Saturday, March 06, 2010

A casa caiu


O Ministério Público quebra sigilo da Bancoop e descobre que dirigentes da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo lesaram milhares de associados, para montar um esquema de desvio de dinheiro que abasteceu a campanha de Lula em 2002 e encheu os bolsos de dirigentes do PT. Eles sacaram ao menos 31 milhões de reais na boca do caixa


Laura Diniz

Montagem sobre foto Jose Meirelles Passos/ Ag. O Globo
NÃO É SÓ A BARBA QUE LEMBRA O ANTECESSOR
João Vaccari, o novo tesoureiro do PT, é o homem por trás do esquema Bancoop,
diz o Ministério Público


VEJA TAMBÉM

Depois de quase três anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo finalmente conseguiu pôr as mãos na caixa-preta que promete desvendar um dos mais espantosos esquemas de desvio de dinheiro perpetrados pelo núcleo duro do Partido dos Trabalhadores: o esquema Bancoop. Desde 2005, a sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou, no lugar dos apartamentos, um rastro de escombros. Pelo menos 400 famílias movem processos contra a cooperativa, alegando que, mesmo tendo quitado o valor integral dos imóveis, não só deixaram de recebê-los como passaram a ver as prestações se multiplicar a ponto de levá-las à ruína (veja depoimentos abaixo). Agora, começa-se a entender por quê.

Na semana passada, chegaram às mãos do promotor José Carlos Blat mais de 8 000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela Bancoop entre 2001 e 2008. O que elas revelam é que, nas mãos de dirigentes petistas, a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do partido. "A Bancoop é hoje uma organização criminosa cuja função principal é captar recursos para o caixa dois do PT e que ajudou a financiar inclusive a campanha de Lula à Presidência em 2002." Na sexta-feira, o promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da Bancoop e a quebra de sigilo bancário daquele que ele considera ser o principal responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, seu ex-diretor financeiro e ex-presidente João Vaccari Neto. Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma Rousseff à Presidência.

Um dos dados mais estarrecedores que emergem dos extratos bancários analisados pelo MP é o milionário volume de saques em dinheiro feitos por meio de cheques emitidos pela Bancoop para ela mesma ou para seu banco: 31 milhões de reais só na pequena amostragem analisada. O uso de cheques como esses é uma estratégia comum nos casos em que não se quer revelar o destino do dinheiro. Até agora, o MP conseguiu esquadrinhar um terço das ordens de pagamento do lote de trinta volumes recebidos. Metade desses documentos obedecia ao padrão destinado a permitir saques anônimos. Já outros cheques encontrados, totalizando 10 milhões de reais e compreendidos no período de 2003 a 2005, tiveram destino bem explícito: o bolso de quatro dirigentes da cooperativa, o ex-presidente Luiz Eduardo Malheiro e os ex-diretores Alessandro Robson Bernardino, Marcelo Rinaldo e Tomas Edson Botelho Fraga – os três primeiros mortos em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE). Eles eram donos da Germany Empreiteira, cujo único cliente conhecido era a própria Bancoop. Segundo o engenheiro Ricardo Luiz do Carmo, que foi responsável por todas as construções da cooperativa, as notas emitidas pela Germany para a Bancoop eram superfaturadas em 20%. A favor da empreiteira, no entanto, pode-se dizer que ela ao menos existia de fato. De acordo com a mesma testemunha, não era o caso da empresa de "consultoria contábil" Mizu, por exemplo, pertencente aos mesmos dirigentes da Bancoop e em cuja contabilidade o MP encontrou, até o momento, seis saídas de dinheiro referentes ao ano de 2002 com a rubrica "doação PT", no valor total de 43 200 reais. Até setembro do ano passado, a lei não autorizava cooperativas a fazer doações eleitorais.

Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornou-se nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado" Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula, homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 – recebeu, por meio da empresa que dirigia até o ano passado, onze cheques totalizando 1,5 milhão de reais, datados entre 2005 e 2006. Nesse período, a Caso Sistemas de Segurança, nome da sua empresa, funcionava no número 89 da Rua Alberto Frediani, em Santana do Parnaíba, segundo registro da Junta Comercial. Vizinhos dizem que, além da placa com o nome da firma, nada indicava que houvesse qualquer atividade por lá. O único funcionário visível da Caso era um rapaz que vinha semanalmente recolher as correspondências num carro popular azul. Hoje, a Caso se transferiu para uma casa no município de Santo André, na região do ABC.

Depoimentos colhidos pelo MP ao longo dos últimos dois anos já atestavam que o dinheiro da Bancoop havia servido para abastecer a campanha petista de 2002 que levou Lula à Presidência da República (veja o quadro). VEJA ouviu uma das testemunhas, Andy Roberto, que trabalhou como segurança da Bancoop e de Luiz Malheiro entre 2001 e 2005. Em depoimento ao MP, Roberto afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo recolhimento da caixinha de campanha de Lula. Em entrevista a VEJA, Roberto não repetiu a afirmação categoricamente, mas disse estar convicto de que isso ocorria e relatou como, mesmo depois da eleição de Lula, entre 2003 e 2004, quantias semanais de dinheiro continuaram saindo de uma agência Bradesco do Viaduto do Chá, centro de São Paulo, supostamente para o Sindicato dos Bancários, então presidido por Vaccari. "A gente ia no banco e buscava pacotes, duas pessoas escoltando uma terceira." Os pacotes, afirmou, eram entregues à secretária de Luiz Malheiro, que os entregava ao chefe. "Quando essas operações aconteciam, com certeza, em algum horário daquele dia, o Malheiro ia até o Sindicato dos Bancários. Ou, então, se encontrava com o Vaccari em algum lugar."

