para aquele evento esportivo.

Antes mesmo que isso aconteça, porém, o Ceará está dando um passo importante nesse item, como revelam os últimos dados do Caged divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Nos primeiros sete meses desse ano foram criados 14.696 empregos formais, o que corresponde ao aumento de 1,76% em comparação ao mesmo período do ano passado, sendo o melhor resultado da região Nordeste. Já no mês de julho, o Ceará gerou 9.523 postos de trabalho, ficando atrás somente do estado da Bahia na região.

Mas se podemos comemorar a geração de empregos no Ceará, um aspecto não pode ser deixado de lado. Segundo avaliação de entidades de classe ligadas ao comércio e ao serviço no Estado, estaria sobrando vaga por falta de mão-de-obra qualificada. Hoje, 78% dos postos de trabalho são gerados em torno de comércio, serviços e aplicações tecnológicas, o que aumenta a responsabilidade dos gestores que lidam com essas áreas no sentido da formação de profissionais para exercerem essas funções que o mercado está a exigir.

Nesse sentido, devem ser incentivadas ações como o ProJovem, lançado recentemente pelo MTE, voltado para a formação de 6,5 mil cearenses, de 18 a 29 anos, em 10 áreas profissionais, bem como os Planos Setoriais de Qualificação e Inserção Profissional (Planseq´s), este último direcionado aos beneficiários do Programa Bolsa Família. As medidas tomadas pelo Governo Federal no enfrentamento da crise financeira mundial deixaram o País em uma posição privilegiada, com a possibilidade de se gerar ainda em 2009 aproximadamente 1,1 milhão de empregos. É certo que o nosso Estado não deve ficar de fora desse contexto, que terá reflexos também nos próximos anos. Precisamos, todavia, termos pessoal para ocupar as funções cada vez mais complexos que o mundo do trabalho pedirá no futuro.

EXPERIÊNCIA CULTURALMENTE RUIM
EDITORIAL
A CRÍTICA (AM)
19/10/2009

Pode-se dizer que a democracia, grosso modo, decorre de uma relação assentada numa experiência que requer, entre outras coisas, um alto espírito de responsabilidade pública de cada um e de todos para com ela. Sem isso, o que dela se tem é apenas um arremedo, cuja ênfase acaba recaindo em seus aspectos formais, ficando em segundo plano a sua substância, isto é, aquilo que, de fato, justificaria essa experiência como algo socialmente valioso.

Na democracia, a Justiça, por exemplo, tem um papel fundamental na defesa dos direitos individuais e coletivos, sendo, por esse motivo, um dos pilares mais importantes desse regime. Era de se esperar, por conta disso, que o ordenamento legal fosse não só observado, mas também que ele se prestasse realmente a fazer o que se convencionou chamar de justiça social. Em outras palavras, que houvesse operadores da lei comprometidos com esse mister.

Não é isso que vemos, contudo, quando os querelantes estão em campos distintos de força e de poder econômico. Nesse caso, sobra quase sempre para o lado mais fraco, sobretudo se este é pobre e preto, como diria um ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, o ônus de decisões que ferem aquele espírito de responsabilidade pública a que aludimos. Em situações assim, a democracia acaba golpeada. Mais ainda quando decisões judiciais trazem em si as marcas da corrupção.

Dados divulgados ontem por um jornal de circulação nacional chamam atenção para essa questão, segundo informações obtidas junto ao Conselho Nacional de Justiça, o CNJ, que tem a responsabilidade de fiscalizar o judiciário e primar pela independência do magistrado. Só neste ano, na esteira do trabalho arrojado desenvolvido por sua Corregedoria Nacional de Justiça, o CNJ já abriu 113 sindicâncias para apurar possíveis irregularidades praticadas por juízes e desembargadores – crescimento de 653% comparado aos procedimentos desse tipo abertos no ano passado.

Se é como sugere o ditado popular, segundo o qual onde há fumaça possivelmente aí também exista fogo, vê-se que a Justiça brasileira, em boa medida, tem concorrido para que, no País, a democracia seja uma experiência culturalmente ruim. Isso talvez explique, em boa medida, a demagogia, a indiferença e o desrespeito com que os mais necessitados costumam ser tratados por seus representantes nas instâncias de poder.

- EDITORIAIS 18/10/2009


MUDAR O JOGO
EDITORIAL
O GLOBO
18/10/2009

No horizonte esportivo do país, em geral, e do Rio, em particular, o ano de 2016 se desenha como o ápice de um período de sete anos ao fim do qual a cidade há de ter recebido vultosos investimentos, visando à realização dos Jogos Olímpicos. A soma de inversões, espera-se, mudará fisicamente o Rio para melhor. Dar à cidade ares de uma metrópole em condições de promover Olimpíadas inesquecíveis é um desafio, mas não o único — e talvez não seja o obstáculo mais difícil a ser vencido.
No município que respirará os Jogos até meados da próxima década está em jogo, desde já, o desafio de mudar uma mentalidade em relação ao futuro do esporte — esta que, como vem revelando O GLOBO desde o fim da semana passada, faz com que pelo menos 45% das escolas públicas da cidade-sede de uma das edições do maior evento esportivo do mundo não tenham sequer uma quadra de esportes.
Os dados, desabonadores, estão no Censo Escolar de 2008 do Ministério da Educação: dos 1.781 colégios públicos de ensino básico do Rio, 803 sequer têm uma quadra. E mesmo aqueles que dispõem desse tipo de instalação esportiva nem sempre cumprem com o pressuposto da conservação: de acordo com levantamento feito ano passado pelo Tribunal de Contas do Município, em cerca de 15% das escolas equipadas as quadras estavam em mau estado. No estado, o quadro é ainda mais desalentador: 58,4% dos estabelecimentos de ensino da rede oficial não têm instalações esportivas.
Mudar esse quadro é tarefa urgente, mas não só em razão do evento olímpico. Comprometer as crianças com os esportes, a par de ser um saudável complemento curricular e uma certeira providência para descobrir futuros cam peões, tem a vantagem adicional de, numa cidade onde os estágios mais desassistidos da população são afrontados diariamente pelo crime organizado, tirar os jovens ainda em formação da rota da criminalidade, por lhes oferecer opções de lazer dentro e fora das escolas.
Equipar as escolas, no Rio e em todo o país, é necessidade urgente, com ou sem os Jogos. Deve ser política de Estado, estrutural e não apenas conjuntural. Uma vertente educacional perene, para formar futuros atletas e cidadãos.
Equipar as escolas para os esportes é tarefa urgente

