Monday, October 23, 2006

Os negócios do primeiro-filho

Fábio Luis enfrentou acusações de irregularidades com a Gamecorp, mas virou empresário bem-sucedido

Angélica Santa Cruz

Um ano e quatro meses depois de enfrentar denúncias de que sua empresa só saiu do campo das idéias registradas em contrato social graças a um empurrão da Telemar, o biólogo Fábio Luis da Silva, filho mais velho do presidente Lula e de Marisa Letícia, pode ser chamado de homem bem-sucedido. Ganha salário mensal de R$ 10 mil, fora a divisão de lucros - o que não o torna um sujeito rico, mas é 16 vezes o que conseguia há 4 anos prestando consultorias - e é mais do que os R$ 8.885,48 que seu pai recebe na Presidência. É sócio de um negócio com faturamento estimado em R$ 30 milhões para 2007 e no qual tem participação avaliada, em valores de mercado, em R$ 500 mil. Em décadas de vida pública, Lula acumulou patrimônio de R$ 839 mil.

Fábio tem 32 anos, mora em um apartamento na zona oeste de São Paulo, costuma se vestir com jeans e camisetas, passa a maior parte de seu tempo às voltas com um universo formado por cinema, bandas de rock ou games, evita badalações e nas últimas semanas andou dando explicações a amigos por conta da notícia que circula na internet de que teria comprado uma mansão em um condomínio fechado de São Bernardo do Campo. ('Se alguém provar que essa casa é minha, pode ficar com ela', costuma responder ele).

Passou a ser chamado publicamente de 'Lulinha' - na verdade um apelido usado entre amigos para seu irmão caçula, Luis Claudio - quando vieram à tona seus negócios com a Telemar. E virou assunto da campanha eleitoral na última semana, quando pela primeira vez o presidente Lula se referiu ao assunto. 'Se ele está errado, ele paga. Agora, não posso impedir que ele trabalhe. Se quiser trabalhar que trabalhe e alguém diga se houve alguma coisa ilegal', disse o presidente no programa Roda Viva, da TV Cultura.

'CLARO QUE AJUDOU'

Mas, afinal de contas, o que é a empresa de Fábio Luis?

No que se refere à Gamecorp, é um negócio que pode ser definido como uma operação que nasceu sob suspeita por ter contado com um empurrão providencial na largada - por conta da presença de um filho de presidente entre seus sócios. Mas que hoje, de fato, existe.

O filho de Lula é dono de 16,25% das ações da Gamecorp, produtora com 27 funcionários diretos e 52 prestadores de serviços que tem como negócio principal a produção de programas de TV - que exibe ao longo de 7 horas de programação na PlayTV, o antigo Canal 21. Mas que também tem um site de games e produz penduricalhos para celulares, como ringtones e papéis de parede.

A Gamecorp despertou suspeitas na largada porque contou com injeção inicial de R$ 5 milhões feita pela Telemar, que adquiriu 35% de suas ações quando ela ainda era uma um projeto mantido entre amigos e tinha a única vantagem de ser dona no Brasil da franquia do canal americano de games G4, uma potência na área.

A Telemar é uma empresa privada que tem em seu capital dinheiro público. Um de seus principais acionistas é o BNDES, dono de 25% das ações; outros 19,9% são de fundos de pensão, alguns de empresas públicas, como a Previ, do Banco do Brasil, e a Petros, da Petrobrás. A entrada da Telemar como sócia em um negócio onde só ela colocava dinheiro ainda teria sido disfarçada com uma labiríntica operação de debêntures.

Impulsionado pela ajuda da Telemar, o negócio do primeiro-filho começou comprando horários em canais de TV para exibir programas sobre jogos e clipes. Nesse ponto, a Telemar ajudou outra vez - e comprou R$ 5 milhões em cotas publicitárias.

Os programas caíram nas graças de um nicho de telespectadores jovens. Meses depois, a Gamecorp fechou contrato com o Grupo Bandeirantes para ocupar a faixa mais nobre da antiga Rede 21. Administra uma programação que resulta em uma espécie de MTV mais voltada para o universo de games.

Os seis programas feitos pela produtora de Fábio são uma mistura de videoclipes, animação, imagens de games e entrevistas - embalados em jargões desse mundo estranho aos mais velhos, mas familiar aos jovens.

Indagadas a respeito dos efeitos da presença de Fábio nos negócios da produtora, três pessoas ligadas à empresa responderam ao Estado: 'Claro que ajudou!' Mas dois anos depois da operação e um ano depois das denúncias, a empresa já ocupa certo lugar no mercado, onde foi buscar profissionais de reputação conhecida, e tem lá suas ambições de crescer mais ainda.

A MINA É A TV
Entre todos os braços de sua empresa, Fábio é mais atuante na produção do site GameTV, que tem 4 milhões de pageviews por mês e 41 mil usuários cadastrados em blogs. É até uma performance boa para uma página que funciona fora de grandes portais, que registram até 4 vezes mais. Mas não dá dinheiro.

Na fatia dedicada a negócios ligados à telefonia, a Gamecorp produz vídeos, papéis de parede e ringtones que usuários de celulares podem baixar pela operadora Oi-Telemar. Nesse quesito, a associação da Telemar com a empresa do filho de Lula não causa estranheza no mercado. Todas as empresas de telefonia, TIM, Claro e Vivo, terceirizam esse tipo de negócio, muitas vezes para pequenos grupos. Em média, a Gamercorp vende 10 mil desses produtos por mês, por preços que vão de 99 centavos a R$ 1,99. É um desempenho que responde pelo terceiro maior movimento do gênero na operadora - atrás apenas de fotos de mulheres. E que - por conta de uma divisão de faturamento que inclui empresas que distribuem conteúdo - também não dá lucro.

A mina de ouro do grupo é a TV. A empresa de Fábio e outros 4 sócios administra a programação da PlayTV, das 17 às 24 horas. No princípio, a produtora reempacotava o conteúdo do americano G4. Hoje produz quase tudo o que leva ao ar. Em alguns lugares, como Brasília, já há produção local. Comandados por apresentadores que viraram celebridades em um nicho de jovens, os programas são alvo de processo administrativo no Ministério da Justiça por não ter classificação indicativa.

À Bandeirantes cabe vender anúncios e distribuir a produção para 115 cidades em UHF e VHF e para outras 59 em canais a cabo - tudo amarrado em um contrato com cotas anuais de audiência e faturamento. Mas os sócios da Gamecorp pediram para participar da venda de anúncios. Querem aprender a tocar um departamento comercial - porque pretendem ter um canal a cabo. Um dos acionistas da empresa de Fábio, Fernando Bittar (irmão de outro sócio, Kalil, e filho de Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas e amigo do presidente Lula), trabalha no departamento comercial da Bandeirantes. De vez em quando, Fábio também é visto por lá.