Os depoimentos colhidos pelo MP indicam que o esquema de desvio de dinheiro da Bancoop obedeceu a uma trajetória que já se tornou um clássico petista. Começou para abastecer campanhas eleitorais do partido e acabou servindo para atender a interesses particulares de petistas. Entre os cheques em poder do MP, por exemplo, está um em que a empresa Mizu, de "consultoria contábil", doa 7 000 reais a um certo Centro Espírita Redenção, em 2003. Muitas vezes, dirigentes da Bancoop nem se preocuparam em usar as empresas "prestadoras de serviços" que montaram com o objetivo de sugar a coo-perativa para esconder sua ganância. O MP encontrou quatro cheques da Bancoop, totalizando 35 000 reais, para uma ONG de Luiz Malheiro em São Vicente dedicada a deficientes auditivos – curiosamente, o mesmo endereço do centro espírita. Os cheques foram emitidos entre novembro de 2003 e março de 2005.

Tanta lambança, aliada a uma gestão ruinosa, fez com que a Bancoop mergulhasse num estado de pré-liquidação. Em 2004, com Lula já eleito, Luiz Malheiro foi pedir ao "chefe" Berzoini, então ministro do Trabalho, "ajuda" para reerguer a cooperativa. Quem relatou o episódio ao MP foi seu irmão, Hélio Malheiro. Em 2008, dizendo-se sob ameaça de morte, Hélio Malheiro ingressou no Programa de Proteção à Testemunhas da secretaria estadual de justiça de São Paulo, no qual se encontra até hoje. Em dezembro de 2004, depois que Luiz Malheiro já havia morrido, a "ajuda" chegou à Bancoop. Com apoio de Berzoini e corretagem da Planner (investigada pela CPI dos Correios sob a acusação de ter causado um prejuízo de 4 milhões de reais ao fundo de pensão da Serpro), a cooperativa associou-se a um Fundo de Investimentos em Direito Creditórios (FIDC), entidade que negocia recebíveis, e captou 43 milhões de reais no mercado – 85% dos papéis foram adquiridos por fundos de pensão de estatais controlados por petistas ligados ao grupo de Berzoini e Vaccari. O investimento resultou na abertura de um inquérito pela Polícia Federal por suspeita de que os fundos de pensão teriam sido prejudicados para favorecer a Bancoop.

O PROMOTOR BLAT
"A Bancoop virou organização criminosa"


João Vaccari Neto é do tipo que se orgulha de ser chamado de "um petista histórico", o que, no jargão do partido, significa, entre outras coisas, que ganhou boa parte da vida dirigindo entidades de classe e do partido. Aos 19 anos, começou a trabalhar como escriturário do Banespa. Ficou lá apenas dois anos. Depois disso, entrou no sindicato de sua categoria e nunca mais pegou no pesado. Participou de três diretorias da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi secretário de relações internacionais da entidade e presidiu o Dieese. Atuou sempre como braço de apoio de Berzoini, a quem sucedeu na presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo em 1998. Apesar de não ter a projeção política do amigo, Vaccari conquistou a amizade de Lula, coisa que Berzoini jamais conseguiu obter. Vaccari, como mostra agora a investigação do MP, tem mais em comum com seu antecessor, Delúbio Soares, do que a barba grisalha. E, como Freud Godoy, está mergulhado até os últimos e ralos fios de cabelo no escândalo dos aloprados(veja o quadro abaixo).

Há duas semanas, um juiz de primeira instância contrariou de-cisão do Tribunal Superior Eleitoral e determinou a cassação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, por suposto recebimento ilegal de doação de campanha. A sentença, que colocou em risco a segurança jurídica, foi suspensa. Na semana passada, o TSE divulgou as regras que vão orientar as eleições deste ano. São medidas moralizadoras, que incluem a obrigatoriedade da divulgação de quaisquer processos ou acusações criminais que pesem sobre o candidato e que dificultam manobras de doadores que tenham por finalidade esconder a origem do dinheiro. Tudo isso mostra quanto o país está interessado em aprimorar seu sistema de financiamento eleitoral e proteger-se dos efeitos tão deletérios como conhecidos que sua distorção pode causar. Ao indicar pessoalmente alguém com o prontuário de João Vaccari para tomar conta das finanças do PT e da campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o presidente Lula sinaliza que, ao contrário do resto do Brasil, não está nem um pouco empenhado em colaborar na faxina.


Uma pergunta que continua no ar

Quem deu o dinheiro para o dossiê dos aloprados? Entre os envolvidos, Vaccari era o único sentado numa montanha de reais

Patricia Santos/AE
A TROCO DE QUÊ?
Lacerda (à dir.) ligou para Vaccari uma hora depois de entregar o dinheiro que pagaria o dossiê


João Vaccari Neto e Freud Godoy, envolvidos agora no esquema Bancoop, já atuaram juntos em passado recente. Pelo menos é o que sugere o registro dos telefonemas trocados pela dupla às vésperas do estouro do escândalo dos "aloprados" – como ficaram conhecidos os petistas apontados pela Polícia Federal como integrantes da quadrilha que tentou comprar um dossiê supostamente comprometedor para tucanos durante a campanha presidencial de 2006. No caso de Vaccari, então presidente da Bancoop, os vestígios de participação no caso guardam cheiro de tinta fresca. Foi para ele que Hamilton Lacerda – na ocasião coordenador de comunicação da campanha do senador Aloizio Mercadante – telefonou uma hora antes de fazer a entrega de parte do 1,7 milhão de reais que seria usado para comprar o dossiê.