RÉDEAS CURTAS
EDITORIAL
O GLOBO
18/10/2009

A economia brasileira ainda não voltou ao patamar de antes do agravamento da crise financeira internacional, em setembro de 2008. As exportações e as importações, por exemplo, diminuíram significativamente.
Alguns segmentos da indústria registram quedas de 7 a 8% em relação a igual período do ano passado.
Nem todos os empregos formais perdidos no auge da crise foram recuperados. No entanto, o consumo doméstico vem se mostrando vigoroso e já há boas indicações de retomada de investimentos que possam ampliar a capacidade produtiva.
Por isso, as previsões para 2010 são alentadoras.
A maioria dos analistas financeiros espera que o país cresça mais que 4,5%. Não há no horizonte risco de escassez que possa desencadear pressões fortes sobre os preços, embora pelo lado fiscal (gastos) a conjuntura deva ser acompanhada com atenção. É com esse panorama que o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne esta semana para avaliar o cumprimento das metas de inflação definidas para 2009 e 2010.
O IPCA, índice de preços calculado pelo IBGE, que baliza as metas, deve ficar este ano abaixo do ponto central perseguido (4,5%). E para o ano que vem as expectativas também se situam em patamar semelhante. Desse modo, é pouco provável que o Copom altere as taxas básicas de juros no curto prazo.
Os juros básicos recuaram para 8,75% em função da crise, o que possibilitou à economia brasileira diminuir a distância em relação às taxas médias de países com mesmo grau de desenvolvimento.
A manutenção ou até eventual redução desses juros básicos dependerá da remoção de obstáculos ao cumprimento das metas no futuro.
Na falta de reformas estruturais que abririam espaço para ganhos expressivos de produtividade na economia brasileira, a política monetária tende a ser restritiva Mas sem dúvida o Brasil poderia conviver com juros inferiores aos atuais, se do lado fiscal o governo se esforçasse para segurar o aumento das despesas de rotina. Se esses gastos crescessem menos que o Produto Interno Bruto (PIB), as rédeas monetárias certamente poderiam ser afrouxadas. Infelizmente, não será o caso, muito menos num ano eleitoral.
Gastos sem controle impedem o afrouxamento nos juros

A CARAVANA DO SÃO FRANCISCO
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
18/10/2009

Desde a primeira hora da excursão de três dias do presidente Lula e frondosa comitiva pelas margens do Rio São Francisco, alegadamente para "vistoriar" as obras da transposição das suas águas em Minas, Bahia e Pernambuco, ficou claro que o único motivo do giro era o de promover a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que o acompanhava, junto ao povo da região e ao público dos telejornais. Ao discursar, na quarta-feira, em Buritizeiro (MG), por exemplo, ele se traiu ao dizer que no projeto original da operação "não estava previsto a gente fazer comício". O que não se sabia é que cada detalhe da viagem foi determinado pelos resultados de uma pesquisa sobre a capacidade de Lula de transferir votos para o candidato que indicar.
A revelação está na reportagem Lula testa transposição de votos às margens do Rio S. Francisco, de Raymundo Costa, na edição de sexta-feira do jornal Valor. É a prova de que o presidente não só transgride a legislação eleitoral ao conduzir a campanha antecipada da sua escolhida - que estancou nas sondagens de intenção de voto -, mas utiliza descaradamente a máquina federal e o dinheiro do contribuinte para "emoldurar a imagem da candidata" e apresentá-la ao "melhor público do presidente, o Nordeste", no dizer da matéria. Ali, onde a sua votação em 2006 ficou próxima de 80% e onde é simplesmente venerado, Lula fabrica oportunidades em série para reforçar a idolatria e, em consequência, carrear votos para Dilma quando chegar a hora.
No segundo dia da excursão, em Custódia (PE), discursando para uma plateia de operários de um trecho do empreendimento, reunidos para a ocasião, ele disse que resolveu fazer o que qualificou como "uma das maiores obras em realização no mundo" porque "eu, com 7 anos, carreguei pote de água na cabeça, eu sei o sacrifício". Não poderia faltar, naturalmente, o lance demagógico de dividir os brasileiros em ricos e pobres, uns resistindo aos seus esforços para melhorar a vida dos outros. "Quando a gente quer fazer uma obra como essa", disparou, "os que tomam café da manhã, almoçam, jantam, tomam água gelada todo dia são contra a gente fazer." Na realidade, o projeto tem defensores e críticos em diferentes setores sociais.

O mais afamado opositor da transposição, como se sabe, é o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome contra o projeto. Sem citá-lo pelo nome, Lula o incluiu entre os que "não têm conhecimento do bem que essa obra está fazendo", antes de arrematar: "Não posso deixar o povo pobre morrer de sede e fome." Para Lula, Cappio se compara àqueles que, "na Tijuca, na Avenida Paulista", atacam a iniciativa e depois abrem a geladeira para tomar uma água Perrier, como disse numa entrevista a emissoras regionais. A tática de fabricar um antagonismo entre o "povo pobre" e os execráveis abastados que consomem água mineral importada, mas são insensíveis às agruras dos que bebem "água barrenta, com caramujo e tudo", é coerente com o seu plano de fazer da sucessão presidencial uma "eleição plebiscitária".

Trata-se de apresentar a ministra Dilma como a força motriz do governo mais progressista e realizador da história brasileira, em contraste com o candidato tucano, principalmente se ele for o governador paulista José Serra, a quem se pespegará o rótulo de representante do período Fernando Henrique, quando, na versão lulista, a economia patinou e os pobres foram esquecidos. "Ou seja, nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo", disse Lula aos repórteres que o acompanhavam. Além destes, o Planalto transportou em avião especial jornalistas do País e de importantes órgãos de comunicação do exterior convidados a percorrer a área.

Todos os movimentos do presidente convergem, portanto, para fixar o nome e a figura de Dilma no imaginário popular como a garantia do prosseguimento das políticas sociais e do avanço econômico. Nem ele, com os seus índices estelares de aprovação, conseguirá transformar prestígio pessoal em votos para Dilma se o seu eleitorado não se convencer de que ela foi destinada a encarnar o terceiro mandato de Lula. Daí o seu empenho em confinar ao governo de São Paulo as ambições eleitorais do deputado (e seu ex-ministro) Ciro Gomes, também ele integrante da chamada "Caravana do São Francisco". Outras decerto se sucederão, a menos que a Justiça Eleitoral coíba o carnaval eleitoreiro do presidente da República.

