Sunday, September 24, 2006

A 'inteligência' do PT


Núcleo de investigação petista funciona desde 1989 e ainda mantém contatos com Dirceu

Gerson Camarotti
,BRASÍLIA O setor de inteligência e análise de risco da campanha petista que o novo coordenador do comitê, Marco Aurélio Garcia, disse ter extinto na semana passada, depois do escândalo da negociação de um dossiê contra tucanos, foi criado pelo PT durante a disputa presidencial de 1989, a primeira de Luiz Inácio Lula da Silva, e estruturado no início dos anos 90. No começo, sua atuação era defensiva, para reagir a denúncias do adversário Fernando Collor de Mello. Mas foi sob o comando do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, então presidente do PT, que o grupo ganhou força nas eleições de 1998 e principalmente na de 2002.

Em 2006, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, herdou o espólio da área de investigação política, que provocou o maior escândalo das eleições deste ano, com a tentativa de compra do dossiê contra tucanos.

Mas a influência de Dirceu sobre o grupo foi tamanha que hoje, mesmo à distância, ele continua mantendo contatos com a área de inteligência do partido.

Segundo relatos de petistas ao GLOBO, na quarta-feira retrasada — dois dias antes da entrevista dos chefes da máfia das ambulâncias na revista “IstoÉ” e da prisão de petistas com R$ 1,7 milhão em São Paulo — Dirceu já havia antecipado a pessoas próximas que estava para sair uma bomba contra o ex-prefeito e candidato tucano ao governo paulista, José Serra.

Segundo um influente parlamentar do PT, apesar de ter perdido o comando do partido, Dirceu permanece com influência junto aos amigos e nunca deixou de monitorar a área de inteligência desde que saiu do governo. De acordo com este petista, Dirceu já tinha informações de que iria surgir uma forte denúncia contra os tucanos.

No blog, Dirceu nega envolvimento  Desde a semana passada, Dirceu vem negando em seu blog conhecimento ou participação no esquema de inteligência do PT.

Mas, no núcleo do partido, são contados vários episódios na direção oposta, confirmando que Dirceu sempre teve participação ativa na área de espionagem política de seus adversários. Por esses mesmos relatos, quando o ex-chefe da Casa Civil caiu em desgraça no ano passado, com o escândalo do mensalão, o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP) assumiu o comando da “inteligência do PT”, onde já atuara em campanhas passadas.

Apesar de restrito, o setor de inteligência era de conhecimento de vários petistas. O próprio presidente Lula sempre soube e avalizou o grupo de investigação petista, inclusive na campanha deste ano. Lula via no grupo uma forma de se proteger de armadilhas.

— Esse núcleo de inteligência sempre foi um grupo mais restrito, sempre vinculado à presidência do partido. Foi o Zé Dirceu quem sempre falou em formar esse grupo. Agora, no caso desta eleição, houve um desvio das atribuições — diz o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP).

O maior envolvimento de Dirceu com o setor de inteligência petista foi mesmo em 2002. Ao avaliar as chances reais de Lula chegar ao Palácio do Planalto, o ex-ministro organizou um grupo experiente. Para os interlocutores mais próximos, o então presidente do PT avisou que estava montando um serviço secreto para ações sofisticadas. Naquela época, amigos apelidaram o núcleo de Dirceu de “KGB petista”, numa referência ao serviço secreto da antiga União Soviética.

Pelo menos uma das operações secretas de Dirceu foi relatada por ele próprio a dois interlocutores num restaurante de Brasília, durante a pré-campanha de 2002. Ele disse que pretendia monitorar a embaixada do Brasil em Roma. Na ocasião, o embaixador brasileiro na Itália era Andrea Matarazzo, um dos mais próximos aliados do tucano José Serra. Dirceu queria acompanhar os passos de Matarazzo na Itália, pois desconfiava que ele estava a serviço de Serra. Questionado depois pelos mesmos interlocutores, ele não esclareceu se a operação foi concretizada.

O grupo original de inteligência da campanha de 2002 foi desativado.

Só sobraram o próprio Ricardo Berzoini e Osvaldo Bargas, ex-secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho. Isso porque uma reportagem da revista “Veja”, em 2003, revelou que o PT havia montado um núcleo secreto para desencavar denúncias e dossiês contra adversários. Desse grupo, também participariam o advogado João Piza, o ex-secretário-geral da CUT Carlos Alberto Grana e o sindicalista Wagner Cinchetto.

A visibilidade que o grupo ganhou atrapalhou a permanência natural do núcleo de espionagem petista.

Na campanha anterior, o núcleo de inteligência teria conseguido documentos no Banco do Brasil para atingir Serra, então candidato tucano à Presidência, e preparou dossiês contra Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, vice do então presidenciável Ciro Gomes. Mas com os principais integrantes do grupo queimados pela exposição, foi preciso fazer substituições para a campanha de 2006. Berzoini deixou a função de coordenar o grupo para assumir a que era de Dirceu, no comando da inteligência petista. Ele manteve Bargas por dois motivos: por ser de sua confiança e por guardar a memória do funcionamento do serviço de inteligência no partido.

“Dossiê foi uma bobagem colossal”  Para evitar holofotes, novos petistas foram recrutados para o núcleo de análise de risco, que passou a ser chefiado pelo diretor do Besc e churrasqueiro de Lula, Jorge Lorenzetti. O grupo também foi integrado por Expedito Afonso Veloso, que até a semana passada era diretor de Gestão de Risco do Banco do Brasil. Eles passaram a recrutar serviços de petistas como o assessor presidencial Freud Godoy, o tesoureiro petista de Cuiabá, Valdebran Padilha, e do ex-agente Gedimar Passos. Todos envolvidos na desastrosa operação da compra do dossiê da família Vedoin contra o PSDB.

— A disputa por informação sempre existiu no PT. Isso é permanente — reconhece o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (SP), sobre a existência do grupo de inteligência. — Mas o que foi uma bobagem colossal desse grupo foi investir em compra de dossiê. Isso é coisa de gente despreparada para uma função tão delicada. No passado, isso era tratado por pessoas qualificadas.

Não sei como esse grupo passou a cuidar disso. Talvez por esse motivo, Berzoini acabou caindo.

Integrantes do comando petista ouvidos pelo GLOBO relataram que a compra do dossiê contra os tucanos não foi a única operação do grupo de inteligência nesta campanha. Pelo menos outro dossiê também teria sido montado pelo núcleo de investigação. O primeiro alvo foi Eduardo Jorge, o secretário-geral da Presidência no governo Fernando Henrique Cardoso e que este ano assumiu a coordenação de campanha do tucano Geraldo Alckmin.

Esse núcleo teve acesso ao material produzido por um grupo de auditores da Receita Federal que teria apontado uma suposta ação de Eduardo Jorge na criação de empresas laranjas e emissão de notas frias para arrecadar dinheiro para a campanha de reeleição de Fernando Henrique em 1998.

Primeiro, integrantes do PT sondaram alguns órgãos de imprensa sobre a denúncia. Depois, o chamado “dossiê Eduardo Jorge” foi publicado pela revista “IstoÉ”. Numa carta à revista, Eduardo Jorge desmentiu a denúncia, classificandoa de fantasiosa.

Procurado pelo GLOBO na quarta e na quinta-feira, Ricardo Berzoini (PT-SP) não respondeu aos recados.

Também procurado, o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu disse que não tem nada a dizer.

Em seu blog, Dirceu afirmou, no texto intitulado “Teorias fantasiosas geram teses caluniosas”, que está totalmente afastado da direção do partido e da campanha de Lula e negou qualquer participação no escândalo da negociação do dossiê. Em outra nota, publicada no sábado passado, ele negou que tivesse conhecimento prévio da publicação, pela revista “IstoÉ”, das denúncias envolvendo tucanos. VOLTAR A ARTIGOS ETC

Tuesday, September 19, 2006

VEJA Paz, amor e guerra


Paz, amor e guerra


Em agosto de 2002, dias depois da estréia do horário eleitoral, o tucano José Serra exibiu em seu programa imagens de Ciro Gomes xingando um eleitor de "burro". Ciro reagiu acusando Serra de adotar um "comportamento de marginal". O petista Luiz Inácio Lula da Silva, então líder das pesquisas com 37% das intenções de voto, assistiu à briga de longe. Indagado sobre as desavenças dos rivais, Lula saiu-se com um gracejo cuja repercussão foi tal que se tornou marca de sua campanha: "Lulinha não quer briga. Lulinha quer paz e amor". Foi de fato com paz e amor que Lula conduziu sua campanha presidencial e obteve uma portentosa vitória, cujo primeiro aniversário é comemorado nesta segunda-feira, 27. O que não se sabia é que, nos subterrâneos de sua campanha, não havia paz nem amor – havia guerra. Guerra de defesa, com batalhões prontos para salvar Lula de ataques destruidores, e principalmente guerra de ataque, com tropas entrincheiradas para estraçalhar candidaturas adversárias.

Nas últimas quatro semanas, VEJA entrevistou dezessete personagens para recuperar os bastidores da campanha do PT e encontrou um intenso contraste entre a leve imagem pública do candidato e o pesado trabalho sigiloso de seus assessores. A criação do bunker começou no fim de 2001, quando o advogado João Roberto Egydio Piza Fontes, que trabalha para Lula há quase dez anos, teve uma conversa decisiva com o líder petista. Os dois encontraram-se na sede do Instituto Cidadania, em São Paulo. Calejado militante, João Piza, como é conhecido, queria convencer Lula a montar uma célula guerrilheira para atuar em duas funções: protegê-lo das armadilhas de campanhas passadas e, ao mesmo tempo, espalhar minas terrestres no campo dos adversários. Seria um trabalho secreto e pesado. Faltava ainda quase um ano para a convenção do PT que oficializaria o candidato presidencial, mas Lula deu luz verde ao advogado e pediu cautela. "Seja inteligente. Não faça nada de manoel ou joaquim nessa história", disse. E tudo foi feito como Lula queria.

"Sou advogado, amigo e companheiro de Lula há décadas. Trabalhei, é óbvio, como militante petista para sua eleição", diz Piza. O bunker guerrilheiro era formado por pessoas da confiança de Lula e sindicalistas ligados à Central Única dos Trabalhadores. João Piza era o coordenador-geral. Ricardo Berzoini, hoje ministro da Previdência, era o orientador político e, a partir de pesquisas reservadas, instruía o grupo sobre os alvos que mais interessavam atacar. O sindicalista Osvaldo Bargas, velho amigo de Lula, fazia a ligação entre o grupo e o candidato, passando as informações mais relevantes. Outro sindicalista, Carlos Alberto Grana, então secretário-geral da CUT, cuidava da logística do grupo – carros, celulares, passagens, dinheiro. "Há muitos imprevistos que vão aparecendo e que nem sempre a parte oficial da campanha pode enfrentar", diz Grana. Os encarregados de colher informações que pudessem eventualmente prejudicar os candidatos rivais de Lula eram militantes da base do PT ou aliados acomodados em sindicatos ou movimentos sociais. O grupo trabalhou quase um ano, com QG num escritório na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, em São Paulo. No campo de batalha, desencavou denúncias e dossiês, promoveu blefes e acordos sigilosos e lançou petardos certeiros contra Serra, Ciro e Anthony Garotinho.

Janeiro: a defesa – A primeira missão foi no flanco de defesa, quando estourou o escândalo de Santo André. A partir de janeiro de 2002, com o seqüestro e morte do prefeito da cidade, o petista Celso Daniel, as investigações do caso esbarraram num esquema de propina montado na prefeitura e num festival de petistas grampeados. O primeiro alerta chegou ao grupo pelo empresário Antônio Celso Cipriani, da TransBrasil, que contratara os serviços de Piza no processo de falência de sua empresa. "Estão fazendo uma armação contra o PT", avisou. "Os telefones do Lula e de pessoas próximas a ele estão grampeados." O grupo saiu a campo em duas frentes: evitar que o escândalo respingasse em cardeais do PT e impedir a divulgação do conteúdo dos grampos. No desdobramento do caso, o então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, chegou a pedir a abertura de um inquérito para investigar José Dirceu, que presidia o partido e coordenava a campanha, mas o ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal Federal, não aceitou a denúncia por escassez de provas.

A tarefa de manter os grampos na toca exigiu mais artimanha. Gilberto Carvalho, ex-secretário da prefeitura de Santo André e um dos grampeados, foi convocado para avaliar o caso. Disse que, se divulgado, o conteúdo dos telefonemas poderia gerar constrangimento, mas não escândalo. "Pode ser que existam coisas complicadas, mas são coisas de política. Não tem nada de corrupção", garantiu. Ainda assim, não convinha a divulgação. O bunker, então, preparou a estratégia: retirar as fitas das mãos da Polícia Federal e dos promotores paulistas, identificados como excessivamente "tucanos". Como fazer? Apelou-se ao procurador Luiz Francisco de Souza, usina de denúncias contra tucanos em Brasília. Sabendo que o grampo fora ilegalmente instalado pela polícia, Luiz Francisco acionou a controladoria de atividades policiais do Ministério Público, que intervém nos casos em que há abuso policial. Deu certo. A controladoria acionou a Justiça paulista, que, diante das evidências da ilegalidade da escuta, mandou apreender as quarenta fitas. "Tudo o que fiz foi falar com um procurador do grupo de controle que aquilo parecia armação", explica Luiz Francisco.