O faturamento é dividido entre a produtora e a emissora. E só agora o negócio começa a dar esperanças de sobreviver longe do apoio da Telemar. 'No começo, perdemos 40% de nossos anunciantes. Mas era um movimento esperado, e, por isso, temos a previsão de faturar entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões no ano que vem', explica Marcelo Meira, vice-presidente do Grupo Bandeirantes.

Os anunciantes foram dar uma volta por causa do reposicionamento do canal. Mas também porque virou um mau negócio ser um dos patrocinadores do 'canal do Lulinha'.

As cotas de patrocínio público, de acordo com a Band, também escapuliram. Antes da entrada da GameTV, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal respondiam por quase 10% do faturamento do Canal 21. Depois, sumiram. Perguntado se a saída do patrocínio oficial tem a ver com a presença de Fábio, Meira diz: 'Não sei, mas vamos tentar trazer de volta.'

'AGORA, FICA'

No auge da polêmica sobre o arranque conseguido com ajuda da Telemar, Fábio chegou a falar em sair da sociedade. Mas foi aconselhado pelo pai a ficar - porque uma retirada poderia parecer confissão de culpa. Ficou, mas tentou se manter nos bastidores. Mudou seu cartão de visitas de 'Fábio Luis Lula da Silva' para 'Fábio L. da Silva'. Não adiantou. No mercado publicitário, a operação ainda é chamada de 'TV Lulinha'.

A Bandeirantes diz que resolveu aceitar o plano de negócios apresentado pela Gamecorp e incorporá-la à sua programação, apesar da polêmica, porque por dois anos os programas da produtora ocuparam as noites de sábado da Band, em canal aberto, e tiveram boa audiência. O grupo afirma ainda que a associação foi mais uma tentativa de dar uma cara ao Canal 21, rede que em 10 anos passou por vários perfis - de exibir seriados antigos a alugar horários para programas de vendas.

Em dois meses de existência, a PlayTV levou de volta alguns anunciantes (como a Renault, Citroen, Virtua, Ipê e Bunge). Mas na prática mantém a mesma média de audiência que conseguia nessa faixa de horário quando se chamava Canal 21: 0,6 ponto no Ibope, o equivalente a 120 mil pessoas diante da TV em
Link São Paulo. Ainda assim, aposta em possibilidades de crescimento ao entregar seu horário nobre - fatia que realmente importa quando se fala de anunciantes - para a produtora de Fábio.

Já para a Gamecorp, foi um baita negócio. A produtora conseguiu ocupar a faixa nobre de um canal nacional e pode se espalhar por toda a grade, se conseguir bom faturamento. Como aposta no mercado jovem, costuma divulgar números de audiência em que bate sistematicamente a MTV. É uma estratégia que serve para mostrar que conseguiu representatividade entre o telespectador jovem. Mas é impopular dentro da Band. Não só porque o Canal 21 sempre bateu mesmo a MTV, mas porque pode afastar anunciantes que não estão interessados apenas em falar com o público jovem. Mas sócios da TV Lulinha, pelo visto, não ficam tímidos com polêmicas. VOLTAR A ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

Thursday, October 19, 2006

Sociologia de combate Demétrio Magnoli, sociólogo, polemista, novo colaborador do GLOBO, faz análise crítica do PT e do projeto de poder de Lula

Ele é formado em sociologia e em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), mas, como nunca exerceu a profissão de jornalista, não se considera como tal.

Porém, é por meio de textos na imprensa, sempre cortantes e sobre temas polêmicos, que o sociólogo especializado em geografia política Demétrio Magnoli já há algum tempo participa do debate nacional. Na semana em que estréia como colaborador quinzenal do GLOBO — escreverá sempre às quintas-feiras —, Magnoli aborda, no seu estilo, alguns dos assuntos prioritários para quem pensa sobre a realidade brasileira: as eleições, Lula, o PT, o intelectual petista, a polêmica das cotas raciais, o MST e a esquerda diante do terrorismo jihadista. Do partido de Lula, o sociólogo tem uma visão cáustica: o PT se transformou numa máquina que atua no subterrâneo da política.

Sociologia de combate André Teixeira Demétrio Magnoli, sociólogo, polemista, novo colaborador do GLOBO, faz análise crítica do PT e do projeto de poder de Lula OS “DOIS BRASIS”: A primeira coisa que o mapa das eleições nos sugere é a idéia de “dois Brasis”. É uma sugestão que leva, por exemplo, à idéia do voto do Brasil pobre contra o Brasil rico, que é uma grosseira análise sociológica dessas eleições — grosseira e interessada.

O governo Lula fez uma política baseada no pressuposto de que tem um Brasil que espera um Estado paternalista, que espera que o Estado resolva o problema dos pobres, mas não da pobreza.

E investiu nesse Brasil.

MUDANÇA DE DISCURSO: Lula falava em “trabalhadores”. Agora, ele fala em “pobres”. Quando você fala “trabalhadores”, está se referindo ao Brasil inteiro, pois há trabalhadores no Brasil inteiro.

“Pobres” é um outro conceito, tanto que, quando as pesquisas eleitorais mostravam que os assalariados que ganham entre cinco e dez salários mínimos estavam tendendo a votar no Alckmin, os intelectuais do PT passaram a dizer que os “ricos”, a “elite” queriam o Alckmin. Esses “ricos” ganham dois mil reais por mês. São os que antigamente Lula chamava de “trabalhadores”, no tempo em que o PT ganhou a sua primeira grande eleição, a vitória na prefeitura de São Paulo, com Luiza Erundina, e logo depois começou organismos de inteligência.

Por isso que, no PT, só se fala em conspiração, e eles começam a acreditar que tudo é conspiração.

Essa máquina, que é uma quadrilha, conspira tanto no subterrâneo — compra dossiês, parlamentares —, que acredita que todos os outros estão conspirando também.

Ela acredita que o mundo das sombras em que faz política é o mundo onde todos fazem política. Ela acreditava que o caseiro ( Francenildo Costa) tinha sido pago por alguém da oposição. E acreditava mesmo. Não foi por acaso que abriram o sigilo bancário do caseiro.

Como a lógica é essa, ela deve continuar acreditando que o caseiro foi pago. Diante do caso do dossiê, pessoas como o Tarso Genro — que é apresentado como um “intelectual do PT” — sugerem que houve uma conspiração a ganhar seguidamente eleições no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, e depois no estado.

A mudança do discurso de Lula reflete uma política do governo, a de governar para dois extratos: o dos rentistas, das altas finanças, através da política de juros, uma vasta Bolsa Família para as altas finanças, e para o extrato dos mais pobres.

O PT E LULA: O momento histórico mudou. Hoje em dia, o PT, como partido, anulou-se, ao mesmo tempo em que se transformou numa máquina de agir no subterrâneo político extremamente azeitada — azeitada mesmo no erro.

É um duplo movimento que o PT faz: ele se anula na política, no debate público, no debate de idéias, por falta de idéias e pela adesão integral ao Lula, que é tratado — e isso é grave — como o salvador da pátria, como alguém onisciente, o Grande Líder, o Nosso Guia.