MERCOSUL VACILA, COREIA AVANÇA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
18/10/2009

O governo da Coreia do Sul levou dois anos para negociar um acordo de livre comércio com a Comissão Europeia (UE). Os governos do Mercosul começaram a discutir com os europeus em 1995 e não chegaram a lugar nenhum. O último impasse ocorreu em 2004 e a partir daí as conversações ficaram congeladas, enquanto acordos bilaterais se multiplicavam em todo o mundo. Outros países sul-americanos participaram de vários desses entendimentos, em busca de oportunidades comerciais nos maiores mercados. O Chile é o exemplo mais notável. O acerto entre coreanos e europeus ainda será submetido à sanção dos 27 países da União Europeia e também ao Parlamento coreano. Poderá haver alguma resistência, mas, se for aprovado, será um marco. Esse acordo será o maior, pelo valor envolvido ( 76 bilhões anuais), desde a assinatura do Nafta pelos governos dos Estados Unidos, do México e do Canadá.

O projeto de liberalização comercial de coreanos e europeus é ambicioso. Se for implantado, resultará na eliminação ou redução de tarifas de 96% dos produtos europeus e 99% dos coreanos em três anos e na abolição da maioria das tarifas industriais em cinco. O secretário-geral da Associação Europeia de Construtores de Automóveis, Ivan Hodac, classifica o acordo como excessivamente vantajoso para os coreanos e defende sua rejeição pelos governos. Mas está prevista, segundo a comissária de Comércio da UE, Catherine Ashton, uma cláusula de salvaguarda para o caso de um surto de importações de carros coreanos. Além disso, a indústria da Coreia do Sul terá de aceitar os padrões ambientais seguidos pelos fabricantes europeus e isso deverá reduzir o desequilíbrio de custos.

Os funcionários e políticos da Comissão Europeia terão trabalho para vencer resistências do setor automobilístico e de algumas outras indústrias. Os temores são naturais, em vista do enorme poder de competição dos coreanos. Mas os negociadores europeus levaram em conta o potencial de ampliação de comércio para os dois lados ? um aumento de exportações de 19 bilhões para a União Europeia e de 12 bilhões para a Coreia ? e usarão esses cálculos para enfrentar os lobbies setoriais.

Os agricultores europeus estarão entre os grandes beneficiários do acordo. Ficarão livres de barreiras tarifárias para ingressar num mercado de alto poder de consumo e sem uma agricultura nacional competitiva. Com a nova concorrência europeia, os produtores brasileiros terão um obstáculo a mais para chegar aos consumidores coreanos.

Se o acordo for sancionado, os exportadores do Brasil e dos países do Mercosul perderão dos dois lados. Os industriais terão de concorrer em condições mais difíceis com os já temíveis fabricantes coreanos, no mercado europeu, e o agronegócio terá novos problemas para vender à Coreia.

As más notícias, no entanto, não se esgotam nesse acordo. A agenda europeia inclui negociações com outros países da Ásia. Isto não é novidade. Essa tendência ficou cada vez mais clara, nos últimos dois anos, com a sucessão de impasses na Rodada Doha de negociações comerciais. Com a rodada global emperrada, a busca de acordos bilaterais e birregionais seria a saída natural para os governos interessados em ampliar as oportunidades de comércio.

A agenda do Mercosul só incluiu, nos últimos anos, negociações com economias em desenvolvimento. Nenhum passo foi dado para a realização de um acordo de livre comércio com um mercado de primeira grandeza. O projeto da Alca foi liquidado em 2003-2004, principalmente por iniciativa dos governos brasileiro e argentino. As conversações com os europeus entraram em colapso porque Buenos Aires e Brasília não se entenderam quanto às concessões necessárias a um acerto com os europeus. Funcionários da União Europeia lembram esse dado quando se toca na hipótese de um retorno à negociação: antes de mais nada, os sócios do Mercosul precisam entender-se.

Neste momento, o Mercosul nem está nas prioridades da União Europeia. Também não é prioritário para a China nem para os Estados Unidos, quando se trata de livre comércio. Tudo isso entra na conta do terceiro-mundismo do Palácio do Planalto e do Itamaraty ? uma política vitoriosa, segundo o governo brasileiro.

O LUGAR DE CADA UM
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
18/10/2009

Expectativa de Lula, de eleição "plebiscitária" em 2010, contrasta com a pobreza do debate político neste momento
HAVIA LUGAR para muita gente no alojamento improvisado às margens da BR-323, perto da cidade pernambucana de Custódia. O escritório dos responsáveis por aquele trecho das obras de transposição do rio São Francisco foi adaptado para receber o presidente Lula e sua comitiva, na sua recente viagem-comício pelo sertão nordestino.
Suítes com frigobar acomodaram ministros como Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional, e Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à sucessão de Lula. Outro possível postulante à Presidência, o ex-ministro Ciro Gomes (PSB), também usufruiu das hospitalidades do local.
Enquanto oposicionistas pedem esclarecimentos quanto aos gastos e propósitos da suposta viagem de "inspeção" presidencial, uma pergunta suplementar poderia ser feita -incidindo, digamos, sobre outro tipo de acomodações. O espaço que não faltou aos presidenciáveis durante a viagem talvez se mostre exíguo, do ponto de vista político, quando a campanha começar de fato.
Pelo menos, parece ser esta a expectativa do presidente Lula, que expressou seu desejo de ver apenas um candidato governista em 2010. "Eu gostaria", disse, que "fizéssemos uma eleição plebiscitária, ou seja, nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo".
Estava dado o recado a Ciro Gomes, se é que isso conta muito em fase tão incipiente do processo. O que mais caracteriza os preparativos para 2010, aliás, é que não chega nem mesmo a ser "plebiscitário" o atual estágio do debate. Tudo já seria bastante pobre se estivessem em jogo apenas duas alternativas de poder. Nem isso ocorre no momento.
O PSDB não apenas hesita em definir seu candidato como também vê suas principais lideranças sem condições de propor à discussão pública uma agenda oposicionista coerente.
Tudo se resume a algumas farpas ocasionais, como a que o governador José Serra dirigiu contra as obras no rio São Francisco. Criticou a ausência de projetos de irrigação no semiárido; numa resposta irônica, Lula disse não saber que Serra "tinha alguma preocupação com o Nordeste".
Não admira que, enquanto aguarda impacientemente as decisões do tucanato, o DEM concentre suas energias oposicionistas em requerimentos a respeito dos gastos da viagem.
Acuada à menor ameaça de receber os rótulos de "privatista" e "neoliberal", a oposição não chega a formular nenhum projeto novo para o Brasil; o das forças governistas, por outro lado, embala-se no bom momento econômico para prometer mais empreitadas e mais gastos.
Mais do que uma plataforma do PT, do PSB ou de qualquer outra agremiação, destaca-se no momento um discurso fartamente conhecido na história brasileira: o do Partido do Governo, o do Partido das Obras, à qual aderem políticos de qualquer tendência ideológica. Qualquer que seja o número dos candidatos em 2010, é inegável que cabe muita gente, com efeito, nessa vasta acomodação.