Maio: a rasteira – Anthony Garotinho, que concorreu pelo PSB, foi o primeiro alvo da soldadesca petista. O advogado João Piza convidou Paulo Costa Leite, candidato a vice de Garotinho, para uma conversa. Tentou convencê-lo a renunciar em favor de Lula, fortalecendo o petista e deixando Garotinho na chuva. Em 6 de maio de 2002, haveria uma segunda reunião entre Piza e Costa Leite, na qual já pretendiam acertar os termos da renúncia, caso Lula disparasse e Garotinho empacasse nas pesquisas. "Naquele momento, a renúncia era apenas uma hipótese. O Lula tinha como adversário só o candidato do governo. Os demais não empolgavam e havia a chance de vitória no primeiro turno", relembra Costa Leite. "E o doutor João trazia credenciais de amigo de Lula." Nada aconteceu, porém. Costa Leite foi levado à renúncia com a revelação de que, no passado, pertencera ao SNI, agência de bisbilhotagem do regime militar. E, com isso, era até bom que se mantivesse bem longe de Lula.

Julho: a armadilha – No fim de julho de 2002, a campanha esquentava, o movimento nos bastidores já era intenso e o deputado Ricardo Berzoini chegou com uma notícia extraída de uma pesquisa. "No segundo turno, a gente perde feio para o Ciro", disse. O bunker petista, então, acionou o sindicalista Wagner Cinchetto, um arquivo vivo das malandragens que precederam a criação da Força Sindical, central de onde vinha Paulo Pereira da Silva, o vice de Ciro. Um ano antes, a guerrilha do PT já usara os serviços de Cinchetto, que apresentou uma série de denúncias sobre as peripécias de Luiz Antonio de Medeiros na Força Sindical. As denúncias, naquela época, foram providenciais. Medeiros, presidente do PL paulista, resistia à idéia da adesão de seu partido à candidatura de Lula. Com as denúncias de Cinchetto e a ameaça de cassação de seu mandato de deputado, Medeiros passou a examinar com mais simpatia a hipótese de levar o PL a apoiar o PT – o que acabou se concretizando. Agora, porém, o alvo era Paulo Pereira da Silva, sobre quem Cinchetto já reunira munição.

Em junho, quando Ciro se preparava para lançar seu livro Um Desafio Chamado Brasil, numa livraria em São Paulo, Cinchetto lhe telefonou. De um celular pré-pago, fez um alerta anônimo. "Seu vice é corrupto", disse. "Nós vamos à porta da livraria distribuir dossiês denunciando isso." Era blefe, não havia manifestação nenhuma, mas os dossiês existiam. Em julho, era hora de tirá-los do baú e vazá-los à imprensa. Nessa época, Pereira da Silva foi atormentado por denúncias de compra superfaturada e desvio de dinheiro de um fundo público. Em seu trabalho de soldado petista, Cinchetto chegou a planejar um bote mortal. Mandou dizer à turma de Pereira da Silva que, com uma boa grana, silenciaria sobre as denúncias. A idéia era fotografar o ato do pagamento – e denunciar o vice por tentativa de suborno. "Na hora em que ele fosse pagar, a gente fotografava", rememora Cinchetto. O vice de Ciro, porém, não caiu na armadilha. "Até hoje, não consegui saber se isso foi coisa do PT ou do PSDB", diz Paulo Pereira da Silva, que na época acusou o tucanato. "É que o Serra nunca quis que eu formasse chapa com o Ciro." Agora, Pereira da Silva já sabe: foi coisa do PT.

Maio: a águia – O alvo mais constante da guerrilha petista foi José Serra e seu flanco mais vulnerável, o economista Ricardo Sérgio de Oliveira, caixa das campanhas tucanas e ex-diretor do Banco do Brasil. Em maio de 2002, os petistas procuraram o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, minucioso colecionador de histórias sobre Ricardo Sérgio. O ex-senador e os petistas conversaram na suíte 2021 do hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Dias depois, já de volta a Brasília, ACM entregou um calhamaço de 1.000 páginas a um enviado petista, o advogado Terence Zveiter, narrando episódios referentes à atuação de Ricardo Sérgio na privatização das teles. Com a papelada na mão, Zveiter telefonou para seu contato em São Paulo. "A águia pousou", disse ele, usando a senha do sucesso da operação. "Alguém vai procurá-lo para ver a águia", orientou o contato. Dias depois, capítulos do dossiê começaram a aparecer nos jornais. "Com o ex-senador, peguei um envelope grande com centenas de documentos sobre Ricardo Sérgio e outras pessoas", relembra Zveiter.

Outra denúncia teve gênese muito mais complicada. O bunker do PT precisou descolar um contato com acesso a um cofre na sede paulista do Banco do Brasil, na Avenida Paulista, no coração da capital. No cofre, havia documentos sobre um empréstimo que um contraparente de Serra, Gregorio Marin Preciado, fizera do BB – e também havia a sugestão de que ele fora favorecido por Ricardo Sérgio, então diretor do banco. O contato do PT, um funcionário do BB, ficou duas semanas preparando o acesso ao cofre. Conseguiu. Deveria entregar os documentos ao advogado Francisco Alvarez Neto, colega de João Piza. Conforme o combinado, Alvarez aguardava em frente da estação Consolação do metrô, na Avenida Paulista, com uma caneta na lapela. Como nos filmes de espionagem, o advogado foi recebendo instruções pelo celular. Primeiro, pediram que andasse até um café das proximidades, o Subito Expresso. Depois, que pegasse seu carro e parasse num estacionamento pago ali perto, com os vidros abertos. De repente, apareceu um homem de terno, colocou um envelope lacrado no banco do passageiro e disse: "Devolva até as 17 horas, no mesmo lugar". No mesmo dia, uma cópia da papelada desembarcou em Brasília e, pouco depois, apareceu nos jornais. Três semanas antes da eleição, os procuradores Luiz Francisco, ele de novo, e Alexandre Camanho entraram com ação contra Ricardo Sérgio por favorecer Preciado.

Um ano depois – O advogado João Piza e seus sócios continuam advogando para Lula, o PT e a CUT. O deputado Ricardo Berzoini virou ministro da Previdência Social. O sindicalista Osvaldo Bargas ganhou o cargo de secretário de relações trabalhistas, no Ministério do Trabalho, em Brasília. O outro sindicalista, Carlos Alberto Grana, continua na CUT e agora representa a entidade num conselho federal que lida com verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador. O sindicalista Wagner Cinchetto presta consultoria informal à CUT. O procurador Luiz Francisco, de Brasília, está de malas prontas para passar um ano em Portugal, onde fará um mestrado. O deputado Luiz Antonio de Medeiros aliou-se ao PT e o pedido de cassação de seu mandato foi arquivado, com o voto favorável dos petistas. Antonio Carlos Magalhães voltou a ser eleito senador pela Bahia e a denúncia pela violação do painel eletrônico, que motivou sua renúncia, foi arquivada. E o juiz João Carlos da Rocha Mattos, da 12ª Vara Federal, ordenou a destruição das quarenta fitas que registram o caso de Santo André. VOLTAR A ARTIGOS ETC

Monday, September 18, 2006

A era do horrorismo Martin Amis(continuação)

ESTADO

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK


O assassínio em massa por atentado suicida é mais que terrorismo: é horrorismo. É o auge da perversidade. O assassino em massa e suicida pede que suas vítimas em potencial contemplem seu semelhante com uma ordem completamente nova de execração. Não é como olhar para o cano de um revólver. Podemos dizer que isso é assim porque vemos o que acontece, às vezes, quando o assassino em massa e suicida nem está lá - como na injustiça espantosamente sumária cometida contra o brasileiro Jean Charles de Menezes em Londres. Um exemplo ainda mais chocante foi a correria provocada por um rumor na ponte em Bagdá (31 de agosto de 2005). Este é o superterror inspirado pelo assassínio em massa por atentado suicida: basta sussurrar as palavras, e você provoca uma atropelamento fatal de milhares de pessoas. E resta uma medida precisa da contorção islâmica: eles sustentam que um ato de auto-salpicação letal, no interesse de uma “causa” inatingível, traz consigo as chaves do paraíso. Sam Harris, em The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, ressalta o quão completa e prontamente o assassino em massa e suicida é “salvo” Qual você preferiria, dada a crença?

“... o martírio é a única maneira pela qual um muçulmano pode contornar o doloroso litígio que nos espera no Dia do Juízo e seguir diretamente para o Céu. Em vez de gastar séculos apodrecendo na terra à espera de ser ressuscitado e em seguida interrogado por anjos coléricos, o mártir é imediatamente transportado para o Jardim de Alá...”

A conversa de mesa de Osama bin Laden nas Fazendas Tarnak, no Afeganistão, onde ele treinou os agentes antes de setembro de 2001, deve ter incluído muitos capítulos seguidos sobre vício, corrupção, perversão, prostituição, etc, do Ocidente. E, em 1998, quando estações se sucederam em torno da fraqueza do presidente por uma felação, ele pareceu ter boas bases para seu erro de cálculo mais grave: a crença de que os Estados Unidos eram um antagonista mais fácil que a URSS (para cuja derrota, incidentalmente, os “afegãos árabes” desempenharam um papel desprezível). Contudo, um simpatizante como o obtuso “taleban americano” John Walker Lindh, se tivesse estado lá, e fosse um pouco mais brilhante, poderia ter formulado o seguinte argumento.

Agora seria um bom momento para atacar, teria dito John a Osama, porque o Ocidente está enfraquecido, não só por sexo e álcool, mas por 30 anos de relativismo multicultural. Eles acharão que o atentado suicida é apenas uma fraqueza exótica, como mortes por honra-e-vergonha ou circuncisão feminina. Ademais, é religioso, e eles são sempre lentos em tudo que se refere a religião. Dias depois de nosso ataque inaugural, os imperiais britânicos tomarão o caminho do Islã, e ali permanecerão. E você ficará espantado com o tempo que a palavra islamofobia, como um acusação irretorquível, cobrirá o islamismo também. Eles precisarão de anos para descobrir a palavra que desejam - e islamofobia claramente não servirá. Mesmo que a a Operação Aviões tenha êxito, e milhares morram, a Esquerda bocejará e ficará imaginando por que esperamos tanto. Ataque já. Sua ideologia os fará relutantes para ver o que têm diante de si. E fará deles alunos lentos.

No verão de 2005, o assassínio em massa por atentado suicida havia evoluído. No Iraque, jihadistas estrangeiros, peregrinos da guerra, estavam se infiltrando pelas fronteiras para serem envolvidos em explosivos, pregos, porcas e parafusos - muitas vezes por Baathistas não religiosos com objetivos puramente seculares - para serem preparados como peças de artilharia e em seguida enviados no mesmo dia para massacrar seus “irmãos” muçulmanos. O assassínio em massa por atentado suicida, em outras palavras, passou por uma fase de decadência e estava então virando objeto de deboche. Num único mês (maio), houve mais atentados suicidas no Iraque que durante toda a intifada. E foi esta, em 25 de julho, a resposta ponderada do prefeito de Londres aos acontecimentos de 7 de julho:

“Como eles não têm aviões a jato, não têm tanques, só dispõem seus corpos para usar como armas. Num equilíbrio injusto, é isso que as pessoas usam.”

Lembro-me de um infeliz poemeto, lá por 2002, que defendia exatamente a mesma idéia. Não, eles não têm F-16s. Pergunta: será que o prefeito gostaria que tivessem F-16s? E, não, seus corpos não são o que as “pessoas” usam. São o que os islâmicos usam. E deveríamos pesar também a torpeza espiritual desses martírios. “Mártir” significa testemunha. O assassino em massa e suicida não testemunha nada - e não sacrifica nada. Ele morre por um ganho vulgar e enganoso. E em outro nível, também, a lógica para “operações de martírio” é um sofisma teológico do mais negro cinismo. Seu objetivo é simplesmente a obtenção de sistemas de entrega.

Nossa ideologia, que às vezes chamam de ocidentalismo, nos enfraquece de duas maneiras. Enfraquece nossa capacidade de percepção, e enfraquece nossa vontade e unidade moral. Como diz Harris:

“Sayyd Qutb, o filósofo predileto de Osama bin Laden, sentiu que o pragmatismo significava a morte da civilização americana... O pragmatismo, quando civilizações entram em choque, não parece propenso a ser muito pragmático. Perder a convicção de que se pode estar realmente certo - sobre qualquer coisa - parece uma receita para o caos do Fim dos Tempos vislumbrado por (William B.) Yeats : quando ´falta ao melhor toda convicção, enquanto o pior está cheio de intensidade apaixonada`.”