O episódio teve início quando a família de Luiz Antônio Vedoin, chefe da máfia dos sanguessugas, ofereceu a petistas documentos que supostamente comprometeriam tucanos. Deles, faria parte uma entrevista em que os Vedoin acusariam o candidato do PSDB, José Serra, de envolvimento na máfia que distribuía dinheiro a políticos em troca de emendas ao Orçamento para compras de ambulância. Ricardo Berzoini, então presidente do PT, foi acusado de ter dado a autorização para a compra do dossiê. Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso, e Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, seriam os encarregados de pagar os Vedoin com o dinheiro levado por Hamilton Lacerda. Valdebran e Gedimar foram presos pela PF num hotel Íbis, em São Paulo, depois de terem recebido o dinheiro de Lacerda e antes de entregá-lo aos Vedoin. Jorge Lorenzetti, churrasqueiro do presidente Lula, e Oswaldo Bargas, ex-secretário de Berzoini no Ministério do Trabalho, também estiveram envolvidos no episódio. Eles tentaram negociar com a revista Época uma entrevista em que os Vedoin fariam falsas acusações de corrupção contra Serra. A entrevista acabou sendo publicada pela revista Istoé.

Nas investigações que se seguiram à prisão de Valdebran e Gedimar, a PF identificou uma intensa troca de telefonemas entre os envolvidos, incluindo diversas ligações de Berzoini para a empresa Caso Sistemas de Segurança, hoje em nome da mulher de Freud Godoy. Godoy seria o contato de Gedimar no alto escalão do PT. Quanto a Vaccari, bem, até onde se sabe, era o único dos aloprados que estava sentado sobre uma montanha de dinheiro, a Bancoop. O fato de Hamilton Lacerda ter ligado para ele logo depois de ter cumprido a sua missão faz fervilhar a imaginação dos que até hoje se perguntam: de onde, afinal, veio o dinheiro dos aloprados?

Fotos Celso Junior/AE
ALOPRANDO
Lorenzetti (à dir.) e Gedimar (À ESQ.): a trapalhada terminou
em prisão. Mas agora eles estão livres, leves e soltos

Campanha com verba pública

Ronaldo Soares

Wilton Junior/AE
Denunciados
Garotinho e Rosinha: contratos fajutos e empresas-fantasma

Rafael Campos
321 000 reais
na conta-corrente

A atriz Deborah Secco:
o pai dela era o operador
do esquema que
desviava verbas


Com uma trajetória pública marcada pelo populismo, por práticas fraudulentas e até por um processo em que responde por formação de quadrilha armada, o ex-governador Anthony Garotinho (PR-RJ) está enredado em mais um escândalo de corrupção, trazido à tona pelo Ministério Público do Rio de Janeiro na semana passada. O esquema chama atenção por envolver e beneficiar, diretamente, a ele próprio e sua mulher, Rosinha – ambos denunciados com mais 86 nomes, entre eles o da atriz Deborah Secco, todos com os bens bloqueados pela Justiça. A investigação concluiu que, durante os quatro anos do governo de Rosinha, 58 milhões de reais foram surrupiados dos cofres do estado, dos quais 600 000 reais seguiram para o caixa da pré-campanha de Garotinho. Ele planejava sair candidato nas eleições presidenciais de 2006, mas, sob acusações variadas e depois de uma greve de fome que o expôs ao ridículo, acabou fora do páreo. Diz a VEJA o promotor Eduardo Carvalho, à frente do caso: "Poucas vezes numa investigação dessas foi possível rastrear o caminho do dinheiro desviado com tamanha precisão e riqueza de detalhes. Os fatos são irrefutáveis". O próximo passo do Ministério Público será apurar se houve participação de líderes evangélicos no esquema, sobre a qual há indícios.

Já está bem claro, no entanto, de onde as verbas do estado eram subtraídas e como, depois, chegavam à campanha de Garotinho e ao bolso dos demais envolvidos. A operação tinha como ponto de partida a Fundação Escola de Serviço Público (Fesp), órgão do próprio governo estadual ao qual Rosinha autorizou, por lei, contratar serviços terceirizados – repassados a ONGs – para atender às várias secretarias. Essas ONGs, por sua vez, forjavam contratos com empresas, pelo menos três delas de fachada, para executar projetos que jamais saíram do papel. O Ministério Público concluiu que o operador do esquema era Ricardo Secco, pai da atriz Deborah Secco. As contas-correntes dela registram depósitos provenientes de duas dessas empresas, no valor de 321 000 reais. Defende-se a atriz: "Nunca tive nenhum envolvimento com política. De minha parte, estou inteiramente tranquila". Com a denúncia, Garotinho, que até então se apresentava como candidato ao governo do estado, e Rosinha, atual prefeita da cidade de Campos, perigam ter, enfim, seus direitos políticos cassados na próxima década.



