Saturday, June 12, 2010

O Brasil desafia o mundo


Com a força de seu desempenho histórico,
a seleção brasileira entra em campo mais
uma vez criticada, confiante e temida


Carlos Maranhão e Fábio Altman, de Johannesburgo

Fotos David Gray/Reuters e Antonio Scorza/AFP
A FESTA E O APRONTO
Na abertura, a ausência sentida foi a de Mandela. No amistoso final, contra a Tanzânia,
a presença animadora foi a de Kaká


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A abertura da 19ª Copa do Mundo no Soccer City de Johannesburgo – uma festa vuvuzelada e emocionante em que o grande ausente foi Nelson Mandela, deus vivo da África do Sul, cuja seleção ficou no empate de 1 a 1 contra o México –, na sexta-feira, deu a largada para algo que acontece a cada quatro anos há mais de meio século: a demonstração de força do futebol brasileiro, capaz de assustar qualquer rival do planeta bola. Não se trata de patriotismo nem de euforia de torcedor, mas de uma constatação: cada vez que começa o mais esperado, globalizado, assistido e apaixonante evento universal, a Fifa World Cup, nome oficial de uma marca tão valiosa e conhecida quanto a Coca-Cola, a McDonald’s ou a Apple, o Brasil reafirma sua condição histórica de indiscutível superpotência número 1 do futebol. Não há nenhum outro campo em que o país tenha alcançado esse status. Nem na música popular, na beleza feminina e nas paisagens naturais, muito menos, infelizmente, na educação, na saúde, na qualidade de vida, na justiça social ou na criação de riquezas.

Mas qual é mesmo o povo mais musical ou o lugar perfeito para nascer? Não existem competições com regras definidas e claras para decidir coisas assim. No futebol existe. Desde 1930, a Copa criada pelo francês Jules Rimet consagra a melhor seleção. Nestes oitenta anos, com o intervalo forçado pela II Guerra, o futebol deixou de ser um jogo de cavalheiros ingleses, depois de operários europeus e finalmente de uma única classe social, para ser praticado e aplaudido nos quatro cantos da Terra, originando negócios estimados em 500 bilhões de dólares anuais nos cinco continentes. Os dezoito Mundiais já realizados deram ao Brasil um incomparável e assombroso retrospecto. Rápidos exemplos que não permitem contestação:

• Foram até agora dezoito participações em Copas (todas; os competidores mais próximos, Alemanha e Itália, disputaram dezesseis cada um), sete finais (como a Alemanha, que ganhou três delas), cinco títulos (só a Itália, que tem quatro, poderá igualar esse recorde na África do Sul) e 64 vitórias em 92 jogos.

• De cada dez partidas que jogou, o Brasil ganhou sete (a Alemanha, seis; a Argentina, cinco).

• .Entre as Copas de 1958 e 1966, o Brasil ficou treze jogos invicto. Entre as de 2002 e 2006, venceu onze jogos seguidos. Ninguém passou perto desses números.

• Ronaldo, com quinze gols, é o maior artilheiro da história dos Mundiais. O único que pode alcançá-lo nesta Copa é Klose, da Alemanha. Precisará marcar seis vezes para ultrapassá-lo.

• Em quatro Copas, o artilheiro foi do Brasil (incluindo a de 1962, quando Garrincha e Vavá terminaram empatados com mais quatro goleadores).

• E, claro, apenas a seleção brasileira teve Pelé, o maior craque de todos os tempos, eleito o Atleta do Século XX, com quatro Copas, doze gols e três títulos de campeão (Maradona conquistou um em seus quatro Mundiais).

AP
DO CETICISMO À GLÓRIA
Pelé, aos 29 anos (alguns achavam que estava velho), na celebração
do tri em que muitos não acreditavam

No esporte, retrospecto tem peso considerável. Era impossível para um golfista encarar Tiger Woods antes do escândalo que o afundou sem que a mão em algum momento tremesse. Ou um pugilista enfrentar Muhammad Ali sem sentir medo. A camisa amarela obriga qualquer equipe a jogar com cautela, não raro com reverência, e leva muitos árbitros a contar até três antes de tirar o cartão do bolso. Mas a coleção de glórias não vale nada em um jogo isolado que pode pôr tudo a perder. Esse é o problema da Copa do Mundo. "Trata-se de uma competição traiçoeira", disse a VEJA o técnico Carlos Alberto Parreira, com a autoridade de quem participa, agora no comando dos anfitriões sul-africanos, de seu sexto Mundial, outro recorde de um brasileiro. "Você pode voltar para casa se tiver má sorte em uma única partida ou em um cruzamento infeliz de grupo. Ou, como eu falo nas minhas palestras: se um jacaré e um urso vão lutar, quem ganha? Depende do local da briga. Se for na água, o jacaré vence."

