Sunday, September 13, 2009

EDITORIAIS 13/9/2009

O QUE PENSA A MÍDIA
13/9/2009 - EDITORIAL
PROJETO ESTATISTA
EDITORIAL
O GLOBO
13/9/2009

À já proverbial capacidade de o governo Lula se autopromover soma-se o clima antecipado de campanha eleitoral, e o resultado é um enorme alarido ufanista tendo como centro as reservas de petróleo no pré-sal. Talvez porque a gestão do presidente esteja em contagem regressiva, projetos de mudanças radicais no modelo de exploração de petróleo foram enviados ao Congresso em regime de urgência.
Não faz sentido discutir assunto tão sério pressionado pelo relógio, embora o prazo acordado entre oposição e governo ainda seja curto para a tramitação no Legislativo.
Pelo menos a urgência, no sentido regimental do termo, foi revista. As discussões travadas até agora ajudam a se chegar a algumas constatações.
A principal delas: o governo optou por um avanço considerável, e temerário, do Estado no setor de petróleo e na própria economia. Levam a esta conclusão, mais do que a opção pelo modelo de partilha, a definição de que a Petrobras será operadora única nas áreas do présal a serem leiloadas; que a empresa terá no mínimo 30% dos consórcios, e a criação de outra estatal, para atuar na supervisão dos trabalhos nessa nova fronteira de produção.
O sentido de centralização do projeto é denunciado pela transferência para a União das Participações Especiais recebidas por estados e municípios de regiões produtoras.
A nação precisa discutir se esse é o caminho indicado para usufruir da melhor maneira possível os recursos derivados das dezenas de bilhões de barris que, tudo indica, existem no pré-sal. A História mostra que o intervencionismo estatal leva ao desperdício, à corrupção, a ineficiências generalizadas. Não se discute a competência técnica da Petrobras. Mas ela só teve a ganhar depois que, rompido o monopólio, passou a conviver com outras petrolíferas.
Tornar o pré-sal um mercado reservado é um erro. A anunciada intenção de governistas de reeditar o dirigismo do programa de substituição do governo Geisel, a partir do pré-sal, se constitui um fracasso anunciado. Nada contra planejar. Mas quanto mais espaço para a competência privada, melhor.
Os bilhões de um petróleo que ainda absorverá muito dinheiro antes de começar a gerar renda animam o sonho de alguns de fazer ressurgir no Brasil o capitalismo de Estado, com todas as mazelas a que ele tem direito: burocracia, impostos, menos competitividade em relação ao mundo, mais concentração de poder, menos espaço político para a sociedade.

OITO ANOS E MUITOS AVANÇOS NA GUERRA
EDITORIAL
JORNAL DO BRASIL
13/9/2009

O OITAVO ANIVERSÁRIO dos atentados do 11 de Setembro em Nova York e Washington permite um balanço bastante positivo do combate ao terrorismo no mundo. Passado o impacto cruento do maior atentado terrorista já praticado – e o primeiro transmitido em tempo real para um universo de 100 bilhões de pessoas – o planeta passou por uma transformação profunda. E que atingiu as raízes do extremismo em alguns de seus fundamentos essenciais. É preciso e importante lembrar que a ação dos 19 sequestradores comandados por Mohammed Atta fez parte de uma escalada de eventos cuja combinação abriu o caminho para a tragédia. A rede Al Qaeda já tinha dado mostras de seu poderio nos atentados de Nairóbi e Dar Es Salaam, no fim dos anos 90. Mas o engessamento do aparato de inteligência e defesa nas teses da Guerra Fria gerou uma cegueira quanto ao perigo da apropriação do islamismo por radicais.

O ninho da serpente, atualmente, está desfeito. Ainda que Osama Bin Laden e seus asseclas continuem à solta, quanto mais forem forçados à invisibilidade pela pressão da perseguição, melhor é para todos. O radical vive de uma imagem simbólica dessa guerra que perdeu combustível à medida em que as fontes do ódio foram sendo detectadas e neutralizadas. Não há mais, por exemplo, o trânsito livre de antigos veteranos da guerra contra a URSS no Afeganistão através dos vários grupos de “libertação” associados às vertentes radicais do Islã de várias partes. Depois dos ataques de Madri e de Londres, as estratégias de investigação foram interligadas e isso restringiu o espaço de ação.

Como líderes da guerra contra o terrorismo, os EUA perderam um tempo precioso no front externo ao se envolverem em uma guerra desnecessária e ilógica no Iraque. A mudança de foco deu liberdade aos radicais e atrasou o combate efetivo às principais causas do problema: a pobreza e a manipulação do lumpesinato para o qual a associação de todas as dificuldades da vida ao estilo de vida do Ocidente representou uma conveniente válvula de escape. O discurso das madrassas do Paquistão, o centro nervoso do recrutamento do terror, hoje está enfraquecido pela abordagem firme na reconstrução das instituições afegãs. E pela perda de poder por parte dos radicais dentro do aparato militar paquistanês que controlavam as áreas pró-Al Qaeda.

No front doméstico americano, o combate ao terrorismo ganhou também, com a mudança de governo, uma leitura mais voltada para a eficiência profissional em lugar de um messianismo que respingou nas tradições de respeito à democracia. Sem perder a atenção ou a firmeza, a aposta voltou-se totalmente para a tecnologia, uma arma fria, eficiente e impermeável a qualquer discurso incendiário. Nunca se avançou tanto quanto nesses oito anos de luta global e o inimigo, que se apossara de ferramentas modernas como a internet, se viu novamente em desvantagem.

É bom não deitar nos louros. Mais importante que terminar o monumento aos mortos no Ground Zero, paralisado pela crise econômica, é manter o nível de investimentos em todas as fontes possíveis de crescimento do terror. Ampliar as possibilidades de crescimento econômico nas regiões mais pobres, melhorar a capacidade de coleta de dados e de análise, coordenar cada vez mais o esforço com outros países e integrar as populações imigrantes marginalizadas. Esse é o caminho.

Os avanços reduziram o espaço de manobra do extremismo

O CARTÓRIO DO PRÉ-SAL
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
13/9/2009

Muito antes do petróleo explorado comercialmente, privilégios para alguns grupos empresariais poderão jorrar das grandes e promissoras áreas do pré-sal. Estimulados pelas promessas de uma nova fase de nacionalismo cartorial, fabricantes de máquinas e equipamentos já mobilizam grupos de apoio, no Congresso, para garantir sua presença como fornecedores de material para a exploração dos novos campos. O deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) já se propôs a defender duas emendas ao Projeto de Lei 5.938, relativo à produção de petróleo e gás em regime de partilha. Pela primeira, será instituído um bônus especial para o comprador de máquinas e equipamentos. Pela segunda, a produção e a comercialização desses materiais serão desoneradas de tributos e, além disso, as empresas terão acesso a condições especiais de financiamento pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e haverá incentivos à inovação..

Ao propor essas emendas, o lobby da indústria de bens de capital aproveita uma oportunidade criada pelo governo. Segundo o projeto de lei, o edital de licitação deverá indicar, entre outros itens, "o conteúdo local mínimo e outros critérios relacionados ao desenvolvimento da indústria nacional". Noutro capítulo, há referência à definição de uma "política de desenvolvimento econômico e tecnológico da indústria de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos, bem como de sua cadeia de suprimento". Ao detalhar esses itens, as duas propostas favorecem a criação de estímulos especiais e de subsídios a alguns segmentos da indústria de bens de capital - e apontam para a instituição de mais um cartório.

Ao defender a conversão do pré-sal em fonte de favores especiais, os dirigentes do setor de bens de capital vão contra os interesses mais amplos da indústria nacional e até dos fabricantes de máquinas e equipamentos. A desoneração fiscal do investimento é um velho objetivo de quem se preocupa com a competitividade da indústria brasileira. A tributação do investimento é uma das maiores desvantagens do setor produtivo brasileiro e um dos principais obstáculos à conquista de posições no mercado global. Um lobby industrial sério deveria cuidar da eliminação total dessa distorção, em vez de batalhar pela criação de um cartório para alguns grupos empresariais. É preciso desonerar tanto o fabricante de meias quanto o produtor de automóveis e o enlatador de salsichas, para facilitar a modernização de suas fábricas.

Essa deveria ser a bandeira de líderes empresariais comprometidos com a criação de uma estratégia nacional de desenvolvimento. Essa estratégia só pode ter sentido se for voltada para um efetivo aumento de competitividade. Mas alguns dirigentes parecem preferir o conforto oferecido pelo nacionalismo clientelista e anacrônico proclamado como grande bandeira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e repetido pelo coro dos companheiros.

Segundo o presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, o grande limite de exploração do pré-sal não é a tecnologia nem o financiamento, mas a capacidade de produção da cadeia de suprimento. Que o governo e os dirigentes da Petrobrás se preocupem com o fortalecimento e a organização dessa cadeia é perfeitamente normal.

Numa entrevista ao jornal Valor, Gabrielli mencionou três grandes famílias de produtos. Alguns a indústria brasileira poderá fornecer, desde logo, em condições competitivas. Para a produção de outros será necessário algum fomento. A produção dos bens do terceiro grupo dificilmente será brasileira no médio prazo e será preciso importá-los. A divisão faz sentido. Seguida com prudência, poderia servir de base para uma política de qualificação da indústria brasileira e seria compatível com uma estratégia mais ampla de competitividade.

Mas será difícil enquadrar nesse padrão de bom senso o nacionalismo proclamado pelo presidente Lula e usado eleitoralmente contra uma oposição acuada e incapaz de enfrentar a demagogia presidencial. A dificuldade será agravada se líderes empresariais se deixarem fascinar pelo velho cartorialismo e se converterem, mais uma vez, em clientela de uma política de favores. Haverá vantagens para uns poucos e uma conta pesada para a maioria dos brasileiros.

NA CRISE, UMA BOA SAFRA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
13/9/2009

Embora menor do que a da safra anterior, a produção de grãos da safra 2008-2009, encerrada em setembro, não foi ruim. A colheita de 134,3 milhões de toneladas em plena crise, e com as principais regiões produtoras tendo enfrentado sérios problemas climáticos, é o segundo melhor resultado da história, inferior apenas ao da safra passada, de 144,1 milhões de toneladas. A primeira estimativa de intenção de plantio para a safra 2009-2010, que começa neste mês, só estará concluída em outubro, mas alguns indicadores justificam expectativas otimistas.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) - que nas últimas semanas de agosto ouviu produtores, agrônomos e gerentes de bancos nos principais municípios agrícolas -, a estiagem registrada no Centro-Sul afetou a produção de culturas tradicionais, como milho e soja, e reduziu a produtividade nos Estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul.

No Paraná, apesar do aumento de 4% na área cultivada, a produção, severamente prejudicada pela seca, diminuiu 17,6%. Menos afetado pelas adversidades climáticas, Mato Grosso também registrou queda da produtividade, principalmente pela menor utilização de tecnologia - pois os fertilizantes estavam muito caros no início do plantio -, mas a redução foi menor do que no Sul, o que lhe permitiu tornar-se, novamente, o principal produtor de grãos do País, posição que desde a safra 2004-2005 era do Paraná.

Um dos resultados mais expressivos constatados pela Conab foi na produção de trigo, que aumentou 46,8%, tendo passado de 4,1 milhões de toneladas na safra 2007-2008 para 6,02 milhões de toneladas na que acaba de ser colhida. O Brasil tem condições de tornar-se autossuficiente em trigo, mas a expansão da triticultura enfrenta obstáculos como a dificuldade de acesso ao crédito oficial, problemas no escoamento da produção em alguns Estados, carência de variedades próprias para a panificação e falta de armazéns. Por isso, ainda importa metade do trigo que consome.

O maior fornecedor do Brasil tem sido a Argentina, mas a safra desse país neste ano foi afetada pela seca e pelas ações do governo contra os produtores rurais, o que praticamente eliminou a capacidade argentina de exportar. Por isso, a Conab prevê que o Brasil terá de importar trigo do Canadá, dos EUA e de alguns países europeus. Por enquanto, os preços internacionais estão baixos, o que deve facilitar a compra.

Com relação à próxima safra, o superintendente de Informação e Agronegócios da Conab, Aírton Camargo, disse esperar que seja boa. Não quis prever se superará o recorde da safra 2007-2008, mas apontou um fator que deverá estimular o agricultor a plantar mais: alguns dos principais insumos estão mais baratos do que em 2008. O clima, de acordo com as previsões disponíveis, deverá ser menos problemático para a agricultura do que foi na safra recém-encerrada. Além disso, a recuperação da economia mundial deverá impulsionar as exportações brasileiras de frangos e suínos, o que estimulará o plantio de grãos.