O PAVOR DO DESPEJO

Manoel Marques


"O sindicato sempre foi um defensor da minha classe. Por isso, na hora de fazer um financiamento com eles, não tive dúvidas. Comecei a pagar um apartamento de 45 000 reais em 1997. Suei para honrar as prestações. Vendia coxinha e bolo para complementar a renda. Esse imóvel representava muito para a minha família. Onde morávamos, meus filhos dormiam na sala. Em 2000, quitei o apartamento e nós nos mudamos. Seis anos depois, porém, passei a receber boletos com o valor de 470 reais. Eles diziam que precisavam cobrir gastos excedentes. Até pagaria, se pudesse. Mas a minha renda era de 600 reais. Em 2008, a Bancoop entrou com uma ação de despejo contra mim. Ela não foi concluída, mas, desde então, vivo o pesadelo de eles tirarem o meu único bem material. Durmo sob o efeito de calmantes."
Maria de Fátima Bonfim,
de 55 anos, bancária aposentada



CALOTE DUPLO

Roberto Setton


"Conheci a Bancoop em 2004, quando vi uma placa de propaganda em frente a um terreno vazio. Eles iriam construir um imóvel perto da minha casa. Achei a oportunidade ótima: o preço era bom e a instituição tinha credibilidade. Demos nossa economia de 10 000 reais de entrada e passamos a pagar as prestações. Alguns meses depois, porém, desconfiei do empreendimento. Eu passava em frente ao terreno e não via nenhum pedreiro lá. Diziam sempre que a construção estava para começar. Não acreditei e consegui transferir o dinheiro que havia investido para outro imóvel deles. Dessa vez escolhi um local cuja construção já estava pela metade. Como fui inocente... Esse imóvel também nunca foi concluído. Empatamos 80 000 reais nessa história. Não confio mais nas instituições."
A advogada Tânia de Oliveira, de 42 anos, com o marido, Heleno, e a filha Helena



SEM FORÇAS

Alexandre Schneider


"Aos 43 anos, decidi dar um grande passo: comprar meu primeiro imóvel. Usei os 20 000 reais que havia juntado e entrei no financiamento de um apartamento de 60 000 reais. As prestações eram metade do meu salário. Um dia, recebi uma cobrança extra de 1 800 reais. Seria a primeira de muitas. Tive de tirar um empréstimo bancário. Em dois anos, estava endividado, mas havia quitado meu imóvel. Sentia-me orgulhoso – jamais atrasei uma parcela. Mas em 2005, enquanto esperava o sorteio das chaves, soube que a Bancoop não estava honrando seus compromissos com muitos cooperados. Eu era um deles. Meu imóvel nunca saiu do chão. No início, briguei, participei de protestos vestido de palhaço. Há dois anos, recebi o diagnóstico de câncer de pulmão, o que me deixou sem forças para lutar. Perdi as esperanças."
Oscar Costa, 52 anos, bancário aposentado

Com reportagem de Adriana Dias Lopes, Vinícius Segalla, Kalleo Coura, André Eler e Marina Yamaoka

Quadro: O esquema Bancoop


Foto Fernando Donasci/Folha Imagem

RADAR

Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Governo

Na ONU?
A mais de uma pessoa Lula disse que foi sondado para
se candidatar a secretário-geral da ONU em 2011.

Eleições 2010

Alan Marques/Folha Imagem
Thomaz Bastos, o moita
Sem chamar atenção por um bom tempo, mais especificamente até janeiro, Márcio Thomaz Bastos fez parte da cúpula da campanha de Dilma Rousseff. O ex-ministro da Justiça de Lula participou das reuniões fechadas, ao lado de Antonio Palocci, Fernando Pimentel e João Santana.
Reservado
Thomaz Bastos: discrição

"A campanha já está nas ruas"
Em público, José Alencar tem dito que só decidirá se será candidato a partir do resultado do exame que fará no dia 17. Mas aos mais próximos tem mostrado bastante entusiasmo com a possibilidade de disputar o governo de Minas Gerais. A um amigo, disse recentemente:
"A campanha já está nas ruas".

Medo das cobranças
Pelo menos uma grande empreiteira brasileira decidiu não doar nem um centavo aos candidatos nas eleições de outubro – ou, pelo menos, não contribuirá no caixa um. Em conversas privadas, seu controlador tem reclamado que as doações registradas no TSE se transformam num bumerangue: depois das eleições, "cobranças pesadas" passam
a ser feitas pela imprensa contra as empresas doadoras. Como é difícil supor que uma grande empreiteira possa passar indiferente aos pedidos dos candidatos, é sinal de mais caixa dois nas eleições.

Brasil

Brasília em pânico
A segunda fase da Operação Caixa de Pandora – aquela que resultou na prisão de José Roberto Arruda – será focada nas empresas privadas que faziam parte do esquema. Está todo mundo em pânico.

Economia

O vírus do estatismo
É desalentador para quem prega o bom senso na economia o resultado de uma pesquisa nacional feita pela Análise, do sociólogo Alberto Almeida, sob encomenda do Instituto Millenium. A 1 000 entrevistados de setenta cidades foi feita, entre outras, a seguinte pergunta: "Grandes multinacionais instaladas no Brasil, como Coca-Cola, GM e Microsoft, devem
ser estatizadas?". Cerca de 50% dos entrevistados foram contra o absurdo. O resto dividiu-se entre "não sei" e "sou a favor".

De biscoito a cimento
O grupo cearense M. Dias Branco, um dos maiores fabricantes de biscoitos e massas alimentícias
do Brasil, resolveu se diversificar. Com um investimento de 62 milhões de reais, vai entrar no concentrado setor de cimento abrindo uma fábrica na Bahia.

Meirelles e o abismo
Henrique Meirelles aceitou fazer o prefácio da edição brasileira do livro do ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Henry Paulson, À Beira do Abismo: a Corrida para Salvar a Economia Global do Colapso (Editora Campus/Elsevier). Meirelles foi um dos interlocutores de Paulson nos momentos mais angustiantes da crise. Ele vai escrever sobre como o Brasil olhou o abismo e o evitou, além de comentar os episódios descritos por Paulson.

