Monday, June 14, 2010

Investindo no preconceito-Ruy Fabiano


Blog Noblat

 Política, como aliás tudo, move-se em torno de símbolos. Um dos que mais fascinam, em qualquer tempo e em qualquer parte, é a saga da conquista do poder pela superação da origem social.

Nos Estados Unidos, a figura de Abraham Lincoln, o lenhador que chegou à Presidência da República, tornou-se mais que exemplo de heroísmo e persistência: encarnou o sonho americano de ascensão pelo mérito, simbolizando a mobilidade social que o regime de economia de mercado proporciona.

No Brasil, embora a história registre governantes que partiram do nada – Juscelino, por exemplo, passou privações e ia descalço ao colégio público -, nenhum explorou tão bem essa mística quanto Lula, o retirante nordestino que superou adversidades, construiu uma carreira admirável e chegou ao topo do poder político.

Sem desconsiderar esse mérito, ele não pode ser em si mesmo atributo para avaliar ações administrativas, nem licença para absolver deslizes, embora frequentemente o seja.

O filão continua promissor e está sendo explorado pelo marketing da campanha de Marina Silva, candidata do PV à Presidência da República.

Não há dúvida de que a senadora possui méritos e liderança. Tal como Lula, superou adversidades múltiplas para chegar aonde chegou.

Foi seringueira, analfabeta até os 16 anos. Com admirável determinação, estudou, chegou à universidade, graduou-se e construiu carreira política íntegra e vitoriosa.

Isso a credencia, sem dúvida, mas não pode ser a questão central de sua candidatura à Presidência da República.

O que a qualificará é o conteúdo do que propõe e os meios de que se servirá para concretizá-lo. Assunto não lhe falta.

Pedir votos para que "uma mulher negra e de origem pobre" chegue à Presidência da República é investir no preconceito, não combatê-lo. O pleito da igualdade de direitos, bandeira de todos os discriminados, pressupõe a abdicação desses expedientes.

Da mesma forma que é indigno (e hoje ilegal) discriminar por razões de cor, gênero ou origem social, também o é privilegiar alguém pelas mesmas razões. Inverter a discriminação é mantê-la.

Se alguém pedisse votos por ser branco de olhos azuis – imagem que Lula já empregou para responsabilizar o Primeiro Mundo pela crise econômica -, seria imediatamente execrado.

Mas o fundamento discricionário do pleito étnico-social e de gênero de Marina é exatamente o mesmo.

A escolha de um governante deve basear-se na avaliação de suas propostas, tendo em vista sua credibilidade moral e profissional. Nada além. Etnia, gênero e origem indicam graus de dificuldades na escalada social.

Compõem uma biografia e ajudam a compreendê-la, a firmar conceito. Mas não são fatores que em si tornem um candidato melhor que outro. Nem muito menos devem ser invocados como uma espécie de dívida moral da sociedade para com ele.

A eleição de um presidente, no Brasil, tem sido mais um fenômeno de marketing que de avaliação de conteúdo. Daí o destaque que os marqueteiros passaram a ter nos comitês de campanha, extrapolando as atribuições de seu ofício.

Tornaram-se tutores dos candidatos, cuidando desde o vestuário até a estética odontológica, não raro levando-os a correções plásticas e à assimilação de gestos coreográficos que transformam sua personalidade e confundem seus propósitos.

Em vez de revelá-los, para que o eleitor possa melhor conhecê-los, optam por ocultá-los, passando ao público não uma pessoa, mas um personagem.


Lula e Dunga-Mary Zaidan


Blog Noblat

 O Brasil que estréia na terça-feira na África do Sul tem sido alvo de todo tipo de crítica. São poucos os que, de alma e coração abertos, se entusiasmam com esta seleção verde-amarela. Paira no ar um clima estranho de quase unanimidade, só que contra. Mas até o zangado Dunga, xingado e mal tratado pela maioria, tem sabido lidar melhor com as vozes discordantes do que o presidente Lula e seus fanáticos torcedores. E olha que Lula tem quase unanimidade a favor.

O ambiente é de absoluta intolerância. Aqueles que ousam simplesmente relatar fatos adversos ou apontar erros do presidente e de sua candidata Dilma Rousseff são tratados como antipatrióticos, inimigos da nação. Contraditar, contrapor, criticar é crime. Denúncia, então, por maiores que sejam os malfeitos, nem pensar. E olha que Lula tem quase unanimidade a favor.