A atual seleção não é – nem deverá ser vista assim no futuro, mesmo que conquiste seu tão esperado hexa – a melhor que o Brasil reuniu. Tem um elenco com alta média de idade (29 anos, a mais elevada entre os 32 participantes), carece de talentos fora de série, não dispõe de reservas de qualidade para estrelas como Kaká e Robinho, conta com pelo menos um titular que não inspira confiança, caso de Felipe Melo, e falta-lhe um clássico meia-armador que faça a bola chegar redondinha aos atacantes. Em compensação, após o fracasso de 2006 e desde que o treinador Dunga assumiu o cargo (veja a reportagem seguinte), adquiriu aos poucos um padrão de jogo eficiente, classificou-se com sobras nas eliminatórias e venceu no ano passado a Copa das Confederações no território do jacaré, a própria África do Sul. A defesa é fortíssima e o goleiro Júlio César é considerado hoje o melhor do mundo. Se reencontrar sua melhor forma ao longo da competição, esperança que deixou no ar durante o último amistoso preparativo, uma goleada de 5 a 1 contra a Tanzânia, na segunda-feira passada, Kaká desempenhará o papel que lhe cabe de craque que desequilibra. No ataque, o centroavante Luis Fabiano, autor de 25 gols em 36 jogos pela seleção (é verdade que não fez nenhum neste ano), será uma arma poderosa. Em tese, se tudo correr dentro da normalidade e do que mostra o histórico das campanhas, o Brasil – que estreia na terça-feira 15, às 15h30 de Brasília, contra a Coreia do Norte – está apto a alcançar as quartas de final (talvez contra a Holanda) com quatro vitórias em sequência, o que daria um enorme moral à equipe e a tornaria ainda mais temida, para então enfrentar adversários realmente difíceis nos três confrontos derradeiros. Eles sairiam, sempre dentro de uma certa lógica sujeita aos caprichos da pelota, de um grupo de favoritos: Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e Argentina.

Omar Martinez/Mexsport
DA SOBERBA AO FRACASSO
Kaká e Ronaldinho Gaúcho
são derrotados em 2006
pela França de Henry e Zidane


As epopeias dos cinco campeonatos mundiais também começaram em um clima que misturava insegurança e fé, pressentimentos e euforia. É da natureza da competição. No distante 1958, a seleção chegou a ser vaiada pelos torcedores em São Paulo antes de viajar para a Suécia, o que se repetiria em 1970. Em 1962, mais do que agora, criticava-se a média de idade do grupo de jogadores (27 anos, mas os laterais Djalma Santos e Nilton Santos tinham, respectivamente, 33 e 37 anos, o meia Didi estava com 33, o goleiro Gilmar e o zagueiro Mauro com 31). "Diziam que éramos velhos, e na verdade estávamos quatro anos mais experientes", lembra Djalma, representante de uma época em que os jogadores brasileiros defendiam apenas clubes do Rio de Janeiro e São Paulo (dos atuais convocados, vinte jogam na Europa). Eles desconheciam os adversários, sobretudo os do Leste Europeu, pois se estava longe da globalização do futebol e das transmissões corriqueiras pela TV de campeonatos internacionais. Em 1994, quando não havia mais mistérios a desvendar sobre o inimigo, a dúvida era se o defensivismo de Parreira e o estilo do volante Dunga, que fora amaldiçoado pela derrota de 1990, não antecipavam um novo insucesso, apesar das esperanças nos gols de Romário e Bebeto. Se hoje em dia há suspense em torno da forma de Kaká, em 2002 predominava a descrença em relação à recuperação de Ronaldo, dado por muitos como acabado.

"Nem sempre a equipe que sai muito criticada do Brasil perde, tampouco as que decolam com muitos elogios ganham", afirma Tostão, o camisa 9 de 1970 e atualmente o mais arguto colunista esportivo da imprensa brasileira. "Mas é sempre melhor começar a Copa com alguma desconfiança, sem a soberba que havia em 2006, por exemplo." Tostão se recorda de que, ao chegar ao México, o Brasil não era favorito – e havia muita discussão em torno das qualidades da equipe. "Tínhamos perdido a Copa de 1966. Pelé, com 29 anos, não era certeza de bom desempenho. Eu mesmo havia tido problema nos olhos. Gérson levava o estigma da derrota de quatro anos antes. Rivellino carregava a fama de não ganhar títulos pelo Corinthians." Foi aquela seleção vista com ceticismo que, ao conquistar o tricampeonato mundial, levou o futebol brasileiro a uma distância que o resto do mundo até hoje não conseguiu alcançar.

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