O argumento inicial que alcançamos por enquanto, na explicação de qualquer conflito, é o argumento da equivalência moral. Não se pode permitir que nenhum valor fique gravado em pedra; por isso começamos a questionar nossa capacidade de identificar até o que é o malum per se. Espancamentos em prisão, também, são o mal em si, e o mesmo vale para a delegação de tortura e assassinato a regimes menos magnânimos e, (é preciso que se diga) menos hipócritas. No tipo de guerra em que estamos envolvidos, um episódio como Abu Ghraib é mais que um desvio vergonhoso - é o equivalente a uma batalha perdida. Nossa vantagem moral, ainda vasta e evidente, não é um peso, e deveríamos fortalecê-la e expandi-la. Como nossa dependência da razão, ela é uma força estratégica, e sustenta nossa legitimidade.

Existe uma outra superposição simbiótica entre a práxis islâmica e a nossa, e isto é estranho e lamentável. Refiro-me ao drástico crescimento da não-entidade. Em nossa cultura de torneio de popularidade, com suas nulidades VIPs e mediocridades meteóricas, entendemos os atrativos da fama não justificada - aliás, da imortalidade instantânea e não merecida. Sentir que se é um ator geo-histórico é uma isca fabulosa para os condenados, como eles a vêem, à exclusão e à anomia. Em seu modo mais discreto, foi este, talvez, o componente chave da atração de intelectuais ocidentais pelo comunismo soviético: “junte-se a ele” e você será de um momento para outro um contribuinte de acontecimentos planetários. Enquanto Muhammad Atta virava o 767 para seu destino, ele estava confiante, pelo menos, que seus conterrâneos planejadores urbanos em Alepo se recordariam do seu nome, junto com todos os demais na Terra. Da mesma maneira, o fantasma de Shehzad Tanweer, enquanto observava as equipes desvairadas recolhendo restos humanos no cadinho infestado de ratos sob as ruas de Londres, podia ter certeza de que havia mandado para espaço o pesque-e-pague em Leeds. E aquela outra grande nulidade, Osama bin Laden - ela é eterna.

Em julho de 2005, voei de Montevidéu a Nova York - e do inverno para o verão - com minha filha de seis anos e sua irmã de oito. Tomava uma cerveja na fila do check-in, uma prática tolerada em Carrasco ( e que certamente provocaria olhares de censura em, por exemplo, o consagrado terminal Hajj no Mehrabad de Teerã); depois seguimos para a Segurança. Ora, sei que algumas meninas de seis anos podem parecer bastante suspeitas; mas minha filha mais nova não é assim. É uma lourinha magra com grandes olhos castanhos e voz trêmula. Mesmo assim, fiquei meia hora no balcão enquanto o funcionário revistava solene e metodicamente a sua mochila - observando astutamente cada fita de história e cada lápis, apalpando toda a extensão dos quatro membros de seu pato de pelúcia.

Deve haver uma palavra melhor do que tédio para o transe de inanição que me acometeu. Eu queria dizer algo como, “Nem mesmo os islâmicos começaram a explodir suas próprias famílias em aviões. Portanto, por favor, desistam até que eles comecem. Ah, sim: e limitem-se a pessoas que pareçam oriundas do Oriente Médio.” As revelações de 10 de agosto de 2006 só chegariam 13 meses depois. E apesar da exposição e prevenção de seu banho de sangue de inocentes especialmente ambicioso (a maioria, mulheres e crianças), os (alegados) jihadistas Walthamstow não se esforçaram em vão. Eles falharam na promoção do terror, mas tiveram uma grande vitória simbólica para o tédio: a proibição de livros no vôo de sete horas da Inglaterra para os Estados Unidos.

Minhas filhas e eu chegamos em segurança em Nova York. Em Nova York, em algumas estações do metrô, a polícia estava revistando todos os passageiros, para conter o terrorismo - obrigando assim cada terrorista a caminhar alguns quarteirões até uma estação do metrô onde a polícia não estivesse revistando passageiros. E não consegui evitar uma visão do futuro; nesse futuro, tomar um ônibus urbano será como voar pela El Al. Na segurança culpada de Long Island, assisti a cobertura da TV de minha casa, onde meus outros três filhos vivem, onde em breve estarei vivendo de novo com os cinco. Lá estavam os londrinos, em 8 de julho, indo para o trabalho a pé, com olhares duros e vigilantes, e não encontrando nenhum prazer em nada do que via. Eric Hobsbawn acertou em meados dos anos 90 quando disse que o terrorismo era parte da “poluição” atmosférica das cidades ocidentais. É um programa eficiente. Bombardeie Nova York e poluirá Madri; bombardeie Madri e poluirá Londres; bombardeie Londres e poluirá Paris e Roma, e poluirá de novo Nova York. Mas ali estava o consolo que nos concedia o prefeito. Não, não deveríamos nos surpreender com o uso desse eterno artifício de guerra. Usar seus corpos é o que as pessoas fazem.

A era do terror, assim suspeito, também será lembrada como a era do tédio. Não o tipo de tédio que aflige o blasé e o decadente, mas um supertédio, rondando e complementando o superterror do assassínio em massa por atentado suicida. E embora acabaremos prevalecendo na guerra contra o terror, ou reduzindo-a, como diz Mailer, a “um nível tolerável” (esta expressão vai pegar, e será usada por políticos, com discreto orgulho), não temos a menor chance na guerra contra o tédio. Porque o tédio é algo que o inimigo não sente. Sendo claro: o oposto da crença religiosa não é ateísmo, ou secularismo, ou humanismo. Não é um “ismo”. É independência mental - isto é tudo. Quando me refiro à era do tédio, não estou pensando em filas de aeroporto ou revistas policiais no metrô. Quero dizer o confronto global com a mente dependente.

Uma maneira de pôr fim à guerra contra o terror seria capitular e se converter. O período de transição não seria ameno, sem dúvida, com muito trabalho duro a ser feito nas praças urbanas, centros de cidade, e campos gramados. No entanto, enquanto o califado é restaurado em Bagdá, para grande alegria, os neófitos sobreviventes logo se acostumariam com o volumoso código penal aplicado pelo Ministério da Promoção da Virtude e da Supressão do Vício. Seria um mundo de perfeito terror e perfeito tédio, e nada mais - um mundo sem jogos, sem artes, e sem mulheres, um mundo onde o único entretenimento é a execução pública. Minha filha do meio, hoje com nove anos, ainda acredita em criaturas imaginárias (Papai Noel, a Fada do Dente); assim ela teria ao menos isso em comum com seu novo marido.

Assim como o judaísmo fundamentalista e o cristianismo medieval, o Islã é totalitário. Isso quer dizer que ele reivindica um domínio absoluto sobre o individual. De fato, não existe o indivíduo; existe apenas o Umma - a comunidade de crentes. O aiatolá Khomeini, em seus copiosos escritos, retorna freqüentemente a esse tema. Ele observa, sem nenhuma indulgência, que os crentes na maioria das religiões parecem pensar que, enquanto observarem todas as devoções formais, no resto de seu tempo eles podem fazer o que bem quiserem. O “Islã”, como ele com freqüência nos lembra, “não é assim”. O Islã o acompanha para toda parte, à cozinha, ao quarto de dormir, ao banheiro, e, além da morte, à eternidade. Islã significa “submissão” - a rendição da independência mental. Essa rendição carrega agora o peso de mais de 60 gerações, e 14 séculos.

A altiva auto-suficiência ou, se preferirem, a extrema falta de curiosidade da cultura islâmica tem sido muito notada. A Espanha atual traduz tantos livros para o espanhol, anualmente, quanto o mundo árabe traduziu para o árabe nos últimos 1.100 anos. E as potências islâmicas da Baixa Idade Média mal perceberam a existência do Ocidente até que começaram a perder batalhas para ele. A tradição de autarquia intelectual foi tão vigorosa que o Islã permaneceu indiferente mesmo a inovações facilmente acessíveis e obviamente úteis, incluindo, espantosamente, a roda. A roda, tal como a conhecemos, facilita rolar as coisas. Bernard Lewis, em What Went Wrong?, observa sabiamente que ela também torna as coisas mais fáceis de serem roubadas.

No início do século 20, todo o mundo muçulmano , com exceções parciais, fora subjugado pelos impérios europeus. E naquele ponto, as portas da percepção foram abertas à influência estrangeira: da Alemanha. Essa lealdade custa ao Islã seu último império, o Otomano, por décadas um “casco de navio imprestável” que foi devidamente desmantelado e repartido depois da Primeira Guerra Mundial - uma guerra armada em Berlim. Resoluto, o Islã continuou a procurar patrocínio e inspiração na Alemanha. Quando a experiência nazista terminou, em 1945, a simpatia por seus ideais persistiram por anos, mas o Islã foi obrigado a olhar para outros lados. Ele não teve escolha; geopoliticamente, não havia outro lado para se voltar. E o facho foi passado da Alemanha para a URSS.

Assim, o Islã, no fim, se mostrou sensível à influência européia: a influência de Hitler e Stalin. E não é difícil estabelecer similaridades entre o islamismo e os cultos totalitários do século passado. Anti-semitas, antiliberais, antiindividualistas, antidemocráticos, e, mais decisivamente, anti-racionais, eles também eram cultos da morte, impelidos pela morte e alimentados pela morte. A principal distinção é que o paraíso que os nazistas (pagãos) e os bolcheviques (ateus) procuravam criar era desumano, erguido sobre a matéria em decomposição de milhões de cadáveres. Para eles, a morte era criativa, com certeza, mas morte ainda era morte. Para os islâmicos, a morte é uma consumação e um sacramento; a morte é um começo. Sam Harris está certo:

“O islamismo não é apenas o último odor de niilismo totalitarista. Há uma diferença entre niilismo e um desejo de recompensa sobrenatural. Os islâmicos poderiam esfacelar o mundo em átomos e ainda não serem culpados de niilismo, porque tudo em seu mundo foi transfigurado pela luz do paraíso...” Movimentos de massa patológicos são sustentados por “sonhos de onipotência e sadismo”, na expressão de Robert Jay Lifton. Isso geralmente basta. O islamismo acrescenta um terceiro elemento de persuasão a seus guerreiros: uma imortalidade celeste que começa antes mesmo do momento da morte.

Ao encerrar um milênio, o Islã podia se dar ao luxo de ser autárquico. Sua ascensão é uma das maravilhas da história mundial - uma reação em cadeia de conquista e conversão, uma apropriação não só de território mas de milhões de corações e mentes. O vigor de seu ideal de justiça permitiu níveis de tolerância significativamente maiores que os do Ocidente. Também culturalmente o Islã foi o mais evoluído. Suas assimilações e seu aprendizado potencializaram a Renascença - da qual, lamentavelmente, ele não compartilhou. Durante toda sua ascendência, o Islã foi sustentado pelo que Malise Ruthven, em A Fury of God, chama de “o argumento do sucesso manifesto”. O fato da expansão subscreveu o mandato do Céu. E agora, nos últimos 300 ou 400 anos, a realidade observável propôs uma réplica: o argumento do fracasso manifesto. Tal como é entendido, no cosmos islâmico não há nada mais doloroso que a suspeita de que alguma coisa desnaturou a aliança com Deus. Essa conclusão insuportável deve naturalmente ser negada, mas está subliminarmente presente, e representa, talvez, o sofrimento apocalíptico do islâmico.

Nos últimos cinco anos, o que estivemos testemunhando, explosão ou colapso moral aparte, é uma agonia de morte: a agonia de morte do Islã imperial. O islamismo é a última onda - a última convulsão. Até 2003, podia-se tirar algum conforto da virulência da deformação islâmica. Nada tão insanamente dionisíaco, tão impossivelmente venenoso, poderia se manter íntegro com o passar do tempo. No século 20, excluindo-se a África, as únicas erupções comparáveis de fome de morte, de cio da morte, se resumiram à Alemanha nazista e o Camboja stalinista, a primeira durando 12 anos, a outra, três e meio. Hitler, Pol Pot, Osama: esses homens só pedem para ser os últimos a morrer. Mas há algumas razões sólidas para se pensar que o confronto com o islamismo poderá ser penosamente prolongado.

A esta altura não é muito difícil delinear o que saiu errado, psicologicamente, na guerra do Iraque. A virada fatal, a perda fatal de legitimidade, veio não só com o erro, mas também com a ênfase cínica nas armas de destruição em massa de Saddam: as agências de inteligência de cada país na Terra, Iraque inclusive, acreditavam que ele as possuía. A virada fatal foi a submissão muito palpável do presidente americano à embriaguez do poder. Seu andar, sua voz, seu idioma, até seu aparecimento mortificante em traje de vôo no porta-aviões USS Abraham Lincoln (“Missão Terminada”) - cada ponto e vírgula de sua linguagem corporal traindo a confiança inescrupulosa do aumento de poder.

Deveríamos pateticamente acrescentar que Tony Blair sucumbiu a isso também - com uma diferença. Na “velha” Europa, como Rumsfeld a chamou com insolência, a idéia de uma classe política estava predicada na imposição de controles e equilíbrios, de estabilizadores psíquicos para limitar a corrupção que a supremacia sempre acarreta. Não era apenas uma questão de higiene mental; todos entendiam que uma mente apodrecida tomará decisões podres. Blair sabia disso. E sabia que seu trunfo não era alto: a necessidade de o povo americano ouvir uma aprovação da guerra com sotaque britânico. Contudo, ali estava ele, apanhado inapelavelmente no vácuo de Bush. Rumsfeld também sucumbiu nitidamente a isso. Na TV, naquela ocasião, parecia alguém recém-saído de uma rodada de cocaína. “Essas coisas acontecem”, disse ele, quando perguntado sobre o saque da herança mesopotâmica em Bagdá - a observação de um homem não só corrompido mas vulgarizado pelo poder. Além da linguagem corporal, desta vez, houve também a linguagem, o linguajar do poder, desde o “quero arrebentar” de Bush até seu “Que venha” - uma incitação jovial, alguns podem agora achar, à insurgência armada.