Mas Lula parece não se contentar com a quase unanimidade. Quer mais e a qualquer preço. Nem que para tal tenha de mentir, inventar verdades, falsear, instigar e incitar o ódio contra a minoria. E o faz sem qualquer constrangimento. Quando fere a lei convence os seus torcedores que o erro não é dele, mas da lei; quando é pego na boca da botija, como na confissão de caixa 2 do seu então marqueteiro Duda Mendonça, socializa o prejuízo.

Qualquer flagrante dos pecados de Lula, de seus asseclas ou de sua candidata é uma ação orquestrada e golpista, não raro produzida nas redações dos grandes jornais, na TV Globo, em alguns blogs taxados de "vendidos", ou na revista Veja.

Ainda que irracional, até se compreenderia – com algum desconto pela infantilidade - se os torcedores de Lula atirassem seus petardos nos donos das empresas jornalísticas. Mas, cegos e tacanhos, agridem os jornalistas que nelas trabalham. Talvez não saibam ou fingem não saber, que os grandes expoentes da comunicação de Lula e da campanha de Dilma, aprenderam, cresceram e, até pouco tempo atrás, brilharam no que eles chamam de mídia golpista.

Exemplos não faltam. Pela cartilha do fanatismo lulista, a culpa pela contratação de arapongas para preparar um dossiê capaz de eliminar rivais internos da campanha petista e bombardear o principal opositor não é dos agentes da própria campanha, mas da Veja, do jornal O Estado de S. Paulo, da Folha de S. Paulo, de O Globo, do Blog do Noblat. Critica-se a denúncia, os jornalistas que denunciaram, e pronto, tudo resolvido.

No máximo, os envolvidos na trapalhada de agora serão chamados, carinhosamente, de aloprados, alcunha criada por Lula para os negociadores do dossiê de 2006. Registre-se que mesmo com fotos policiais da dinheirama, os aloprados daquela época - um deles unha e carne do senador e candidato do PT ao governo de São Paulo, Aloízio Mercadante – continuam livres, leves e soltos. Como carregam a credencial da quase unanimidade de Lula, eles serão, para sempre, apenas aloprados. E final de conversa.

Cumpre-se com rigor a regra máxima inaugurada pelo quase unânime governo Lula: perdão absoluto para os amigos do peito e os de ocasião, como os senadores José Sarney e Fernando Collor - primeiro e único presidente da República deposto pelo povo -, e de tolerância zero para a minoria incômoda que até parece não ser tão pequena quanto dizem, visto o nível de agressividade que a ela se dedica.

No avesso de suas unanimidades, o popularíssimo Lula e o antipopular Dunga têm muito em comum. Um tem até a chance de repetir a histórica frase de Zagalo - "vocês vão ter de me engolir". Pode trazer o hexa, obrigando o mea-culpa dos críticos. O outro só admite a vitória e nem imagina o que dizer se a derrota o surpreender. Façam as suas apostas.

 

Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa.


Saturday, June 12, 2010

Terra sem lei Miriam Leitão

O Globo

PANORAMA ECONÔMICO

Em dez anos, os desmatadores destruíram no Brasil 260 mil hectares na Mata Atlântica, ou 2,6 mil km2, o equivalente a duas cidades do Rio; e 176 mil km2 na Amazônia, área maior que toda a Inglaterra.

Em sete anos, foram 85 mil km2 de cerrado; 4,3 mil km2, no Pantanal; e 16,5 mil km2, na caatinga. E o que o Congresso está discutindo não é como parar o crime, mas como perdoar os criminosos

Esse é o principal ponto que torna o projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoBSP) um equívoco. Ele leva o Brasil na direção oposta do que se deve ir. Em cada ponto, a proposta acelera na contramão. O que os poderes da República poderiam estar considerando é: dado que o atual Código não impediu essa destruição toda, o que fazer para que as leis possam ser cumpridas? Os rios brasileiros estão assoreados, muitos já morreram, os rios que cortam o interior do país viraram latas de lixo e esgoto. As histórias são tão frequentes e antigas que nem cabe repetir aqui. A discussão urgente é como proteger os rios, aumentar o saneamento básico, limpar as correntes de água, garantir que a faixa de mata ciliar seja recomposta. Mas o que a proposta de novo Código Florestal estabelece é como reduzir a proteção aos rios, diminuindo o tamanho das Áreas de Proteção Permanente (APP).