CORRIDA PELO TURISMO
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
18/10/2009

A CAPITAL paulista, mais uma vez, pode ser hoje palco da decisão do mundial de pilotos na principal categoria do automobilismo. A despeito de quem vença o GP Brasil de Fórmula 1, a cidade já tem algo a comemorar: nenhum evento mobiliza tanto a economia da metrópole. A corrida deve movimentar cerca de R$ 260 milhões, 13% a mais que em 2008.
Estima-se que o autódromo de Interlagos receba 140 mil pessoas, entre elas 85 mil turistas. A corrida não é o evento que mobiliza mais público na cidade; a Virada Cultural, realizada em maio, reuniu 4 milhões.
O GP, porém, é o que atrai o público com maior poder aquisitivo. O ingresso mais barato para a corrida custa R$ 526. Os hotéis estão quase lotados. Lojas, restaurantes e bares faturam mais.
Sem belezas naturais como o Rio, a capital paulista recebe gente do Brasil inteiro e de outros países para feiras, congressos e eventos culturais e esportivos. São 11 milhões de turistas por ano, número expressivo, mas que poderia ser muito maior.
Levantamento realizado pela SPTuris (empresa municipal que cuida do turismo) indica onde é possível melhorar. Se, por um lado, os turistas elogiam a gastronomia, a hospitalidade e as acomodações, por outro revelam-se insatisfeitos com a segurança, a limpeza das ruas e a sinalização.
Uma rede de transporte eficaz, segura e confortável também é uma notória carência paulistana. O gargalo está sendo resolvido, mas em ritmo inferior ao desejável. Além disso, pessoas que lidam com viajantes -taxistas, lojistas, garçons- deveriam estar treinadas para resolver problemas básicos de quem só se comunica em inglês ou espanhol.
Há um campeonato mundial, disputado entre cidades de grande porte, por eventos e atividades que atraiam turistas e divisas. São Paulo precisa acelerar mais nesse circuito.

COMUNICAÇÃO E POLÍTICA
EDITORIAL
A GAZETA (ES)
18/10/2009

Políticos no Brasil, ou em qualquer outro país, são sensíveis à vontade da população, porque é ela quem os elege. Então, o funcionamento das instituições públicas deveria se mostrar o mais correto possível. Assim também seria em relação à conduta dos que exercem mandato e dos que têm essa aspiração.

Aí estão grandes contradições entre teoria e prática. Sucessivas pesquisas de opinião pública mostram que o conceito da classe política está preocupantemente baixo. Deixa dúvida sobre a sustentabilidade do modelo de representação popular.

Desde meados de maio de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, vários outros se sucederam. E continuam em cartaz empanando a cena política, conforme se vê com mais ênfase no Senado. Já a Câmara não tem conseguido resolver graves problemas. Um dos casos recentes é absolvição concedida pelo Conselho de Ética a Edmar Moreira, o deputado do castelo de R$ 25 milhões em Minas Gerais. Também não foram adiante as investigações sobre a farra no uso de passagens aéreas.

No Senado, o presidente José Sarney, navegante dos mares políticos há 60 anos, simboliza três sintomas de doenças políticas: a incapacidade da Casa de equacionar questões cruciais para melhorar o seu desempenho; deficiência no processo de renovação dos quadros legislativos; e perniciosa interferência do Executivo (Palácio do Planalto) no âmbito Legislativo. Isso está sintetizado na manchete de capa do jornal O Globo de 24 de julho deste ano: “Lula relativiza crimes para reforçar a defesa de Sarney”. Os mesmos sinais de patologia estiveram expostos no Senado durante a gestão de Renan Calheiros na presidência.

Episódios políticos estarrecedores não são monopólio de Brasília. Atualmente, a Câmara Municipal de Vitória os sedia. Enquanto um dos seus vereadores, Dermival Galvão, é alvo de ação de improbidade movida pelo Ministério Público Estadual (MPES), o corregedor-geral, Reinaldo Matiazzi, o Bolão, apresenta comportamento inadequado, a ponto de suscitar indicação para que também seja investigado. A ONG Transparência Capixaba promete encaminhar essa solicitação ao MPES.

Ora, mas se os políticos são sensíveis ao julgamento popular, e dele dependem para obter mandato, em que confiam para praticar atos que teoricamente desagradam a grande parte dos eleitores? Por certo, a blindagem que cada um tem, ou pensa ter, reúne um conjunto de fatores e circunstâncias.

Nesse sentido presume-se que conta a desinformação de numerosa parcela da população. Resultado de pesquisa publicada na coluna do jornalista Merval Pereira em A GAZETA mostrou que apenas 17% da população entende as razões da crise no Senado.

Já a pesquisa realizada no início deste mês pelo Instituto Futura em municípios da Grande Vitória constatou que 42,8% dos entrevistados não sabiam que a Câmara dos Deputados aprovou a ampliação do número de vereadores no país. Não imaginavam que o Espírito Santo terá mais 153 edis. Muito menos tinham noção de que esse inchaço impactará em R$ 8,6 milhões as contas das municipalidades. Só durante a entrevista foram informados sobre esses fatos e grande maioria não gostou: 84,2% afirmaram que a quantidade de vereadores existente já é suficiente e 76,7% (soma de permanecer o mesmo e piorar) avaliam que as cidades não irão melhorar com o aumento de vagas no seu legislativo.

Todo esse quadro sugere o desafio o intensificar o uso da comunicação para melhorar a prática política. Que arregacem as mangas as instituições representativas da sociedade.