Uma indicação da disposição do agricultor de investir mais está no aumento das vendas de máquinas agrícolas constatado pela Anfavea. Em agosto, foram vendidas 5 mil máquinas, 5% mais que em julho. No acumulado de 12 meses, o resultado de agosto de 2009 (51,9 mil unidades vendidas) é melhor do que o de agosto de 2008 (49,8 mil unidades).

A liberação do crédito no momento certo também ajudará a garantir uma boa safra, lembrou o superintendente da Conab. Resta saber se o volume será suficiente. No que depender do governo, porém, não se deve esperar muita coisa. Das verbas que o governo pode distribuir livremente, há anos o Ministério da Agricultura - que lida com a grande produção agrícola, responsável pela geração de sucessivos saldos comerciais e pela conquista de mercados no exterior - vem recebendo menos da metade do valor destinado para o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

É mais uma adversidade que a agricultura tem enfrentado, e superado. E terá de enfrentar também na próxima safra, pois a situação se repetirá em 2010.

MAIS UM GOVERNADOR CASSADO
EDITORIAL
O ESTDO DE S. PAULO
13/9/2009

O primeiro aspecto a observar, a respeito da cassação, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos mandatos do governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), e de seu vice, Paulo Sidnei Antunes (PPS), é que a Justiça Eleitoral brasileira criou uma verdadeira "rotina" para destituir governadores de Estado - três só nos últimos dez meses - como se ao sistema eleitoral tivessem sido acrescentadas novas e inéditas exigências éticas. Mas como a legislação eleitoral não foi praticamente alterada, e sempre foi proibido que candidatos a postos eletivos se utilizem, para a conquista de votos, de métodos escusos - como a compra de sufrágios por meio do oferecimento de cargos públicos, bens ou moeda sonante -, como se explica que jamais tivesse havido antes tal concentração de punições radicais - diríamos, exemplares, não fosse tão dilatado o período entre o cometimento do delito e a imposição da pena?

Miranda e Antunes tiveram rejeitados, pelo TSE, recursos que contestavam decisão anterior do mesmo tribunal, determinando seus afastamentos em razão da prática de irregularidades na campanha à reeleição, em 2006. O processo de cassação se originara de denúncia, feita pelo ex-governador Siqueira Campos, dando conta de que durante a campanha o governador teria oferecido vantagens aos eleitores - tais como a doação de 4 mil lotes de terra, 80 mil óculos e distribuição de cargos públicos. O governador e seu vice foram acusados de abuso de poder, compra de votos e uso indevido dos meios de comunicação social, tendo o TSE concluído que, de fato, foram praticadas irregularidades para a conquista de votos às vésperas da eleição.

A decisão do TSE em relação ao caso do Tocantins difere daquelas da Paraíba e do Maranhão. Nestas últimas, por ter havido segundo turno das eleições, o tribunal entendeu que os candidatos derrotados foram prejudicados pelos métodos escusos utilizados por seus adversários. Determinou, então, que os candidatos que perderam o segundo turno assumissem os governos estaduais. Mas, no Tocantins, a reeleição dos candidatos ora cassados se deu no primeiro turno, razão por que seus substitutos deverão ser escolhidos pela Assembleia Legislativa, dentro do prazo legal de 20 a 40 dias. Até lá o governo do Estado está sendo exercido, interinamente, pelo presidente da Casa Legislativa estadual, Carlos Henrique Gaguin (PMDB).

Em novembro de 2008 o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB), perdeu o mandato sob a acusação de utilizar programas sociais para a distribuição irregular de dinheiro. Em abril deste ano o cassado foi o governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), sob a acusação de abuso do poder político. É verdade que a legislação eleitoral se tornou um pouco mais rígida, ao fazer menção expressa à proibição de distribuição de brindes - como bonés, camisetas, chaveiros e mimos semelhantes. Mas as acusações que têm pesado sobre os cassados se baseiam em irregularidades bem mais graves que essas. Surge, de novo a pergunta: por que agora se cobra com mais rigor o comportamento honesto dos candidatos?

Não há como deixar de considerar que a sociedade brasileira, nos últimos tempos, ficou muito mais crítica e passou a cobrar muito mais, dos políticos, um comportamento ético e de obediência à lei. Essa cobrança ainda não produziu melhoras efetivas na qualidade das pessoas que ocupam o espaço público-político - e talvez transcorra um bom tempo até que se chegue a isso. Os escândalos deste ano, no Senado e na Câmara dos Deputados, mostram como ainda é precária a qualidade da vida pública no Brasil. Mas o que não se pode omitir é que, se a legislação eleitoral ainda não é suficientemente rigorosa, não resta dúvida de que, nos últimos tempos, a Justiça a tem interpretado de forma mais rígida.

E aqui voltamos a nos referir - como ao comentar as cassações anteriores - ao problema da tempestividade. Candidatos eleitos, e no pleno exercício de seus governos, com processos de cassação na Justiça Eleitoral, só são cassados depois de cumprirem três anos de seus mandatos. É claro que essa grande delonga só poderá causar uma séria desorganização político-administrativa no Estado. Ao rigor, a Justiça Eleitoral precisa acrescentar a celeridade.

O FUTURO DA ENERGIA EÓLICA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
13/9/2009

Está marcado para 25/11 o leilão de energia eólica, com 441 projetos - dos quais 332 no Nordeste -, com capacidade de geração de 13.341 MW. O leilão é considerado, por especialistas e investidores, relevante para o futuro de um setor com peso ainda ínfimo (0,5%) na capacidade outorgada total, de 107,5 mil MW.

Agências de crédito como o BNDES, o BNB e a Sudene financiam investimentos em usinas eólicas. Tramita na Câmara dos Deputados projeto que cria um fundo de estímulo à energia renovável, beneficiando as pequenas centrais hidrelétricas, usinas de biomassa e de energia eólica.

Segundo os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), estavam em operação no País, até a semana passada, 35 usinas eólicas, com capacidade instalada de 550 MW. A mais recente é a unidade da Siif Énergies na Praia Formosa, em Camocim, no Ceará, cujos sócios são o Citigroup, o Liberty Mutual e o Black River. A companhia tem cinco usinas eólicas, com capacidade de 342 MW, e pretende adicionar 400 MW à capacidade atual.

O presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Lauro Fiúza, acredita que o leilão de novembro será um indicador-chave do interesse por essa modalidade energética, que se desenvolveu bastante em países como a Espanha e os EUA. Para ser considerado bem-sucedido, o leilão deverá assegurar a contratação, pelas distribuidoras, de 2 mil a 3 mil MW de energia, avalia Fiúza.

Se a demanda for satisfatória, os geradores terão de investir entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões nos próximos anos. Para gerar 342 MW, a Siif Énergies investiu R$ 1,7 bilhão, dos quais 30% veio dos sócios e 70% foi financiado pelo BNB e a Sudene.

O investimento em energias alternativas destina-se a criar energia de reserva, ou seja, para ser usada em caso de escassez. Entre as vantagens estão a formação de mão de obra especializada e a demanda de novos componentes, como aerogeradores (ou turbinas de geração eólica), produzidos no País. Outras justificativas para os estímulos à energia eólica são as vantagens ambientais e a diversificação das fontes de energia.

Embora o custo de geração de energia eólica seja considerado elevado pelos especialistas, a Eletrobrás argumenta que ele é semelhante ao de outras fontes, como diesel e gás natural. Uma subsidiária da Eletrobrás, a Eletrosul, quer participar do leilão.

No certame, a questão-chave estará nos preços da energia eólica, que terão de ser atrativos tanto para os geradores como para os consumidores.

CERCO ÀS PESQUISAS
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
13/9/2009

Senado deveria derrubar emenda que veda uso por institutos de pesquisa de dados mais precisos e atualizados do eleitorado

O SENADO não parece satisfeito com os espetáculos de desmoralização institucional que tem encenado neste ano. É o que evidenciam as votações das normas eleitorais para 2010, cujo texto básico, já eivado de disparates, precisa voltar à Câmara e ser aprovado até 2 de outubro.
Um misto de ignorância, corporativismo e espírito antidemocrático preside os trabalhos, que chegaram ao ápice da desorganização na noite de quarta-feira, quando foi aprovada a proposta do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para regulamentar as pesquisas de intenção de voto.
Na confusa sessão, o congressista fluminense conseguiu consagrar a espantosa ideia de estabelecer em lei a metodologia a ser adotada pelos diversos institutos. E o fez do alto de seu desconhecimento a respeito do tema. Pretende a emenda Crivella que a amostra das pesquisas -ou seja, a reprodução em menor escala do universo maior de eleitores- se baseie em dados relativos a sexo, idade, grau de instrução e nível econômico reunidos exclusivamente pelo IBGE.
Os institutos já utilizam esse acervo estatístico, mas não podem ficar limitados a ele. O IBGE realiza censos a cada dez anos -e os dados reunidos referem-se ao total da população, não ao eleitorado. Anualmente, as estatísticas são atualizadas, mas só as de Estados e regiões metropolitanas. No que se refere a municípios, como São Paulo, Rio ou Belo Horizonte, o que se tem são os dados do censo. A prevalecer a proposta do Senado, as pesquisas terão de se basear em estatísticas defasadas, relativas ao ano 2000.
Para contornar o problema, os institutos costumam utilizar, entre outras bases de dados, informações coletadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Elas representam o universo dos eleitores e são mais atualizadas. Em meados do ano eleitoral, quando as inscrições se encerram, o TSE tem dados precisos sobre os cidadãos aptos a votar.
Entende-se a frustração do senador Crivella ao ser ultrapassado pelo candidato Fernando Gabeira na corrida para o segundo turno da última eleição para governador do Rio -fenômeno antecipado pelo Datafolha. Mas ela está dirigida para o alvo errado.
Se o Senado pretende evitar o risco de pesquisas "piratas", baseadas em metodologias impróprias, o melhor a fazer é propor que a atual legislação, que se revelou adequada, passe a vigorar não apenas em anos eleitorais.
Deveria valer para qualquer ocasião a norma de fornecer à Justiça Eleitoral informações sobre quem contratou a pesquisa, a metodologia, o valor e a origem dos recursos, entre outros itens exigidos pela lei. Esse seria um passo importante para evitar o surgimento de dados "surpreendentes", em geral de interesse de políticos, a respeito dos quais a sociedade não tem informação nem garantia.
Na mesma linha, mas na esfera da autorregulação, seria interessante que os institutos publicassem a íntegra das sondagens na internet -possibilitando a consulta de bases estatísticas e questionários aplicados.
Ainda há tempo para que o bom senso prevaleça e a inadequada emenda Crivella seja derrubada no Congresso.

UM ANO SE PASSOU
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
13/9/2009

VÃO NA direção correta as diretrizes acordadas recentemente na Suíça pelas principais economias do mundo com relação às regras que deverão balizar a atuação dos bancos no futuro. O acordo de princípios chega um ano após a quebra do banco americano de investimentos Lehman Brothers, evento que fez eclodir a fase mais aguda e dramática da crise mundial.
As novas diretrizes incluem critérios mais rígidos para a constituição das reservas que os bancos são obrigados a manter, procurando aumentar a qualidade desses ativos. Outro princípio acertado é o estabelecimento de um teto para o volume de empréstimos que os bancos podem fazer com recursos de terceiros.
Uma inovação interessante é o comando para que, em momentos de crise, os bancos ampliem o seu colchão de capital, inclusive por meio da imposição de restrições à distribuição de lucros. A ideia é que as instituições possam contar com maior capacidade de absorção de prejuízos nesses momentos, o que é importante para sua solidez financeira.
Embora no rumo correto, as diretrizes ainda vão percorrer um longo caminho até sua tradução em regulamentação efetiva para os bancos. A emissão de regras objetivas deverá passar por uma negociação que, na melhor das hipóteses, irá se estender até o final deste ano. A implementação, em caráter experimental, deverá começar em 2010.
A preocupação é não minar o incipiente processo de recuperação da economia mundial, impondo restrições a empréstimos neste momento ainda delicado. Mas não se pode simplesmente esquecer essa agenda regulatória. Décadas de desleixo ideologicamente tolerado das autoridades financeiras, vale lembrar, custaram caríssimo aos cofres públicos e ceifaram milhões de empregos mundo afora.

PROPOSTA FORA DO RUMO
EDITORIAL
A GAZETA (ES)
13/9/2009

O governo federal tem antiga e expressiva dívida de investimentos em infraestrutura no Espírito Santo, e ainda não achou a fórmula eficaz de resolvê-la.

Isso é visto na morosidade sobre a implementação de um porto de águas profundas, indispensável ao futuro do comércio exterior do país; nas arrastadas obras do Contorno de Vitória, que tem provocado até protestos de moradores, em função de frequentes acidentes; e na novelesca reforma para modernizar e ampliar o Aeroporto Eurico Salles, em Vitória.