Um neobanqueiro que sobe
Daniel Goldberg é o novo presidente do Morgan Stanley no Brasil. Advogado de formação, Goldberg, 34 anos, hoje chefia o banco de investimentos do Morgan. Até três anos atrás, nunca trabalhara num banco.

Mudanças na TIM
Pouco mais de um ano depois de ser deslocado da presidência da TIM no Brasil para a presidência do conselho de administração da operadora italiana, Mário Cesar de Araújo deixará definitivamente a empresa. Para o seu lugar, os italianos escalaram o executivo Manoel Horácio da Silva.

Literatura

Bettmann/Corbis/Latinstock

Assinatura rara
J.D. Salinger: hábitos de leitura revelados

O que Salinger lia

Um pequeno pedaço de papel (na verdade, uma nota fiscal) arrematado por um colecionador brasileiro num leilão no ano passado tem o condão de revelar o que andava lendo o reclusoJ.D. Salinger, que morreu em janeiro e de quem pouco se sabia o que fazia. Entre os cinco livros que comprou estava Find a Victim, protagonizado por Lew Archer, um dos maiores detetives da ficção americana, criado por Ross MacDonald. Salinger levou também um livro do poeta e dramaturgo grego Sófocles. A nota de compra mostra que a letra de Salinger em 2001, àquela altura com 82 anos de idade, ainda estava firme. O documento foi adquirido por 800 dólares pelo brasileiro. Na semana retrasada, outro papel, contendo somente a assinatura de Salinger, foi vendido nos EUA por 3 000 dólares.


Luxo

Fotos Roberto Setton e Divulgação

Nos ares da axé music

Há alguns anos, Ivete Sangalo sobrevoa o país em seu jatinho Citation SII. Agora, sua maior rival nos ares da axé music, Claudia Leitte, acaba de comprar um jato executivo – mais novo e mais moderno. Claudia escolheu um Phenom, fabricado pela Embraer, que tem capacidade para transportar quatro passageiros e dois tripulantes. A cantora pagou 3,5 milhões de reais pelo brinquedo estalando de novo.
Voando alto
Claudia Leitte: disputa com Ivete Sangalo
nos trios elétricos e agora nos jatinhos também



Só o terror constrói



Felipe Dana/AP

Como o Supremo Tribunal Federal ainda não publicou o acórdão do julgamento do terrorista italiano Cesare Battisti, realizado em novembro, o caso segue sem solução aparente. O Supremo autorizou sua extradição, mas no Planalto sabe-se que Lula está decidido a dar asilo ao terrorista. Vai alegar "motivos humanitários". A chave da argumentação teria sido dada pelo próprio Berlusconi, quando se encontrou com Lula em Roma, em novembro. Na ocasião, ele disse que, se a decisão de Lula fosse a de dar refúgio a Battisti, pelo menos não a justificasse por "fundado temor de perseguição política", como fizera Tarso Genro. A sorte de Battisti é ser um assassino de esquerda que tentou destruir com bombas uma democracia. Fosse cubano, pacífico, e fizesse greve de fome contra a ditadura, morreria e Lula ainda poria a culpa nele.Givaldo Barbosa/Ag. O Globo

Preso
Battisti: enquanto o STF
não publicar o acórdão,
ele vai ficando

Conselho italiano
Lula deve conceder refúgio alegando "motivos humanitários"

Com Paulo Celso Pereira

Maílson da Nóbrega


O PT não conhece o BB

"O BB é agora outro banco. Seus executivos têm nível de
qualificação semelhante ao dos dirigentes das instituições
privadas. A escolha para posições de liderança valoriza
mais a preparação acadêmica e o treinamento"

Após ser sagrada futura candidata do PT à Presidência, a ministra Dilma Rousseff assumiu dois compromissos: preservar a política econômica e promover o desenvolvimento com base em um "estado forte".

Ela diz que esse "estado forte" não significa o estatismo de outros tempos. De fato, a volta ao passado, ainda que desejada por muitos, é impossível. Não dá para imaginar o governo de novo pondo-se a produzir aço ou a vender farinha de trigo na porta dos moinhos. O estado seria o "indutor" e não o gestor do desenvolvimento. Palmas para a ministra se isso significar, por exemplo, melhoria na qualidade da educação, um sistema tributário racional e leis que incentivem o investimento privado em infraestrutura.

Acontece que as diretrizes do partido da candidata, o PT, divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, sinalizam justamente intervenções como aquelas dos tempos passados. É o caso da criação de "campeões nacionais" via empréstimos generosos do BNDES. Montanhas de subsídios poderão conferir poder de mercado a grupos privilegiados. O resultado seria o aumento da concentração de renda, que o PT condenava. Como antes, haveria uma industrialização socialmente ineficiente.

Os aumentos de participação estatal no capital da Petrobras já preocupam investidores. Mas o pior mesmo seria usar o Banco do Brasil como alavanca da "grande transformação" de um governo Dilma, como se depreende do documento que engloba as tais diretrizes do PT. O assessor internacional de Lula, o petista Marco Aurélio Garcia, de inequívocas convicções estatistas, é um dos coordenadores do documento. Promete-se ali usar o crédito do BB para beneficiar o setor produtivo.

Essa visão, bolorenta, remonta ao tempo em que o BB dava crédito subsidiado com recursos do governo, os quais eram supridos por uma "conta de movimento", que se tornou insustentável quando a inflação agigantou a demanda desses recursos.

A conta foi extinta em 1986, sob intensa oposição dos que não viam sua impropriedade e o risco que ela impunha ao BB. Iniciou-se a longa transição até a virada final, entre 1995 e 1999. O banco viria a protagonizar a maior revolução de uma empresa estatal brasileira.