VALE-CULTURA PODE AJUDAR
EDITORIAL
ESTADO DE MINAS
18/10/2009

Câmara aprova projeto que dá ao trabalhador acesso a teatro, show e museu

O Brasil está mais perto de dar um passo importante para avançar num dos mais atrasados e lentos processos de inclusão social. A Câmara dos Deputados aprovou, quarta-feira, o projeto que cria o vale-cultura, programa que vai garantir um mínimo de R$ 50 por mês ao trabalhador que ganha até cinco salários mínimos. A quantia poderá ser usada na compra de ingressos para teatros, cinemas, shows, museus e até aquisição de livros. O texto não torna obrigatória a concessão do vale pelas empresas. A adesão do empregador será opcional, com direito a benefícios fiscais, e a participação do trabalhador no valor do vale, também de livre escolha, será limitada a 10% de seu valor, descontada do salário. A autora do projeto, deputada Manuela D’Àvila (PCdoB-RS), calcula que o programa vai promover a injeção de R$ 3 bilhões por ano no setor cultural. Se a inclusão dos aposentados, que poderão ter direito a R$ 30 mensais, feita pelos partidos de oposição, não for derrubada pelo governo, outros R$ 4 bilhões vão mais que dobrar essa estimativa. O projeto terá de ser ainda examinado pelo Senado Federal.

O projeto é, sem dúvida, um avanço no país das bolsas. Merece aplauso por pelo menos duas de suas particularidades. A primeira é a que faz uma oportuna inversão no rumo dos incentivos fiscais à cultura. Até agora, todos os programas oficiais de apoio ao desenvolvimento cultural se limitavam a financiar a produção. Houve mesmo muitos casos de distorções, com denúncias de favorecimento a grupos melhor relacionados com o poder, de malversação dos recursos e de inclusão de projetos que tinham captado apoio financeiro. Sem prejuízo dos programas que financiam a produção de espetáculos, filmes material impresso, o vale-cultura inova ao financiar o consumo. E o melhor é que faz isso do modo mais democrático: não apenas pela adesão opcional da empresa e do trabalhador, como pela liberdade de escolha por parte do consumidor. Não será o estado nem o empregador, mas o dono do vale quem vai decidir o que comprar.

Essa inversão, se bem conduzida, representa a possibilidade de se criar um mercado de consumo de bens culturais de melhor qualidade pelas classes economicamente mais baixas da população. Atualmente, é impossível uma estimativa confiável, mas não é difícil imaginar o tamanho desse mercado e a infinidade de oportunidades de trabalho para milhões pessoas, artistas, técnicos e pessoal administrativo. Há anda o efeito colateral de formar não apenas gente qualificada como também plateia para os espetáculos de nível mais elevado. A outra particularidade do projeto é a de dar uma nova dimensão ao envolvimento das empresas no financiamento da produção cultural. Até agora as aplicações iam diretamente para fora do universo corporativo. Já o vale-cultura pode inaugurar uma nova fase de envolvimento da empresa com seu pessoal, pois, embora termine por bancar a iniciativa cultural de terceiros, o benefício terá transitado pelo capital humano da casa. É, portanto, algo a ser tratado como uma oportunidade pela moderna gestão de recursos humanos. Mas, como em toda iniciativa que resulta em algo parecido com doação, o sucesso do vale-cultura fica na dependência da regulamentação que lhe derem os parlamentares. Que a demagogia barata dos que querem apenas dar esmolas não produza excesso de liberdade. Desvirtuar essa boa ideia será desserviço imperdoável.

O CONTROLE DOS FUNDOS DE PENSÃO
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE
18/10/2009

O poder de fiscalização e supervisão dos fundos de pensão, entes que operam no campo da previdência privada, é exercido hoje pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC) do Ministério da Previdência Social (MPS). Não satisfeito com o desempenho do órgão, malgrado a inexistência de censuras à sua atuação, o presidente da República decidiu acionar o Congresso para substitui-lo por uma assim chamada Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc).

Desde logo, a iniciativa recebeu a marca da inconveniência quanto à forma de submetê-la ao escrutínio do Legislativo. Não havia nenhuma razão de ordem político-administrativa para que a matéria transitasse na área parlamentar sob o regime especial da pressa extrema. No entanto, o governo não a encaminhou segundo o modelo normal de projeto de lei, mas mediante medida provisória. De certo o tema é relevante, mas não urgente, condição estabelecida como um dos pressupostos que legitimam as MPs, conforme disciplina o artigo 62 da Constituição.

De qualquer modo, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) deu sinal verde à instituição da Previc, nos termos em que foi aprovada na Câmara dos Deputados. A nova estrutura ficará vinculada ao MPS. Mas terá autonomia administrativa e financeira. Entre suas competências mais distintivas, figuram a fiscalização e a supervisão das entidades fechadas de previdência complementar (fundos de pensão). Para tanto, incumbiu-se-lhe de autorizar operações de fusão, cisão, incorporação e outras formas de reorganização societária.

A vinculação da Previc à administração direta do Executivo sem dúvida a expõe o execrável jogo político de dominação — regra que se tornou bem mais intensa na atual gestão governamental. Na hipótese em tela, trata-se de repartição a ser posta no controle de mercado previdenciário que administra recursos estimados em R$ 460 bilhões, algo em torno de 18% do Produto Interno Bruto (PIB). Vai abrir vagas para 310 pessoas, 110 colocadas à conta das indicações políticas, inclusive das 14 que ocuparão cargos diretivos. As significativas relações de poder aí incrustadas são o bastante para atiçar a um ponto máximo de cobiça os usufrutuários do atual sistema governativo.

Se o problema é traçar diretrizes e regras para o funcionamento dos fundos de pensão, a fim de colocá-los sob controle social, não tem sentido fazê-lo por meio de repartição sujeita a estrutura administrativa convencional. A enorme dimensão econômica do setor, seu poder de atuação e natureza social dos serviços que presta exigem o controle de agência reguladora. Um organismo — explique-se — fora da órbita governamental, autônomo, gerenciado por técnicos com mandato certo, aprovados pelo Congresso e movido por corpo de funcionários habilitados em concurso público de provas e títulos.

DIA DO MÉDICO
EDITORIAL
DIÁRIO DE CUIABÁ (MT)
18/10/2009

“Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade...”. Esta frase do parágrafo inicial do Juramento de Hipócrates, bem define o cidadão que exerce a medicina, profissional esse cuja data se celebra hoje, no Brasil e em vários países, com o “Dia do Médico”.

Em Cuiabá a categoria médica não tem motivação para celebrar a data que reverencia as mulheres e os homens que fazem dessa profissão verdadeiro sacerdócio. Os problemas estruturais da rede de saúde municipal dificultam – e em alguns casos impedem – o exercício da atividade dentro dos parâmetros ditados pela Organização Mundial de Saúde e também pela consciência do médico. Some-se a essa questão a remuneração incompatível e os desentendimentos operacionais entre os profissionais da medicina e a administração municipal.

O usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) sabe da precariedade física do Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá e entende a reivindicação dos médicos enquanto categoria profissional. Porém, esse mesmo cidadão quando enfrenta problema de saúde ou sofre acidente, depende exclusivamente do SUS por não ser beneficiário de planos de saúde nem contar com recursos para pagamento a hospitais e clínicas particulares.

A imaginária linha que separa o certo do errado no tocante ao movimento grevista dos médicos de Cuiabá, em protesto contra a prefeitura, é a mesma que deixa de um lado o entendimento e de outro a necessidade de atendimento que esse mesmo cidadão sente. Ou seja, independentemente ou não de razão o médico em greve bota um pé no céu em defesa de seus interesses e enfia o outro no inferno ao quebrar o Juramento de dedicar a vida a serviço da Humanidade.

A delicada situação em que se encontra o médico tem que ser compartilhada pela população, mesmo por aqueles que foram diretamente atingidos pela greve. É preciso que Cuiabá estenda as mãos a esse profissional para fortalecer seu movimento e assim fazer com que o desfecho dessa crise aconteça o mais rapidamente possível, para minimizar os danos que ela causa.

Que esta data sirva de reflexão ao poder público para que seus integrantes enxerguem o movimento grevista além da grave em si, de tal modo que encontrem as verdadeiras causas que o fundamentam. Que quanto antes surja a tão sonhada luz no fim do túnel, para que a saúde pública em Cuiabá passe a funcionar de modo satisfatório e que essa dolorosa página seja definitivamente virada.

Greve é o último argumento do médico. Que o movimento grevista em curso seja não apenas o último da categoria em Cuiabá, mas que acima de tudo seja divisor temporal. O antes na saúde pública é o caos de domínio público. O amanhã será novo tempo, tempo esse construído pelo médico de agora, no exercício profissional e na coragem em enfrentar a estrutura do poder. Parabéns também por seu dia, doutor.

“A categoria médica não tem motivação para celebrar a data”

MAIS UM SINAL CHAVISTA
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
18/10/2009

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acaba de perpetrar mais um daqueles atos destinados a sacramentar o que ele chama de “socialismo do século 21”, fruto da “doutrina bolivariana” – seja lá o que isso for – que espera, um dia, ver implantada em toda a América Latina. Na semana passada, nesse caminho, ele expropriou um hotel da cadeia Hilton, situado na Ilha Margarita, paradisí¬aca localidade venezuelano-caribenha que atrai milhões de turistas do endinheirado mundo capitalista que ele combate. É o segundo estabelecimento da rede hoteleira a sofrer o confisco do governo venezuelano.
Esta não é, no entanto, salvo por seu valor simbólico, a mais importante medida tomada por Chávez para colocar nas mãos do Estado a economia do seu paí¬s. Nesse quesito, expropriações mais importantes ocorreram antes: instalações petrolíferas de multinacionais, de uma indústria cimenteira, de grandes empresas de alimentos, siderúrgicas, geradoras de energia elétrica, bancos, florestas...
Tudo isso sem falar de outros atos que agregam caráter ainda mais grave ao regime que, com mão de ferro, com os maus modos que lhe são caracte¬¬rí¬s¬¬ticos e atropelando regras democráticas, busca também controlar, além da economia, as instituições e a imprensa do seu paí¬s. Submete o Judiciário e o Legislativo, cassa concessões de rádio e televisão que lhe fazem oposição, promove plebiscitos enganosos que, “constitucionalmente”, permitem-lhe permanecer ad aeternum na Presidência.
Trata-se de um problema que diz respeito tão somente à Venezuela e ao seu povo? Trata-se de uma questão que deva ser olhada com o respeito que os princípios da autodeterminação e da soberania nacional evocam? Não. Estamos falando de um governo que tem dado mostras inequívocas de sua propensão hegemônica, atuando, interferin¬¬do, prestando “ajuda” a vizinhos pobres em troca de sua adesão ao bolivarianismo. A Bolívia de Evo Morales, o Equador de Rafael Correa, o Para¬¬guai de Fernando Lugo são suas conquistas mais evidentes. Há ainda o apoio dos irmãos Castro, de Cuba. E não passa despercebida a crescente dependência que hoje aprisiona a outrora orgulhosa Argentina dos Kirchner.
Pois bem: discute-se atualmente no Brasil se de¬¬vemos ou não aprovar o ingresso pleno da Vene¬¬zue¬¬la ao Mercosul. E eis aí¬ o ponto que nos indica que o modo como Hugo Chávez governa nos diz também respeito. Na condição de país-lí¬der do bloco, faz parte das nossas responsabilidades não interferir nos assuntos internos de cada um dos seus membros, mas coloca-se também o dever de fazer o que for necessário para preservar a credibilidade dessa ainda tão mal ajambrada união econômica.
Há fundamentos para justificar o cuidado com a aproximação chavista. O principal deles é o de que, entre as cláusulas do Tratado do Mer¬¬cosul, há uma que obriga seus signatários a adotar a democracia e respeitá-la em todos os seus sentidos – inclusive naqueles que dizem respeito à liberdade de opinião e à livre iniciativa. Outro: se o bloco pretende ser parceiro comercial do resto do mundo, é preciso que siga a regra mí¬nima de honrar contratos. Eis aí¬ dois aspectos que, com meridiana clareza, não estão presentes no governo da Venezuela. Os defensores do bolivarianismo desrespeitam tanto as regras democráticas quanto as leis de mercado – essas últimas com um vigor expresso pelo atropelo de caráter político-ideológico com que o governo chavista promove seus confiscos e expropriações. Haverá quem queira, entre os civilizados, negociar com um bloco econômico contaminado pelo comportamento da Venezuela governada por Chávez? Haverá líder que possa correr tal risco em um cenário em que mesmo as grandes economias ainda tentam se reequilibrar depois do baque sofrido com a crise mundial desencadeada no segundo semestre de 2008?
Por essas razões, o fato de o último ato expropriatório ter atingido, digamos, um objeto menor na constelação dos alvos chavistas, precisa ser posto em perspectiva. Embora o confisco do Hilton consista apenas em mais um emblema da falta de credibilidade e de confiança que seu regime inspira, o fato é preocupante para o Brasil, especialmente neste momento em que, movidos pela confiança que a nossa estabilidade democrática e pelo notável crescimento econômico, grandes capitais se sentem atraí¬dos a aqui investir. Não atingimos o ponto ideal, na medida em que há tendências semelhantes às que inspiram os bolivarianos também no governo do presidente Lula. Estamos, no entanto, em caminho melhor do que aquele que Chávez tenta impingir aos pobres da América.