O Brasil tem tido assustadores problemas de deslizamento de encostas nas cidades, nas estradas. Elas servem como um alerta sobre o cuidado com o uso de terrenos muito íngremes. A lei de 1965 cria limites ao uso de terrenos com 45 graus de inclinação e protege o topo dos morros. O novo Código reduz a proteção dessas áreas frágeis.

Imaginemos dois proprietários rurais na Amazônia, no Cerrado ou na Mata Atlântica, ou qualquer outro bioma brasileiro, como o nosso belo e frágil Pantanal.

Um preservou a reserva legal guardando o percentual da propriedade estabelecido por lei, respeitou as APPs e não contou essas áreas nas reservas legais. Se já entrou na propriedade com uma área desmatada maior do que o permitido, replantou espécies da região.

O outro desmatou com correntão, incendiou parte da floresta, fez corte raso ou qualquer uma dessas formas primitivas e predatórias de ocupar a terra. O segundo terá as seguintes vantagens: pode continuar usando as áreas “consolidadas” sem pagamento de multa, tem 30 anos para recompor a reserva legal de forma voluntária, pode usar espécies exóticas, pode replantar em outro local, pode fazer lobby junto ao governo estadual para reduzir a área a ser protegida. Pode continuar explorando o topo dos morros, reduzir a área de proteção aos rios e contar a APP como parte da reserva legal. Como se vê, será compensado, anistiado, incentivado. E quanto ao primeiro? Ao que cumpriu a lei? Ora, esse deve procurar o primeiro espelho, olhar para seu próprio rosto e dizer: “Cumpri a lei, fui um otário!” No século XXI, diante de tantos exemplos dos riscos da degradação ambiental, o que o Brasil deveria estar fazendo? Discutindo seriamente como aumentar a proteção ao meio ambiente.

Mesmo os que não acreditam nas mudanças climáticas sabem que o meio ambiente é essencial para a qualidade de vida. Em vez de uma discussão serena e atualizada, o relator do projeto de mudança do Código Florestal, deputado Aldo Rebelo, nos propõe uma sequência delirante de explicações persecutórias. O mundo estaria conspirando contra o desenvolvimento brasileiro através de malévolas organizações infiltradas no país, impondo aos cidadãos nacionais convicções exóticas sobre a necessidade de evitar o desmatamento e inventando evidências científicas de que o clima está mudando.

Até quem tenha muito boa vontade com este tipo de raciocínio alienista precisa saber como explicar algumas contradições: muitas das ONGs são genuinamente brasileiras, o maior beneficiário de um meio ambiente sadio e protegido é o próprio brasileiro, o clima está de fato mudando perigosamente, os países desenvolvidos estão impondo para si mesmos metas de redução de emissões maiores do que as que o Brasil espontaneamente se dispôs a cumprir.

O Brasil é uma potência agropecuária. Os números crescentes de produção, produtividade e exportação derrubam a tese de que o Código Florestal está impedindo essa atividade econômica no país. Há pouca chance de que continuemos avançando em mercados mais competitivos se a decisão for permitir mais desmatamento, tornar mais frouxas as regras, controles e limites. É bem provável que ocorra o oposto: que esse passe a ser o principal argumento para imposição de barreiras contra o produto brasileiro, seja ele produzido de forma sustentável ou não.

O principal problema do Código não é ser excessivamente rigoroso. Se fosse, o Brasil não teria as estatísticas que tem. É que as leis não têm sido respeitadas.

Mudar a lei para que o Código seja cumprido é tão inútil e perigoso quanto tentar reduzir a incidência de febre nos pacientes com infecção, estabelecendo que febre é apenas de 39 graus para cima. O racional a fazer com a febre é tratar a infecção; o melhor a fazer com nosso persistente desmatamento é impor o respeito à lei e ao patrimônio público; e não suavizar o Código, anistiar quem não a cumpriu e postergar seu cumprimento.

Em Minas, há um desmatador profissional que tira a mata dele e dos vizinhos, pequenos proprietários, a quem paga alguns trocados.

De tanto ser denunciado e multado, ele já aprendeu o truque. Agora, ele mesmo se denuncia, paga a multa e assim legaliza seu ato. É o crime que tem que ser combatido, deputados e senadores, e não a lei.