Cortado o acesso fácil ao Tesouro, o BB se reinventou. Autorizado a atuar em todo o sistema financeiro - a contrapartida natural do fim da "conta de movimento" -, o banco preparou-se para explorar novas oportunidades. Com seus melhores talentos e consultoria externa, redesenhou sua estrutura e reduziu o quadro de pessoal.

A área financeira foi separada da comercial. Essa segregação, comum nos bancos, tinha no BB uma justificativa adicional: blindá-lo contra o populismo de seu maior acionista. A área comercial empresta, mas a financeira fixa as condições. Em tese, não é mais possível direcionar o BB para ações "desenvolvimentistas".

O BB é agora outro banco, inclusive na formação de recursos humanos. Seus executivos têm nível de qualificação semelhante ao dos dirigentes das instituições privadas. A escolha para posições de liderança, no país e no exterior, valoriza mais a preparação acadêmica e o treinamento focalizado na excelência dos serviços e na competição no mercado.

O BB atua em todas as áreas, abrangendo as de gestão de recursos de terceiros, banco de investimento, previdência e seguros. Sua subsidiária no exterior, a BB Securities, é campeã de lançamento de papéis de empresas brasileiras nos mercados globais de capitais, superando tradicionais instituições nacionais e estrangeiras.

Em situações excepcionais, como na recente crise, o BB pôde assumir riscos maiores do que os bancos privados, aumentando sua participação na oferta de crédito. Fez isso de forma responsável, sem piorar os níveis de impontualidade. Nada a ver com seu passado de provedor do crédito subsidiado que beneficiava relativamente poucos.

As citadas diretrizes implicam eliminar a segregação de funções. O BB voltaria a ser instrumento de concentração de renda em lugar de avançar na modernização baseada na competitividade, meritocracia e boa governança corporativa.

Como fez Lula, Dilma pode desprezar tais ideias, que por ora serviriam para contentar segmentos mais atrasados e radicais do PT. A porta não seria aberta para desatinos e o BB continuaria a ser estrela de primeira grandeza na constelação do sistema financeiro brasileiro. Rezemos.

Sergio Marchionne


Seremos apenas cinco

O presidente mundial da Fiat diz que os avanços tecnológicos
vão prolongar a era dos motores de combustão e prevê que
sobrarão poucos fabricantes mundiais de automóveis


Luís Guilherme Barrucho

Leo Drumond/Nitro
"Os elétricos ainda não são economicamente viáveis. Mesmo que a tecnologia avance, o motor de combustão terá vida longa"


Esqueça os carros elétricos. O automóvel ainda será movido a motor de combustão por muito tempo. Esse motor será, a cada ano, mais econômico, pulverizando a barreira atual de 24 quilômetros por litro de gasolina. Os carros tendem a poluir menos e, com o uso intensivo da eletrônica de bordo, da internet e dos sinais de satélite, eles praticamente não mais se envolverão em colisões nem provocarão engarrafamentos. Esse é um resumo do pensamento do ítalo-canadense Sergio Marchionne, o presidente mundial da Fiat. Há seis anos no cargo, ele conseguiu tirar a Fiat do vermelho e tenta agora reerguer a americana Chrysler, controlada pela montadora italiana desde 2009. Em visita ao Brasil, Marchionne falou a VEJA na semana passada, dias antes de inaugurar a maior fábrica do mundo da Case New Holland, unidade de máquinas agrícolas do grupo, localizada em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Os automóveis tornaram-se vilões do ambiente. Essa imagem é justa?
Considero injusto responsabilizar os carros por todos os males da humanidade. Há outras formas de poluição cujos efeitos são muito mais devastadores. Além disso, se compararmos os índices de emissão de gás carbônico e óxido nitroso dos automóveis de dez anos para cá, verificaremos uma redução drástica nesses valores. Em 1998, os principais fabricantes assinaram, voluntariamente, um acordo que estabeleceu um limite para as emissões de poluentes na Europa. Os governos também têm feito pressão nesse sentido. Os Estados Unidos, que são os maiores poluidores mundiais, tornaram as metas de eficiência mais rigorosas. Não há dúvida de que a indústria entende o problema e tem investido para buscar soluções.

Quais seriam elas?
A saída não partirá unicamente da indústria automotiva. Uma solução definitiva inclui a participação das montadoras, dos fornecedores de combustível e dos governos, que devem determinar limites mais severos para a emissão de poluentes e punir aqueles que os infringirem. Para evitar congestionamentos, os governos não podem simplesmente decretar, da noite para o dia, que as pessoas terão de deixar o carro em casa. Eles precisam investir mais em infraestrutura adequada. De nossa parte, a tarefa é aprimorar a tecnologia visando a reduzir o impacto provocado pelos carros no cotidiano das cidades e no ambiente.

Quando teremos um carro ecologicamente correto?
O que é um carro ecologicamente correto? Um veículo que não polui? Isso só é possível em dois casos: ou em um carro movido a eletricidade ou movido a hidrogênio. Também se pode optar por um automóvel parcialmente movido a combustão e que polua menos, como é o caso dos híbridos. Mas tudo isso tem um custo - e ele deverá ser pago pelo consumidor. Nada é de graça. Essas tecnologias limpas ainda custam o dobro das tradicionais. Digamos que, mesmo contrariado, eu venha a produzir um carro desses e ofereça ambas as versões ao consumidor. O modelo é exatamente o mesmo, mas o preço do movido a energia limpa é o dobro do daquele a combustão. Qual será a reação do cliente? Ele comprará a versão mais barata, claro. Os carros elétricos ainda não são economicamente viáveis.