DIFÍCIL DE ENTENDER
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
18/10/2009

Político experiente e hábil advogado, o ministro da Justiça, Tarso Genro, confunde os brasileiros ao justificar a revisão de seu apoio à censura prévia imposta ao jornal O Estado de S. Paulo pela decisão judicial que proíbe a divulgação de notícias sobre o filho do ex-presidente José Sarney. Seria ótimo que o senhor Tarso Genro realmente considerasse equivocada a sua posição anterior, quando afirmou que o ato judicial caracterizava apenas “a precaução de defender o patrimônio subjetivo de um cidadão”. Mas não: em artigo assinado, ele reafirma esta tese e diz que só considera censura agora porque os demais veículos de comunicação continuaram divulgando o assunto e só o Estadão continua proibido. Por este raciocínio, o ministro dá a entender que, caso todos os veículos tivessem sido censurados, a medida teria sido correta.

Não é o que diz a Constituição Federal, que em seu artigo 5º, parágrafo IX, preceitua claramente que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. É verdade que o parágrafo seguinte do mesmo artigo diz que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Embora possa haver interpretações divergentes, como a do próprio juiz do Distrito Federal que determinou o veto ainda em vigor, parece claro – e os tribunais superiores têm entendido assim – que o texto constitucional prevê reparação e não censura. Ninguém pode ser punido por um delito sem sequer ter tido a oportunidade de cometê-lo. Além disso, quando um jornal é censurado, são os seus leitores que estão sendo privados de um direito.

Por isso, embora seja bem-vinda esta condenação do ministro à censura, soa estranho seu argumento para mudar de posição. Sob o pretexto de que “a vedação da informação não produziu as consequências que o despacho do desembargador pretendeu”, ele se transformou em censura, pois coloca um órgão de imprensa em situação discriminatória em relação aos demais. Com todo o respeito à posição ministerial, não se trata apenas de discriminação. Proibir um jornal de divulgar notícia é censura prévia, clara e insofismável.

Ainda assim, seria injusto não celebrar como promissora e positiva uma parte do artigo assinado pelo ministro da Justiça quando ele afirma que “o Brasil goza da mais ampla liberdade de imprensa e assim deverá permanecer”. Esperemos que ele não revise também esta posição, até mesmo porque ela se adequa muito melhor à sua reconhecida biografia de militante da liberdade.

Com todo o respeito à posição ministerial, não se trata apenas de discriminação. Proibir um jornal de divulgar notícia é censura prévia, clara e insofismável.

LEGALIDADE E MORALIDADE
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
18/10/2009

Toda vez que um governante, um parlamentar ou um servidor público de qualquer escalão usa o próprio cargo para se beneficiar, os cidadãos se sentem ludibriados. Nada causa mais indignação do que ver o dinheiro público sendo gasto para custear vantagens pessoais de autoridades que receberam uma representação popular para trabalhar em favor da coletividade. Mesmo quando existe cobertura legal para os gastos suspeitos, a população se revolta. Foi assim na farra dos cartões corporativos utilizados indiscriminadamente por integrantes do governo federal no ano passado. Foi assim no célebre episódio do reitor da Universidade de Brasília que promoveu uma decoração milionária no apartamento funcional em que residia, com recursos da instituição. E, salvo melhor juízo, está neste mesmo patamar a compra de móveis e melhorias para a casa da governadora Yeda Crusius com recursos do Estado.

A resistência da administração em divulgar de forma ampla e transparente a lista do material adquirido para a citada residência só faz aumentar a desconfiança dos cidadãos de que os gastos não obedeceram aos critérios de estrita necessidade para o exercício do cargo. Ainda que os valores sejam pouco significativos, é essencial que sejam informados a quem efetivamente desembolsou o dinheiro. Além disso, o conceito de moralidade tem que ser o mesmo para todos – governantes e governados.

Da mesma maneira como o contribuinte tem a obrigação de estar em dia com os impostos, sob pena de ser sancionado, os administradores públicos têm o dever de prestar contas detalhadas do uso dos recursos arrecadados. Trata-se de um contrato de reciprocidade entre a sociedade e os seus representantes. Estes últimos são selecionados democraticamente para gerir as instituições e os interesses coletivos. Evidentemente, devem ser dignamente remunerados para desempenhar suas funções e receber vantagens inerentes ao cargo. Mais do que isso já passa a ser duvidoso, seja um cartão de crédito ilimitado, uma lata de lixo de R$ 800 ou um pufe de couro sintético.

VOTAÇÃO CONSAGRADORA
EDITORIAL
DIÁRIO DE PERNAMBUCO
18/10/2009

O Brasil ocupará, a partir de 1º de janeiro próximo, pela décima vez, uma das cadeiras para membros rotativos do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Conforme se sabe, o Conselho dispõe de cinco lugares para os chamados membros permanentes - Estados Unidos, Reino Unido da Grã Bretanha, França, China e Rússia - e cinco para membros que o plenário da Assembléia Geral elege em caráter rotativo. O Brasil figurará dentre estes últimos, que são o México, a Turquia, o Japão e a Áustria, que igualmente cumprirão mandato de dois anos. Não existe a estes últimos países o direito de veto às deliberações dos membros permanentes, mas o papel que exercem no importantíssimo círculo chamado Conselho de Segurança é de uma responsabilidade que salta aos olhos. É oportuno observar que nenhum país, por mais poderoso e representativo que seja, consegue maioria absoluta nas deliberações do pequeníssimo rol dos representantes permanentes, se não conta com o placet de pelo menos dois membros de mandato rotativo. Daí que cinco mais dois, formando sete votos, é espécie de número mágico em matéria de tão alto coturno quanto decidir sobre o envio, ou não, ao estrangeiro, de tropas de alguns países membros em missão de paz. É elucidativa do papel que tem desempenhado o Brasil em nome das Nações Unidas a missão que, por anos, tem cumprido com destaque em terras latinas do Haiti.