Veja Carta ao Leitor


Corações e mentes

Montagem sobre fotos Pedro Rubens/Paulo Vitale e AE
Serra, Dilma e Marina
A história de cada um e o bom momento do país apontam para uma campanha de alto nível


Com a realização das convenções partidárias, foi dada a largada oficial para a disputa da Presidência do Brasil, ocupada nos últimos sete anos e meio por Luiz Inácio Lula da Silva. Os favoritos, José Serra, do PSDB, e Dilma Rousseff, do PT, aparecem nas pesquisas de intenção de voto tecnicamente empatados. Marina Silva, a carismática senadora do Partido Verde, pontua estavelmente bem nas pesquisas, mas, a despeito de uma plataforma atraente, não tem potencial para chegar a ameaçar os ponteiros.

Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que, no entanto, Marina poderá ser mais do que a miss simpatia das eleições caso seus apoiadores migrem em massa para o lado de Serra ou para o de Dilma em um muito provável segundo turno. Isso nunca ocorreu na democracia brasileira. Nos segundos turnos, os eleitores do terceiro colocado tenderam a distribuir seus votos entre os líderes de uma maneira equilibrada e sem impacto no resultado final da disputa nas urnas.

Ocorre que a atual eleição, a começar pelo empate absoluto de intenções de voto em pleno mês de junho, tem uma dinâmica surpreendente – e uma surpresa costuma atrair mais surpresas.

A cobertura eleitoral de VEJA se intensifica a partir desta edição, com a publicação da entrevista de Dilma Rousseff nas Páginas Amarelas. Na próxima semana, será a vez de José Serra ocupar aquele espaço nobre, seguido de Marina Silva. Pela história e perfil dos candidatos envolvidos, pelo momento econômico exuberante e pela maturidade institucional e política do Brasil, o jogo eleitoral deste ano deve oferecer lances de alta qualidade, com real repercussão sobre o futuro de todos. Portanto, se os corações brasileiros vão estar sintonizados na Copa do Mundo nas próximas semanas, as mentes têm razão de sobra para acompanhar com atenção desde já a campanha presidencial de 2010.

Entrevista: Dilma Rousseff


Acabou o "Risco Brasil"

A candidata do PT diz que se foi o tempo de apreensão dos mercados
com eleições presidenciais no Brasil e garante que se vencer o pleito
vai manter a inflação sob controle


Eurípedes Alcântara e Otávio Cabral

"Temos de continuar ajudando
os mais pobres. Temos de garantir
que os 190 milhões de brasileiros
virem consumidores"
Sergio Dutti

No começo, Dilma Rousseff estranhou o papel de candidata à Presidência da República. Em comparação com o cotidiano acelerado de ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula, as primeiras semanas de pré-campanha lhe pareceram umas férias sem muita graça. Na semana que precedeu sua indicação oficial pelo PT, ela tinha voltado ao ritmo de multitarefas e a mente estava ocupada com os mais diversos assuntos. "Estamos retomando o poder territorial dos bandidos no Rio de Janeiro. Droga se combate com inteligência, força e dando opções de trabalho e lazer aos jovens", diz ela, animada com os resultados da parceria do governo federal com o governador Sérgio Cabral. Dilma criticou José Serra, o candidato do PSDB, por ter fustigado o governo da Bolívia e sua leniência no combate ao tráfico de drogas. "Lá também vamos precisar de parceria para destruir os centros de refino de coca, e brigar com o governo boliviano não é um bom caminho." Dilma falou a VEJA sobre drogas, PMDB, juros, inflação, crescimento e sua vida na prisão por crimes políticos no regime militar.

A senhora tem uma vantagem clara sobre o candidato Lula na eleição de 2002. Ninguém fala agora de um "Risco Dilma". Por quê?
Primeiro, porque não existe Risco Brasil. Nós nos destacamos no cenário mundial como uma nação que tem um rumo, e esse rumo é o correto, com crescimento econômico, estabilidade, instituições sólidas e democracia. O mundo vê isso e sente que não será uma eleição presidencial que vai colocar essas conquistas a perder. Não tem "Risco Dilma" e não tem "Risco Guerra"(referência ao senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, que em entrevista a VEJA em janeiro disse que se seu partido vencer as eleições vai "mexer na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação"). Ele falou tudo aquilo e o mercado nem se tocou. Não aconteceu nadinha de nada.

Estamos de acordo que os alicerces dessa robustez foram lançados durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso?
Discordo. Hoje nós temos estabilidade macroeconômica. Nós recebemos um governo sem estabilidade, com apenas 36 bilhões de dólares de reservas. O endividamento do Brasil crescendo, a inflação ameaçando sair de controle, uma fragilidade externa monumental que a gente não podia nem mexer, o dólar a 4 reais. Qual é o alicerce?