O PT deixou de ter idéias diferentes, próprias, autônomas. Em compensação, transformou-se numa máquina de inteligência no sentido de operações secretas, informação e espionagem, transformando a política de debate público em operação de inteligência, tirando a política da praça do mercado, que é o lugar dela, e transferindo a política para o lugar dos dos tucanos para fazer o PT cair na armadilha de comprar o dossiê.

Isso é uma coisa fantástica. É o mesmo que imaginar que o serviço secreto de Israel derrubou as torres gêmeas do World Trade Center. É o mesmo que imaginar que o governo Bush organizou os atentados do 11 de Setembro para deflagrar a guerra ao terror. Então, essas teorias conspirativas fazem parte do mundo de quem faz política nas sombras.

De onde isso vem? Isso vem da política stalinista. Isso vem da política dos antigos partidos ligados à União Soviética. Vem da idéia do Partido-Estado, onde os serviços de informação do Estado — as KGBs, NKVDs — servem a objetivos de luta política. E isso parece que se combina muito bem com práticas sindicalistas, com práticas de complô em sindicatos. Mas não me parece que a origem disso é sindical. A origem é a velha política stalinista. Isso cria redes, que têm comando subterrâneo, mas atuam na política formal. As redes são comandadas por organismos de inteligência subterrâneos, partidários. Essas redes têm agentes no Banco do Brasil vasculhando contas, essas redes têm agentes em ministérios, em organismos do Estado, em empresas estatais que controlam contas de publicidade. Só que esses personagens que estão nas instituições públicas são subordinados nessas redes, porque elas têm seu centro de comando num lugar onde o público não vê. Não só o grande público não vê, como os filiados, o que restou de militantes.

Os escalões intermediários do PT também não vêem.

MÁQUINA SEM CONTROLE: O PT não serve para o Lula como partido, no sentido de um centro de produção de idéias políticas.

Isso porque essas idéias poderiam se chocar com orientações governamentais do próprio Lula.

O Lula vê o PT como uma máquina de ação clandestina que poderia ajudá-lo. No começo do governo ele viu isso. Hoje, Lula percebe que essa máquina de ação clandestina pode atrapalhá-lo, talvez mais do que ajudá-lo. Mas não se controla totalmente uma máquina de ação clandestina. Quando ela entra em funcionamento, você não aperta um botão e ela pára.

Porque ela cria seus próprios interesses.

A máquina cria interesses de carreira, de poder, interesses de prestígio, de dinheiro, que estão ligados aos seus integrantes.

Essa máquina dificilmente pode ser parada

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'Intelectuais do PT produzem narrativas para o Estado'

O “LULISMO”: Está lançado, mas se encontra em embrião. O lulismo está lançado como idéia de um salvacionismo, um salvador da pátria, aquele que resolve os problemas do país, por cima das instituições democráticas.

Não é por acaso que o discurso durante a campanha foi anticongresso e antipolíticos e antimídia. A idéia das instituições, da democracia ganha ojeriza de Lula hoje. Só que o lulismo para se lançar de fato precisa desmoralizar os partidos também. Ou seja, o sonho do lulismo — que se tornou muito difícil de realizar depois do primeiro turno, mesmo que ele ganhe no segundo turno — seria ter uma base de sustentação por um PT que não é mais partido, é máquina, por alguns fragmentos do PMDB — que há muito tempo não é mais partido, é uma coleção de correntes e facções — e por uma ala dissidente do PSDB ligada a Aécio Neves e a um projeto em 2010, pós-Lula. 2010 é a “cenoura” que Lula usa para atrair Aécio e Ciro Gomes.

ONGS DAS COTAS RACIAIS: É preciso dizer que essa proposta não é um consenso no governo.

É uma proposta essencialmente sustentada por ONGs ligadas a uma agenda política internacional — não é uma agenda política brasileira —, é uma agenda que tem origem nos Estados Unidos.

Ela se internacionaliza com a Conferência das Nações Unidas contra o racismo, de Durban, na África do Sul, que foi o palco de uma grande aliança entre a Fundação Ford e o governo sul-africano.

A agenda chega ao Brasil como um aspecto de uma política internacional, pelas mãos de ONGs financiadas pela Fundação Ford. Quando um conjunto de intelectuais, professores universitários, líderes de movimentos sociais, inclusive lideranças de movimentos negros, rompendo uma barreira no debate, manifestam-se contra esses projetos, por meio de um manifesto contra o Estatuto da Igualdade Racial, quando o debate se torna público como debate político e não acadêmico, aí se ouvem, inclusive dentro do governo, as vozes daqueles que acham que o Brasil não pode ser transformado numa confederação de raças, porque isso pode ter conseqüências políticas, inclusive sangrentas.

AS FINANÇAS DO MST: O movimento, na sua origem, queria uma revolução agrária. E ainda, se você pegar os textos do MST mas não mais a prática política , ali está a idéia de uma revolução agrária. O que quer dizer isso? A idéia de um capitalismo de pequenos proprietários de terra, que só podem existir sem a globalização. Ou seja, um capitalismo autárquico, fechado, formado por pequenos proprietários de terra. É aquilo que a gente poderia chamar de capitalismo em um só país. Essa é a utopia básica do MST, que é uma utopia católica: a idéia de que vamos criar um imenso rebanho de pequenos proprietários familiares de terra, que vivem isolados do mundo pecaminoso lá fora, portanto, um rebanho de almas. Essa idéia, que é revolucionária, não tem nada a ver com revolução socialista, com Marx ou qualquer coisa assim, pois é um Marx sem a cidade, um Marx sem operários, portanto, um Marx sem Marx. O MST se tornou dependente da continuidade dos assentamentos, inclusive dependente do ponto de vista do seu próprio financiamento.

Ele precisa assentar famílias porque assim mantém sua base social e o tributo sobre os assentamentos, que fornece os recursos para ele existir como movimento político.

Ele se transformou num movimento político cada vez mais dependente de governos que assentam.

INTELECTUAL ORGÂNICO: O intelectual do PT é uma figura que se diferencia do intelectual porque ele não pensa livremente.

O intelectual do PT pensa aquilo que é necessário pensar a cada momento em função dos interesses políticos do chefe, que é o salvador da pátria. O intelectual do PT é aquele que cria teorias não para explicar o mundo, mas o que foi feito pelo seu chefe político.

Um típico intelectual do PT é o Wanderley Guilherme dos Santos, que, quando o seu chefe político e a sua estrutura política faziam o mensalão ou seja, compravam o Parlamento, o que é gravíssimo, porque, por meio da corrupção, é o Executivo anulando o Parlamento , nesse momento Wanderley Guilherme dos Santos, sociólogo, cria a teoria da conspiração das elites contra o governo Lula, e que aquilo (o mensalão) era uma fantasia. Essa teoria não tem qualquer sustentação na realidade empírica, como devem ter as teorias criadas por intelectuais. É uma teoria decorrente de uma conveniência política.