Observando isso, a aversão que se sentia estava muito longe de se limitar à estética. Muita coisa decorreu disso. E agora sabemos que uma atmosfera de unanimidade instigadora, de triunfalismo pré-guerra, se formou em torno do presidente, uma atmosfera na qual qualquer contra-argumento, qualquer indício de circunspeção, era visto como uma lamúria da fraqueza ou deslealdade. Se estivesse viva, Barbara Tuchman estaria se aquecendo para escrever um longo adendo a The March of Folly; mas nem mesmo ela poderia ter antecipado um presidente que “entrando nesse período”, “estava rezando por força para fazer a vontade de Deus”. Um corrida ao poder abençoada por Deus - não, não era um bom ambiente para dúvidas e precauções. Na ocasião, a invasão do Iraque era apresentada como uma guerra preventiva “autofinanciada” para garantir o desarmamento e a mudança de regime. Três anos e meio depois, esta é uma guerra aventureira e de proselitismo, e seu objetivo restante é a promoção da democracia.

O projeto do Iraque estava previamente condenado por três realidades históricas intrínsecas. Primeira, o Oriente Médio é nitidamente incapaz, por enquanto, de sustentar um regime democrático - pela simples razão de que seus povos votarão contra ele. Será que ninguém sussurrou as palavras, na Sala de Situação - ninguém disse o que os estudiosos estavam dizendo havia anos? A “política eleitoral” dos fundamentalistas, escreve Lewis, “ foi classicamente resumida como ´Um homem (apenas homens), um voto, certa vez`. “ Ora, na metáfora de Harris, a democracia será “pouco mais que um trampolim para a teocracia”; e que a teocracia será islâmica. Agora as urnas foram fechadas, e os resultados estão surgindo, em toda a região. No Líbano, avança o Hezbollah; no Egito, avança a fraternidade de Sayyd Qutb, a Irmandade Muçulmana; na Palestina, vitória do Hamas; no Irã, vitória do demagogo e anti-semita primitivo Mahmud Ahmadinejad. Na eleição iraquiana, Bush e Blair, pateticamente, “torceram” por Allawi, que conquistou somente 14% dos votos.

Segunda, o Iraque não é um verdadeiro país. Ele foi montado por Winston Churchill no início dos anos 30. É formado por três províncias (otomanas) separadas, sunita, xiita, curda - uma disposição que parece fadada a se reconstituir. Entre as palavras ouvidas pela administração americana, podemos incluir as de Saddam Hussein. Mesmo com um aparato de terror mais selvagem que qualquer outro na história, mesmo com armas químicas, helicópteros de combate e assassinatos em massa, mesmo com uma comprovada prontidão para “limpar”, deslocar e destruir ecossistemas inteiros, Hussein modestamente admitiu que achou o Iraque um país difícil de manter unido. Como um militar sunita comenta, os iraquianos odeiam o Iraque - ou o “Iraque”, um conceito que só lhes trouxe sofrimentos. Não há instinto nacionalista; o instinto é pela atomização.

Terceira, só o saque de Meca ou Medina teria causado mais dor ao coração islâmico que a tomada, e emporcalhamento, da capital iraquiana, sede do Califado. Não ouvimos uma única discussão, em casa, sobre o significado religioso de Bagdá. Mas tivemos algumas intimações da linha de frente dos jihadistas. Em pronunciamentos vibrando de insuflação histórica, eles falam de seu abraço jubiloso da chance de encontrar o infiel na Terra Entre os Rios. E, claro, além - em Madri, em Bali (de novo), em Londres. A aventura da Coalizão pode ter dado ao inimigo um casus belli que arderá por uma geração.

Há vastas pluralidades em todo o Ocidente sequiosas por um fracasso americano no Iraque - porque elas odeiam George Bush. Talvez elas não percebam que estão ao mesmo tempo sequiosas por uma vitória islâmica que piorará dramaticamente as vidas de seus filhos. E isso pode acontecer. Observemos guerra, não pelos olhos de Bin Laden, mas pelos olhos das artimanhas da história. Dessa perspectiva, o 11 de setembro foi uma provocação. A investida no Iraque se traduziu numa finta, e numa armadilha. Agora sabemos, de vários best-sellers de 500 páginas como Cobra II e Fiasco, que a invasão do Iraque foi incrivelmente leviana (não havia plano, nenhum plano mesmo, para a ocupação); contudo, não deveríamos nos iludir que os motivos por trás dela eram desonrosos. Esse é um tipo de tragédia familiar. A Guerra do Iraque representa um contrato gigante, não só para a Halliburton, mas também para a empresa de pavimentação chamada Boas Intenções. Devemos esperar que alguma coisa se salve disso, e que nossa posição ética possa ser reconsolidada. O Iraque foi um desvio do que está sendo sombriamente referido como a Longa Guerra. A nossas perdas fúteis de sangue, riquezas e prestígio moral, podemos acrescentar a perda de tempo; e tempo é sangue, também.

Uma idéia se apresenta sobre uma direção melhor a tomar. E curiosamente, sua atual defensora é a filha do gênio soturno por trás do desastre no Iraque: ela se chama Liz Cheney. Antes de chegarmos a isso, porém, devemos voltar rapidamente a Ayed, e seu cinto, e a alguns pensamentos serenos sobre a arte da ficção.

O desfecho com “cinto” de The Unknown Known me surgiu bem tarde, mas o cinto já estava lá, e com destaque. Todos os escritores saberão exatamente o que isso significa. Significa que o subconsciente havia feito uma sugestão polida, uma sugestão que a mente consciente levou algum tempo para ver. O cinto de Ayed, comprado por reembolso postal em Greeley, Colorado, é chamado de “RodeoMaMa”, e consiste de uma “correia de peso” e o botão do arção de uma sela. Ayed é daquela raça de homens que sustenta que um marido de fazer sexo com suas esposas todas as noites. E seu uso invariável do “RodeoMaMa” é uma das razões para o alvoroço de motim em seus casamentos.

Olhando dentro do armazém denominado Conhecidos Conhecidos, Ayed reequipa seu “RodeoMaMa”. Ele volta para casa e intima suas esposas - pela última vez. Assim Ayed consegue sua ruptura conceitual, seu desconhecido desconhecido: ele é o primeiro a trazer operações de martírio para o ambiente do próprio lar.

Eu poderia escrever uma peça tão longa quanto esta sobre por que abandonei The Unknown Known. O momento confirmatório veio há algumas semanas: a suspeita recém fortalecida de que existe em nosso planeta uma espécie de ser humano que se tornará muçulmano para perseguir o assassínio em massa por atentado suicida. Durante bom tempo senti que o islamismo estava tentando envenenar o mundo. Aqui estava um sinal de que o veneno podia pegar: podia sofrer uma mutação, como o vírus da gripe aviária. O Islã, já disse, é um sistema total, e, nessa condição, é sinistramente favorável à crítica. Mas, no islamismo, com malignidade total, com terror total e tédio total, a ironia, mesmo a ironia militante (o que a sátira é), meramente estremece e morre.

No século 20, o falecido historiador JM Roberts adotou uma posição não sentimental sobre a Revolução Chinesa. “Mais de 2.000 anos de continuidades históricas notáveis jazem atrás (dela), que, apesar de todo seu custo e crueldade, foi um feito histórico, equiparado em escala a levantes gigantescos como a disseminação do Islã, ou o assalto da Europa sobre o mundo nos primeiros tempos da era moderna.”
O custo e crueldade, segundo Juang Chang e a recente biografia de Jon Halliday, significou, talvez, 70 milhões de vidas só no período de Mao. Contudo, isso deve ser colocado na balança contra “o peso do passado” - em nenhum lugar mais pesado que na China:

“Ataques deliberados à autoridade familiar... não eram meras tentativas de um regime desconfiado para encorajar informantes e a delação, mas ataques à mais conservadora de todas as instituições chinesas. Da mesma forma, o progresso das mulheres e da propaganda para desencorajar o casamento prematuro teve dimensões que foram além de idéias feministas “progressistas” e do controle populacional; foram um ataque ao passado como nenhuma outra revolução jamais realizou, pois na China o passado significava um papel para mulheres bem inferior aos da América, da França e até da Rússia pré-revolucionárias.”

Não há impulso, no Islã, para uma reforma. E não há tempo, agora, para uma lenta ilustração. A sublevação necessária é uma revolução - a libertação das mulheres. Não será obra de uma década ou mesmo de uma geração. O Islã é um milênio mais novo que a China. Mas lembremo-nos de que a Revolução Chinesa levou meio século para alcançar todas suas aldeias.
Em 2002, o PIB agregado de todos os países árabes foi menor que o PIB da Espanha; e os Estados islâmicos ficam atrás do Ocidente, e do Extremo Oriente, em todos os indicadores de produção industrial e manufatureira, criação de emprego, tecnologia, alfabetização, expectativa de vida, desenvolvimento humano, e vitalidade intelectual. (Um exemplo oculto: em termos de posse de linhas telefônicas, a principal nação islâmica são os Emirados Árabes Unidos, listado em 33º lugar, entre Reunião e Macau.) Existe ainda a questão da tirania, da corrupção, e da falta de direitos civis e de sociedade civil. Podemos imaginar como os islâmicos se sentem quando comparam a Índia ao Paquistão, a primeira uma superpotência democrática fervilhante, a outra mal distinguível de um estado falido. What Went Wrong? (o que saiu errado?) perguntou Bernard Lewis, na extensão de um livro. A resposta geral seria o irracionalismo institucionalizado; e o foco particular seria a lógica obscura que nega ao mundo islâmico o talento e a energia da metade de seu povo. Não há dúvida de que o impulso para a investigação racional é hoje mais fraca nos homens muçulmanos comuns. Mas podemos ficar com a memória daquelas imagens do Afeganistão: as grandes ondas de mulheres correndo para a escola.

A conexão entre o fracasso manifesto e a repressão às mulheres não pode ser ignorada. E às vezes se sente que o atual xis do problema, com seu caos de inseguranças e nostalgias, é pouco mais que um furor preventivo - para precaver-se contra o abandono do último santuário do poder. O que aconteceria se gastássemos parte dos próximos U$ 300 bilhões (esta é a proposta de Liz Cheney) para elevar a consciência no mundo islâmico? O efeito seria inerentemente explosivo, porque o domínio do homem é corânico - a infalsificável palavra de Deus, tal como foi ditada ao Profeta:

“Os homens são os protetores das mulheres, porque Deus dotou uns com mais (força) do que as outras, e pelo sustento do seu pecúlio. As boas esposas são as devotas, que guardam, na ausência (do marido), o segredo que Deus ordenou fosse guardado. Quanto àquelas, de quem suspeitais deslealdade, admoestai-as (na primeira vez), abandonai os seus leitos (na segunda vez) e castigai-as (na terceira vez); porém, se vos obedecerem, não procureis meios contra elas. Sabei que Deus é Excelso, Magnânimo.' (Alcorão 4:34)

Poderemos imaginar homens marchando em defesa de seu direito de espancar suas esposas? E se isso acontecer, e daí? Será que isso conquistaria corações e mentes? Os mártires dessa revolução seriam sustentados por duas verdades óbvias: a sujeição da autoridade às Escrituras, em todo o mundo, é muito seriamente questionada; e as mulheres, por definição, não são uma minoria. Elas saberiam, também, que sua luta é um ataque heróico ao peso do passado - o peso titânico de 14 séculos.

Leitores atentos podem ter se perguntado o que é essa categoria ridícula, o conhecido desconhecido. O conhecido desconhecido é paraíso, infalibilidade da Escritura, Deus. O conhecido desconhecido é a crença religiosa.

Todas as religiões são violentas; e todas as ideologias são violentas. Mesmo o ocidentalismo, tão impecavelmente brando, tem a violência faiscando em seu interior. É por isso que qualquer sistema de crença envolve um grau de ilusão, e, portanto, não pode ser defendido pela mente apenas. Quando desafiado, ou afrontado, a resposta do crente é hormonal; e a colisão subseqüente será entre um cérebro e um ninho de gatos de glândulas. Jamais esquecerei o olhar no rosto do porteiro, no Domo da Rocha em Jerusalém, quando sugeri, talvez levianamente, que ele esquecesse algumas proibições relativas ao calendário e me deixasse entrar. Sua expressão, antes cordial e fria, virou numa máscara; e a máscara estava dizendo que matar-me, matar minha esposa e meus filhos era algo para o qual ele agora estava autorizado. Eu já sabia então que a expressão “profundamente religioso” era um grave abuso desse advérbio. Uma coisa não é profunda só porque é tudo que está lá; é mais como um verniz sobre um vazio. O islamismo milenar é uma ideologia sobreposta a uma religião - ilusão sobre ilusão. Não é meramente violência em tendência. Violência é tudo que existe ali.