Nesta semana, surgiu mais um fato preocupante. É a proposta sobre a rodovia federal 101, uma das mais importantes existentes no Estado. A idéia sobre a sua privatização não é nova – remonta desde a época do governo FHC –, e é vista como alternativa para que receba melhorias e cuidados de gestão que o setor público não tem sido capaz de realizar. As perigosas condições de tráfego não deixam dúvida sobre a negligência estatal.

No entanto, o modelo de privatização proposto é inaceitável sob a ótica do interesse coletivo dos usuários da rodovia – e é isso que deveria prevalecer em uma decisão lógica. De acordo com o estudo apresentado em Vitória pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), as obras de melhoria de trafegabilidade previstas só seriam concluídas no longínquo ano de 2030.

O trecho sul da BR 101, considerado o mais crítico e com alta probabilidade de acidentes, só começaria a ser refeito a partir de 2025, com previsão de estar concluído cinco anos mais tarde. Parece piada.

É óbvio que não dá para esperar tanto. No prazo tartarugal, estendido até 2030, o setor público teria condição de fazer as obras. Nem precisaria privatizar, o que evitaria o pagamento de pedágio pelos usuários.

Idéia deste tipo, apresentada pela ANTT, talvez seja decorrente de pouco conhecimento da realidade socioeconômica do Espírito Santo. É difícil imaginar que não seja por isso. A parte capixaba da BR 101 é obsoleta. Remonta a planejamento de tráfego feito há muitas décadas, em cenário muito diferente do atual.

A verdade é que a 101 está completamente inadequada à demanda do Espírito Santo. Causa constantes prejuízos à economia. Constitui gargalo à circulação de passageiros, afetando o turismo, e de mercadorias, dificultando importações e exportações. Também eleva o custo de utilização de veículos devido às más condições da pista de rolamento.

Pior é que, além da demora, a proposta estabelece que a cobrança de pedágio seja iniciada já nos próximos seis meses, após a assinatura de contrato com a empresa vencedora da licitação. E o preço não é nada acanhado. A tarifa indicada é de R$ 5,00 para cada 100 km, encarecendo o transporte rodoviário. Seria mais um golpe na competitividade da economia.

Beira o absurdo, sob a ótica do usuário, pagar por benefício que não existe e esperar durante décadas para que seja feito no futuro. Para a empresa vencedora da licitação deve ser confortável fazer caixa recebendo pagamento com muitos anos de antecedência por serviços a serem feitos.

Ademais, o modelo de concessão previsto para a BR 101 não contempla toda a reforma apontada por técnicos como necessária para a rodovia. Não bastariam obras de duplicação. É indispensável a retificação de alguns trechos para eliminar curvas perigosas. A Polícia Rodoviária Federal registrou 449 acidentes de janeiro a agosto deste ano, na parte dessa rodovia no Sul do Estado.

O Ministério Público Federal tem inteira razão ao recomendar à ANTT a rejeição do estudo de privatização da BR 101, da forma como foi feito.

PRESERVAÇÃO DO MERCADO
EDITORIAL
ESTADO DE MINAS
13/9/2009

Demorou muito para o Brasil se fechar um pouco aos importados

Parece que o Brasil tomou emenda de ser tido mundo afora, principalmente na América Latina, como extremamente benevolente com outros países no campo comercial, em detrimento dos interesses das empresas nacionais. A cobrança de taxa adicional de US$ 12,47 em cada par de calçado da China pode ser o início da reação brasileira à invasão de mercadorias vindas do gigante asiático. De lá chegam 83% dos calçados importados pelo Brasil, pelo valor médio, entre janeiro e julho, de US$ 7,03, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados). O setor teve saldo positivo de 7,5 mil vagas de janeiro a junho, elevando o contingente de trabalhadores diretos para 301,7 mil. Porém, no mesmo período de 2008, o total era de 325,1 mil postos. A medida antidumping proporcionará à indústria nacional a retomada da produção de tênis e calçados esportivos, que se tornou inviável diante da concorrência chinesa, apesar de a demanda interna se encontrar em expansão.

Demorou muito para o Brasil fechar a porteira escancarada aos importados e defender os interesses da economia nacional na conquista ou preservação de mercados. A Argentina não hesita em taxar nossos produtos que possam prejudicar sua indústria. A missão brasileira ouviu recentemente em Buenos Aires que o governo do país vizinho não atenderá os apelos brasileiros para eliminar as barreiras ao comércio bilateral. Mesmo que o secretário do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Ivan Ramalho, argumente que as barreiras favorecem a entrada dos artigos chineses em prejuízo dos nossos. Mas os argentinos dizem exatamente o contrário: “Nos primeiros oito meses deste ano, a aprovação das licenças não automáticas de importação da Argentina tem permitido que os produtos de origem brasileira preservem e, inclusive, aumentem sua participação no mercado argentino”. Para a Casa Rosada, o Brasil ganhou mercado mais que a China, uma vez que em móveis de madeira chineses só exportou para a Argentina 25 mil unidades em julho, enquanto nosso país vendeu 173 mil peças. No setor de calçados, também em julho, foi liberada a importação de 1,1 milhão de pares brasileiros e aprovadas 426 mil licenças para os chineses. Nesses dois casos, houve um acordo entre os setores privados de ambos os países para a autolimitação das exportações brasileiras. Nas reuniões, estavam representantes dos setores de pneus, bicicletas, brinquedos, têxteis e laticínios. Apesar disso, é uma surpresa a decisão do governo federal em aplicar, por seis meses, o direito de antidumping contra os sapatos chineses. Assim, poderão ser abertos até 60 mil postos de empregos para o setor no país nos próximos 12 meses, segundo o diretor da Abicalçados, Heitor Klein.

E o Brasil não está só em relação à China: ontem, o governo dos Estados Unidos aumentou drasticamente a tarifa de importação de pneus chineses, depois de concluir que a entrada em massa desses produtos no mercado norte-americano provocou graves perdas econômicas. No primeiro ano, ela será 35% o valor de cada unidade, caindo para 30% no segundo e 25% no terceiro. Medida entra em vigor em 15 dias. Aqui, espera-se que agora outros setores tenham o mesmo tratamento. Afinal, mão de obra farta e desocupada não é problema para o Brasil.

DEMOCRACIA ACOSSADA NA AMÉRICA LATINA
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE
13/9/2009

Ventos autoritários teimam em trazer do passado os fantasmas das ditaduras latino-americanas. E não sopram dos quartéis. Vêm de dentro de palácios ocupados por governantes democraticamente eleitos. Escolhidos por seus povos com o compromisso de consolidar a democracia, levar seus países à estabilidade política plena, dão meia-volta. Sem pudor, ferem a liberdade com ataques sistemáticos à imprensa. Promovem perseguições, abusam da força.

Na Venezuela, de Hugo Chávez, a guerra é declarada. A intolerância à crítica é explicitada com o fechamento de meios de comunicação. É fácil: como os veículos dependem de concessões públicas, basta não renová-las. A disposição para calar a mídia não deixa faltarem argumentos. Qualquer detalhe vale. O tamanho da ofensiva pode ser medido pela ameaça de fechamento de mais de 200 rádios. A intimidação é séria. Em 2007, a maior rede de televisão do país, a RCTV, foi tirada do ar, à exceção da programação paga, veiculada por cabo. Mira-se agora a Globovisión.

Pupilos de Chávez, Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia, seguem a lição do mestre e não dão trégua à imprensa. O modus operandi é o mesmo. De discursos que incitam a população a ver jornais, rádios e TVs como instituições a serviço de um império imaginário que ameaça a soberania e o povo, até o acossamento das empresas com ações administrativas ou processos legais. A lei da selva impõe a empresários das comunicações uma só regra de sobrevivência: ou são simpáticos e subservientes ao Poder Executivo, ou perdem o controle dos grupos.

Na última semana, a Argentina entrou ostensivamente nesse clube de países cujo despotismo vai às vias de fato, à agressão pura e simples, quando o intuito é silenciar supostos opositores. A presidente Cristina Kirchner mostra as garras, não é de hoje: seja abusando da retórica de que a imprensa portenha goza de superpoderes, seja distinguindo os meios de comunicação, favorecendo aliados com publicidade oficial e entrevistas exclusivas, negadas aos demais. Também pressiona a Câmara dos Deputados a aprovar — antes que perca a maioria na Casa com a posse dos novos congressistas em 10 de dezembro — polêmico projeto de lei de radiodifusão que cria restrições ao audiovisual.

Mas a chegada de centenas de fiscais da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip), o Leão argentino, à sede do jornal Clarín no fim da tarde de quinta-feira foi violência sem precedentes no governo Kirchner. As tentativas de se desvencilhar da ação, com a Casa Rosada e a direção do órgão negando terem ordenado a operação, não amenizam a gravidade do episódio. Nem aliviam a responsabilidade do Executivo. Há relatos de que inspetores tentaram coibir a própria cobertura jornalística do incidente. A intervenção sangra a liberdade de imprensa, reabre feridas nas muito jovens democracias do subcontinente. Urge mobilizar os movimentos sociais antes que sopros autoritários dessa ordem terminem por formar monumental tsunami que, mais uma vez, varrerá as liberdades da América Latina.

LEGISLATIVO ATRELADO
EDITORIAL
DIÁRIO DE CUIABÁ (MT)
13/9/2009

Foram frustrantes as tentativas do reduzido bloco de oposição na Câmara Municipal de Cuiabá de instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as polêmicas obras do Programa Aceleração do Crescimento (PAC), em Cuiabá. Atuando como um rolo compressor – afinal, dos 19, pelo menos 14 vereadores sustentam politicamente o prefeito Wilson Santos (PSDB) -, a bancada governista matou no nascedouro a comissão.

Como se recorda, ao propor a CPI do PAC, o vereador Lúdio Cabral argumentou, com razão, que a sociedade cuiabana precisa ser esclarecida sobre o andamento das obras desse programa federal, sobretudo, as de saneamento básico. Afinal, é recente a deflagração da Operação Pacenas, por meio da qual a Polícia Federal e o Ministério Público Federal expuseram, aos olhos da opinião pública, uma triste realidade: a existência de uma verdadeira quadrilha que operava um esquema de fraudes nas licitações de obras do PAC.

O envolvimento de servidores da Prefeitura, supostamente macomunados com grandes empreiteiros, obviamente, gerou uma série de suspeitas, sendo a principal delas a de que o Poder Público Municipal, quando nada, poderia ter algum tipo de ligação com o crime. Em que pese o nome do prefeito Wilson Santos não ter sido citado, por exemplo, nas ligações que a PF interceptou com autorização judicial, certamente, não haveria nenhum inconveniente em o Legislativo buscar passar a limpo a complicada (e sempre suspeita) execução dessas obras.

Chama a atenção, nesse contexto, reunião levada a efeito na manhã da última sexta-feira (11), entre a presidente da Sanecap, Eliana Rondon, e 10 vereadores. O encontro seria para a servidora pública, na condição de legítima representante do prefeito municipal, explicar aos parlamentares as ações que se desenvolvem, no momento, para explicar (ou tentar) o estranho sumiço de pneus, canos de PVC e até de cloro das dependências da companhia de saneamento. O prejuízo está estimado em R$ 200 mil, que, obviamente, já foi debitado na conta do contribuinte.

O que seria uma reunião de esclarecimentos, no entanto, virou uma sessão de convencimento, considerando que, ao final do “debate” e do, por assim dizer, “clima de emoção” (Eliana Rondon teria chorado), os vereadores mudaram completamente o discurso e concluíram, numa unanimidade que até gera suspeitas, que não há motivo (?) para se instalar uma CPI para investigar o PAC, nem a Sanecap.

Os interesses políticos e as conveniências pessoais, como se sabe, costumam falar mais alto nessas situações. CPI, na maioria dos casos, passa a ser palavra proibida, ainda mais num Legislativo, que, embora seu presidente, Deucimar Silva (PP), pregue transparência e moralidade como “marcas de gestão”, não tem condições de propagandear independência. A abortagem das duas CPI é uma história muito mal contada.