É um discurso conveniente para o governo, que depois foi adotado como discurso oficial do PT. Para isso serve o intelectual do PT, para produzir narrativas que vão se transformar em narrativas governamentais e do partido.

Marilena Chauí não era uma intelectual do PT. Era uma intelectual que se rebaixou a intelectual do PT. Ela transformou a conspiração das elites na “conspiração da mídia”.

Ela deu sua contribuição sofisticando a teoria de Wanderley Guilherme dos Santos, reduzindo o escopo dela — de novo, sem nenhuma sustentação empírica.

Wanderley Guilherme dos Santos escreveu há pouco tempo na “Folha de S. Paulo” um artigo que pareceu ser um mea-culpa. Mas só pareceu, porque o artigo inteiro era uma coleção de adjetivos feios dirigidos aos “aloprados”, aos “meninos” do Lula, pesadamente contra eles, dizendo que eles devem ser punidos, para, no fim, dizer: “Vocês atingiram o Lula, que não tem nada a ver com isso”, embora sejam as figuras do núcleo central da campanha do Lula. Mesmo quando ele faz essa narrativa, é uma narrativa necessária para o Planalto, é a narrativa que o Lula vai adotar a partir daí para chamálos de “aloprados” e dizer que eles têm de ser punidos. Então, de novo, Wanderley Guilherme dos Santos é o criador de uma narrativa oficial. Os intelectuais do PT se transformaram em criadores de narrativas do Estado. Na minha opinião, os intelectuais têm o dever de criticar o Estado, qualquer Estado, todos os governos. Eles se transformaram em criadores de narrativas oficiais. Isso é deixar de ser intelectual e se transformar em intelectual do PT.

A ESQUERDA E O TERROR: Depois do 11 de Setembro, eu escrevi um artigo com o título “Fascínio pelo terror”, de denúncia de intelectuais brasileiros que tinham praticamente aplaudido o atentado, imaginando que aquilo era o início do declínio do império americano, uma derrota do império americano, na verdade se alinhando com os terroristas. Aquele clima de fascínio pelo terror foi corroído ao longo dos anos porque os terroristas mostraram que o problema deles não era o império americano. Eles não têm problema algum em fazer carnificinas em lugares públicos, e esses intelectuais, que no começo tinham achado que Osama bin Laden era um revolucionário tão à mão, recuaram das suas posições, entraram em silêncio profundo ou partiram para teorias conspiratórias: “Na verdade, foram os serviços secretos americanos que inventaram a al Qaeda, que inventaram Osama bin Laden”.

A esquerda não acha que o jihadismo é um perigo para a Civilização, para a Humanidade, para a democracia no mundo. E não denuncia isso. Às vezes é mais grave. Hugo Chávez foi a Teerã, onde anunciou uma aliança ideológica, estratégica — não de negócios — com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, que estava, naquele momento, promovendo a exposição do Holocausto, ou seja, a exposição para dizer que não existiu o Holocausto, a exposição do anti-semitismo.

Então, acho que há uma crise profunda do pensamento de esquerda, e uma aproximação perigosa entre a chamada esquerda e a direita.

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DEMÉTRIO MAGNOLI Ministério da Classificação Racial

São Paulo, quinta-feira, 14 de abril de 2005
"Você vai responder que eu sou amarelinha, né pai?" Foi essa a reação de minha filha ao ver o formulário enviado pelo MEC a todas as escolas do país solicitando a declaração nominal de "cor/raça" de cada um dos seus alunos. Às vésperas de comemorar o nono aniversário, ela não "aprendeu" a escolher a resposta "certa" entre as cinco opções apresentadas (branca, preta, parda, amarela e indígena). Tarso Genro, investido na função de ministro da Classificação Racial, está empenhado em suprir a lacuna de aprendizado: a partir de agora, por sua decisão, as escolas ficam obrigadas a incluir nas fichas de matrícula a informação sobre "cor/raça" dos alunos. Essa informação associará a cada nome uma "raça" e não está sujeita à regra do sigilo estatístico que cerca as pesquisas do IBGE.
"Eu sou amarelinha, né pai?" A resposta "certa" exige a competência de sublimar a percepção sensorial, substituindo-a pelos critérios classificatórios abstratos inventados pelo "racismo científico" do século 19. O "racismo científico" serviu como instrumento de justificação do imperialismo europeu na África e na Ásia, contornando o princípio iluminista de que os seres humanos nascem livres e iguais. A genética desmoralizou o "racismo científico", provando que a espécie humana não se divide em raças. Para preencher o formulário do ministro da Classificação Racial, os pais devem ignorar a ciência e eleger o preconceito como guia.
"Eu sou amarelinha?" A noção de que a humanidade se divide em raças ou etnias não é um fato objetivo da cultura ou um mito imemorial inscrito na história dos povos, mas uma construção política relativamente recente. Engajados no empreendimento do nacionalismo ou da expansão imperial, os Estados fabricaram identidades raciais e étnicas por meio de classificações oficiais que definiram o lugar de cada grupo perante as instituições públicas. As novas fichas de matrícula escolar no Brasil atualizam essa tradição, envolvendo-a no manto roto das políticas sociais compensatórias. Elas irrigam as mudinhas da árvore envenenada do ódio racial.
"Você vai responder que eu sou amarelinha, né pai?" Os professores e os pais esclarecidos ensinam às crianças que as pessoas se distinguem por seu caráter, não pelo tom da pele, o formato do rosto ou o desenho dos olhos. Nas aulas de biologia, as crianças aprendem a reconhecer a inconsistência científica do "racismo científico" do século 19. Nas aulas de história e geografia, elas descobrem as funções políticas desempenhadas pelo racismo e aprendem a desprezar as operações estatais de engenharia racial.
Mas o ministro da Classificação Racial, usando o poder burocrático do aparelho de Estado, resolveu invadir todas as escolas do país e ministrar sua própria aula. Tarso Genro, esse herdeiro inesperado do pensamento social racista de Nina Rodrigues (1862-1906) e Oliveira Vianna (1883-1951), está ensinando as crianças a definirem suas identidades segundo o critério da raça. Ele está dizendo às crianças que o Estado divide os cidadãos em cinco grupos raciais. Com seus formulários e fichas de matrícula, está explicando à minha filha que ela não é amarelinha, rosadinha ou marronzinha. Que é branca, como seus "irmãos de raça". E que seus outros colegas formam irmandades diferentes, pois são pretos, pardos, amarelos ou indígenas. Todos iguais, talvez. Mas separados.
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Wednesday, October 18, 2006

Tesoureiro do PT reuniu-se com Freud

Encontro aconteceu em apartamento de José Carlos Espinoza, outro assessor direto de Lula em campanhas eleitorais

Participantes da reunião se contradizem sobre motivo e conteúdo da conversa, ocorrida após depoimento de Freud Godoy na PF