Em Aubade (1977), de Phil Larkin, o poeta, ao despertar, contempla “a morte inexorável, um dia inteiro mais perto agora”?

Esta é uma maneira especial de ter medo
Nenhum truque o dissipa. A religião costumava tentar,
Este vasto brocado musical roído pelas traças
Criado para fingir que não morreremos jamais...

Muito antes, em Church Going (1954), examinando seu hábito de visitar igrejas rurais e os sentimentos que elas lhe despertavam (principalmente perplexidade e tédio), ele pôde armar uma resposta mais extensa:

Me agrada ficar aqui em
silêncio;
Uma casa séria em terra
séria ela é,
Em cujo ar misturado
todas nossas compulsões se encontram,
São reconhecidas,
e vestidas como destinos.
E isso tudo jamais pode
ficar obsoleto,
Pois sempre alguém
surpreenderá
Uma fome em si de
ser mais sério,
E gravitando com ele para esse chão,
Que, ele um dia ouviu,
era próprio para se ficar
sábio,
Quando menos pelos tantos que ali jazem.

Isso é lindamente realizado. E contém tudo que pode ser decente e racionalmente dito.

Nós admitimos que, no caso da religião, ou da crença em seres sobrenaturais, o passado pesa em, não 2.000 anos, mas em aproximadamente cinco milhões. Mesmo assim, chegou o momento de uma dose de impaciência em nosso trato com aqueles que tomariam um inocente pronome pessoal, que só estava cuidando de seus negócios, e o exaltam com uma letra maiúscula. A oposição à religião já ocupa o terreno elevado, intelectual e moralmente. As pessoas de espírito independente deveriam começar agora a reivindicar o terreno elevado espiritual também. Deveríamos ficar com Joseph Conrad:

“O mundo dos vivos contém maravilhas e mistérios suficientes como ele é - maravilhas e mistérios agindo sobre nossas emoções e inteligência de maneiras tão inexplicáveis que quase justificariam a concepção da vida como um estado encantado. Não, sou firme demais em minha consciência do maravilhoso para ser fascinado pelo mero sobrenatural, que (tome-o como quiser) não passa de um artigo manufaturado, a fabricação de mentes insensíveis às delicadezas íntimas de nossa relação com os mortos e os vivos, em suas multidões incontáveis; uma profanação de nossas lembranças mais ternas; um ultraje a nossa dignidade.

“Seja qual for meu recato natural, ele jamais condescenderá em procurar amparo para minha imaginação naquelas imaginações comuns a todas as eras e que em si bastam para encher todos os amantes da humanidade de inexprimível tristeza.” (“Nota do Autor” a The Shadow-Line, 1920).

* Martin Amis escreveu este texto para “The Observer” VOLTAR A ARTIGOS ETC

Sunday, September 17, 2006

A era do horrorismo

estado

A era do horrorismo

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

Martin Amis

Era meados de outubro de 2001, e a noite descia sobre a cidade fronteiriça de Peshawar, no Paquistão, quando meu amigo - um jornalista e homem de letras político - aproximou-se de uma banca de mercado e começou a pechinchar por um lote de camisetas com a imagem de Osama bin Laden. No Islã sunita, é vedado estampar a forma humana por receio de que isso leve à idolatria; mas ali estava o rosto senhorial de Osama em exposição e à venda bem ao lado da mesquita. A mesquita estava vazia, e meu amigo se viu repentina e completamente cercado por uma irmandade cerrada de jovens zombeteiros e agressivos: os jovens de Peshawar.

A essa hora do dia, a expectativa de seus equivalentes, nos grandes complexos urbanos da Europa e da América, seria aliviar suas intensas frustrações entornando tonéis de álcool, ingerindo soberbas refeições, correndo para os apartamentos uns dos outros em máquinas possantes e caras, entornando mais álcool e estimulantes e relaxantes adicionais, saltitando durante horas em salões de dança açoitados por luz estroboscópica, e (muitas vezes) praticando sexo eletrizante com quase perfeitos estranhos. Diversões como essas não estavam ao alcance dos jovens de Peshawar.

Um pouco além da fronteira, o Ocidente cuidava dos primeiros estágios de invadir o Afeganistão e massacrar os piedosos clientes e crias do Paquistão, os taleban. Os ouvidos desses jovens ainda vibravam com os gritos de guerra de mulás, e seus olhos ardiam novamente com a fumaça espessa de centenas de milhares de fogueiras - fogueiras acesas pelas multidões de exilados e refugiados do Afeganistão acampadas em torno da cidade. Talvez tivessem a consciência também de que a República Islâmica do Paquistão, no último mês, havia revertido anos de política e decidido sacrificar as vidas de seus clientes e crias muçulmanos do outro lado da fronteira em troca de dinheiro americano. Assim, quando a multidão carrancuda fez a pergunta, a resposta precisava ser boa.

“Para que deseja essas camisetas? Gosta de Osama?”

Quase posso ouvir o tom da resposta que eu teria dado - débil, vacilante, absolutamente derrotista. Quanto à substância, teria sido a réplica do oportunista encurralado, com a única intenção real de ganhar tempo para assumir a posição fetal e cruzar os braços na frente do rosto. Algo como: “Bem, gosto um bocado dele, mas acho que ele exagerou um pouco em Nova York.” Não, isso não serviria. Era preciso ousadia e brilho. A conversa prosseguiu:

“Claro. Ele é meu irmão.”

“Seu irmão?”

Todos os homens são meus irmãos. Teria gostado de dizer isso a eles naquele momento, e gostaria de dizê-lo agora: todos os homens são meus irmãos. Mas nem todos os homens são meus irmãos. Por quê? Porque todas as mulheres são minhas irmãs. E o irmão que nega os direitos de sua irmã não é meu irmão. Quando muito, é meu meio-irmão - por definição. Osama não é meu irmão.

Religião é um terreno delicado, como era de se esperar. Aqui pisamos em cascas de ovos. Porque a religião em si é uma casca de ovo. Hoje, no Ocidente, não há boas desculpas para a crença religiosa - a menos que achemos que ignorância e sentimentalismo são boas desculpas. Não é assim no Oriente, claro, onde, admitimos, quase todo ser vivente em muitos países enormes e populosos é intimamente definido por sua crença religiosa. As desculpas, aqui, são muito persuasivas; e devidamente aceitamos que essa “fé” - recentemente e quase carinhosamente definida como “o desejo da aprovação de seres sobrenaturais” - é uma força e um ator mundial histórico. Todas as religiões têm, é claro, seus terroristas; a cristã, a judaica, a hindu, até a budista. Mas não estamos julgando essas religiões. Estamos julgando o islamismo.

Tratemos de esclarecer a posição. Podemos começar dizendo não só que respeitamos Maomé, mas que nenhuma pessoa séria deixaria de respeitar Maomé - um ser histórico único e luminoso. Julgado pelas continuidades que ele conseguiu colocar em movimento, ele continua sendo uma figura titânica e, para os muçulmanos, uma resposta para tudo: um revolucionário, um guerreiro e um soberano, um Cristo e um César, “com o Alcorão numa mão”, como Bagehot o imaginou, “e uma espada na outra”. Maomé tem fortes predicados para reivindicar a condição do homem mais extraordinário de todos os tempos. E sempre um homem, como ele mesmo sustentou, e não um deus. Naturalmente, nós respeitamos Maomé. Mas não respeitamos Muhammad Atta.

Até recentemente, dizia-se que havia uma “guerra civil” no interior do Islã. Era o que supostamente tudo isso deveria ser: não um choque de civilizações ou algo do gênero, mas uma guerra civil no interior do Islã. Bem, a guerra civil parece ter acabado. E o islamismo a venceu. O perdedor, o Islã moderado, está sempre ilusoriamente bem representado nas páginas de opinião dos jornais e no debate público; fora disso, ele é ocioso e inaudível. Não estamos ouvindo o Islã moderado, ao passo que o islamismo, como ator e modelador dos acontecimentos mundiais, é praticamente tudo que conta.

Então, repetindo, respeitamos o Islã - produtor de benefícios incontáveis à humanidade, e possuidor de uma história eletrizante. Mas islamismo? Não, dificilmente poderiam nos pedir que respeitássemos uma onda religiosa que prega nossa própria eliminação; mais ainda, consideramos o Grande Salto para Trás como um desenvolvimento trágico na história do Islã, e agora na nossa. Claro que respeitamos o Islã. Mas não respeitamos o islamismo, assim como respeitamos Maomé e não respeitamos Muhammad Atta.

Logo chegarei a Donald Rumsfeld, o arquiteto e avalista do hediondo cataclismo no Iraque. Mas antes devo passar de coisas grandes para pequenas, para um parágrafo, e falar sobre escrever, e sobre a coisa estranha que me aconteceu em minha escrivaninha nesta Era da Normalidade Desaparecida.

Todos os escritores de ficção, em algum momento, se verão abandonando um trabalho - ou deixando-o de lado, como dizemos bondosamente. A idéia original, a “palpitação” inicial (Nabokov), encontra certos “pontos de resistência” (Updike) e esses pontos são, às vezes, simplesmente duros, numerosos e difundidos demais. Você vem para escrever a página seguinte, e ela está morta - como se o seu subconsciente, a parte de você silenciosamente responsável por tanto de seu labor diário, tivesse sido neutralizado ou desligado. Norman Mailer disse que uma de suas poucas penas reais sobre a “arte fantasmagórica” é que ela requer que você passe tempo demais entre coisas mortas. Recentemente, e pela primeira vez, abandonei, não uma coisa morta, mas uma novela florescente; e o fiz por razões absolutamente estranhas. Estou ciente de que isso dificilmente será um acontecimento tectônico; mas para mim o episódio foi existencial. No Ocidente, escritores estão aclimatizados à liberdade - à liberdade ilimitada e voraz. E descobri algo. Escrever é liberdade; e quando essa liberdade está ameaçada, o escritor não consegue mais avançar. A ameaça, nesse caso, não era um medo de repercussão. Era como se, com a maior relutância, eu estivesse recebendo uma nova vibração ou freqüência da trêmula luminosidade planetária. A novela era uma sátira chamada The Unknown Known (O Conhecido Desconhecido).

O secretário Rumsfeld foi injustamente ridicularizado, alguns acham, por sua taxonomia em estilo de haiku da ameaça terrorista: “A mensagem é: existem ‘conhecidos’ conhecidos. Existem coisas que nós sabemos que sabemos. Existem desconhecidos conhecidos. Isto é, coisas que sabemos que não sabemos. Mas existem também desconhecidos desconhecidos, coisas que não sabemos que não sabemos.”

Como seu hábito de falar “na terceira pessoa passiva antes retirada”, isso é “muito rumsfeldiano”. E Rumsfeld pode ser ainda mais rumsfeldiano do que isso. Segundo Plan of Attack, de Bob Woodward, num briefing para senadores a portas fechadas em setembro de 2002 (a idéia era vender uma mudança de regime no Iraque), Rumsfeld exasperou todos os presentes com uma torrente de rumsfeldismos, incluindo a seguinte estrofe: “Nós sabemos o que sabemos, sabemos que existem coisas que não sabemos, e sabemos que existem coisas que sabemos que não sabemos que não sabemos.” Seja como for, as três categorias continuam sendo muito úteis como ferramentas analíticas. E elas certamente exerceram forte atração sobre o narrador de The Unknown Known - Ayed, um terrorista islâmico minúsculo que opera no Waziristão, a fronteira setentrional montanhosa onde Bin Laden ainda estaria se escondendo.

A equipe de Ayed, chamada “o Prisma”, consistia de três setores denominados, sem grande imaginação, Setor Um, Setor Dois e Setor Três. Mas Ayed e seus colegas são leitores atentos da imprensa ocidental, e os setores agora têm novos títulos. Conhecidos Conhecidos (setor um ), cuida da logística diária: bombas, minas, obuses e vários sistemas explosivos improvisados. O trabalho de Desconhecidos Conhecidos (setor dois) é mais peripatético e de longo prazo; ele envolve, por exemplo, circular pela Coréia do Norte na esperança de encontrar os lendários 25 quilos de urânio enriquecido, ou ir de fábrica em fábrica no Usbequistão à procura de toxinas e asfixiantes melhores. Em Conhecidos Conhecidos, os irmãos são incomodados por incêndios, vazamentos de gás e explosões quase diárias; os irmãos de Desconhecidos Conhecidos são perseguidos por dores de cabeça e gargantas inflamadas, e seus hálitos são condizentemente ricos em aromas de potentes pastilhas para tosse, movimentando-se como fazem entre tonéis de ácidos e banheiras com pesticidas brutos. Todos querem trabalhar onde Ayed trabalha, que é no setor três, ou Desconhecidos Desconhecidos. O setor três se dedica a inovações conceituais - em mudanças do paradigma.