Mas esse custo não pode diminuir com o tempo?
Sim. Mas há barreiras que serão difíceis de transpor, ao menos nos próximos anos. A maior delas é a retenção de energia na bateria. Como é possível armazená-la e fazê-la durar? Hoje, um carro elétrico percorre 100 quilômetros e é obrigado a parar para a recarga, que demora até seis horas. Ninguém comprará um carro com tão baixa autonomia e que ainda por cima leva tanto tempo para ser reabastecido. Façamos de conta, então, que, em vez de abastecer, o consumidor opte por trocar a bateria, em um local similar ao posto de gasolina. Seria preciso padronizar as baterias de todos os automóveis de todas as montadoras. O custo de criação dessa realidade seria enorme. Levamos décadas para desenvolver uma infraestrutura para os veículos movidos a combustão. Imagine recomeçar do zero. Isso não significa, contudo, que temos de descartar essa ideia por completo, apenas tocá-la em paralelo.

Não seria melhor investir no transporte coletivo e incentivar meios de locomoção menos poluentes?
Uma coisa não exclui a outra. Apoio campanhas que estimulem o transporte público. Para aqueles que moram a 1 quilômetro de distância do trabalho, a bicicleta é uma opção excelente. Caso contrário, torna-se impraticável. Algumas dessas campanhas simplesmente não são realistas. Elas só têm eficácia quando provam, com bons argumentos, que o uso do carro é inteiramente dispensável. Mas isso não elimina a vontade de possuí-lo. Construir um bom sistema metroviário, por exemplo, não acaba com o automóvel. Quero dizer que o passageiro do metrô ainda terá seu carro na garagem, apenas tenderá a usá-lo com frequência menor.

Como então convencer as pessoas a usar menos os seus carros?
Mexendo no bolso do motorista. Nisso o governo tem um papel preponderante. Não cabe às autoridades determinar quais veículos devemos ou não comprar, mas, sim, criar leis restritivas e punir exemplarmente seus infratores. Não há escapatória, por mais duro que isso possa parecer. O dinheiro regula a demanda e modifica os costumes. Com essas medidas, as montadoras também são pressionadas a se adaptar a esse novo contexto. Assim, logo o consumidor terá a oportunidade de comprar um veículo mais eficiente e se sentirá socialmente responsável ao adquiri-lo.

De onde estão vindo os maiores avanços nos carros?
Dos sistemas de inteligência. A utilização da eletrônica e de computadores será revolucionária. Os veículos serão dotados de inteligência artificial. Serão guiados por sistemas informatizados, tornando-se mais seguros. Como os carros passarão a responder automaticamente a qualquer sinal de ameaça, poderemos antever colisões e evitar desastres. Teremos à nossa disposição um veículo mais seguro e facílimo de dirigir. Essas tecnologias já estão sendo testadas e deverão ser introduzidas nas próximas décadas. Com o passar do tempo, o preço desses equipamentos cairá drasticamente e eles estarão presentes em todos os automóveis. Mas, ainda que a tecnologia avance, os carros continuarão queimando combustível. O motor de combustão permanecerá com uma grande fatia do mercado por muito e muito tempo.

Os carros tendem a ficar menores?
Há uma limitação clara imposta ao design, porque é preciso restringir a área de resistência aerodinâmica. Quanto menor o atrito, mais eficiente o veículo. Mas não podemos de jeito nenhum sacrificar o estilo em benefício do aumento da eficiência. O que vende o carro é o design. Portanto, ele tem de ser atraente. Comprar um automóvel representa um investimento alto para a maior parte das pessoas, e a escolha do modelo tem a ver com a personalidade que o dono deseja projetar. Ninguém quer ser visto como feio e ineficiente. Daí a necessidade de conjugar esses dois mundos. Os engenheiros precisam estar em paz com os designers. Essa tarefa não é fácil.

Qual o efeito da crise financeira sobre a indústria automobilística?
Essa crise expôs a necessidade de uma mudança substancial nos modelos de gestão de nosso negócio. Do lado americano, a General Motors e a Chrysler foram à falência. Do lado europeu, governos tiveram de intervir para ajudar algumas companhias mais combalidas. É uma evidência de que o sistema não foi concebido para aguentar a pressão de uma turbulência dos mercados. Nada disso é bom. O recente recall da Toyota, hoje a maior montadora do globo, é outra prova de que algo está errado. Esses fatos nos revelam que os hábitos do passado poderão ter efeitos devastadores para o setor numa próxima crise. Os fabricantes precisam estar atentos aos seus investimentos. Qualquer erro pode ser fatal. Uma das formas de reduzir os riscos é dividir os custos. Veja o caso da Chrysler (da qual a Fiat detém participação de 20% e controla a gestão). Nossa associação foi concebida para dividir o ônus sem sobrepor tarefas. Isso faz parte do maior desafio das montadoras, que é atuar globalmente e com custos cada vez mais competitivos. Por essa razão, acredito que o mercado será controlado apenas por cinco fabricantes. Estamos falando de um negócio que exige investimentos pesadíssimos e que é arriscado demais.