Paulo Whitaker - 6.out.2002/Reuters
José Carlos Espinoza (de óculos, atrás de Lula), que recebeu Freud Godoy em seu apartamento


RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL

O tesoureiro do diretório nacional do PT e coordenador de infra-estrutura da campanha do candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paulo Ferreira, reuniu-se com Freud Godoy, ex-assessor especial da Presidência, após o depoimento que este prestou à Polícia Federal sobre a tentativa frustrada de compra de um dossiê contra o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB).
A reunião ocorreu no apartamento de José Carlos Espinoza, 52, ex-chefe do Gabinete Regional da Presidência da República em São Paulo e um dos mais próximos assessores de Lula nas campanhas anteriores. Espinoza deixou o cargo no início da atual disputa para exercer, no comitê do presidente em São Paulo, a função de encarregado da agenda do candidato à reeleição.
Paulo Ferreira falou com a Folha às 18h25 de ontem. Indagado sobre a reunião, fez um discurso contra a imprensa e em defesa de Freud: "Escreva aí: Freud tem a minha inteira solidariedade". Em seguida, desligou o telefone sem nada responder. Mais tarde, ele confirmou ter ido à casa de Espinoza "dar um abraço" em Freud.
A data da reunião é imprecisa: Espinoza disse acreditar ter sido a noite do dia 18, e o advogado de Freud Godoy, Augusto Botelho, indicou a noite do dia 19. Freud prestou o primeiro depoimento à PF entre 14h e 18h20 do dia 18.
O motivo e o conteúdo da reunião de um implicado no caso do dossiê com o responsável pela arrecadação de dinheiro do PT também são controversos. Espinoza, que concedeu entrevista à Folha ontem à tarde na frente do comitê de Lula, na avenida Indianópolis (na capital paulista), disse que o pedido do encontro partiu de Freud, com a intenção de discutir "o seu futuro no PT".
Espinoza disse que Ferreira "tranqüilizou" Freud, mas negou que se tenha discutido auxílio financeiro a ele (leia texto nesta página).
O advogado de Freud, Augusto Botelho, que primeiro negou a reunião, mas depois a confirmou, apresentou uma versão diferente. Disse que a iniciativa partiu do tesoureiro, Paulo Ferreira, que queria "inteirar-se" do caso do dossiê.
O advogado se contradisse ao falar que não conhecia Espinoza. Apenas o teria visto anos atrás quando, na função de estagiário do escritório de advocacia do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foi colher uma assinatura de Lula para uma procuração.
Ao saber que o próprio Espinoza havia explicado à Folha que encontrou-se com ele horas antes da reunião com o tesoureiro, Botelho admitiu ter estado no prédio de Espinoza, na Mooca.
Segundo a última edição da revista "Veja", Freud e Espinoza tiveram uma reunião no dia 18, daquela vez na própria sede da superintendência da PF e com o preso Gedimar Pereira Passos, segundo uma carta enviada à revista por três delegados federais cujos nomes foram mantidos em sigilo.
A exemplo da PF paulista, Espinoza e o advogado de Freud negaram o encontro no prédio da polícia.
Segundo um primeiro depoimento prestado à PF pelo advogado Gedimar Passos, funcionário do comitê de Lula em Brasília, preso no dia 15 de setembro com R$ 1,7 milhão que seria usado para comprar o dossiê, a ordem para a operação teria vindo de Freud. No último dia 3, em ofício enviado ao Tribunal Superior Eleitoral, Passos retirou a acusação.

Petista diz que ex-assessor foi "tranqüilizado"

DA REPORTAGEM LOCAL

Encarregado no comitê da campanha à reeleição de Lula em São Paulo de organizar a agenda do candidato, José Carlos Espinoza, 52, disse ontem que Paulo Ferreira, tesoureiro nacional do PT, "tranqüilizou" Freud Godoy, ex-assessor da Presidência, implicado por integrante do comitê de Lula no escândalo do dossiê. Leia os principais trechos da entrevista.


FOLHA - O sr. participou de uma reunião com Freud Godoy e Gedimar Passos na sede da PF?
JOSÉ CARLOS ESPINOZA -
Não participei de nenhuma reunião e não teria porque participar. Por que eu estaria numa reunião dessas?

FOLHA - Como foi a reunião na sua casa com Freud e o tesoureiro Paulo Ferreira?
ESPINOZA -
Nós tivemos uma primeira reunião com o doutor Augusto [Botelho], advogado do Freud, onde a gente foi conversar um pouco do que estava acontecendo e da possível prisão preventiva dele que havia sido pedida. O doutor Augusto foi embora, veio o Paulo Ferreira e nós fomos conversar mais a situação do Freud, interna. Como é que ficava a situação dele? Ele estava se exonerando da Presidência, como é que ficava a situação dele dentro do partido, o que seria exigido dele, ou ser pedido. O Paulo Ferreira nos tranqüilizou. Ele falou: "Olha, por enquanto não muda absolutamente nada. Não muda absolutamente nada. Vamos esperar os fatos irem se desenrolando e a gente vê o que é necessário". Agora, nada mais além disso, nada mais.

FOLHA - Freud solicitou alguma ajuda financeira?
ESPINOZA -
Nenhuma.

FOLHA - Foi oferecida a ele alguma coisa?
ESPINOZA -
Olha, eu diria, nesse caso, não foi. Mas acho que, dependendo das condições, acho que até isso é possível. Mas não foi, pelo menos naquele momento, não foi conversado nem cogitado nada disso.

FOLHA - Por que foi procurado o tesoureiro e não alguém da presidência ou da secretaria-geral do partido?
ESPINOZA -
Olha, porque o tesoureiro também é um membro do partido. Poderia ter sido outro, mas o Ferreira é que tinha participado da reunião em Brasília e ele então é que tinha o resultado das conversas em Brasília. Foi por esse motivo.

FOLHA - Que reunião em Brasília?
ESPINOZA -
Eles tiveram uma reunião em Brasília para discutir o episódio, a compra do dossiê, como é que ia encaminhar, como é que estava, sobre o Gedimar, o Valdebran. Porque até então essas pessoas estão sendo ditas como [integrantes] do PT. Então tem toda uma preocupação, uma movimentação. E o Paulo Ferreira foi a pessoa que acompanhou essa reunião lá. Foi ele que veio trazer o relato dessa reunião para nós e tranqüilizar a gente, dizer: "Olha, tranqüilo, vamos ver, vamos investigar, vai dar problema. "Nêgo" vai virar sua vida de cabeça pra baixo, mas por enquanto está tudo tranqüilo". Paulo Ferreira não foi (...). Você que falou agora nessa questão de tesoureiro. Eu nem (...). É um membro do partido, está na coordenação da campanha também e é o cara que participou da reunião lá em Brasília. (...) O que ele falou pra mim foi o seguinte, o que foi conversado com ele foi o seguinte: "Olha, nós fizemos uma reunião lá e tomamos essas decisões, nós vamos fazer essas coisas".