Mudanças do paradigma como o ataque de 11 de setembro de 2001. Mudanças de paradigma abrem uma janela; e, uma vez aberta, a janela se fechará. Ayed observa que o 11/9 se tornou instantaneamente impossível de repetir; de fato, a tática ficou obsoleta às 10 horas da mesma manhã. Sua eficácia durou 71 minutos, das 8h46, quando o American 11 atingiu a Torre Norte, às 9h57 e o início da rebelião no United 93. Neste, os passageiros ficaram sabendo da nova realidade por seus celulares, e não se demoraram no velho paradigma - o cerco de quatro dias em pista de aeroporto equatorial, a diminuição de suprimentos de comida e água, os banheiros pestilentos, as condições e exigências, a libertação paulatina de mulheres e crianças, ou escaladas de comandos. Não, eles sabiam que não estavam mais num avião comercial; estavam num míssil. Por isso, reagiram. E, às 10h03, o United 93 mergulhou a 928 km/h em Shankesville, Pensilvânia, a 20 minutos do Capitólio.

Achei difícil, felizmente, imaginar mudanças de paradigma. E Ayed e seus amigos no setor três também. Sinergia, maximização - são esses tipos de conceitos que são citados em Desconhecidos Desconhecidos. Aqui, um camarada defende dinamitar a Falha de San Andreas; ali, outro vislumbra a introdução em larga escala de raiva (combinada com varíola, metanfetamina e esteróides) na fauna do Central Park. Segue-se um silêncio pensativo. E, com freqüência, esses silêncios duram dias. Tudo que se pode ouvir, em Desconhecidos Desconhecidos, são palmas ocasionais, ou o estalido de um besouro esmagado sob o pé. Ayed sente-se, ou costumava se sentir, superior a seus colegas, porque sempre teve seu momento de Eureka. Ele o teve na primavera de 2001, e seu projeto - seu “bebê”, se quiserem - foi lançado no verão daquele ano, e ainda está em curso. Tinha o nome de código: UU: CRs/G,C.

A inovação conceitual de Ayed não caiu bem no Setor Três, como ele era então chamado; na verdade, foi muito ridicularizado. Mas Ayed usou uma conexão de família e ganhou uma audiência com o mulá Omar, o clérigo islâmico caolho que governou por algum tempo o Afeganistão - uma figura imponente com seus lenços de cabeça e sandálias de dedo. Ayed fez sua exposição e, para seu assombro, o mulá Omar sorriu com seu plano. Esta era uma condição necessária porque a mudança de paradigma só poderia ser percebida com os plenos recursos de um Estado-nação. O UU: CRs/G,C seguiu em frente. A idéia era, como Ayed diria, enganosamente simples. Era arrebanhar todos os estupradores compulsivos e loucos de prisões e asilos do país e soltá-los em Greeley, Colorado.

Quando a história começa, os CRs estavam a caminho de G, C havia quase cinco anos, cruzando a África central em microônibus e a pé, e sofrendo muitos percalços sangrentos (uma legião de 30 mil janjaweed no Sudão, uma “milícia infantil” armada com facões no Congo). Por cima disso tudo, como se já não tivesse muito com que se preocupar, Ayed não está se saindo muito bem com suas esposas.

Os que conhecem o campo não se surpreenderão com a escolha de Greeley, Colorado. Pois foi em Greeley, Colorado, em 1949, que o islamismo, como agora o conhecemos, foi decisivamente moldado. A história é grotesca e incrível - mas o mesmo vale para suas conseqüências. E continuaremos nos dizendo quão grotesca e incrível ela é em nossa realidade presente, tão imprevisível e tão absolutamente indecifrável, mesmo com a distância do fim dos anos 90. Naquela época, os EUA estavam tão à vontade, política e culturalmente, que puderam dedicar um ano inteiro a Monica Lewinsky. Monica, agora parece, e mesmo Bill, estavam vivendo em tempos inocentes.

De lá para cá, o mundo sofreu um abalo moral - o equivalente espiritual, em sua profundidade e alcance global, à Grande Depressão da década de 30. De nosso lado, “rendição extraordinária”, procedimentos psicológicos coercitivos, técnicas de interrogatório mais duras, Guantánamo, Abu Ghraib, Haditha, Mahmudiya, duas guerras, e dezenas de milhares de mortos. Tudo isso deveria ser comparado, sobriamente, aos feitos da ideologia oposta, uma ideologia que, em sua forma mais milenar, conjura a imagem de um matadouro dentro de um asilo de loucos. Detalharei isto porque não tem sido amplamente assimilado. Os islâmicos mais extremistas querem matar todos na Terra exceto os islâmicos mais extremistas; mas cada jihadista vê a necessidade de eliminar todos os não-muçulmanos, seja pela conversão, seja pela execução. E hoje sabemos perfeitamente o que acontece quando o islamismo põe as mãos num Exército (Argélia) ou em algo que pareça um Estado-nação (Sudão). No primeiro caso, o resultado foi fratricida, com 100 mil mortos; no segundo, depois do golpe islâmico em 1989, o resultado tem sido uma espécie de genocídio contínuo, e a cifra alcança talvez 2 milhões. Tudo remonta a Greeley, Colorado, e a Sayyd Qutb.

As coisas começaram a dar errado para o pobre Sayyd durante a travessia do Atlântico, vindo de Alexandria, quando, alegadamente, “uma mulher seminua e bêbada” tentou invadir sua cabine. Mas, antes de chegarmos a isso, alguns antecedentes. Em 1949, Sayyd Qubt acabava de completar 43 anos. Sua infância foi provinciana e devota. Adolescente, foi estudar no Cairo, quando suas inclinações se tornaram literárias e eurófonas, e até levemente cosmopolitas. Apesar de uma admiração inicial - e espantosa - pelo naturismo, ele já considerava as mulheres cairotas “indignas”, e confessava sua insatisfação com “seu nível atual de liberdade”. Um conto registrou sua primeira decepção em assuntos do coração; seu título, plangente, era Espinhos. Bem, todos já passamos por isso; e a maioria de nós adere então ao arco descrito no poema de Peter Porter, Once Bitten, Twice Bitten (mordido uma vez, mordido duas). Mas Sayyd não precisou de muita decepção, e abdicando prontamente de toda esperança de encontrar uma mulher com limpeza moral “suficiente”, resolveu se aferrar à virgindade.

Estabelecido de maneira modesta como escritor, Sayyd conseguiu um emprego no Ministério da Educação. Isso o radicalizou. Ele se sentia oprimido pelos vestígios do protetorado britânico no Egito, e era alarmista sobre a crescente presença judaica na Palestina - outro crime britânico, na visão de Sayyd. Ele se tornou um ativista, e correu algum risco de prisão (nas mãos do rei Farouk), antes do ministério enviá-lo aos Estados Unidos para um par de anos de pesquisa educacional. A prisão, aliás, o reclamaria logo depois de sua volta. Ele foi um das dezenas de Irmãos Muçulmanos presos (e torturados) depois do fracassado atentado contra a vida do modernizador e secularista Nasser, em outubro de 1954. Houve uma curta suspensão da pena em 1964, mas Sayyd logo tornou a ser preso - e novamente torturado. Descartando com firmeza um acordo de clemência costurado por ninguém menos que o jovem Anwar Sadat, ele foi enforcado em agosto de 1966; e este foi um martírio estratégico que hoje cala fundo na alma islâmica. Seu livro mais influente, como o livro com o qual ele é freqüentemente comparado, foi escrito atrás das grades. Marcos é conhecido como o Mein Kampf do islamismo.

Sayyd ainda estava presumivelmente muito abalado pelo nascimento de Israel (depois da derrota do Egito e outros cinco exércitos árabes), mas no início, na travessia do Atlântico, ele sentiu uma expansão espiritual. Seu comentário enciclopédico À Sombra do Alcorão, recordaria de maneira ingênua e desconexa seu senso de propósito e destino. No início, ele se empenhou numa batalha sectária menor com um prosélito cristão; Sayyd retaliou fazendo ele próprio um pouco de proselitismo, e fez alguns progressos com um contingente de marinheiros núbios. Depois veio o incidente traumático com a mulher seminua e bêbada. Sayyd achou que ela era uma agente americana contratada para seduzi-lo, ou foi o que contou a seu biógrafo, segundo o qual “o encontro testou com sucesso sua resolução de resistir a experiências que pudessem prejudicar sua identidade como egípcio e muçulmano.” Deus sabe o que significou de fato o episódio. Parece provável que a Mata-Hari alcoolizada, a nudista dipsomaníaca, era simplesmente uma mulher em vestido de noite que talvez tivesse bebido recentemente um coquetel. Mesmo assim, podemos imaginar Sayyd se barricando dentro da sua cabine enquanto, do outro lado da porta, a sereia entoa seu canto.

Ele não gostou de Nova York: materialista, trivial, idólatra, libertina, depravada, e assim por diante. Washington era um pouco melhor. Mas aqui, o enfermiço Sayyd (pulmões) foi hospitalizado, o que o envolveu em outro acaso tétrico que não teria enfrentado em casa: enfermeiras. Uma delas, enfeitada com “lábios sedentos, seios proeminentes, pernas lisas” e uma maneira coquete (“o olho convidativo, o riso provocador”), regalou-o com sua lista de desejos sobre dotes do amante ideal. Mas “o pai do islamismo”, como ele com freqüência se chamava, permaneceu calmo, desenvolvendo mais tarde o incidente numa diatribe contra homens árabes que sucumbem ao fascínio de mulheres americanas. Numa explosão extraordinária de falsidade ou desilusão, Sayyd afirmou que o corpo médico exultou cruelmente com a notícia do assassinato, no Egito, de Hasan al-Banna. Podemos tentar imaginar a probabilidade de que algum americano tivesse ouvido falar de al-Banna, ou mesmo da Irmandade Muçulmana que este havia fundado. Quando Sayyd recebeu alta do Hospital da Universidade George Washington, ele provavelmente pensou que o pior havia passado. Mas aí ele foi para o caldeirão - para a “casa do inferno” borbulhante - de Greeley, Colorado.

, Durante seus seis meses na Faculdade Estadual de Educação do Colorado (e depois disso na Califórnia), a desaprovação faminta de Sayyd encontrou uma grande diversidade de alvos.

Gramados americanos (um exemplo aflitivo de egoísmo e atomismo), conversa americana (“dinheiro, estrelas de cinema e modelos de carros”), jazz americano (“um tipo de música inventada por negros para agradar suas tendências primitivas - seu desejo de barulho e seu apetite pela excitação sexual”), e, claro, mulheres americanas: aqui outra comparece, dizendo a Sayyd que o sexo é meramente uma função física, sem interferência da moralidade.

Os locais de culto americanos ele também detesta (parecem cinemas ou salões de diversão), mas a essa altura ele já está ansiando pelo Cairo, e por companhia, e faz uma coisa estouvada. Qutb ingressa num clube - onde uma epifania o espera. “A dança é inflamada pelas notas do gramofone”, escreveu, “o salão se transforma num turbilhão de canelas e coxas, braços enlaçam nádegas, lábios e seios se encontram, e o ar está cheio de luxúria.” Daria para pensar que o pai do islamismo havia se exposto a uma versão primitiva do Studio 45 ou mesmo do Plato’s Retreat. Mas não: o clube em que ele ingressara era dirigido pela igreja, e o que estava descrevendo, ali, é um baile paroquial em Greeley, Colorado. E Greeley, em 1949, era “seca.”

“E o ar está cheio de luxúria.” “Luxúria” é tradução de Bernard Lewis, mas vários outros escritores preferem a palavra “amor”. E apesar de luxúria ter maior impacto imediato, amor pode ser mais ressonante no fim das contas. Por que a mente de Qutb se importaria se o ar estivesse cheio de amor? Somos levados a imaginar se é possível dizer que existe amor, tal como o entendemos, no patriarcalismo feroz do Islã. Se morte e ódio são gêmeos opostos do amor, então pode ser meramente excêntrico e repugnante sugerir que o terrorista, o portador da morte e do ódio, o cultuador do ódio mortal, é fundamentalmente o inimigo do amor. Qutb:

“Uma garota olha para você, parecendo uma ninfa encantadora ou sereia fugida, mas quando ela se aproxima, você sente apenas o instinto gritante dentro dela, e pode sentir seu corpo ardendo, não o aroma de perfume mas carne, apenas carne.”

Em seu excelente livro, Terror and Liberalism, Paul Berman tem muitas coisas agudas a dizer sobre o corpus de Sayyd Qutb; mas ele consegue se impor tolerância e termina soando, ao meu ver, quase absurdamente respeitoso - “rico, sutil, profundo, sensível, e sincero”. Qutb, que teria escrito 30 volumes para comentá-lo, passou a infância decorando o Alcorão. Ele tinha 10 anos quando terminou. Ora, com isso, parece ocioso esperar muito juízo dele: e assim se prova. Na última das 46 páginas que dedica a Qutb, Berman resume as coisas numa longa citação. Este é o seu repetitivo primeiro parágrafo:

“Os Surah (os pensamentos do profeta) dizem aos muçulmanos que, na luta para sustentar a verdade universal de Deus, vidas terão de ser sacrificadas. Os que arriscam suas vidas e vão à luta, e que estão preparados para entregar suas vidas pela causa de Deus, são pessoas honradas, puras de coração e abençoadas de alma. Mas a grande surpresa é que os mortos na luta não devem ser considerados ou descritos como mortos. Eles continuam vivendo, como o Próprio Deus o afirma.”