Se o negócio é tão arriscado, por que a Fiat decidiu entrar no mercado americano?
Quando a Chrysler pediu concordata, em abril do ano passado, havia menos dinheiro em caixa do que agora. Não quero subestimar nossos esforços, tampouco afirmar que venderemos carros num estalar de dedos. Mas acredito que haja espaço suficiente no mercado americano para reerguer as marcas da Chrysler (Chrysler, Jeep, Dodge e Ram). Como parte desse acordo, aproveitaremos os canais de distribuição da montadora para escoar a produção da Fiat nas Américas. Nossa estratégia é muito clara. Não queremos tomar conta do mercado americano, apenas ter uma parte suficiente dele para ser uma empresa significativa e assim crescer e sobreviver. É uma ambição relativamente simples, imagino.

Mas por que essa decisão só foi tomada agora?
Porque a oportunidade (a concordata da Chrysler) ocorreu somente no ano passado. O tempo é crucial para tudo na vida. Uma companhia tem de estar preparada para uma mudança nas circunstân-- cias a qualquer momento. Quando o mercado entrou em colapso, percebemos uma brecha para atuar no setor automotivo americano, o que só se tornou possível com o apoio do governo dos Estados Unidos e dos funcionários da Chrysler. A partir de agora, precisamos ser capazes de tomar a dianteira e firmar o maior número de acordos possível, como os que temos feito na Rússia e no México. Acreditamos que a Chrysler voltará a ser uma das maiores do setor.

A participação na Chrysler veio da necessidade da Fiat de ser uma montadora global?
O uso do termo "global" se banalizou. É repetido em demasia por CEOs do mundo inteiro apenas para eles se sentirem bem consigo mesmos. Para mim, essa palavra significa sentir-se tão adaptável em um país quanto em outro. Há poucas pessoas que têm essa sensibilidade. Quando venho ao Brasil, sinto-me tão brasileiro quanto qualquer um daqui, ainda que não fale a língua nem compartilhe das tradições locais. No fim das contas, ser global significa entender a globalização, mas, ao mesmo tempo, respeitar os mercados onde se atua. Fracassamos nas duas vezes em que tentamos entrar na China, mas continuamos buscando acertar e já temos um novo parceiro. Sei que estamos atrasados - e me arrependo disso -, mas, pelo menos, aprendemos com os erros. Se já tivéssemos iniciado nossas operações na China, tenho certeza de que as perdas registradas por nós na Europa teriam sido compensadas pelos resultados produzidos no Oriente.

Como o Brasil se encaixa na estratégia mundial da Fiat?
Alguns poucos países merecem nossa atenção de modo especial. O Brasil é um deles. Aqui somos líderes em vendas. O brasileiro é nosso mercado mais importante, depois do italiano. Precisamos encontrar uma solução que permita à Chrysler beneficiar-se por completo de nossas estruturas na América Latina. Ainda estamos decidindo se os carros da Chrysler, possivelmente da marca Jeep, serão vendidos em nossa rede de concessionárias. As perspectivas são otimistas. Depois de provocar temores por tantos anos nos investidores, o Brasil está se tornando exatamente o oposto do que era. Está se firmando como uma economia confiável, estável e de excelente desempenho. Além disso, produz etanol, uma alternativa à gasolina. A tecnologia ainda carece de eficiência, mas tem seu papel como fonte de energia limpa. O Brasil é a nossa segunda casa.

Carta ao Leitor


O pré-mensalão do PT

Manoel Marques
A repórter Laura Diniz:
acesso exclusivo ao inquérito sobre o caso Bancoop, um ensaio local para o mensalão federal


A repórter Laura Diniz, de 28 anos, é uma das jornalistas mais aguerridas de VEJA. Como se diz no jargão da redação da revista, é daquelas profissionais que "não largam o osso". Há seis meses ela acompanha as investigações do Ministério Público paulista sobre a Bancoop, a cooperativa habitacional dos bancários de São Paulo. Esse caso vinha sendo esquadrinhado pelo promotor José Carlos Blat desde junho de 2007. Ele envolve desvio de dinheiro dos cooperados e de fundos de pensão de empresas estatais injetado na cooperativa. Os recursos originalmente destinados à aquisição de casas próprias para os cooperados foram desviados de forma cruel e criminosa. Diversas particularidades dão ao episódio a dimensão de escândalo político nacional. Uma delas é a participação nas malfeitorias de homens do dinheiro do PT. Eles foram agentes ativos dos crimes de desvio das verbas da Bancoop e seu carreamento para financiar campanhas eleitorais do partido.

Como mostra a reportagem que começa na página 70, o inquérito indica que parte dos recursos desviados ilegalmente abasteceu a campanha presidencial de Lula em 2002. Outra parte foi para os cofres de empresas pertencentes aos companheiros. É possível, ainda, que uma porção da bolada apreendida com os famosos "aloprados" - aquela que seria utilizada para pagar o dossiê fajuto contra José Serra em 2006 - tenha sua origem nos cofres da Bancoop.

Para o Ministério Público, o esquema traz digitais amadorísticas, pré-mensalão, antes de os petistas "profissionalizarem" seu caixa dois com a ajuda do notório Marcos Valério. Às vésperas de uma eleição presidencial das mais decisivas para os rumos do país, em relação à qual o Tribunal Superior Eleitoral acaba de dar mais transparência às contribuições financeiras para as campanhas, é espantoso constatar que pessoas apontadas no inquérito como suspeitas do desvio de dinheiro da Bancoop continuem a ocupar lugar de destaque nos escalões do PT. Entre elas estão Ricardo Berzoini, ex-presidente do partido, e João Vaccari, escolhido pelo presidente Lula para ser tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff. É de perguntar se, com personagens dessa estirpe à solta e em cargos decisivos no campo petista, existe a mínima possibilidade de a campanha presidencial de 2010 ser financiada de maneira limpa.

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