Wednesday, October 11, 2006

Nahas-BrasilTelecom-TelecomItalia-Pt etc


Tão logo a revista Veja desta semana chegou às bancas, eu imaginei que o Ministério Público fosse se mexer. Por quê? Dentre outras coisas, por causa da coluna de Diogo Mainardi, intitulada “Notícias da Itália”, que segue abaixo. Até agora, nada aconteceu. Ali, vejam só, aparece o nome de Naji Nahas, o mesmo que, suspeita a CPI, fez um depósito na conta do inocentado — por Gedimar Passos e parte da imprensa — Freud Godoy. Leia a coluna de Diogo na íntegra:
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O lulismo está indo para a cadeia. Na Itália.
O caso estourou duas semanas atrás. Os promotores públicos milaneses descobriram que a Telecom Italia tinha um esquema de pagamentos ilegais a autoridades brasileiras. O esquema era simples. A Telecom Italia do Brasil remetia dinheiro a empresas de fachada sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. A dos Estados Unidos era a Global Security Services. A da Inglaterra era a Business Security Agency. O dinheiro depositado nas contas dessas duas empresas era imediatamente repassado a intermediários brasileiros, que o distribuíam a terceiros.
A Business Security Agency era administrada por Marco Bernardini, consultor da Pirelli e da Telecom Italia. Ele entregou todos os seus documentos bancários à magistratura italiana. Há uma série de pagamentos em favor do advogado Marcelo Ellias: 50.000 dólares em 13 de julho de 2005, 200.000 em 5 de janeiro de 2006, 50.000 em 2 de fevereiro de 2006. De acordo com Angelo Jannone, outro funcionário da Telecom Italia, Marcelo Ellias era o canal usado pela empresa para pagar Luiz Roberto Demarco, aliado da Telecom Italia na batalha contra Daniel Dantas, e parceiro dos petistas que controlavam os fundos de pensão estatais.
Entre 11 de julho de 2005 e 6 de janeiro de 2006, Marco Bernardini deu dinheiro também à J.R. Assessoria e Análise. Em seu depoimento aos promotores públicos, Marco Bernardini disse que esses pagamentos eram redirecionados à cúpula da Polícia Federal. Paulo Lacerda e Zulmar Pimentel, números 1 e 2 da Polícia Federal, devem estar muito atarefados no momento, investigando a origem do dinheiro usado para comprar os Vedoin. Mas quando sobrar um tempinho na agenda eles podem procurar seus colegas italianos.
Outro nome que está sendo investigado pela Justiça milanesa é Alexandre Paes dos Santos. Conhecido como APS, ele é um dos maiores lobistas de Brasília. Foi contratado pela Telecom Italia para prestar assessoria política. Segundo uma fonte citada pela revista Panorama, APS tinha de ser pago clandestinamente porque é cunhado de Eunício Oliveira. Na época dos pagamentos, Eunício Oliveira era o ministro das Comunicações de Lula, responsável direto pela área de interesse da Telecom Italia. Eunício Oliveira acaba de ser eleito deputado federal com mais de 200.000 votos. Lula já espalhou que, em caso de segundo mandato, ele é um forte candidato para presidir a Câmara. É bom saber o que nos espera.
A revista Panorama reconstruiu também um caso denunciado por VEJA: aqueles 3,2 milhões de reais em dinheiro vivo retirados da Telecom Italia em nome de Naji Nahas. Um dos encarregados pelo pagamento conta agora que o dinheiro foi entregue a deputados da base do governo, do PL, membros da Comissão de Ciência e Tecnologia.
Lula se orgulha de seu prestígio internacional. Orgulha-se a ponto de roubar aplausos dirigidos ao secretário-geral da ONU. O caso da Telecom Italia permite dizer que o lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua forma mais autêntica: o dinheiro sujo.

A versão de Nahas para a bolada que recebeu da Telecom Italia

Na coluna de Diogo, abaixo, fala-se uma bolada de R$ 3,2 milhões que Naji Nahas recebeu da Telecom Italia. Segundo a revista italiana Panorama, o dinheiro foi parar na mão de políticos. Em entrevista à Veja em fevereiro deste ano, Nahas admitiu o pagamento. Mas nega que seja para pagar políticos. Segue a entrevista dada à revista:
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O empresário Naji Nahas deu a seguinte entrevista a VEJA sobre sua consultoria à Telecom Italia:
O SENHOR RECEBEU O DINHEIRO DA TELECOM ITALIA? ONDE?
Sim. No meu antigo escritório, em São Paulo.
POR QUE O PAGAMENTO FOI FEITO EM ESPÉCIE?
Simples: depois de tudo o que fizeram comigo, com a liquidação da Internacional de Seguros, fiquei com meus bens bloqueados. Vivia sob ameaça de bloqueio. Como pessoa física, não tenho mais conta em banco. Por isso, recebi em dinheiro. Declarei e paguei o imposto de renda.
SEM CONTA, COMO O SENHOR FAZ PARA VIVER, FAZER COMPRAS, VIAJAR?
Com cartão de crédito. Gostaria de deixar claro que meu negócio são grandes empresas. Nunca tive negócio com político nem com o setor público. Nunca dei dinheiro ao PT ou a outro partido. Nunca me foi pedido dinheiro para o PT. O dinheiro que recebi da Telecom Italia não foi para o PT. Foi para o Naji, e foi merecido. Essa história de que Lula depende do Naji... Vou te contar... Nada como ser uma lenda.
ONDE ESSE DINHEIRO ESTAVA ACOMODADO QUANDO O SENHOR O RECEBEU?
Acho que numa mala média Samsonite. Quando chegou, mandei para minha tesouraria.
O CONTRATO PREVIA OITO PAGAMENTOS. COMO O SENHOR CONSEGUIU RECEBER À VISTA?
Eu pedi ao Tronchetti (Marco Tronchetti Provera, presidente da Telecom Italia). Estava precisando e pedi a antecipação. Não ganhei esse dinheiro sem trabalhar. Fiz acordos para resolver a disputa entre o Opportunity (banco de Daniel Dantas) e a Telecom Italia. Por meio de um deles, a Telecom Italia pôde lançar celulares com tecnologia GSM.