“É estranho que, repentinamente, a Câmara aborte duas comissões Parlamentares de inquérito”

OS CAÇAS E O DESLIZE
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
13/9/2009

A celebração da Semana da Pátria começou com uma notícia de peso: diante do presidente francês, Nicolas Sarkozy, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, tornou público um acordo militar de R$ 22,5 bilhões para a aquisição de 50 helicópteros, de 4 submarinos convencionais e da tecnologia para desenvolver um submarino nuclear, um estaleiro e uma base naval. Lula deu a entender que o Brasil também compraria da França 36 caças ao preço unitário de R$ 255 milhões. O anúncio merece algumas considerações.
A primeira refere-se à adequação e à necessidade da compra. Seria mesmo a hora de investir nesse setor? Diante da obsolescência dos equipamentos das Forças Armadas, a compra faz todo o sentido. E não se trata de uma corrida bélica. Se este fosse o caso, o Brasil precisaria de uma frota de caças 100 vezes maior, dada a extensão do nosso território. Para se ter uma ideia, o USS George Washington, apenas um dos porta-aviões norte-americanos usado na guerra do Iraque, tem capacidade para 80 aeronaves.
A questão é outra, de afirmação da soberania. Um exemplo de quando tal afirmação foi necessária: no dia 4 de junho de 1982, quando os radares brasileiros detectaram o bombardeiro britânico Vulcan, da RAF, a força britânica, voando a 340 quilômetros ao sul do Rio de Janeiro. O aparelho voltava das Malvinas à sua base na Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, mas teve um defeito mecânico que o impediu de fazer um reabastecimento aéreo e ficou sem combustível. Como o avião não respondeu ao contato por terra, dois caças F-5 Tigger II da FAB o interceptaram e o conduziram à base aérea do Galeão. Sem participar do conflito travado entre Reino Unido e Argentina pelas Malvinas, o Brasil precisou mostrar que zelava por seu espaço aéreo. Conseguiu fazer isso e manter sua neutralidade no conflito enquanto se desenrolavam as negociações para a devolução da aeronave inglesa.
Os novos submarinos também são essenciais para a exploração do que a Marinha chama de Amazônia Azul, o mar territorial brasileiro cuja dimensão equivale à da Amazônia. As inúmeras riquezas que podemos extrair do mar demandam equipamentos de alta tecnologia.
Se não parece haver dúvidas sobre o destino dos investimentos, o mesmo não se pode dizer sobre a condução das negociações. O presidente Lula não esperou o fim da licitação para a compra dos caças e a precipitação pode ter um preço alto. Aqui entram as demais considerações sobre o caso.
A vantagem do pacote francês, conforme ressaltou Lula, é a inclusão da transferência tecnológica. Os EUA, cujos caças fabricados pela Boeing seriam vendidos ao preço unitário de R$ 182 milhões, também acenam com a possibilidade de transferir tecnologia, mas a decisão ainda dependeria de um incerto aval do Congresso. Quanto à Suécia, a terceira das nações que disputa a venda de caças para o Brasil, a situação é mais óbvia: sua aeronove, apesar de barata, ainda não existe; é apenas um protótipo.
Tudo aponta, pois, para a oferta francesa. Sabendo disso, Lula não resistiu e, em clima de festa, deixou isso claro para Sarkozy. Em matéria de barganha econômica, a tática não poderia ser pior. Como obter descontos (mesmo um pequeno porcentual faria enorme diferença dada a escala das cifras), melhores prazos e outras vantagens numa negociação em que um dos vendedores é gentilmente informado de que tem a preferência do comprador? Lula, que vive citando a sagacidade das donas de casa na gestão do orçamento familiar, bem poderia ter se lembrado do pragmatismo que elas aplicam à economia doméstica.

BAIXAR A GUARDA
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
13/9/2009

O estudo do economista polonês Martin Canoy que destaca a qualidade do ensino cubano não representa prova científica sobre a inabilidade da educação brasileira em avaliar corretamente, completando, assim, o processo do aprendizado. Mas não faltam indícios de alguma coisa está fora de ordem entre os muros da escola.
Nossos índices de repetência e evasão às vezes atingem escandalosos 60% de uma única turma – acompanhados do decreto de que os alunos têm dificuldade de aprendizado. Se mais da metade das crianças e adolescentes expostos a um mínimo de quatro horas diárias de aulas não aprende, tem-se aí um bom sinal de que a avaliação poderia servir de indicativo para melhoras, não de marcha fúnebre.
As avaliações do MEC, reconheça-se, estão servindo de remédio para diminuir a resistência dos professores em discutir o assunto. Causam estardalhaço e geram chacotas, mas meio que a fórceps estão fazendo nascer uma cultura de resultado escolar. Ao procurar metas e ser cobrado por elas, o educador baixa a guarda e amacia o discurso algo sagrado como a educação costuma ser tratada, inibindo a crítica.
Curiosamente, na terra de Paulo Freire, a crítica é um elemento tão educativo quanto o conteúdo ou o método. Mas costuma ser recebida com pedras na mão. Tem de mudar. Com um pouquinho de empenho, o Brasil melhora ainda mais. Já alcançou a universalização do ensino fundamental. Em uma década tem 20% de adolescentes de 15 a 17 na sala de aula. Agora tem de perseguir qualidade. Se o preço for barato como em Cuba, não há mesmo o que temer.

AS LIÇÕES DA CRISE
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
13/9/2009

Um ano depois do início da crise econômica mundial provocada pela quebra de grandes grupos financeiros, o sentimento de consenso é de que o pior já passou. Indicadores e outros instrumentos usados para medir os efeitos dos danos e sinalizar perspectivas expressam uma clara percepção de recuperação dos mercados e, o que é mais importante, de resgate da confiança de empresas, governos, instituições internacionais e consumidores. Esses sinais positivos, no entanto, não são suficientes para que todos os protagonistas da crise deem por encerrada a gigantesca tarefa de salvar o mundo da ameaça de uma depressão.

O cenário do primeiro aniversário do colapso mundial contraria as previsões mais pessimistas, que persistiram até o início de 2009, quando alguns analistas chegaram a insistir na possibilidade de uma recessão prolongada. Não foi o que aconteceu. Sabe-se que as perdas são grandiosas. Só o sistema financeiro mundial teria assistido à evaporação de mais de US$ 4 trilhões. Consumiram-se milhões de empregos, perdeu-se renda. Empresas, governos e especialmente as pessoas foram abalados pela perda de credibilidade em um sistema que distribuía créditos sem garantias e propagava a ideia de que assim funcionava a lógica da prosperidade.

A vulnerabilidade do sistema financeiro é um dos principais pontos de uma reflexão ainda inconclusa, que não pode ser abandonada em meio a uma certa euforia com a capacidade de reação das economias. Governos, parlamentos e organismos reguladores continuam diante do desafio de estabelecer novas regras para o funcionamento dos mercados financeiros, que representem essencialmente maior vigilância. Há entre analistas a percepção de que os primeiros movimentos nesse sentido, liderados pelos Estados Unidos e por algumas nações europeias, perderam o ímpeto enquanto os sinais de melhoria se apresentavam.

Seria imprudente se, depois de tanto esforço para que a produção fosse retomada em bases seguras, como sugere o atual momento, os grandes protagonistas do combate à crise abandonassem o projeto de adotar políticas mais rigorosas para a racionalidade dos mercados. Isso não deve significar, sob hipótese alguma, a adoção de amarras e interferências lesivas ao princípio do livre mercado. Espera-se, isso sim, que o próprio mercado financeiro entenda que a preservação dessa liberdade depende de normas capazes de evitar que todos os setores da economia se submetam mais uma vez aos danos de ações provocadas pelo desregramento e pela imprudência.

O balanço da crise também estimula outro debate não concluído, provocado pelo fortalecimento do Estado como gestor do socorro ao sistema financeiro mundial, sobre os limites das políticas pontuais de governo nesse momento de reacomodação da economia mundial. Mais do que isso, é preciso refletir sobre as atribuições de fundo dos governos, para que às distorções do mercado financeiro não se contraponham, depois das incertezas, eventuais deformações do Estado.

MÃO ESTENDIDA
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
13/9/2009

Depende agora da população, com suporte do setor público, o êxito da campanha lançada recentemente pela prefeitura, na tentativa de criar uma nova cultura de convivência pacífica entre pedestres e motoristas de Porto Alegre. A mão estendida, marca da campanha Novo Sinal, procura assegurar os direitos do cidadão que circula a pé numa cidade em que o tráfego de veículos, historicamente tumultuado, é cada vez mais ameaçador para quem tenta atravessar uma rua.

O eixo da campanha, que dá prioridade ao pedestre, segue o exemplo de outras ações bem-sucedidas no esforço para humanização de metrópoles e de pequenas cidades. Nenhuma inovação de engenharia de tráfego será capaz de cumprir sozinha a tarefa de se buscar a civilidade no trânsito. Mudanças de postura, que mexem essencialmente com a cultura exacerbada de exaltação do automóvel como dono das ruas, são decisivas nesse sentido.

É o que Porto Alegre finalmente se dispõe a fazer, depois de décadas de omissão das autoridades e da complacência da própria população, resignada com a falta de iniciativas corajosas nessa área. Campanhas como essa induzem todos a refletir sobre o paradoxo contido em tais iniciativas, que tentam convencer os motoristas de que também eles, em algum momento, são pedestres. Esse é um desafio mundial, que Porto Alegre deve levar a sério depois de adiar por tanto tempo o enfrentamento de um problema que provoca tragédias e dilacera famílias.

Espera-se que a prefeitura faça a sua parte, com a manutenção das faixas de segurança e outras sinalizações, além da fiscalização rigorosa, e que a campanha não se esgote no seu impacto imediato. A mão estendida deve se transformar no símbolo de uma nova Porto Alegre mais cordial, mais respeitosa e mais solidária. Os porto-alegrenses têm a grande chance de melhorar a convivência nas ruas e reverter a péssima reputação como habitantes de uma cidade em que o trânsito se consagrou como a explicitação de desrespeitos e de egoísmo.

ONDA CONTINENTAL
EDITORIAL
DIÁRIO DE PERNAMBUCO
13/9/2009

Não se sabe em que outra parte do mundo, que não a América Latina, os mecanismos e instrumentos do processo democrático de governo têm sido utilizados ou se pretendem utilizar da parte dos políticos para a finalidade muito particular de estender mandatos executivos.

Um quadro no qual se considerem pelo menos onze situações nacionais nas Américas mostra de que maneira e com quanta ênfase os políticos puxam para si as sardinhas do poder, da perpetuação do mando ou, pelo menos, da ampliação dos tempos nos quais as respectivas leis e constituições mandam fazer o contrário do que insinua tanta ambição desabrida. A América Latina da maioria dos políticos que ultimamente tomaram conta da administração pública, melhor dizendo, do poder indiscriminado e arbitrário, é, hoje, a pior escola das praxes que se denominam democráticas, mas que, impostas ao povo contra as mais simples regras da interpretação axiológica dos velhos textos, arruinam a comezinha hermenêutica e até mesmo o vulgar entendimento dos pregões mais simples.

Se existe uma marca do processo democrático que agora se perverte a torto e a direito, para tornar os mandatos mais longos do que legalmente assentado, é a rotatividade do exercício do poder. Outra é a eleição livre de coações, para que o voto represente a vontade livre do cidadão. A terceira é a força da vontade plebiscitária quando ela não se deixa conduzir de fora para dentro dos cenários onde sucedem os prélios eleitorais. Ao contrário, o plebiscito é conduzido pela forma a mais canhestra possível, a fim de que saia campeão dos votos o atrevido que apenas lança mão dos formulários da eleição democrática. O plebiscito é uma verdade numérica, mas, também e simultaneamente, uma mentira deslavada que se pespega na cara do cidadão. Já o voto livre não dispõe desse atributo só porque assim o proclamam os editais para que se formalize a eleição. A substituição do esposo pela esposa, do parente por outro parente, no exercício ostensivo do poder, não significa que o mando político tenha mudado de mãos e que,deste modo, verificou-se uma das praxes do regime democrático que é a rotatividade no exercício do poder administrativo.

Mas vamos aos fatos. Na Venezuela, o número de reeleições não conhecerá limitações. No Equador, o mandato presidencial será repetido, segundo a regra. Na Colômbia, democratas de carteirinha imitam o procedimento anterior, para que o dirigente máximo do país venha a governar, pelo menos, o dobro do tempo inicialmente previsto. Na Argentina, o casal Kirchner pode voltar ao governo. Na Bolívia, o atual primeiro mandatário pode concorrer a novo e seguido mandato. Em Honduras, põe-se na mesa a ideia da reeleição do presidente do país, daí a deposição do presidente Zelaya. Na Nicarágua, o atual primeiro mandatário está no poder há um ano, mas, já propôs a própria reeleição

Desse quadro cheio de atitudes antidemocráticas salvam-se, felizmente, o Brasil, o Chile e o Uruguai, cujas leis não admitem eleições seguidas do mesmo mandatário, e o México, que estatui mandatos longos, porém, sem a possibilidade de reeleição para quem tenha exercido o poder.

As exceções de Brasil, México, Uruguai e Chile não apagam a mancha enorme do opróbrio que cobre, infelizmente, a história política atual do continente. A infelicidade daqueles destinos é coisa tão vasta que não se sabe dizer se a América Latina possa, um dia, abrigar, como noutros cantos do mudo, as causas, os dísticos, os processos característicos de uma democracia digna do nome.

