Uma esperança para o diabo-da-tasmânia
Uma chance de evitar o fim
O câncer que mata o diabo-da-tasmânia surgiu em um só exemplar
da espécie, há vinte anos. A descoberta pode ajudar a impedir
o desaparecimento iminente desse animal
Laura Ming
A depredação ambiental causada pela ação humana é responsável pela extinção de muitas espécies animais. No século XX, 68 delas desapareceram, contra 27 no século anterior. Em que pese esse quadro sombrio, há milhões de anos a extinção de espécies é uma rotina na natureza. Um cálculo largamente aceito indica que desapareceram 99,9% dos tipos de animais que já existiram. Algumas vezes, a extinção é causada por um desastre, como o meteoro que acabou com os dinossauros há 65 milhões de anos. Outras, é o resultado inevitável da seleção natural, o mecanismo da evolução. As espécies sofrem mutações aleatórias. Quando essas mudanças dificultam a sobrevivência em seu habitat, elas desaparecem. Raras vezes a ciência tem a chance de testemunhar o desaparecimento gradual de uma espécie por causas naturais – e de tentar evitá-lo. Uma pesquisa divulgada na semana passada pode abrir caminho para uma oportunidade dessas.
Um grupo de pesquisadores australianos e americanos conseguiu decifrar o código genético de um tipo peculiar de câncer que está aniquilando o diabo-da-tasmânia, o maior marsupial carnívoro da atualidade. Do tamanho de um cão, batizado com esse nome por ser feroz e soltar guinchos horríveis, o animal vive apenas na Tasmânia, ilha da costa da Austrália. Desde 1996, quando foi detectado, o câncer já exterminou 60% da espécie – hoje reduzida a 15 000 exemplares. Os primeiros estudos sobre a doença apontavam para a transmissão por vírus, como no caso do HPV, que está associado ao câncer de colo de útero nos humanos. Agora, os cientistas descobriram que o câncer surgiu de uma mutação genética num único exemplar da espécie, há vinte anos.
A mutação ocorreu na célula de Schwann, responsável por proteger os neurônios. A conclusão dos cientistas se baseia na constatação de que os genes dos tumores não provinham dos animais afetados, mas eram idênticos entre si – e, portanto, tiveram a mesma origem. Disse a VEJA a geneticista americana Clare Rebbeck, que fez parte do estudo: "A população de diabos-da-tasmânia é tão reduzida que eles são muito parecidos geneticamente. Por isso, seu sistema imunológico não rejeita a célula de outro indivíduo, o que faz com que o tumor se desenvolva". Os cientistas estimam que em trinta anos o diabo-da-tasmânia esteja extinto. Para que isso não aconteça, animais saudáveis estão sendo isolados em cativeiro.
No momento, outras duas espécies estão ameaçadas de extinção por motivos naturais. O urso panda, que vive nas regiões montanhosas da China, está hoje reduzido a 2 000 exemplares. Embora seu sistema digestivo seja mais apropriado para um carnívoro, o panda se alimenta principalmente de bambu. A teoria mais aceita para esse comportamento é que a mutação genética que levou à alteração nos hábitos alimentares seja recente e o organismo da espécie ainda não esteja inteiramente adaptado. Para piorar a situação, os pandas quase não se reproduzem. A fêmea fica fértil apenas três dias por ano. A outra espécie ameaçada de extinção – ao que tudo indica, por motivos naturais – é a das abelhas comuns. Só nos Estados Unidos, a população do inseto caiu pela metade nos últimos 35 anos. O mesmo tem acontecido em países da Europa. A hipótese mais provável para o sumiço das abelhas é que elas sejam vítimas de uma nova e misteriosa doença. Para os cientistas, assistir às extinções naturais enquanto ocorrem pode ajudar a esclarecer as grandes extinções do passado. Como aquela responsável pelo desaparecimento de 90% da vida marinha e 70% da vida terrestre há 250 milhões de anos. Daí a relevância da pesquisa com o diabo-da-tasmânia.
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