A autonomia operacional do Banco Central, as metas de inflação, o câmbio flutuante, a responsabilidade fiscal...
Não tem risco hoje porque nós do governo Lula construímos um país robusto. O que vocês chamavam de "Risco Lula" em 2002 se devia menos ao candidato do que às condições do país naquele momento. Nós recebemos do governo anterior um Brasil frágil. Tínhamos reservas de pouco mais de 36 bilhões de dólares. Hoje temos 250 bilhões de dólares em reservas. O presidente disse que a crise financeira mundial de 2008 era uma marola. Se você comparar com o tsunami que houve nos Estados Unidos e com as ondas que ainda atingem a Europa, nós não tivemos mesmo mais que uma marola. Tanto que a discussão agora é outra. É discutir os 9% de crescimento.

É ritmo de crescimento para chinês nenhum botar defeito. Mas é sustentável?
O prudente para o Brasil nas condições atuais é ter um crescimento de até 6% ao ano. Portanto, esses 9% tendem a baixar. O ritmo de crescimento tende a desacelerar-se progressivamente rumo ao patamar de 6%.

Esse valor de 6% de crescimento seria o tão falado quanto imponderável PIB potencial, acima do qual a inflação dispararia?
Não me sinto confortável com essa noção de PIB potencial, mas está mais do que provado que não podemos abrir mão do controle da inflação se quisermos crescimento com distribuição de renda. Temos de ter uma meta inflacionária e persegui-la. Com inflação, a renda das pessoas, em especial a das mais pobres, escoa. Controlar a inflação é distribuir renda.

Qual seria a política de juros de um eventual governo Dilma?
A taxa de juros real, descontada a inflação, baixou muito no governo Lula. Na verdade, ela nunca foi tão baixa quanto agora. Já foi de 20%, 15% e agora está em 5% a 6%. É um tremendo avanço. Mas dá para melhorar. A maneira de fazer isso é a redução disciplinada e sistemática da relação da dívida líquida sobre o PIB. Nós saímos de 60,6% em 2002 para 40,7% em 2010. A meta é chegar a 2014 com esse valor em 28%. A consequência inexorável disso é a queda dramática da taxa de juros.

A senhora pretende manter o Bolsa Família nos moldes atuais?
Temos de continuar ajudando os mais pobres. Temos de garantir que os 190 milhões de brasileiros virem consumidores. Isso não é possível sem programas sociais. Agora, vocês me digam: tem maior porta de saída do que o crescimento do emprego nos níveis atuais? Tem porta de saída melhor do que o investimento em ensino profissionalizante? Essas são as melhores portas de saída. O Brasil tem escassez de mão de obra em muitos setores. Cortador de cana no Nordeste está virando soldador, operário qualificado.

Por isso mesmo, será que não é hora, para o bem dos próprios beneficiados, de deixar que caminhem com as próprias pernas, que se independam do governo?
Ainda tem muita gente no Brasil com renda de um quarto do salário mínimo. São quase 19 milhões de pessoas nessa situação. Por isso não podemos cortar os programas de distribuição de renda.

Sob muitos pontos de vista, para um político é melhor suceder na Presidência a um antecessor fracassado do que a outro, como é o caso de Lula, que, além de bem-sucedido, é popular e carismático. Isso pesaria muito sobre seus ombros em caso de vitória nas eleições deste ano?
Acho ótima essa herança. O governo do presidente Lula pertence uma parte a mim. Eu não sou uma pessoa que está olhando para o governo com distanciamento. Eu não tenho distanciamento nenhum do governo do presidente Lula. Eu lutei para esse governo ser esse sucesso todo. Honra minha biografia ter participado desse governo e o Lula ter me honrado com a escolha como candidata. Tenho certeza de que o presidente Lula participará do sucesso do meu governo porque ele construiu as bases para eu concorrer. Ele deu condições para que eu faça uma coisa que é dificílima: superar a nós mesmos. O governo Dilma pode superar o governo Lula porque nós construímos um alicerce para isso acontecer. O meu projeto é o dele. E o dele é o meu.

Seu aliado, o PMDB, sempre impediu que a reforma política andasse. Por que com a senhora seria diferente?
Já foi diferente com o Lula, embora muita gente insista em negar essa realidade. O que caracteriza o governo Lula foi ter construído uma aliança em torno da governabilidade e de projetos. Os ministros do PMDB demonstraram a mesma dedicação aos projetos que os ministros do nosso partido.