Saturday, September 12, 2009

- EDITORIAIS 12/9/2009

O QUE PENSA A MÍDIA
12/9/2009 - EDITORIAL
CERCO À LIBERDADE
EDITORIAL
O GLOBO
12/9/2009

Viceja na América Latina uma fórmula maquiavélica que utiliza instrumentos democráticos para legitimar o autoritarismo demagógico e a hipertrofia do Executivo. O paradigma é a Venezuela de Hugo Chávez, caudilho há dez anos no poder e que lá ficará enquanto o “povo” venezuelano permitir, pois cuidou de garantir “democraticamente” — via referendo — a reeleição indefinida, jogando no lixo a alternância.
Além de Cuba, Chávez tem aliados fiéis nos governos de Bolívia, Equador e Nicarágua.
O modelo é incompatível com a liberdade de imprensa. O venezuelano é o que mais longe foi na repressão à mídia, já tendo fechado uma grande rede de TV e mais de 30 emissoras de rádio. Este mês, abriu o sexto processo contra a rede Globovisión, ameaçada de fechamento.
No Equador, o presidente Rafael Correa deverá enviar ao Congresso um projeto para regular o conteúdo dos meios de comunicação.
Mês passado ele pediu o fechamento da TV Teleamazonas. Na Bolívia e na Nicarágua, Evo Morales e Daniel Ortega rezam pela mesma cartilha.
O sufocamento da liberdade de imprensa no continente se estende, de forma também lamentável, à Argentina.
Desde o mandato de Néstor Kirchner, a Casa Rosada é acusada de manipular a verba de publicidade oficial para cooptar veículos e punir os críticos, independentes.
No governo de sua mulher Cristina Kirchner, a pressão se acirrou.
O principal alvo é o grupo Clarín, que acaba de viver uma situação kafkaniana: um número estimado entre 150 e 200 fiscais da Receita Federal argentina deu uma inédita batida na sede da empresa, que o governo argentino alegou não ter sido autorizada. Mas, ao mesmo tempo, a Casa Rosada apressa a tramitação de um projeto que regula o setor de rádio e televisão — concebido para atingir diretamente o grupo Clarín.
O Brasil tem sido vítima de outra forma de restrição à atuação da imprensa.
São decisões de instâncias iniciais da Justiça, chamadas a opinar pelos supostos prejudicados, e que na prática constituem uma forma de censura, logo, um ato inconstitucional.
“O Estado de S. Paulo”, por exemplo, foi obrigado a suspender a cobertura da operação Boi Barrica, da PF, que investiga uma teia de malfeitorias na família do presidente do Senado, José Sarney.
Enquanto não houver nova decisão judicial, o jornal paulista continuará sob censura. E é surpreendente a demora no desfecho do caso. Não importa se o agente da coerção é o arbítrio chavista, os fiscais de Kirchner ou togas brasileiras. Há um cerco continental à liberdade de imprensa.
Sem ela, outras são mais facilmente suprimidas.

O DESCRÉDITO ESTÁ À VISTA NO RETROVISOR
EDITORIAL
JORNAL DO BRASIL
12/9/2009

A ARMAÇÃO ARQUITETADA POR Flavio Briatore e Pat Symonds, a cúpula da escuderia Renault, e executada pelo brasileiro Nelsinho Piquet em 2008 – jogar o carro contra o muro para forçar a entrada do safety car, beneficiando o companheiro de time, Fernando Alonso – joga a Fórmula 1 num enlameado de descrédito perigosíssimo para o futuro da categoria. Para limpá-la, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) precisa ser firme, não demonstrar a menor falta de pulso e afastar do esporte os aventureiros que pensam não em vencer, mas em se dar bem. Esse descrédito está no vácuo da F-1, já é visto claramente pelo retrovisor.

O escândalo, talvez o mais grave da história por envolver uma manobra desonesta dentro da pista, tem dois personagens principais, Briatore e Nelsinho, que apesar de terem ambos culpa no cartório – ou no paddock estão em situações distintas. O primeiro precisa de punição prática, o segundo já está punido moralmente até quando decidir encerrar a carreira.

Vejamos o primeiro caso. Os métodos questionáveis de Flavio Briatore começaram a se tornar públicos em sua segunda temporada à frente da Benetton, em 91. Três anos depois, a situação ficou mais explícita com uma série de denúncias contra a escuderia, que manchou o primeiro título mundial de Michael Schumacher – numa temporada já marcada pela tragédia da morte de Ayrton Senna. A categoria reintroduzia o reabastecimento, que viria a ser decisivo na estratégia das equipes.

Briatore mandou tirar o filtro das máquinas de sua equipe, o que acelerava o processo, mas tornavao perigoso. A tramoia foi descoberta após o incêndio no carro de Jos Verstappen no GP da Alemanha. Por sorte, o acidente teve pequenas proporções e ninguém saiu ferido com gravidade.

No mesmo ano, a Benetton foi acusada de usar dispositivos eletrônicos proibidos camuflados em seu carro – controles de tração e de largada. Schumacher ainda fez o serviço de vencer o campeonato jogando o carro sobre Damon Hill, no GP da Austrália. No fim de 94, Briatore comprou a francesa Ligier para ter o direito de uso dos motores Renault, os melhores da época.

O regulamento da FIA não permitia que ele fosse o dono da equipe e ele a repassou a Tom Walkinshaw, dono da TWR, também conhecido por manobras, digamos, pouco comuns em outras categorias. O que mais falta para que a FIA elimine em definitivo o palhaço do circo da F-1? Já o caso de Nelsinho representa outro nível de gravidade. Ele foi ‘apenas’ um instrumento, e trocou a confissão por uma ‘absolvição’. Só que a imagem de um piloto é muito forte, é ele que faz as pessoas ligarem a TV aos domingo para ver as provas, e ele a quem as crianças querem imitar e a quem idolatram.

Nelsinho pode não ser punido pelos tribunais, pode encontrar alguém que se disponha a acolhe-lo numa equipe, pode ter a ajuda do dinheiro do paizão e até comprar uma equipe. Mas não poderá se livrar da sombra do ato desonesto que cometeu – e cometeu porque quis, conscientemente. Não terá mais sequer o direito de dar uma derrapada, sem que não seja necessária uma investigação sobre o que provocou tal incidente – ou, mesmo sem investigação, sem que alguém fique com a pulga atrás da orelha. É um peso grande demais para qualquer carro de F-1 suportar.

O que mais falta para que a FIA elimine em definitivo o palhaço do circo?

A VOLTA AO CRESCIMENTO
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
12/9/2009

A economia brasileira voltou a crescer, a recuperação ganha impulso e 2010 só será um ano ruim se houver um repique da crise nos países mais desenvolvidos. A recessão no Brasil terminou no segundo trimestre, com um crescimento de 1,9% em relação ao primeiro. A confirmação veio ontem, quando se divulgaram as novas informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é um dos primeiros países a sair da crise, mas também nos Estados Unidos e na Europa há sinais de melhora. A recessão mundial deverá ser mais curta do que se previa, segundo as principais organizações multilaterais. É cedo para se descartar o risco de uma recaída, mas, por enquanto, as perspectivas globais são razoavelmente animadoras.

O governo festeja, com razão, a relativa brevidade da recessão no Brasil. Mas é preciso apontar dois outros fatos positivos. Em primeiro lugar, não houve crise cambial, embora a receita de exportações tenha diminuído. O País entrou na crise com um robusto superávit comercial e o saldo de exportações menos importações continuou positivo. O déficit em transações correntes aumentou, em parte por causa da maior remessa de lucros. Mas as pressões sobre o câmbio foram passageiras e o Banco Central, com bom volume de reservas, poderia tê-las enfrentado, se fosse necessário.

Dificuldades cambiais poderiam, como noutros episódios, ter provocado uma elevação de preços, mas isso não ocorreu e a inflação permaneceu controlada. Este é outro ponto positivo. Com a inflação contida, evitou-se a corrosão dos salários e também isso contribuiu para a sustentação do consumo, apesar do aumento do desemprego.

Com a contração da economia mundial, as empresas brasileiras passaram a depender quase exclusivamente do mercado interno para se manter. A demanda foi sustentada pelo consumo privado, com expansão de 2,1% sobre o primeiro trimestre. Dos demais componentes da demanda, o investimento se manteve em variação de um trimestre para outro e o chamado consumo do governo continuou em queda.

Do lado da oferta, houve resultados positivos na indústria e nos serviços, enquanto a produção agropecuária diminuiu. A redução de impostos para a compra de veículos deu resultados. O incentivo ao consumo de produtos eletroeletrônicos parece ter sido menos eficiente, mas também contribuiu para manter as fábricas funcionando. O corte de tributos pelo Ministério da Fazenda e as injeções de dinheiro pelo Banco Central foram iniciativas acertadas. Mas o governo foi incapaz de acionar um grande programa de investimentos, embora o Tesouro dispusesse de recursos para isso. A maior parte do aumento do gasto público federal concentrou-se na folha de salários e nos benefícios pagos pela Previdência - na despesa permanente e dificilmente redutível nos próximos anos.

O consumo privado provavelmente se manterá, até o fim do ano, como o principal motor da economia. Mas só haverá expansão econômica segura, nos próximos anos, com mais investimento produtivo e mais exportações. No segundo trimestre, o investimento em máquinas, equipamentos, infraestrutura e instalações ficou 17% abaixo do registrado entre abril e junho do ano passado. Quando se comparam os primeiros seis meses de 2009 e 2008, a diferença para menos é de 16,6%.

Se os empresários não voltarem a investir com certa rapidez, a capacidade produtiva será esgotada em pouco tempo e isso criará pressões inflacionárias. Mas será preciso também cuidar da infraestrutura, para eliminar gargalos cada vez mais prejudiciais ao País.

A importância do outro fator, a exportação, é facilmente compreensível. Maior crescimento da economia resultará em maior despesa com importações. O País precisará de bom volume de receitas com a venda de produtos, para manter a segurança nas contas externas. Isso é especialmente relevante, no Brasil, porque a conta de serviços (viagens, fretes e juros, entre outros itens) é estruturalmente deficitária. Como a recuperação do comércio mundial será provavelmente moderada, os exportadores brasileiros precisarão ser mais competitivos para disputar espaço no mercado. Mais do que nunca será preciso reduzir as desvantagens comparativas. O melhor começo seria a redução de impostos.

OS FORAGIDOS ESTRANGEIROS
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
12/9/2009

Embora o avanço da microeletrônica e da engenharia de telecomunicações tenha propiciado informação em tempo real há quase duas décadas, só agora o Brasil está pondo em prática um mecanismo especialmente concebido para coibir a entrada de criminosos estrangeiros que procuram o País para se esconder, como ocorreu com o assaltante inglês Ronald Biggs, o mafioso italiano Tommaso Buscetta e o traficante colombiano Juan Carlos Abadía.

O programa Fim de Linha, desenvolvido pela Polícia Federal (PF), promove a interligação online de todos os aeroportos, portos e postos de fronteira brasileiros. O programa também permite aos agentes da PF cruzar em tempo real as informações sobre quem está entrando ou saindo do País com o banco de dados da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol).

Além disso, o Fim de Linha garante o acesso ao Mind & Find - o sistema de cadastro duplo da Interpol, que registra todos os passaportes perdidos ou roubados no mundo inteiro. Até agora, o Brasil só tinha acesso à lista Mind, que contém os números dos passaportes. Com o Fim de Linha, o País também passa a ter acesso ao Find, que registra os nomes dos titulares dos passaportes. O acesso às duas informações dá às autoridades portuárias, aeroportuárias e de postos de fronteira maior segurança para barrar viajantes com passaportes suspeitos.

As cidades brasileiras mais procuradas para refúgio por criminosos estrangeiros são as grandes regiões metropolitanas, como São Paulo e Rio de Janeiro, e as capitais litorâneas do Nordeste. Como nessas áreas vivem pessoas das mais diversas origens étnicas, os criminosos estrangeiros acreditam que poderão nelas viver despercebidos. No caso das capitais nordestinas, com grande afluxo de turistas durante o ano todo, eles imaginam desembarcar com facilidade de voos regulares domésticos ou fretados. Essas cidades são escolhidas também por contarem com agências bancárias conectadas com o sistema financeiro internacional, o que facilita as operações de lavagem de dinheiro.