Saboreando essa última frase, percebemos que qualquer viagem empreendida com Sayyd Qutb está fadada a uma circularidade inexorável. O vazio, a mera interação, no cerne de sua filosofia é firmemente colonizado por um vasto emaranhado de rancores; e aqui também detectamos a presença daquele triunvirato peculiarmente islâmico (codificado anteriormente por Christopher Hitchens) de farisaísmo, autopiedade e ódio de si próprio - o farisaísmo datando do século 13 (quando o “último” califa foi chutado até a morte em Bagdá pelo senhor da guerra mongol Hulagu), e o ódio de si próprio do século 20. E o mais espantoso de tudo, em Qutb, é o nível de autoconsciência, que é menos do que zero. É como se o próprio fato do auto-exame fosse algo não viril ou profano: algo pecaminoso, em uma palavra.

Mas, seja como for, Qutb é o pai do islamismo. Eis os princípios que ele inspirou: que a América, e seus clientes, são jahiliyya (a palavra classicamente aplicada à Arábia pré-maometana - bárbara e incivilizada); que a América é controlada por judeus; que os americanos são infiéis, que eles são animais, e, pior, animais arrogantes, e não merecem viver; que a América promove o orgulho e a promiscuidade a serviço da degradação humana; que a América procura “exterminar” o Islã - e que realizará isso não por conquista, nem pela anexação colonial, mas pelo exemplo. Como Bernard Lewis o diz em The Crisis of Islam.

“É esse o significado do termo Grande Satã aplicado aos Estados Unidos pelo falecido aiatolá Khomeini. Satã tal como é descrito no Alcorão, não é nem um imperialista, nem um explorador. É um sedutor, “o tentador insidioso que sussurra nos corações dos homens” (Alcorão, CXIV, 4, 5).

Lewis poderia ter acrescentado que são essas as palavras que fecham o Alcorão. Assim elas ecoam.

O Ocidente não está sendo sedutor, claro. Tudo que o Ocidente está sendo é atraente. Mas a paranóia islâmica se estende para uma espécie de narcisismo distorcido. Pensamos de novo na enfermeira curvilínea, de pernas lisas, de Qutb, supostamente estalando seus lábios sedutores com a notícia da morte de Hasan al-Banna. Longe de querer tentar exterminá-lo, o Ocidente não tinha nenhuma opinião própria sobre o Islã antes de 11 de setembro de 2001. Claro, as visões foram formuladas depois disso, e não demorou para a lista de best sellers ser uma coluna de cartilhas sobre o Islã. Algumas coisas levam mais tempo que outras para penetrar, é verdade; mas agora sabemos. No Ocidente, fomos levados a ser uma sociedade cujo principal propósito, cuja raison d`etre, era a perseguição de bons muçulmanos.

O tema do “tentador” pode ser levado um pouco mais longe, no caso de Qutb. Quando o tentador é uma tentadora, e realmente deseja que você peque, ela precisa estar ao mesmo tempo disponível e desejosa. E é quase inconcebível que o pobre Sayyd, o frágil, desanimado funcionário público, e bombástico anti-semita (temperando suas falas com citações daquela fabricação havia muito desmistificada, Os Protocolos dos Sábios de Sião), jamais houvesse encontrado algo que se parecesse a uma oferta. É mais lamentável que isso. A sedução não cruzou seu caminho, mas estava cruzando o de outros, ele sentia, e uma parte dele a desejava também. Esse desejo o deixou atemorizado, e também o envergonhou e desonrou, e virou seus pensamentos para o assassinato. Aí os pensadores do Islã pegaram seus livros e fizeram o que fizeram com eles; e Sayyd Qutb agora faz parte de nossa realidade diária. Devemos entender que o ódio dos islâmicos pela América é tanto abstrato como histórico, e irracionalmente abstrato, também; nenhuma das coisas usuais poderá aplacá-lo. O ódio contém muita emoção histórica, mas é a história deles, e não a nossa, que os assombra.

Qutb tem possivelmente um único paralelo na história do mundo. Outro invertido inseguro, outro cabulador sexual (não virgem, mas um corno de carreira), outro diletante e charlatão marginal (sem talento mas não filisteu), ele também escreveu um livro, na prisão, que caiu nas piores mãos possíveis. Seu nome era Nikolai Chernyshevski; e seu romance (Que Fazer?) foi lido cinco vezes por Vladimir Lenin em um único verão. Foi Chernyshevski que determinou, não o conteúdo, mas a dinâmica emocional do experimento soviético. O centenário de seu nascimento foi celebrado com muita pompa na URSS. Isso foi em 1928. Mas a Rússia estava triste demais e ocupada demais para fazer muita coisa no centenário de sua morte, que transcorreu em silêncio em 1989.

Em The Unknown Known meu pequeno terrorista, Ayed, não é virgem (ou um José, como dizem os cristãos), diferentemente de Sayyd, no qual ele tangencialmente se baseia. É, aliás, poligâmico, limitando-se ao máximo sancionado de quatro. Além disso, sempre que tem dinheiro sobrando, ele se compraz com uma sucessão de “esposas temporárias”. A prática é conhecida como mutah. No merecidamente célebre livro Reading Lolita in Tehran, Azar Nafisi nos conta que um casamento temporário pode durar 99 anos; também pode terminar em meia hora. A República Islâmica é muito atenta ao que chama de “necessidades dos homens”. Antes da Revolução, uma garota podia se casar aos 18 anos. Depois de 1979, a idade requerida caiu para a metade.

Em Beyond Belief: Islamic Excursions Among the Converted Peoples, VS Naipaul examina alguns resultados sociais da poligamia no Paquistão, e observa que os casamentos tendem a ser em série. O homem vai embora, “religiosamente promíscuo”; e a conseqüência é uma sociedade de “meio órfãos”. O divórcio, ademais, não é difícil: “um homem que quiser se livrar da esposa pode acusá-la de adultério e fazer com que a prendam”. É difícil exagerar a sexualização da governança islâmica, mesmo entre as figuras que reputamos moderadas. Digite “sex” e “al-Sistani”e prepare-se para um dilúvio de pedantismo e obscenidades.

Quando a narrativa começa, Ayed está muito preocupado com o estado de seus casamentos. Mas há uma razão para isso. Quando Ayed era um menininho, no começo dos anos 80, seu pai, um talentoso plantador de papoula, partiu do Waziristão com a família e se estabeleceu em Greedley, Colorado. Isso resulta em um golpe doméstico na auto-estima de Ayed. Em casa, no Waziristão, um garoto da sua idade estaria sentindo uma adorável e cálida aura de orgulho ao perceber que suas irmãs, num aspecto importante, são iguaizinhas à mãe: não sabem ler nem escrever. Na América, contudo, as garotas são obrigadas a freqüentar a escola. Antes que Ayed dê por isso, as mulheres abandonaram os véus, e as irmãs estão sendo requisitadas por kafires (infiéis) mascadores de chiclete. Chega então a puberdade.

Existe quase um gênero literário inteiro dedicado a sensibilidades como a de Sayyd Qutb. É o gênero do narrador não confiável - ou, mais exatamente, o narrador transparente, com suas desamparadas revelações. Tipicamente, uma pátina de fastio arrogante se esforça confiantemente, mas em vão, para ocultar um submundo de trevas incuráveis. Em The Unknown Known, contribuí com esse gênero, e com entusiasmo. Fiz Ayed ficar horas num matagal de urtiga e sumagre venenoso sob uma passarela, para ele poder insultar a transparência das saias de verão usadas por mulheres americanas e a pequenez vergonhosa de suas calcinhas. Eu o fiz sair em todas condições de tempo em caminhadas noturnas, caminhadas duramente prolongadas até que, com a ajuda de uma escora de parede ou um cano de escoamento, ele flagra uma mulher se despindo “totalmente exposta” antes de entrar na cama. Enquanto isso, suas irmãs estão tendo encontros amorosos. O pai e o irmão discutem várias linhas de ação, entre elas, matá-las; mas a América, privada de qualquer sentido de honra, os puniria por isto. A família se bifurca; Ayed volta para a fronteira montanhosa, ingressa em “O Prisma”, e corteja seu quarteto de namoradas de nove anos.

E Ayed vive dizendo a todas suas esposas temporárias, “Minhas esposas não me compreendem.” E não compreendem; aliás, todas querem o divórcio, e pela mesma razão incômoda. Com seu ataque à mudança de paradigma na América agora em frangalhos, e encarando a desgraça social e profissional, Ayed percebe, de repente, como poderá, num único golpe, se redimir - e assegurar seu lugar na história com um desconhecido desconhecido que seguramente dará certo. Para isso ele precisará de um cinto.

Dois anos atrás, dei com uma fotografia chocante numa revista noticiosa: parecia uma melancia toscamente cortada em quatro, mas podiam-se perceber uma ou duas feições humanóides meio submersas na polpa vermelha. Era, na verdade, a fotografia corajosamente divulgada de uma apresentadora de notícias saudita que havia sido espancada pelo marido. Numa tentativa de assassinato, ao que tudo indica: quando foi preso, ele a transportava no porta-malas do carro, e evidentemente a estava levando para enterrá-la no deserto. O que ela havia feito para merecer isso? No lar do casal, naquela noite, o telefone tocou e a apresentadora, uma próspera celebridade por méritos próprios, atendeu. Ela havia atendido o telefone. Homens ocidentais ficarão chocados, aqui, por um drástico contraste cultural. No que me diz respeito, sei que ficaria muito mais propenso a agredir minha mulher até a morte se ela não tivesse atendido o telefone. Mas os hábitos e costumes variam de um país para outro, e não posso racionalmente alegar que um ethos é “melhor” do qualquer outro.

Em 1949, Greeley era “seca”... Vários comentaristas já sugeriram que assassinos em massa e suicidas estão atrás do meio mais simples de conseguir uma namorada. Pode ser, também, que alguns estejam atrás do meio mais simples de conseguir um drinque. Embora o álcool, assim como o sexo extraconjugal, possa ser estritamente proibido durante a vida, não existe escassez de ambos na morte. Assim como as virgens corânicas, por enquanto “tão castas como as protegidas ovas das ostras”, também existe uma “fonte jorrante” de vinho branco (vinho “que não causará dor em suas cabeças nem lhes privará de juízo”). O assassino em massa suicida agora pode erguer sua “taça” cheia a uma recompensa adicional : ele tem o poder, post-mortem, de assegurar a imortalidade paradisíaca para uma legião de parentes (o número gira em torno de 70, curiosamente dois a menos que o lote tradicional de huris). Não se limita a isso, tampouco, seu serviço para o clã, que, até recentemente, podia esperar um honorário de U$ 20 mil do Iraque, mais U$ 5 mil da Arábia Saudita - além do enorme prestígio automaticamente concedido à família de um mártir. E depois, há a sedução, ou incitação, do prestígio junto aos pares.

O assassínio em massa por atentado suicida é espantosamente estranho, tão estranho, de fato, que a opinião do Ocidente tem sido incapaz de formular uma resposta racional a ele. Uma resposta racional seria algo como um apito de fábrica constante de aversão unânime. Mas não conseguimos isso. O que conseguimos, no conjunto, é um murmúrio evasivo dissonante. O melhor capítulo de Paul Berman, em Terror and Liberalism, é serenamente intitulado Wishful Thinking - e Berman é, em geral, um homem sereno. Mas este é uma análise muito dura e persistente de nossa extraordinária insegurança. É impossível lê-lo sem um frio fascínio e uma consciência de desgraça. Eu senti desgraça, em suas primeiras páginas, porque já o fizera também, em impresso, anteriormente. Contemplando a violência intensa, você racionalmente se pergunta, quais são as razões disso? E apresentadores de notícias franzindo o cenho compassivamente ainda fazem essa mesma pergunta. É hora de avançar. Não estamos tratando de razões porque não estamos tratando com a razão.

Depois do fracasso de Oslo, e a decorrente consolidação do Hamas, a segunda intifada (“terremoto”) começou em 2001, não com pedradas e facadas como a primeira, mas com uma sólida campanha de assassinato em massa por agentes suicidas. “Em todo o mundo”, escreve Berman, “a popularidade da causa palestina não ruiu. Ela aumentou.” O processo paralelo foi a intensa demonização de Israel (ostracismo acadêmico, etc.); cada ato de assassínio em massa por terrorista suicida era um “atestado” da opressão extremada, de tal forma que o “terror palestino, nessa visão, era a medida da culpa israelense.”

E quando Sharon substituiu Barak, e a esperada repressão começou, e o Exército israelense, sofrendo 23 baixas, matou 52 palestinos na cidade de Jenin na Cisjordânia, o ataque “foi visto como um verdadeiro Holocausto, um Auschwitz, ou, numa imagem alternativa, como o equivalente no Oriente Médio do assalto da Wehrmacht ao Gueto de Varsóvia. Essas metáforas foram maciçamente aceitas em todo o mundo. Digitando os nomes combinados de ´Jenin` e ´Auschwitz`... cheguei a 2.890 referências; e, digitando ´Jenin` e ´Nazi` , cheguei a 8.100 referências. Há 63.100 referências aos nomes combinados de ´Sharon` e ´Hitler`.” Quando a repressão redobrada se estabilizou, os atentados suicidas diminuíram; e a opinião mundial se aquietou. Os palestinos estavam piores do que nunca, seus ganhos sociais nos anos 90 “esmagados por tanques israelenses”. Mas os protestos “cresceram e diminuíram ao sabor dos atentados suicidas, e não do sofrimento do povo.”