Falando em aliados, como a senhora lidaria com Hugo Chávez, o venezuelano que ignora os princípios democráticos básicos?
Não é preciso concordar com as práticas dele, mas não podemos interferir diretamente no que ele está fazendo. O Brasil é um modelo de país que respeita a liberdade de imprensa, que respeita empresas, que respeita contratos, que defende e aprimora a democracia. Tenho certeza de que nosso modelo acabará influenciando positivamente nossos vizinhos e aliados. O Brasil pode dar o exemplo pelo diálogo e pelo respeito. O que não pode fazer é impor.

Como a senhora avalia o episódio recente do pedido de demissão do jornalista que, a serviço de seu partido, contratou arapongas para espionar adversários e até aliados?
É muito difícil essa conversa. É um assunto que girou em torno de documentos que ninguém viu nem sequer sabe se existem e de uma coisa que nunca chegou a se concretizar. Por isso prefiro concentrar minha resposta sobre a linha de conduta geral da campanha. Na minha campanha, não vou admitir nenhuma prática que não respeite o adversário, que não tenha princípios éticos claros e que não honre o fato de termos o governo com a maior aprovação da história recente deste país. A minha decisão é manter uma campanha de alto nível.

De tanto cumprir cadeia política durante a ditadura Vargas, o grande escritor Graciliano Ramos, um tipo depressivo, saiu-se com essa: "É-me indiferente estar preso ou solto". A senhora chegou a ter um sentimento parecido?
Não. Nos cárceres da ditadura militar, sempre ansiei pela liberdade. Mas entendo bem a que o Graciliano se refere. Existe a figura do preso velho, conhecedor dos caminhos dentro da cadeia. Isso dá uma certa sensação de controle que, ao final da minha pena de três anos, tornava a prisão menos insuportável. Eu tinha um esconderijo de livros e, com a ajuda do dentista da penitenciária, trocava bilhetes com meu marido, preso na ala masculina. Contávamos com algumas boas almas entre os carcereiros, e o capelão militar deu-me uma Bíblia, que, para passar pela fresta da porta da cela, teve sua capa arrancada. Um sargento detonou, sem querer, uma bomba de gás lacrimogêneo perto das celas e abriram um inquérito para apurar responsabilidades. Nós, as presas, sabíamos quem era o culpado, mas decidimos não identificá-lo. Com isso caímos nas graças dos sargentos. Enfim, o preso velho começa a acomodar seus ossos naquele ambiente.

Em situações extremas as pessoas costumam ter reações inesperadas. Quem era forte revela-se um fraco. O frágil se transforma em valente. A senhora se viu na cadeia, sob tortura, tendo reações surpreendentes?
É um pouco mais complexo do que você imagina. Depende muito do seu momento. A mesma pessoa pode estar forte um dia e em outro desabar – ou estar entregue e, de repente, encontrar forças descomunais que não sabia possuir. É o momento que manda, e você não manda no seu momento.

A sua opção pela luta armada na juventude vai ser um assunto da campanha eleitoral. As pessoas querem saber se a senhora deu tiros, explodiu bombas ou sequestrou.
Estou pronta para esse debate. Pertenci a organizações políticas que praticaram esses atos. Mas eu jamais me envolvi pessoalmente em alguma ação violenta. Minha função era de retaguarda. Os processos militares que resultaram em minha condenação mostram isso com clareza. Nunca fui processada por ações armadas. Tenho muito orgulho de ter combatido a ditadura do primeiro ao último dia. A ditadura foi muito ruim. Cassaram os partidos políticos, fecharam órgãos de imprensa, criaram mecanismos de censura, torturaram... Mas o pior de tudo é que tiraram a esperança da minha geração. Quem tinha 15 ou 16 anos de idade quando foi dado o golpe de 64 não enxergava o fim do túnel. De um jovem cheio de energia e sem esperança podem-se esperar reações radicais.