Em fevereiro, a explicação de Diogo do "Caso Nahas"

Na coluna de 8 de fevereiro de 2006, na revista Veja, Diogo fazia uma síntese do que apurou sobre a atuação de Naji Nahas nos bastidores do governo Lula. A coluna se chamava “Para entender o caso Nahas”. Segue a íntegra:
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Em maio de 2003, a Telecom Italia estava engajada naquilo que Luiz Gushiken definiu como "o maior conflito societário da história do capitalismo brasileiro". Ou seja, a guerra com o Opportunity pelo controle da Brasil Telecom. Desde a posse de Lula, o Opportunity, de Daniel Dantas, estava em dificuldade. O governo abusava de seu poder para prejudicá-lo. Antonio Palocci acuava seu principal parceiro, o Citigroup, alijando-o da emissão de títulos públicos e da concessão de créditos do BNDES. Enquanto isso, José Dirceu, Luiz Gushiken e o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, clandestinamente costuravam um acordo com a Telecom Italia. É preciso ficar de olho nas datas. Em 7 de maio, a Telecom Italia recebeu os 3,25 milhões de reais sacados em nome de Naji Nahas. Em 26 de maio, Cássio Casseb, a mando de José Dirceu, encontrou-se secretamente em Lisboa com quatro representantes da Telecom Italia, para negociar o papel de cada um na Brasil Telecom, depois que Daniel Dantas fosse afastado da empresa. Duas semanas depois, houve um segundo encontro em Lisboa, que até hoje permanecia secreto. Dois dirigentes da Telecom Italia encontraram-se com Fábio Moser, Renato Sobral Pires Chaves e João Laudo de Camargo, do fundo de pensão Previ, para discutir o organograma da futura Brasil Telecom. Em particular, quem ocuparia a diretoria financeira.

Em julho de 2003, algo mudou. José Dirceu, de uma hora para a outra, perdeu todo o interesse pela questão. Isso coincidiu com a reunião no hotel Blue Tree, de Brasília, entre Delúbio Soares, Marcos Valério e Carlos Rodenburg, sócio do Opportunity. Daniel Dantas, naquele período, soube cercar-se das pessoas certas. Da mesma forma que a Telecom Italia ofereceu um contrato milionário a Naji Nahas, Daniel Dantas ofereceu um contrato de 8 milhões de reais a Kakay, amigo do peito de José Dirceu, e um contrato de 1 milhão de reais a Roberto Teixeira, amigo do peito de Lula. O governo rachou ao meio. De um lado, ficou a turma de José Dirceu. Do outro, a turma de Luiz Gushiken, que continuou a batalha contra Daniel Dantas. Em seu depoimento à CPI dos Correios, Luiz Gu-shiken negou que, no ministério, tenha participado ativamente da disputa pela Brasil Telecom. Acredite quem quiser. Ele teve diversos encontros secretos com os dirigentes da Telecom Italia, com o único objetivo de combinar estratégias para tirar Daniel Dantas do comando da companhia. Nos primeiros meses de 2004, Luiz Gushiken encontrou-se com Giampaolo Zambeletti, em seu gabinete. Pouco tempo depois, ele jantou com representantes da Telecom Italia, na casa do publicitário Luiz Lara, para tratar do mesmo assunto. Em 2005, reuniu-se com Naji Nahas.

ONG investigada por repasse federal é da filha do presidente, afirma pefelista

Rosa Costa

O líder do PFL no Senado, Heráclito Fortes (PI), revelou ontem que a ONG Amigos de Plutão, à qual foi atribuído repasse de verba pelo governo federal de R$ 7,5 milhões, é nome fictício que a oposição usa para se referir a outra ONG, catarinense, que teve entre seus integrantes a filha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lurian, e seu churrasqueiro preferido, Jorge Lorenzetti, hoje acusado no escândalo do dossiê Vedoin.

O senador justificou a senha da oposição como forma de contornar o segredo judicial que protege o processo de investigação sobre o repasse de verba federal para a ONG verdadeira.

Heráclito fez a revelação no meio de uma acalorada discussão com a líder do governo no Senado, Ideli Salvatti (SC), a quem acusou de esconder os delitos cometidos por ONGs de seu Estado, especificamente a que teve participação de Lurian e Lorenzetti. Ele não nominou essa ONG, mas trata-se da Rede 13, de Blumenau, cujo comando Lurian repassou a Lorenzetti antes de sua extinção.

A denúncia original de irregularidades foi feita pelo jornalista Fernando Bond, que trabalhou na Rede 13 por três meses. Ele contou que o órgão tinha um rombo de R$ 70 mil, coberto por Lorenzetti - escalado pelo PT para intervir na entidade e fechá-la, com receio de a história vir a público. A denúncia do jornalista vai mais longe e levanta suspeita de que a ONG servira de veículo para repasse de verbas públicas a petistas.

A revelação de Heráclito escapou num momento de irritação com Ideli, que o acusara de criar factóide justamente por fazer denúncia contra entidade fictícia. A senadora fez a acusação e se retirou do plenário.

'V.Exa. me deu oportunidade de explicar quem são os Amigos de Plutão. Os amigos de Plutão moram em Blumenau e a ONG é de Lorenzetti, a ONG é da senhora Lurian', disse, dirigindo-se a Ideli, que já havia se retirado. Para o senador, ninguém melhor do que a líder petista sabe do que se trata. 'Tanto é que sai desesperada do plenário.' A senadora alegou um vôo marcado para não dar apartes à oposição.

Heráclito disse que aguardava resposta. 'Plutão existe e mora aqui. Eis o Plutão, Brasil! (...) Venha, senadora Ideli, prestar conta à Nação desse processo que corre em segredo de Justiça. Afinal, V.Exa. permitiu que o segredo fosse revelado. Eis o Plutão! Preste conta à Nação', concluiu, aos berros.

Assim não, Janio de Freitas!

Assim não, Janio de Freitas!

Uma tese anda no mercado das idéias, de que a coluna de Janio de Freitas, na Folha desta terça (clique aqui) é parte. Da outra parte, já andei tratando aqui: anda na boca dos marqueteiros. Espero que não contamine o comando da campanha do tucano Geraldo Alckmin. Vamos lá. Explico-me. O texto pode ficar um pouco longo. Lamento. Mas há coisas que não se resolvem em notas de leitura rápida.

Primeira parte
A primeira parte da tese, vocalizada, como disse, por Janio, consiste em acusar Alckmin de excesso de agressividade no debate. No dizer de Janio, ele “apresentou-se como um misto de Carlos Lacerda e Fernando Collor. O pior de ambos: a agressividade compulsiva de Lacerda e a arrogância de Collor.” Fiquei curioso em saber o que o articulista considera, então, “o melhor de ambos”, especialmente de Collor. Confesso que, no caso deste senhor, nada vejo de “melhor”. Sua única contribuição ao Brasil foi ter derrotado Lula em 1989 e, mais tarde, nos ajudado a testar as instituições democráticas. Mas vá lá...

Se Lula fosse um “dotô”, aposto que Janio não estaria apontado a “agressividade” de Alckmin. A acusação só existe porque parte da elite intelectual brasileira, de que Janio faz parte (e eu também, não nego), tende a ver Lula como um inimputável — desse mal não padeço). Escrevi isso no Primeira Leitura umas 800 vezes. Trata-se ainda do velho complexo do bom nhonhô, a exemplo daqueles mocinhos brancos abolicionistas de Benedito Ruy Barbosa em Sinhá Moça. É claro que eu não vejo a novela, já que estou sempre aqui. Acompanho por alguns comentários do Elio Gaspari. Engraçado, Janio: quando Mário Covas botava Paulo Maluf para correr, ninguém registrava a sua “agressividade compulsiva”. Ao contrário: todos aplaudíamos. Mas com Lula... Poxa! Ele veio da “crasse operária”. Merece ser tratado com a cordialidade que aqueles do “andar de cima” (by Gaspari) devem aos do “andar de baixo” (idem). Ainda que sua política monetária seja celebrada lá nas alturas, não é mesmo?