Outras missões terá cumprido, também com manifesta exatidão e rigor, o nosso país, ou aqui perto das nossas fronteiras, ou delas longe onde quer que se imponha prestigiar as Nações Unidas em suas iniciativas pacificadoras. Não houve até hoje chamado da organização a que o Brasil tenha imposto qualquer sorte de obstáculo. Os povos do longíquo Timor Leste que o digam. Assim que se apresentou a candidatura do nosso país a outro mandato, ou seja, à ocupação de uma cadeira no Conselho, para membro rotativo, logo a quase unanimidade do plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas se prontificou a render a esse antigo fundador da entidade o preito do seu respectivo reconhecimento. Daí que o Brasil teve 182 votos positivos do plenário, em meio a 7 abstenções e apenas um voto contrário assim considerado porque atribuído à Venezuela.

É de considerar que o isolado voto dado à Venezuela foi de uma ignorância palmar daquilo que se passa nos arraiais diplomáticos da grande política internacional. Ninguém soma e alcança uma unanimidade dessas num foro onde se cruzam tantos contrários com suas contradições, se, acaso, o país que postula os sufrágios não terá tido, junto a essa multidão de ilustres e de notáveis, um enorme cabedal de méritos sem nenhuma jaça. Que países e quantos deles terão por exemplo, cumprido mais de 30 missões de paz em nome das Nações Unidas, muitas vezes a expensas próprias e até com o prejuízo de vidas brasileiras que não se recuperam mais? Todavia, ante a obrigação prescrita no estatuto das Nações Unidas e o risco, ante o dever de sair-se galhadarmente como lídimo representante das duas centenas dos seus pares, o país, fiel antes de tudo a si mesmo e ao passado pontilhado de serviços em prol da humanidade, preferiu arrostar o dano e a perda do curto prazo e auferir, ganhando, os loiros de uma glória permanente.

Foi esse credenciamento, foram esses os serviços que agora lhe pagam, agradecidos, os países com assento no plenário da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

MAIS ACESSO À CULTURA
EDITORIAL
O POVO (CE)
18/10/2009

O Vale-Cultura está ainda no embrião e precisa também abranger os circos

Na última quarta-feira, dia 14, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 5.798/09, do Governo Federal, que cria o Vale-Cultura, uma proposta que pode democratizar mais o acesso de pessoas, primordialmente os trabalhadores, incluindo deficientes físicos, além de servidores, estagiários e aposentados, a manifestações e equipamentos ou objetos em geral que divulguem a área. Seria uma espécie de vale-alimentação, só que facilitando ingressos a cinemas, shows, teatros e museus, além da compras de livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais.

A proposta, apesar de já ter sido votada pelo plenário, ainda pode passar por mudanças na Câmara antes de seguir para o Senado. De antemão, depois de devidamente implantado, o Vale-Cultura pode contornar um obstáculo que inibe o consumidor de baixa renda de frequentar espetáculos considerados de alto custo. Há cerca de 30 anos, o ator Paulo Autran, quando ia participar do elenco da telenovela Pai Herói, disse ter ouvido de uma camareira de hotel que só então ela poderia vê-lo atuando, já que sua renda era insuficiente para ir ao teatro.

Além disso, em feriados cívicos como no dia 7 de setembro, em determinados municípios, primordialmente no Sul do País, são promovidos concertos populares grátis, numa das raras vezes em que o público em geral tem audição direta e sem sacrifício no bolso, para assistir a música erudita e/ou popular. Entretanto, nem sempre isso acontece todos os finais de semana, por exemplo. O Vale-Cultura, portanto, pode ser alternativa o ano todo.

Até agora, nenhum produtor brasileiro da área cobrou prioridade, com relação ao Vale, para o empreendimento nacional no setor. Quando a então Embrafilme foi fundada em 1969, foram criados bilhetes especiais que incentivavam a frequência do público a películas nacionais. Inclusive, previam sorteios de veículos.

Talvez um viés nacionalista ficasse semiesvaziado no momento nacional, tendo em vista que a sétima arte brasileira atrai cada vez mais a coprodução com outros países, desde o Mercosul até a América do Norte e a Europa.

O projeto ainda está no embrião. Faltou, infelizmente, destacar se o benefício abrange também os circos. Um tipo de manifestação que está sob perigo de ser extinto no País, o picadeiro ainda conta com empatias entre as diferentes faixas da população brasileira.

Talvez os empresários circenses, devidamente auscultados, demonstrem simpatia por uma iniciativa que, possivelmente, atraia mais público. Além disso, o circo já foi uma das principais escolas informais para o artista nacional.

LEGISLATIVO E TRANSPARÊNCIA
EDITORIAL
A CRÍTICA (AM)
18/10/2009

O Poder Legislativo do Estado do Amazonas está de costas viradas para a transparência. Embora alguns deputados, no ato de cassação do mandato de Wallace Souza, no dia 1º último, tenham evocado a necessidade de a Casa se fazer respeitar pela sociedade e que era preciso preservar a instituição, um dos primeiros aspectos nessa direção - ser transparente - a prática administrativa expõe um grande distanciamento.

Matéria publicada na edição de hoje, seção Tema do Dia, página A3, mostra que a publicidade sobre informações quanto ao uso do dinheiro público não existe. A direção desse Poder arrasta a tomada de decisão quanto a adoção de medidas que possam melhorar o intercâmbio de informações entre a instituição e os contribuintes. O site da ALE oferece um alto grau de dificuldade para os que se interessarem em ter, nesse espaço, informações que já deveriam ser naturalmente publicadas. Não é sem razão que a Organização Não-Governamental Transparência Brasil classifica de “opaca” a página eletrônica da Casa. Opaco, ensina o dicionário, é o não transparente, o obscuro e sombrio.

Se é merecedor de elogios e uma das ênfases no discurso de reafirmação da seriedade da Casa o fato de a ALE ter reduzido o período de férias para 45 dias, é lamentável que o processo de aprimoramento para uma gestão transparente não mereça igual atenção. A direção da Assembleia Legislativa repete promessas de que quer ser transparente ou, mais grave, de que é transparente, mas efetivamente não priorizou essa questão. Ao contrário, mantém uma estrutura fechada em torno das informações públicas.

Às vésperas das eleições, a Assembleia Legislativa mantém aberto um guarda-chuva que a deixa na sombra, numa condição menor e reducionista das suas próprias conquistas.

Se a transparência é colocada hoje como base fundamental para a qualificação da democracia, o Legislativo tem entre os seus primeiros deveres andar de braços dados com ela. Em outras regiões do mundo, apontadas como referências de democracia desenvolvida, é esse outro conceito que está sendo privilegiado. As instituições venceram a etapa das sombras e fazem das possibilidades proporcionadas pela Internet um eficaz meio de controle público do uso dos recursos financeiros. Por aqui as portas ainda estão fechadas e as brechas se mantêm muito estreitas.

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