É fácil falar vendo o filme de trás para a frente, mas hoje parece indiscutível que o pessoal da luta armada não queria a volta da democracia, mas apenas trocar uma ditadura de direita por outra de esquerda. A senhora tinha consciência disso?
Olha aqui, no meio da luta essas coisas nunca ficavam claras. O objetivo prioritário era nos livrar da ditadura, e lutamos embalados por um sentimento de justiça, de querer melhorar a vida dos brasileiros. Foi um período histórico marcante em todo o mundo. Os jovens franceses estavam nas barricadas de maio de 68. Jovens americanos morriam baleados pela polícia nos câmpus universitários em protesto contra a Guerra do Vietnã, a mais impopular das guerras dos Estados Unidos, um conflito que aos nossos olhos tinha uma potência tecnomilitar agressora sendo derrotada por um país pequenino, mas valente. Nossa simpatia com o lado mais fraco era óbvia. Depois daquela fase eu continuei lutando pela democracia no antigo MDB e no PDT. Nesse processo, eu mudei com o Brasil, mas jamais mudei de lado

Claudio de Moura Castro


O judeu de Bethesda

"Se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres
mais cultos do globo. Só livro lido é cultura"

Último dia de aula na escola Walt Whitman. Situada em Bethesda, um bairro intelectualmente sofisticado da região de Washington (DC), é uma das melhores dos Estados Unidos. O pimpolho volta para casa. Poderia estar sonhando com três meses de vadiagem, longe dos livros. Mas o sonho duraria pouco. Ao fim da tarde, chega o pai judeu, carregando uma sacola de livros recém-comprados. Chama o filho, esparrama os livros na mesa da sala e começa a montar o cronograma de leituras, incluindo a cobrança periódica do que terá sido lido. Ignoro quantos pais judeus passaram também nas livrarias. Mas imagino que não foram poucos.

Ilustração Atômica Studio

Ler livros, glorificar livros, eis uma tradição judaica milenar. Vem de longe e não se buscam muitas explicações científicas para ela. Não obstante, Karl Alexander, da Universidade Johns Hopkins, somando aos 39 estudos sobre o assunto, completou uma pesquisa com alunos do ensino fundamental. Concluiu que, das vantagens acadêmicas acumuladas pelos alunos mais ricos até a 9ª série, dois terços advêm de atividades de leitura mais intensas durante as férias. Segundo a Secretaria de Educação americana, as perdas dos mais pobres nas férias são "devastadoras". Um pai judeu provavelmente diria: ora bolas, é o que sempre pensei. Mas, para a maioria das pessoas, os resultados são surpreendentes. Em matemática, foi possível comprovar que, durante as férias, os alunos esqueceram o equivalente a 2,6 meses de aula. Em outras palavras, somente 2,6 meses depois de recomeçarem as aulas os alunos atingem o nível de competência que tinham no último dia de aula da série anterior. Ou seja, férias são um horror para o aprendizado.

Trata-se de resultados valiosos para países que lutam bravamente para melhorar seu claudicante ensino. É simples, se for possível estancar a sangria do "desaprendizado" – que põe a perder 2,6 meses de estudos –, os ganhos serão enormes. Da ordem de 25%? Que outras intervenções seriam tão poderosas?

Tais ideias abrem caminho para muitas linhas de atividade. Pais interessados e comprometidos com a educação dos seus filhos podem fazer o mesmo que os judeus de Bethesda. Mas, vamos nos lembrar, se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres mais cultos do globo. Só livro lido é cultura. Portanto, cobranças sem dó nem piedade. Mas seria só empurrar livros e mais livros goela abaixo dos filhos? Jamais! É preciso desenvolver o prazer da leitura, e o bom exemplo é essencial. À força, pode sair o tiro pela culatra. Que livros? Não adianta comprar Hegel, Spinoza ou Camões, se as leituras favoritas ainda não passaram muito da Turma da Mônica. É fracasso garantido. Os livros devem andar muito próximo do interesse e da capacidade de compreensão dos leitores, sempre puxando um pouco para cima.

Desviando parcialmente do assunto, quero sugerir aos pais que façam manifestações, que acampem em frente à casa dos prefeitos, até que se mude uma situação vergonhosa. Uma pesquisa recente com as bibliotecas públicas brasileiras pôs a descoberto que (além de fecharem às 6 da tarde) apenas 20% delas abrem aos sábados e só 1% aos domingos. Como é possível que, nas horas e dias de folga das escolas, as bibliotecas permaneçam fechadas? No caso das leituras de férias, são os únicos dias em que muitos pais poderiam ir à biblioteca para escolher livros com os filhos.

Para aqueles que cuidam da educação como ofício, as implicações da pesquisa da Johns Hopkins não são menos revolucionárias. Mostram ser preciso fazer alguma coisa, somente para conseguir não andar para trás nas férias. Por exemplo, programas públicos de leitura. Não são programas caros nem complicados, basta criar monitorias para garantir que as leituras sejam feitas.