"O sistema Fim de Linha ficará o dia todo em funcionamento e nos sete dias da semana, porque em um mundo globalizado, com múltiplos acordos para facilitar o trânsito de pessoas e de mercadorias, as fronteiras não são mais vistas como barreiras que cercam territórios intransponíveis. São linhas de demarcação de soberania com um controle feito à luz do respeito aos direitos civis e que exige tecnologia e rapidez nas informações", diz o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, depois de lembrar que o programa também ajudará a acabar com a imagem do País como paraíso da impunidade. No imaginário dos diretores de Hollywood, o Brasil, desde o clássico Interlúdio, lançado por Alfred Hitchcock em 1946, até os recentes Inimigos Públicos, de Michael Mann, e Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet, é apontado como um dos refúgios prediletos dos criminosos internacionais.

Estereótipo semelhante também pode ser encontrado nas propagandas que, para atrair turistas, descrevem o Brasil como terra de farra, samba e carnaval. Para conter a entrada de estrangeiros que vêm ao País para fazer turismo sexual, atraídos por esse tipo de publicidade, o programa Fim de Linha também dispõe de uma "lista vermelha" com o nome de pessoas já condenadas no exterior pelos crimes de pedofilia e lenocínio. "Quem já pagou por esse tipo de crime não pode ser alvo de uma restrição. Mas, pelo padrão de comportamento dessas pessoas, sabemos que elas merecem ser monitoradas", diz o coordenador-geral da Interpol no Brasil, delegado Jorge Pontes. A medida foi inspirada na experiência da PF, que organizou uma lista de suspeitos de tráfico de animais silvestres e produtos da biodiversidade brasileira.

O uso da tecnologia e da comunicação online é uma das formas mais inteligentes de se combater a criminalidade. Ainda que posto em prática com atraso, pois o programa já existe há anos nos EUA e na União Europeia, o Fim de Linha é uma iniciativa importante, que coíbe a entrada de foragidos no País e melhora sua imagem no exterior.

AMEAÇAS À IMPRENSA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
12/9/2009

No tempo em que as ditaduras infestavam a América Latina, censura então imposta à imprensa era um corolário do arbítrio. Nas últimas duas décadas a região passou por um processo de redemocratização e os latino-americanos - com a exceção dos de Cuba - voltaram a poder exercitar a plena liberdade de expressão. Mas os tempos estão mudando de novo e em alguns pontos da América Latina já se registram manifestações cada vez mais explícitas de intolerância sob variadas formas de cerceamento da expressão.

A grosseira tentativa de intimidação, levada a efeito pelo governo Kirchner contra o principal grupo de comunicação da Argentina - que edita o diário Clarín -, é a mais nova agressão à liberdade de imprensa de uma verdadeira onda censória que varre vários regimes que se pretendem democráticos da América Latina. Na quinta-feira, mesmo dia em que o jornal portenho publicava uma reportagem revelando a concessão de um subsídio irregular de mais de 10 milhões de pesos (US$ 2,5 milhões) do Escritório Nacional do Controle de Qualidade Agropecuária, órgão subordinado à Receita argentina, a uma empresa agropecuária sem registro, um batalhão de cerca de 200 auditores fiscais ocupou a sede do Clarín, enquanto dezenas de outros agentes faziam o mesmo em outras unidades do grupo de comunicação e nas residências de seus executivos, apreendendo documentos, livros fiscais e interrogando funcionários. Coisa parecida não ocorrera nem mesmo durante o período mais duro do regime militar argentino.

As investidas do casal Kirchner contra a imprensa, em geral, e o Clarín, em particular, vêm desde que Néstor chegou ao poder, em 2003. O casal não aceita críticas dos jornais que, como tantos outros "companheiros" das vizinhanças, acusam de "golpistas". Desde 2008, quando entraram em conflito com os produtores rurais, os Kirchners acusam os meios de comunicação - e novamente o Grupo Clarín é o alvo predileto - de "desestabilizar" o governo. E o conflito tem recrudescido a ponto de a presidente argentina tentar aprovar no Congresso, a toque de caixa, uma nova lei de radiodifusão feita para contrariar interesses comerciais do Clarín e de outros grupos privados ao conceder a estes a exploração de apenas 33% dos canais de televisão, deixando os outros dois terços para o poder público, ONGs, igrejas, universidades e sindicatos. A propósito, organismos de defesa da liberdade de imprensa têm afirmado que vários jornais, TVs e rádios foram comprados nos últimos anos, na Argentina, por empresas sem tradição na área de mídia - mas todos tendo em comum o fato de serem "amigos dos Kirchners".

As ameaças à imprensa disseminadas pela América Latina nos últimos anos, em geral, têm seguido o "modelo" criado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, e copiado pelos dirigentes de Bolívia, Equador e Nicarágua e, agora, da Argentina. Entre os métodos de cerceamento estão ações judiciais e administrativas contra jornalistas, jornais, rádios e TVs, a edição de leis restritivas e a não renovação ou interrupção de concessões de funcionamento da mídia eletrônica. Em 2007 ele recusou-se a renovar a concessão da maior rede de TV do país, a RCTV e agora ameaça fechar a TV Globovisión e mais 200 rádios, depois de já ter cassado a licença de mais de 50 emissoras. Por sua vez, o presidente equatoriano, Rafael Correa, ameaça assumir o controle de rádios e TVs, alegando irregularidades nas concessões. No mês passado, Correa qualificou a imprensa como "o maior adversário de seu governo". Na Bolívia a estratégia de combate à imprensa é complementada por grande esforço para expandir os meios oficiais. Evo Morales já abriu 250 novas rádios, reaparelhou a TV estatal, ameaça "nacionalizar" o maior jornal do país, o La Razón, e processa o La Prensa.

No Brasil, é justo reconhecer, o presidente Lula tem se limitado a responder com retórica às críticas que recebe da imprensa. Aqui, a ameaça à liberdade de imprensa parte de um juiz: arrasta-se, sem decisão de recurso, a censura prévia judicial imposta ao Estado, a pedido de Fernando Sarney, administrador dos negócios do clã que tem por chefe o presidente do Senado, José Sarney. Caudilhos, lá, juízes, aqui, ameaçam um dos fundamentos da democracia.

CRESCIMENTO SEM INVESTIMENTOS
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
12/9/2009

O crescimento de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, em relação ao primeiro, confirmou que o Brasil saiu da crise. No entanto, alguns dados preocupam, pois indicam que não se trata de uma recuperação durável e mostram que o governo não aproveitou a oportunidade da crise para tomar medidas recomendadas em tempo de recessão.

Nos dados do semestre isso fica mais claro. O governo privilegiou o consumo, que, em relação ao primeiro semestre do ano anterior, cresceu 2,3%, para as famílias, e 2,6%, para o governo, enquanto o PIB caía 1,5%. No entanto houve declínio de 15,6% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), ou seja, nos investimentos.

Ao comparar dados do segundo trimestre com dados do primeiro, verificamos também alguns resultados preocupantes. O consumo das famílias foi alimentado pelo aumento de 3,3% da massa salarial (ao contrário do que ocorreu nos países industrializados), pelo crescimento nominal de 20,3% do crédito para pessoas físicas e pelos incentivos fiscais. Houve redução do consumo da administração pública, especialmente nos Estados e municípios, pois os impostos diretos aumentaram 3,8%, em valor, apesar dos incentivos.

O dado mais preocupante é que o crescimento do PIB em relação ao trimestre anterior não foi acompanhado de aumento dos investimentos, que não registraram variação e que, no primeiro semestre, caíram 15,6%.

A taxa de crescimento dos investimentos em relação ao PIB ficou em 15,7% - a menor desde 2003 e que havia atingido 18,5% no segundo trimestre de 2008. A explicação para isso é a queda da poupança em relação ao PIB, que neste ano, no segundo trimestre, ficou em 15%, ante 19% no mesmo trimestre do ano passado.

A FBCF é composta em cerca de 50% por máquinas e equipamentos, em 40% pela construção civil, que inclui parte dos investimentos na infraestrutura, e em 10% por fatores de menor peso. Sabemos que a Petrobrás realiza investimentos elevados, mas que a indústria reduziu os seus diante da incerteza sobre a evolução da demanda. Mas, ao contrário do que se esperava com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os investimentos na infraestrutura diminuíram.

O crescimento futuro enfrentará pontos de estrangulamento decorrentes de uma infraestrutura obsoleta para atender à demanda doméstica e à exportação, assim que a demanda externa se restabelecer.

ABUSO E INTIMIDAÇÃO
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
12/9/2009

Governo Kirchner segue padrão latino-americano ao invadir, numa falsa operação fiscal, o maior jornal de oposição

NO MESMO DIA em que noticiava mais uma irregularidade do governo Kirchner, desta vez num órgão subordinado ao fisco, o jornal argentino "Clarín" se viu invadido por um batalhão de cerca de 200 funcionários da Receita Federal.
Não estavam lá, evidentemente, para examinar as contas do principal órgão de imprensa da Argentina: um trabalho técnico de fiscalização não exigiria, sem dúvida, mais do que cinco auditores qualificados.
Estavam lá na tentativa primária de intimidar um jornal oposicionista. A Folha, que sofreu truculência equivalente nos primeiros dias do governo Collor -quando policiais federais ocuparam seu prédio sob o mesmo pretexto-, conhece bem o tipo de mentalidade por trás desse gênero de operações.
Ao contrário do que acontece nos casos clássicos de golpes militares latino-americanos, nenhum regime fascista surge pronto do dia para a noite.
Atos isolados de baderna, manifestações "espontâneas" de depredação e vandalismo, discursos ameaçadores que mais ou menos se desmentem em seguida, supostos "erros administrativos" dos escalões inferiores -é com esse tipo de ensaio que se vão testando as reais resistências do sistema democrático à investida autoritária.
Na pior das hipóteses, os mandatários da aventura podem sempre declinar de qualquer responsabilidade pelo que aconteceu; um capanga de menor envergadura será repreendido, o auxiliar de terceira linha será convidado a deixar seu posto, e tudo em tese volta ao normal.
Na hipótese de sucesso, a escalada continua. É o caso do venezuelano Hugo Chávez, que das mais variadas formas vai sufocando a democracia em seu país, e aperta o cerco -também com medidas de cunho supostamente administrativo- contra os meios de comunicação.
Decerto os índices de popularidade do governo argentino não lhe propiciam os lances de autoconfiança "bolivariana" registrados no norte do continente.
Mesmo assim, o desrespeito à liberdade de expressão é endêmico na América Latina.
Jornais são invadidos, em regimes formalmente democráticos. Bravatas e repreensões veladas fazem parte do discurso de quase todo governante. O direito à crítica parece ser visto como um ato de abuso e injustiça contra supostos benfeitores do povo.
Mesmo em algumas instâncias judiciais, a censura prévia é considerada forma legítima de controlar um órgão de comunicação. Haja vista o caso do jornal "O Estado de S. Paulo", há mais de um mês impedido de publicar notícias sobre alguns negócios da família Sarney.
Encarado de modo pessoal, familiar e caudilhesco, o poder não se conforma com a revelação das inúmeras irregularidades e abusos com os quais se perpetua. A boa notícia é que na América Latina ainda há jornais que tampouco se conformam com o estado de submissão e oficialismo a que querem reduzi-los.

COLEÇÃO DE ERROS
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
12/9/2009

O ACASO nada teve a ver com a trágica morte da jovem Ana Cristina Macedo, 17, atingida no último dia 31 pelo tiro, agora confirmado, de um guarda civil na favela de Heliópolis, na capital paulista. O que a vitimou foi uma lamentável coleção de erros de servidores que deveriam proteger a população.
Os três guardas envolvidos, oriundos de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, invadiram Heliópolis -fora de sua jurisdição- de arma em punho e dedo no gatilho. Já na capital, efetuaram naquela noite no mínimo dez disparos, em meio a uma perseguição motorizada a suspeitos de roubo.
Em depoimento, afirmaram ter atirado contra os bandidos. O descuido com as consequências dessa atitude parece claro, pois Ana Cristina estava a cerca de 30 metros do epicentro do tiroteio. Estima-se em até 125 mil pessoas -contingente superior à população de 95% dos municípios brasileiros- o total de moradores da favela, espremida num terreno de 1 km2.
O autor do tiro fatal deverá enfrentar em liberdade a acusação de homicídio culposo. Outro de seus colegas já estava sujeito a sanção apenas por vestir farda. Havia sido expulso da Polícia Militar em 1997. É espantoso que um profissional com esse histórico tenha sido novamente contratado para um posto na segurança pública.
Todos os três homens envolvidos na tragédia de Heliópolis poderão ser expulsos da guarda -a investigação continua em curso.
Os erros em cadeia do episódio aludem a deficiências que não se restringem ao destacamento municipal de São Caetano. O próprio modelo das guardas civis permite a prefeituras distintas organizar suas forças em meio a limites difusos, que criam zonas cinzentas de atuação.
O mais importante, contudo, é reforçar o treinamento dos policiais, em todo o país, sobre o uso responsável de suas armas.