Sobre a principal pergunta que Alckmin fez a Lula, escreve Janio: “Caso as investigações não a respondam antes, continuará explorada a pergunta mais repetida por Alckmin na discussão: ‘De onde veio o dinheiro? (do negócio com o dossiê). Não é uma indagação-acusação honesta. Até agora não consta nenhuma sugestão objetiva, nem sugestão, de que Lula tenha algo a ver com o negócio do dossiê ou, ao menos, conhecimento dele -como Roberto Jefferson lhe deu, em parte, do mensalão.” Huuummm, aqui o bicho pega.

Janio acha que não. E, como ele acha, isso altera a honestidade da pergunta alheia. É um jeito estranho, um tanto egótico, de ver o mundo. Eu já acho que os indícios de que Lula sabia ou pode saber, desde que queira, abundam. Empresto-os ao colunista. Quem sabe, assim, ele confira à indagação do tucano o “Certificado Janio de Freitas de Honestidade”. Vamos ver. Jorge Lorenzetti, Osvaldo Bargas e Ricardo Berzoini — deixemos, por ora, Freud Godoy de lado, a despeito da estranha peça de defesa de seu advogado — são homens da absoluta confiança de Lula. Verdade ou mentira, Janio? Terá tido o presidente Lula a curiosidade de lhes perguntar, como observou Diogo Mainardi a Tarso Genro, de onde veio o dinheiro? O fato de serem três pessoas que privam da intimidade do presidente não serve nem de “sugestão”? Você acha mesmo, Janio, que Lula está, até agora, em relação a isso tudo como você ou eu — ou seja, não tem nada com isso? Tal indagação confere a Alckmin a “agressividade” de um Lacerda e a “arrogância” de um Collor?

Ademais, basta que se conheça, e Janio conhece, a ferina retórica de Lacerda para saber que ela não estava presente no discurso de Alckmin. Ah, Janio: Lula não resistiria em pé a um discurso de dois minutos do mais famoso dos udenistas e maior orador do Brasil moderno. Claro, devemos ter avaliações distintas sobre o político fluminense. Fez muita bobagem na vida, mas foi uma das mais brilhantes figuras da política brasileira de todos os tempos. Seu mal estava na vocação compulsivamente golpista e num egocentrismo oceânico, mas a) suas teses sobre o país estavam corretas; b) era um administrador de mão cheia, como a antiga Guanabara nunca mais viu. Gostava de bater à porta dos quartéis, o que lhe custou um pedaço do futuro político. Satanizá-lo, no entanto, corresponde a endossar o baguncismo de Getúlio Vargas ou de João Goulart. Lacerda não pregava no deserto, mas num ambiente conflagrado em que ele não era o único irresponsável.

Quando aponta uma suposta e inexistente similaridade entre Alckmin e Lacerda, Janio está dando asas à fantasia de que, vá lá, Alckmin está para o udenista como Lula — que ele também critica — estaria para Getúlio e Jango. O petismo gosta desses paralelismos. Quanto à arrogância à moda Collor, trata-se de uma avaliação absolutamente alheia ao que aconteceu no debate. Arrogante foi Lula: desafio Janio a apontar uma única vez em que o tucano, à diferença de Lula, recorreu à ironia. O petista chegou a se oferecer para ajudar Alckmin a dar uma resposta; indagou-lhe se havia feito “psicodrama”; disse um desdenhoso “você não é assim”; Tarso Genro associou o oposicionista a um “pitbull”, afirmando que o considerava um membro do “Opus Dei”. Como se vê, Janio, tudo muito humilde, não é mesmo?

Na fala mais agressiva, Alckmin tachou a fala do presidente de “mentirosa”. Referia-se à acusação, feita por Lula, de que ele, Alckmin, privatizaria a Petrobras, o Banco do Brasil e os Correios. O petista admitiu a fala, sustentou-a. O PT continua a fazer proselitismo sobre o tema. Ou seja: são todos mentirosos.

Segunda parte
A segunda parte da tese diz respeito aos prejuízos a que Alckmin estaria sujeito com o tom mais duro, adotado no debate da Band. A explicação consiste no seguinte: a grande massa de eleitores de Lula, os mais pobres, reagirá à postura do tucano, rejeitando a suposta agressão àquele que elegeram como líder. Petistas estão plantando na mídia que pesquisas qualitativas estariam a indicar que vencer o debate não corresponde a atrair eleitores. Bem, isso é o que vamos ver.

A questão está menos na escolha do que na existência ou não de alternativas. A largada do segundo turno apontou, segundo as pesquisas, uma vantagem de Lula entre 8 e 10 pontos. O segundo turno só está aí porque parte da sociedade reagiu à tramóia petista do dossiê. A uma larga fatia do eleitorado, como se viu, o imbróglio pareceu irrelevante. E a única alternativa dos tucanos é, sim, ao lado de fazer propostas para o país, evidenciar a gravidade do que aconteceu. Não! Tanto o mensalão como o dossiê não são malandragens feitas por “meninos aloprados”. São ações de bandidos que não respeitam a democracia.

Vai aqui o parágrafo mais delicado deste texto. Ainda que as pesquisas qualitativas e mesmo as de opinião venham a indicar a rejeição ao que se chama “novo estilo” de Alckmin, espero que o comando de campanha não abra mão de fazer do candidato um veículo de denúncia do que está em curso no país. Trata-se, a despeito de qualquer outra coisa, de um instrumento de educação política. Mesmo que Lula vença a disputa, tal vitória há de se dar sob a sombra da ilegitimidade dos meios com que governou. E cabe a Lula, Janio, indagar firmemente seus amigos: “Qual é a origem do dinheiro, companheiros?”. A menos que ele saiba. E prefira que não saibamos. Não a tempo.

Janio também reclama que o debate transformou-se numa discussão, em que as alternativas e planos de governo não ficaram claras. E o caso de se perguntar: e quando ficaram? Aqui e no mundo democrático, reitero, debates são uma confrontação de temas gerais, de personalidades, de estilos. A menos que houvesse uma mesa, com juízes neutros, para apertar uma campainha: “Opa, o senhor mentiu; a sua conta está errada”. Mas aí não seria debate, e sim julgamento.

A verdade, a tristíssima verdade — triste para o jornalismo e para o país — é que Alckmin cometeu o grande pecado de vencer o debate. Mesmo alguns que não suportam nem olhar para a cara de Lula esperavam que ele perdesse. Afinal, são críticos do presidente não por tudo o que ele fez, mas por aquilo que ele não fez.

O Lula que se dizia socialista deixou saudades.
Por Reinaldo Azevedo VOLTAR A ARQUIVO DE ARTIGOS ETC
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