Isso porque o assassino em massa e suicida colocou para o Ocidente uma crise filosófica. A maneira mais rápida de sair dela era fingir que a tática era racional, na verdade, lógica, e até admirável: um caso extremo de “ingenuidade racionalista”, na expressão de Berman. A ingenuidade racionalista era mais fácil que a assimilação da alternativa: isto é, a existência de um culto patológico. Berman reúne muitas vozes. E se nos dispusermos a ouvir a retórica de desilusão e auto-hipnose, poderíamos ouvi-la também de um laureado por Estocolmo - o romancista português José Saramago. De novo errando pelo lado da indulgência, Berman é desnecessariamente intimidado pelo pedigree da prosa de Saramago, que é, de fato, o mais puro e esnobe linguajar bombástico (se poderia chamar de Nobelesco). Aqui ele enfoca seu olhar sublime no fenômeno do assassínio em massa por agente suicida:

“Ah, sim, os horrendos massacres de civis causados pelos chamados terroristas suicidas... Horrendos, sim, sem dúvida; condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda tem muito a aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a se transformar numa bomba.”

A sociedade palestina canalizou uma boa dose de pensamento e energia na solenização do assassínio em massa por atentado suicida, um processo que começa no jardim de infância. Naturalmente, pode-se relutar em questionar a serena piedade da mãe palestina que, tendo criado o assassino em massa e suicida, expressou o desejo de que seu irmão mais novo também se tornasse um assassino em massa e suicida. Mas chegou a hora de parar de respeitar a qualidade de sua “ira” - parar de se maravilhar com o desvairado rigor da opressão israelense, e começar a se espantar com o poder de uma ideologia ambiciosa e enraizada, e um culto da morte. E se é na opressão que estamos interessados, então deveríamos pensar na opressão, para não falar da expectativa de vida (e, Deus que vida), do irmão mais novo. Haverá muitas paradas e começos a fazer. É doloroso parar de acreditar na pureza e na sanidade mental, do injustiçado social. É doloroso começar a acreditar num culto da morte, e num inimigo que deseja que esta guerra dure para sempre.

O AUTOR

Nascido em Oxford em 1949, filho do consagrado escritor inglês Kingsley Amis (1922-1995), Martin Amis é um dos grandes nomes da ficção britânica contemporânea. O estilo mordaz, contundente, também marca seus “textos de combate” - caso do ensaio histórico sobre Josef Stalin (Koba The Dread, 2002). Nele, Amis examina a indulgência de três gerações de intelectuais ocidentais (entre eles o pai) com o totalitarismo soviético.
Os romances A Informação (1995) e Trem Noturno (1998) e a coletânea de contos Água Pesada (2001) são algumas de suas obras lançadas no Brasil.

* Martin Amis escreveu este texto para ‘The Observer’.
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A segunda e última parte deste artigo será publicada amanhã

Thursday, September 14, 2006

Brasil continua devagar, diz FMI

ESTADO

Relatório do Fundo Monetário afirma que risco de populismo cria dúvidas sobre a América Latina

Rolf Kuntz

A economia brasileira continuará a crescer menos que a economia global e menos que a da América Latina em 2006 e no próximo ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). A produção mundial aumentará 5,1% neste ano e 4,9% em 2007, mas também a inflação tenderá a subir e novas elevações de juros poderão ocorrer nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, de acordo com o Panorama Econômico Mundial distribuído pelo FMI.

Para o Brasil foi estimado um crescimento de 3,6% neste ano e 4% no próximo. São projeções superiores às divulgadas em abril, na edição anterior do relatório (3,5% em cada ano). Para a América Latina e o Caribe foram calculados 4,8% e 4,2% .

Destravar o potencial de crescimento continua a ser o desafio de longo prazo para a América Latina, de acordo com o Panorama. A região está menos vulnerável e conseguiu recuperar-se depois do choque financeiro de maio. A relação entre a dívida pública e o tamanho da economia diminuiu na maior parte da região, mas os gastos primários (isto é, não financeiros) aumentaram recentemente.

O baixo crescimento - o menor dentre as economias emergentes - e a lenta redução da pobreza têm gerado frustração popular, segundo o relatório. 'A incerteza política permanece uma preocupação, em parte refletindo as questões sobre a capacidade dos governos, em alguns países, de resistir a medidas populistas.'

A América Latina, assinala o Panorama, deveria preparar-se para uma situação internacional menos favorável, com juros em alta, mercado mais fraco para produtos básicos, com exceção do petróleo, e investidores menos dispostos a correr riscos. Disciplina fiscal deveria ser o núcleo de uma política de segurança contra choques.

O crescimento dos Estados Unidos foi projetado em 3,4% para este ano e 2,9% para o próximo. A expansão européia também deverá desacelerar, passando de 2,4% para 2%, assim como a japonesa (de 2,7% para 2,1%).

A maior parte da Ásia continuará em expansão acelerada. A economia chinesa deverá expandir-se 10% em cada um dos dois anos e a da Índia, 8,3% e 7,3%.

A inflação americana completará três anos de alta em 2006, chegando a 3,6%. Deverá diminuir para 2,9% em 2007, mas continuará superior à de 2004. As pressões vêm não somente do petróleo, mas também do estreitamento da capacidade ociosa.

O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, manteve os juros na reunião de agosto, mas poderá ser levado a um novo aumento para conter o avanço da inflação. Novos aumentos poderão ocorrer também na Europa e no Japão.

Se esses aumentos ocorrerem, haverá pressão sobre o câmbio, que tenderá a se desvalorizar nos países latino-americanos, gerando pressões inflacionárias na região. Quanto mais lenta for a resposta dos bancos centrais, maior será, mais tarde, o custo do ajuste necessário.

PANORAMA

3,6% é a estimativa do FMI para o crescimento da economia brasileira em 2006

4% é a estimativa de expansão em 2007

4,8% é a expansão estimada da economia da América Latina e Caribe em 2006

3,4% é a estimativa de crescimento dos Estados Unidos em 2006
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TCU cobra governo federal sobre mistério das cartilhas

FOLHA DE S PAULO

TCU cobra governo federal sobre mistério das cartilhas Gushiken e duas agências de publicidade têm 15 dias para devolver R$ 11,7 mi ao erário

Tribunal de Contas aponta envolvimento do PT em irregularidades; partido diz ter recebido revistas de propaganda da gestão Lula


MARTA SALOMON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O TCU (Tribunal de Contas da União) fixou ontem prazo de 15 dias para o ex-ministro Luiz Gushiken e as agências Duda Mendonça e Matisse devolverem aos cofres públicos R$ 11,7 milhões em decorrência de supostos serviços superfaturados ou nem sequer prestados na publicidade do governo Lula. Esse também é o prazo fixado para a defesa dos envolvidos.
Na auditoria aprovada ontem por unanimidade, o tribunal aponta o envolvimento do PT nas irregularidades. Contrariando as normas da administração pública, o partido se apresentou como responsável pelo recebimento de 930 mil revistas de propaganda do governo, exemplares esses que o TCU ainda suspeita que nem chegaram a ser impressos.
A auditoria gerou um embate político. A oposição reagiu dizendo ver no episódio margem para a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) chamou a idéia de "golpista".
Para o tribunal, as investigações até aqui mostram "confusão entre a ação governamental e ação partidária, com claros objetivos promocionais" ao PT. Além das revistas que o partido supostamente distribuiria, o TCU identificou "tom promocional do presidente da República" no conteúdo das publicações, o que também seria ilegal.
O valor do suposto prejuízo aos cofres públicos fixado ontem não foi corrigido pela inflação. Os R$ 11,7 milhões correspondem a quase 1,9 milhão de revistas pagas e que não teriam sido entregues e o pagamento de até R$ 2,25 por exemplar acima do preço de mercado, em mais de 3 milhões de revistas.
A auditoria pesquisou quatro edições de balanço da ações de governo (6, 12, 18 e 24 meses) e a produção de livretos sobre inclusão social encomendados às agências Duda Mendonça & Associados e Matisse Comunicação de Marketing entre agosto de 2003 e maio de 2005.
Cinco gráficas -Burti, Pancrom, Kriativa, Takano e Web- também teriam participado das irregularidades, segundo o TCU, além de funcionários da antiga Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência.
A auditoria começou em 2005, a partir das denúncias de desvio de recursos públicos destinados à publicidade para o esquema de caixa dois do PT, investigadas pela CPI dos Correios. "Meu voto reflete o trabalho da auditoria, agora vamos ouvir as partes", disse ontem o ministro Ubiratan Aguiar, autor do relatório.
A votação da auditoria em plenário vinha sendo adiada desde outubro por divergências no TCU. Nesse período, as investigações avançaram. Ao tentar contestar as suspeitas de pagamento por serviços não prestados, a Secom acabou envolvendo o PT. O partido apareceu como responsável por distribuir 930 mil revistas.
A versão não convenceu o TCU, que também apura o pagamento por serviços não prestados no caso desses exemplares. A justificativa transformou-se em agravante: "Pelo seu conteúdo [das revistas] e pela distribuição via partido, teria o potencial de se constituir em propaganda partidária", destaca a auditoria.
Na apuração dos prejuízos aos cofres públicos, coube à Matisse a maior fatia: R$ 4,1 milhões. A Duda Mendonça é cobrada a devolver R$ 3,8 milhões. O ex-ministro Luiz Gushiken, além de responder solidariamente pelo total do prejuízo, é cobrado a ressarcir ao erário R$ 3,7 milhões pelos exemplares que teriam sido distribuídos pelo PT.
O tribunal detectou "no mínimo falha no dever de diligência" do ex-ministro e seu sub, Marcos Flora, na aplicação de recursos púbicos destinados ao pagamento de material de propaganda da Presidência.
A Duda Mendonça perdeu o contrato de publicidade com o Planalto depois do escândalo do mensalão, que apontou o dono da agência e marqueteiro da campanha de 2002 como beneficiário de R$ 10 milhões do caixa dois do PT. A agência Matisse pertence a outro ex-marqueteiro e amigo de Lula, o publicitário Paulo de Tarso Santos.
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Saturday, September 09, 2006

Marcelo Coelho Nouvelle cuisine


COMO EX-PRESIDENTE, Fernando Henrique Cardoso andava tendo nos últimos anos um desempenho entre regular e razoável, embora isso não passe de impressão puramente subjetiva. Os institutos de pesquisa estão atarefados demais para fazer esse tipo de levantamento.
Mas FHC está deixando de ser ex-presidente para se tornar uma espécie de vice-candidato, e vão de mal a pior as suas atitudes nesse papel. À medida que a candidatura Alckmin foi-se encolhendo, Fernando Henrique entra em cena, com veemências constrangedoras.
Começou lamentando a falta de um "Carlos Lacerda" na atual conjuntura. Para alguém com o passado de esquerda de Fernando Henrique, a frase é um verdadeiro escândalo; um passo a mais, e ele estaria manifestando saudades de Castelo Branco e do regime militar.
Não estamos mais no plano do "esqueçam o que escrevi"; é do "esqueçam quem eu fui" de que se trata. Talvez fosse boa idéia. O problema é que ele próprio não deixa. Agora, lança uma extensa carta, endereçada aos simpatizantes do PSDB.
Críticas aos presídios de Alckmin, defesa das privatizações, autocríticas no plano ético... Várias camadas, com ingredientes diversos, compõem esse "bolo chiffon" retirado às pressas do sofisticado forno de nosso experiente mestre-cuca. Cerejas vermelhas enfeitam, por exemplo, o final do texto, onde o recente acesso de lacerdismo de FHC é corrigido com curiosos apelos à radicalização da democracia e ao diálogo com sindicatos e movimentos populares.
Claro que sem pensar em revolução socialista ou "revolução salvadora", como diz o texto-, pois isso não está "em nosso horizonte histórico". Nunca é demais reiterar esse ponto: caso contrário, Bornhausen e ACM encontrariam sem dúvida um bom pretexto para abandonar o barco do tucanos.
Vai naufragar, provavelmente. O objetivo da carta seria incentivar o voto em Geraldo Alckmin, mas seu conteúdo é tão disperso, que permite mais de uma interpretação. Seria uma tentativa de "refundar" o PSDB? Do mesmo modo que os petistas fiéis, o momento é de reconhecer "os erros". Tivemos o caso Eduardo Azeredo, diz FHC, e "calamos muito tempo". De modo que, "para nos diferenciarmos da podridão moral reinante, temos a obrigação moral de não calar". Já não era sem tempo.
Talvez tenha passado um pouquinho da hora. "Somos diferentes deles", martela FHC. O Bolsa-Família, por exemplo, seria, nas mãos dos tucanos, um compromisso com "os direitos dos cidadãos". Nas mãos de Lula, resume-se às "benesses de um papai-presidente". O "vovô ex-presidente" reclama da podridão dos dias atuais. Mas estamos todos em família.


MARCELO COELHO é colunista da Folha
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