RETOMADA VIGOROSA
EDITORIAL
A GAZETA (ES)
12/9/2009

A recuperação da economia brasileira, no segundo trimestre, foi a mais forte, comparando-se o desempenho dos demais países que estavam em recessão no mundo. Para os próximos trimestres, está previsto crescimento maior

O consumo das famílias é o principal motor do PIB. Teve crescimento de 2,1% em relação ao primeiro trimestre

Agora não falta mais o número oficial mostrando que o Brasil venceu a recessão. O IBGE constatou crescimento do PIB em 1,9% no segundo trimestre do ano. É a confirmação dos sinais que vinham sendo captados na produção e nas vendas da iniciativa privada, em diferentes segmentos.

O avanço de 1,9% em relação ao trimestre anterior é expressivo percentualmente para as atuais circunstâncias. Afinal, a crise econômica mundial ainda não foi debelada. No período, poucos países conseguiram feito assemelhado ao do Brasil.

Entre economias exponenciais, a da China – uma das poucas que não entraram em recessão – registrou alta de 2% no segundo trimestre, em relação aos três meses anteriores. Na França, o aumento do PIB foi de apenas 0,3%; o mesmo ocorreu na Alemanha; já a Inglaterra, um dos países mais afetados pela crise internacional, amargou queda de 0,7% do PIB. Nos EUA, houve recuo de 0,3%, dando sequência ao encolhimento iniciado no terceiro trimestre de 2008.

O desempenho do PIB brasileiro comparado ao dos integrantes do G20, não deixa dúvida sobre o grau de resistência da nossa economia a cenários adversos. Essa condição foi sedimentada em muito pouco tempo. Apenas 15 anos, a partir do Plano Real.

Observe-se que o PIB brasileiro ainda não retornou ao nível pré-crise. Seria querer demais. A economia não dá saltos. Em relação ao segundo trimestre do ano passado, o nível de crescimento da economia é 1,2% menor. No acumulado do ano até junho, o resultado foi 1,5% inferior aos primeiros seis meses de 2008.

Porém, o mais importante é que a trajetória é evolutiva, e assentada em sólidos fundamentos. A retomada do crescimento brasileiro não é bolha. É respaldada por inovações tecnológicas e decisões de investimentos em volumes cada vez maiores, embora cautelosos, em todas as áreas produtivas. Isso é revelado por todas as pesquisas empresariais realizadas a partir de julho último.

Nos últimos 12 meses até junho, há alta de 1,3% no PIB em comparação com os 12 meses anteriores. Para os próximos trimestres de 2009, a estimativa dos mercado é de que em cada um deles o PIB cresça mais de 2%.

O consumo das famílias tem sido o grande trunfo da performance econômica brasileira. Teve aumento de 2,1% em relação ao primeiro trimestre, o que mostra a disposição da população para ir às compras, mesmo em conjuntura de retração. Esse avanço vem sendo sustentado pela expansão da oferta de crédito (com ênfase na atuação dos bancos estatais) e pela melhoria do mercado de trabalho, fatores que ampliam a renda e o volume de dinheiro em circulação.

Sem dúvida, a redução de impostos também tem contribuído para aquecer o mercado interno. Vale lembrar que, em relação ao segundo trimestre de 2008, o consumo das famílias brasileiras teve alta de 3,2%. Ao longo do primeiro semestre, a evolução é de 2,3%; e, nos últimos 12 meses, acumula incremento de 3,5%.

Por certo, esses resultados devem embasar reivindicação da iniciativa fiscal para que os estímulos tributários ao consumo, como a redução do IPI para automóveis e eletrodomésticos da linha branca, não sejam extintos em 2009. Seria de bom alvitre prolongar a validade para o fim do primeiro trimestre de 2010.

É óbvio que também os setores produtivos, e a sociedade de modo geral, esperam do governo novas medidas de estimulo à continuação do crescimento econômico. As obrigações fiscais ainda são demasiadas para muitas atividades, e os juros continuam longe do patamar desejado por quem demanda crédito.

ROTULAGEM DISCUTÍVEL
EDITORIAL
ESTADO DE MINAS
12/9/2009

É preciso dar mais credibilidade à CTNBio

Em 2003, o governo federal editou o Decreto 4.680/03 determinando a obrigatoriedade da rotulagem para alimentos e ingredientes alimentares destinados ao consumo humano ou animal que contenham mais de 1% de organismos geneticamente modificados (OGMs), quando aplicada aos alimentos transgênicos. Por sua vez, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) garante o direito à plena informação sobre a composição dos produtos alimentícios postos no mercado. A definição do percentual de presença de OGM acima do qual o produto deve ser rotulado se baseou em limites adotados em outros países nos quais a rotulagem de transgênicos também é compulsória, como na Austrália, Nova Zelândia e na União Europeia (0,9%). Contudo, países como Japão, Rússia, China adotam um limite de 5%.

Movimentos contrários à biotecnologia argumentam que o limite de 1% fere o CDC, pois o consumidor deve ser informado de qualquer presença de OGM no produto, já que, segundo tais correntes, não há garantia de segurança do produto. Equivocam-se enormemente em sua argumentação, pois antes de chegar às prateleiras os transgênicos passam por extensas avaliações que garantem a sua segurança e qualidade nutricional, ou seja, um transgênico é liberado para comercialização somente se for considerado seguro para consumo humano e animal e para o meio ambiente pelo órgão competente. Portanto, é preciso ficar bem transparente que a rotulagem dos transgênicos não pode ser confundida com segurança. Se o transgênico não for considerado seguro para consumo, não será liberado para comercialização. Assim, só será rotulado o transgênico tido como seguro se a rotulagem diz respeito ao direito de informação e escolha.

No Brasil, a Lei de Biossegurança (Lei 11.105/05) definiu que o órgão responsável por essa análise técnica dos organismos geneticamente modificados é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Trata-se de um colegiado composto por 54 especialistas, com grau de doutor, de renomadas instituições das áreas de saúde humana e animal, meio ambiente, defesa do consumidor e agricultura familiar, entre outras, além de representantes de nove ministérios. Com isso, a legislação outorgou competência exclusiva à CTNBio para avaliar a segurança dos organismos geneticamente modificados, sendo sua decisão vinculante para todos os demais órgãos de fiscalização – Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério da Agricultura e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Não cabe, pois, a outros órgãos governamentais avaliar a biossegurança dos organismos geneticamente modificados, mas tão somente à CTNBio. Diante disso, o governo federal e seus organismos ficam na obrigação de não negligenciar essa questão, pois a saúde da população deve ser sempre considerada o maior bem para o futuro da nação.

AGRONEGÓCIO SOB AMEAÇA DE DESESTABILIZAÇÃO
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE
12/9/2009

Nenhuma conveniência de ordem política, econômica e social justifica a disposição do governo de reajustar os índices de produtividade agrícola. Embora o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, considere a iniciativa necessária para atualizá-los, uma vez estarem congelados desde 1980, o que está em causa é a própria existência de semelhante mecanismo. Valesse o princípio, seria o caso de estabelecer parâmetros à indústria para evitar que certas circunstâncias a levem a produzir abaixo da capacidade instalada. Ademais, acaso alguma racionalidade houvesse na adoção da medida, não seria a hora de efetivá-la. O setor passa por sérias dificuldades.

Com a revisão dos índices, o rendimento das safras, em muitos casos, deverá dobrar para que a propriedade agropastoril seja declarada produtiva. Significa dizer que, aplicada a regra draconiana, nada menos de 400 mil produtores rurais perderão as glebas para o programa de reforma agrária. O cálculo é da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). A mudança no tratamento com a agropecuária, assentada em portaria já assinada pelo ministro Cassel — e rejeitada pelo titular da Agricultura, Reinhold Stephanes — consta de compromisso assumido pelo presidente da República com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Não há nada mais absurdo do que estabelecer por decreto (portaria, no caso), a capacidade produtiva da atividade campestre. O agronegócio está sujeito ao ataque de pragas, de doenças sazonais, às oscilações de preços no nível do produtor, à insuficiência de crédito, ao excesso ou escassez dos regimes pluviométricos, às cotações nos mercados externos, entre outras adversidades. Impossível, pois, impor-lhe parâmetro fixo para obter resultados segundo determinação aleatória e avessa à diversidade de problemas própria do amanho da terra e da criação.

Todas as agências internacionais de avaliação situam a agricultura brasileira entre as mais eficientes do mundo, com produtividade acima da de países portadores de alta tecnologia, como os Estados Unidos. Em 2008, as exportações do agronegócio atingiram a cifra recorde de US$ 71,9 bilhões — superávit de US$ 60 bilhões em relação às importações. Este ano, a despeito do refluxo de quase 20% no intercâmbio mundial, as vendas externas devem alcançar mais de US$ 67 bilhões.

Anômalas como são, as alterações nos índices de produtividade agrícola servirão apenas para introduzir desnecessário e perigoso desestímulo à atividade. Uma vez que o agronegócio responde por 37% do total das exportações, submetê-lo a restrições significa pôr em risco a estabilidade da balança cambial. Se o governo deseja não apenas utilizar o MST como massa de manobra eleitoreira, mas avançar com a reforma agrária, há meios de fazê-lo de forma menos danosa ao país. Basta agregar ao processo os 140 milhões de hectares ociosos pertencentes à União.

AGÊNCIA DA COPA
EDITORIAL
DIÁRIO DE CUIABÁ (MT)
12/9/2009

Ao anunciar, na quinta-feira (10), o formato da Agência da Copa, o Governo do Estado deu um passo extremamente importante em direção aos projetos de infraestrutura que garantirão a Cuiabá condições de sediar jogos do Mundial de 2014. O órgão, que terá funcionamento similar a uma repartição pública – inclusive, com funcionários cedidos sem ônus -, é de fundamental importância, no contexto de montagem do “palco” para tão importante evento.

Essa formatação, segundo o governador Blairo Maggi, não significa que a Agência atuará como uma repartição propriamente dita, com o risco de se transformar num cabide de emprego. Ou, quando nada, uma espécie de trampolim para que eventuais candidatos montem estratégias visando às eleições que, daqui até 2014, serão realizadas na Capital e no Estado de Mato Grosso.

Além da presidência e seis diretorias, o corpo técnico deverá somar 80 servidores, sendo parte do Estado, da União e da Prefeitura. Nesse contexto, Maggi assinalou que o texto do projeto de criação já deixará explícito que, no caso de funcionários remanejados do próprio Executivo, não haverá custos extras ao caixa público.

A exigência de que o indicado para a diretoria não tenha pretensões político-eleitorais, por si só, já é um indicativo que a Agência terá que se ater, única e exclusivamente, ao gerenciamento dos projetos e sua plena execução. Nesse contexto, pelo que já antecipou o Governo, haverá um grande volume de obras, contemplando os itens da Mobilidade Urbana, Saúde, Segurança Pública e Transportes.

Ressalte-se, no entanto, que o fato de não criar um órgão com características políticas não impede que o Governo faça concessões políticas para garantir uma tramitação, sem turbulências, do projeto de criação do órgão, na Assembléia Legislativa. Com efeito, a composição das diretorias passará pelas indicações de nomes, não apenas do Executivo, mas do próprio Legislativo e da Prefeitura.

Como este Diário revelou ontem, num discurso oficial, Maggi sustentou que as indicações não negligenciarão o quesito técnico na escolha dos futuros diretores e outros cargos estratégicos. Mas, de outro lado, ele citou que dispositivos na lei possibilitarão a troca de diretores, seja por vontade do Executivo ou do Legislativo, atendendo a condicionantes pré-estabelecidas.

O importante é que essa Agência comece a funcionar o quanto antes, para não se lamentar, depois, o tempo perdido. A Copa do Mundo promete ser um legado com excelentes resultados para a sociedade.

“A Copa do Mundo será um legado com excelentes resultados para a sociedade mato-grossense”

DESSERVIÇO À NAÇÃO
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
12/9/2009

Nesta semana, a Câmara Federal deu uma nova demonstração de que está cada vez mais distante dos princípios que norteiam a racionalidade administrativa e zelam pelos gastos públicos, ao aprovar a criação de mais 7,7 mil vagas de vereadores no país. E mostra também claramente que o interesse corporativo sempre fica acima do público.
Por 370 votos contra 32, os parlamentares aprovaram a Proposta de Emenda à Cons¬¬tituição (PEC) 336/09, que vai aumentar o nú¬¬mero de vereadores de 51.748 para 59.457. A PEC foi aprovada em primeiro turno e ainda deve passar por uma segunda votação, para só depois ser promulgada. Pelo visto, os partidos já fizeram um grande acordo e será aprovada. A proposta de emenda só entrará em vigor nas eleições de 2012 e também prevê a redução do orçamento nas câmaras municipais.
É precioso recordar que a PEC dos vereadores vinha se esgueirando por um caminho tortuoso há muito tempo. Havia sido votada favoravelmente, no ano passado, pela C⬬mara e pelo Senado. Entretanto, depois mo¬¬dificada em alguns aspectos, o texto teve de retornar à Câmara. Durante a análise dos senadores, havia sido retirado, também, um artigo que determinava a redução do repasse de recursos das prefeituras para os legislativos municipais.
Como uma parte da PEC fora aprovada sem modificações, esta matéria poderia ter sido promulgada parcialmente. O deputado Arlindo Chinaglia, então presidente da C⬬mara, no entanto, se recusou a assinar a sua promulgação por entender que os artigos es¬¬tavam ligados e não poderiam ter sido desmembrados. Ele teve o respaldo da Mesa Di¬¬retora. Esta decisão fora mantida até agora pelo novo presidente, Michel Temer.
Toda a sociedade sabe que o atual sistema legislativo municipal do país é dispendioso, ocioso e muitas vezes inútil. A es¬¬tima¬¬tiva do Instituto Brasileiro da Admi¬¬nistração Mu¬¬nicipal (Ibam) é de que o país gaste R$ 5,3 bi¬¬lhões por ano com os vereadores. Com o acréscimo de novos 7,7 mil vereadores, esses gastos podem aumentar em mais de 10%, em cada legislatura.
Neste momento em que os prefeitos estão de chapéu na mão, alegando que a crise econômica derrubou a arrecadação municipal e, por isso, querem que as prefeituras funcionem apenas meio expediente, para reduzir despesas, a previsão futura de novos gastos é um evidente grande contrassenso. Este é o caso do Paraná, no qual cem prefeitos já aderiram ao movimento. As perdas acumuladas das municipalidades já superam os R$ 2 bilhões, entre os valores do Fundo de Par¬¬ticipação dos Municípios (FPM) e do Fundo de Manutenção e Desenvol¬¬vimento da Edu¬¬cação Básica e de Valorização dos Profis¬¬sionais da Educação (Fundeb). Não seria uma boa oportunidade para enxugar as máquinas administrativas do executivo e do legislativo?
A rigor, a previsão de corte nos orçamentos parece ter sido uma medida evasiva. É ilusão pensar que as despesas dos legislativos municipais vão diminuir, porque, de uma maneira ou outra, todas as câmaras de vereadores do país têm suas próprias linhas de escape, quando se trata de aplicar suas benesses. A realidade dos ambientes legislativos municipais, hoje, ao contrário do que propõe esta PEC, deveria indicar outro caminho: o da austeridade. De modo geral, prevalecem os salários polpudos, as mordomias e toda a sorte de truques para reduzir ao mí¬¬nimo as sessões legislativas exigidas por lei. Isto sem falar das centenas denúncias de corrupção, empreguismo e mau uso do dinheiro público que pairam sobre boa parte das câmaras legislativas dos 5.562 municípios brasileiros. Por tudo isso, a aprovação desta PEC é um desserviço à nação.

INTIMIDAÇÃO
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
12/9/2009

As afrontas à liberdade de imprensa parecem ter virado rotina na Am鬬rica Latina. Depois dos casos brasileiros e dos abusos de Hugo Chávez contra a mídia venezuelana, agora é na Argentina que a prática de intimidar jornais avança perigosamente. O jornal Clarín, um dos principais diários do país, foi surpreendido em sua sede, na quinta-feira, com uma inspeção levada a cabo por nada menos que 200 agentes da Receita Federal da Argen¬¬tina. Não por coincidência, dias antes o jornal havia publicado uma reportagem de¬¬nunciando uma operação irregular de US$ 2,5 milhões no órgão da Receita ligado à agropecuária. A querela é antiga. O Clarín tem denunciado sistematicamente o suspeito aumento do patrimônio dos Kirchner desde que alçaram-se no poder. Como é ób¬¬vio, o casal tem direito de manifestar-se so¬¬bre o caso e de provar que a suspeita é in¬¬fundada. É uma pena que, justamente ocupando o posto mais alto do Executivo, abandonem o campo da argumentação e optem por ações que denotam abuso de autoridade e afronta à democracia.

A REAÇÃO NA ECONOMIA
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
12/9/2009

O Brasil, que demorou a admitir a possibilidade de reflexos internos da crise econômica global e a adotar providências emergenciais, acabou acertando o passo a partir de um determinado momento, a ponto de estar comemorando um dos primeiros indícios da correção de suas escolhas. Levantamento divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que, depois de dois trimestres consecutivos de queda, o que configura uma recessão técnica, o país voltou a crescer, juntamente com outras grandes economias como as da França, Alemanha e Japão. A constatação é promissora, embora não signifique que já estejam resolvidos todos os problemas decorrentes da crise, entre os quais o aumento do desemprego e a tendência do setor público de subestimar a importância do rigor fiscal como proteção para o impacto de crises.

Uma das explicações mais citadas para entender a peculiaridade de o país estar entre os primeiros a sair da crise é o aumento consistente do consumo interno. Isso significa que, mesmo diante das incertezas surgidas há exatamente um ano, os consumidores brasileiros acreditaram no potencial do país para se recuperar. Em consequência, decidiram aproveitar algumas vantagens oferecidas em segmentos econômicos específicos e que dependem essencialmente de linhas de crédito a longo prazo e de redução das alíquotas de impostos. O resultado é que o montante de demissões estancou e, ao contrário de países como Estados Unidos, Rússia, Canadá e México, ainda em recessão, o Brasil já registra crescimento positivo no segundo trimestre em comparação com o período de janeiro a março deste ano.

Ainda assim, é importante lembrar que no terceiro trimestre do ano passado, antes da eclosão da crise global, quando se comparavam os últimos quatro trimestres com os quatro anteriores, a economia brasileira registrava uma expansão de 6,3%. O percentual, portanto, mostrava-se bem mais próximo das necessidades do país de gerar emprego, distribuir renda e arrecadar os impostos para financiar os serviços públicos. Agora, um cálculo semelhante demonstra expansão de apenas 1,3%. E, mesmo que o Brasil deixe de fato a recessão para trás, com a confirmação de desempenhos positivos a partir de agora, o que é bastante provável, o esforço será capaz de garantir apenas o zeramento da conta ou um crescimento modesto. Mais uma vez, a crise que o país parece estar começando a deixar para trás confirma o quanto o poder público precisa estar sempre atento para limitar os danos das instabilidades financeiras.

Como reconheceram ontem as próprias autoridades da área econômica, a crise teve um impacto menor no Brasil, em comparação com outras economias, porque o país incorporou de vez a austeridade fiscal. A perspectiva de retomada da atividade econômica não pode servir para descuidos nessa área, como o preocupante aumento de dispêndios em âmbito federal, pressionado principalmente por reajustes para servidores. O país está desafiado agora a insistir no controle dos gastos públicos como preocupação central e a fortalecer os setores que podem ser decisivos para uma retomada econômica sólida e consistente.

UMA CAUSA GAÚCHA
EDITORIAL
ZERO HORA (RS)
12/9/2009

O clima de instabilidade política no Estado não impediu ontem a realização de encontro entre a governadora Yeda Crusius e integrantes da bancada gaúcha na Câmara Federal com o objetivo de definir uma estratégia para que o Rio Grande do Sul assegure participação na divisão de royalties a serem obtidos a partir da extração do petróleo da camada pré-sal. Nem poderia ser diferente. Mesmo sob circunstâncias adversas, os parlamentares gaúchos sempre souberam se colocar acima de interesses político-partidários quando estão em jogo questões de interesse de todo o Estado.

Pelo que se pôde constatar até agora no Congresso, com base nas emendas apresentadas aos projetos definindo novas regras para a extração de petróleo, a guerra pelos royalties já está instalada. Diante da resistência dos Estados produtores em abrir mão de receitas, uma das alternativas em discussão é elevar o percentual da taxação dos royalties, garantindo esse adicional para ser rateado entre as demais unidades da federação. Normalmente mais articulados, porém, Estados do Nordeste pleiteiam metade desse adicional. É justo e adequado, portanto, que Rio Grande do Sul e outros Estados se unam para assegurar uma fatia adequada desses recursos.

Desde já, está definida a deflagração, por representantes gaúchos, de uma mobilização em Brasília a partir do dia 6 de outubro. Em outra frente, o Rio Grande do Sul se mobiliza com os demais integrantes do Codesul para assegurar uma parte dos recursos. O tema está incluído na pauta de reunião prevista para 3 de novembro. O importante é que essas gestões ocorram de forma organizada e, sobretudo, que tenham continuidade.

Independentemente da polêmica em torno do modelo definido para a exploração das novas reservas de petróleo, o Estado tem o dever de se articular para assegurar o máximo a que tem direito com o novo filão. Esse é um objetivo pelo qual a bancada parlamentar gaúcha precisa demonstrar todo o seu empenho.

A BELEZA EM PERIGO
EDITORIAL
JORNAL DO COMMERCIO (PE)
12/9/2009

O trágico acidente que tirou a vida de uma estudante em Paulista, no mês passado, fez voltar à tona a questão da segurança dos aparelhos e procedimentos cosméticos. Ingrid, uma menina de apenas 12 anos, foi eletrocutada em casa enquanto aplicava em si mesma um modelador de cabelos, a conhecida chapinha. Além de lançar luz sobre a necessidade do alerta doméstico com o manuseio de qualquer equipamento, a tragédia familiar chama a atenção para o perigoso encontro do culto à aparência com a saúde pública.
Cuidar do corpo exige sacrifícios. Por isso também exige cuidados. No ambiente de alta rotatividade dos salões de beleza, o contato do corpo com utensílios, materiais de limpeza e substâncias químicas variadas expõe os frequentadores a mais riscos do que imagina a vaidade humana. Sem precauções, o que se vê é um ambiente livre para uma oculta promiscuidade. Vírus e bactérias que provocam desde micoses e sarnas a doenças graves, como o tétano, a hepatite e a aids, podem estar escondidos na escova, na toalha, no lençol, na cera, na tesoura ou no alicate que avançam sobre a pele enquanto distraidamente se põe a conversa em dia. O papo descontraído serve de entretenimento a vítimas e, eventualmente, até mesmo a agentes de transmissão que não fazem ideia do que pode estar acontecendo.
No pequeno ambiente de poucos metros quadrados, os clientes estão sujeitos a sérias ameaças por toda parte. A cera de depilação, por guardar restos de pele e pêlos, não pode ser reciclada. A economia pode custar caro à saúde. De acordo com as normas sanitárias, os locais de depilação precisam ter lavatórios. As lixas de unha e de pé devem ser descartados após o uso, uma vez que a madeira retém fungos e não se presta a desinfecções.
O tratamento dos cabelos requer atenção do consumidor, segundo os especialistas. O formol contido em certos produtos, ou acrescentado depois, é capaz de provocar reações no couro cabeludo, inclusive queimaduras. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já proibiu o uso, mas a fiscalização precária faz com que muitos salões continuem com a prática ilegal. Em consequência, o número de queixas em relação ao alisamento de cabelos foi três vezes superior, no primeiro semestre, ao número registrado em todo o ano passado.
Cada indivíduo que entra num salão de beleza, além de se expor a todos esses riscos, é um potencial portador de enfermidades. A maior preocupação ainda é o sangue, capaz de transmitir vírus como o HIV. Importante ressaltar que providências básicas e baratas ajudam bastante a combater o problema. A recomendação dos médicos e da vigilância sanitária é que o cliente leve o seu próprio kit manicure, o que lhe garante maior segurança no atendimento. Mesmo assim, ainda há risco. Por isso as pessoas precisam se valer de critérios, também, de limpeza e higiene, na hora de escolher o local para se embelezar. Para os salões, o ideal é a adoção de esterilizadores ou de equipamento descartável nos procedimentos, além do treinamento adequado dos funcionários.
A respeito das pranchas de alisamento, o instituto Pro Teste reprovou cinco de seis marcas avaliadas, entre as chapinhas disponíveis no mercado. E aconselhou ao Inmetro a regulamentação dos equipamentos, a fim de evitar casos como o da garota Ingrid.
É no interior dos salões que a indústria da boa aparência se transforma em assunto de saúde pública. Portanto, trata-se de um dever do Estado buscar a melhoria das condições de funcionamento, inclusive com o apoio de campanhas educativas. Aos órgãos competentes cabe a exigência do respeito à lei, através da fiscalização permanente que favoreça a conscientização tanto dos proprietários dos estabelecimentos, quanto dos cidadãos que buscam a satisfação da autoestima diante do espelho e da sociedade.

Quadro: A devastação perdeu o ritmo

Foto Paulo Vitale

Quadro: Na rabeira da internet



Quadro: Mais precisão



Quadro: O desafio de Dilma

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