Em um nível mais ambicioso, sobretudo para alunos mais vulneráveis, poderiam ser criados cursos de férias. Não se trata de fazer a mesma coisa que no período letivo, pois seria repetir um ensino aborrecido e pouco produtivo. Precisamos de projetos intelectualmente desafiadores, atividades que estimulem os miolos, jogos e muitas outras coisas. O que precisa ser aprendido não é muito diferente, mas viria vestido com roupas mais alegres. E, como sabemos que cabeça vazia é oficina do diabo, essas atividades podem até mesmo ter outras consequências benéficas, por evitar rumos pouco recomendáveis em que se deságuam as amplas energias desses jovens.

Radar Lauro Jardim


Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Infraestrutura

Um novo aeroporto para SP
Sem alarde, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez se uniram para construir e operar um novo aeroporto internacional em São Paulo, com capacidade para receber 22 milhões de passageiros por ano - a mesma movimentação de Cumbica. O projeto, feito com a consultoria da Boeing, está pronto, e o terreno, comprado. O aeroporto ficará na cidade de Caieiras, a 35 quilômetros da capital. Falta apenas o governo dar o o.k. para a criação de aeroportos privados.

Eleições

Elle vem com tudo
Fernando Collor está montando uma megaestrutura para sustentar sua candidatura ao governo de Alagoas.

O show do debate
A Record decidiu fazer seus dois debates (nos dias 24 de setembro e 24 de outubro) no RecNov, seu centro de produção de novelas no Rio de Janeiro, assim como a Globo faz os seus no Projac.

Brasil

Juarez Rodrigues/Estado de Minas/AE
Chicanas de Valério
Marcelo Leonardo, advogado do notório Marcos Valério, anda ligando para vários advogados dos réus do mensalão. Nos telefonemas, propõe a criação de uma estratégia conjunta para que o processo seja desmembrado e levado para a primeira instância, deixando, portanto, a esfera do STF. O tom da conversa tem ficado entre a proposta e a ameaça. Em princípio, uma chicana com escassa chance de êxito.
O operador
Valério: o carequinha está com medo do STF

Economia

Vontade de comprar
O Santander está de olho no mineiro Banco Mercantil do Brasil.

O Multi avança
O grupo Multi, que já é o maior do Brasil em ensino de idiomas (controla as marcas Wizard e Skill), anunciará na segunda-feira a compra da Microlins, a maior rede de ensino profissionalizante do país.

Olhou, olhou, mas desistiu
A Hypermarcas deu um mandato para que o Deutsche Bank comprasse da Unilever a marca Pomarola e uma fábrica de atomatados, que estão à venda, mas o negócio gorou.

Para sair do sufoco
Depois de sangrar a GP Investimentos, sua controladora, a San Antonio, empresa de serviços do setor de exploração de petróleo, fechou acordo com os credores para uma capitalização de 200 milhões de dólares.

Cimento na África
A Camargo Corrêa acaba de comprar uma cimenteira em Moçambique, a Cinac. Pagou 50 milhões de dólares pelo negócio.

Futebol

As eliminatórias vêm aí
A primeira grande cerimônia da Copa de 2014 tem lugar já no ano que vem, no Rio de Janeiro: o sorteio dos jogos das eliminatórias, com a presença de representantes de 170 países. Será também o primeiro evento organizado pela Geo, empresa em que Globo e RBS são sócias.

Os reis da propaganda

AP
Com a bola toda
Robinho e Pelé: faturando alto


Pelé
continua rei quando o assunto é propaganda na TV. Neste ano, de janeiro ao dia 10 de junho, já apareceu em 654 comerciais. É mais do que todos os jogadores da atualidade, com exceção deRobinho, o queridinho das campanhas publicitárias no primeiro semestre e com quem, na verdade, divide a coroa de rei da propaganda. Robinho marcou presença em 3 056 comerciais no mesmo período. Supera, de longe, quase todos os artistas da Globo.

Como será a campanha de Palocci

Sergio Dutti/AE
Poderoso
Palocci: campanha a deputado praticamente sem sair de Brasília


Está praticamente abortada a ideia de fazer de Antonio Palocci suplente de Marta Suplicy, candidata petista ao Senado. Por um motivo simples: só Marta quer essa solução. O que se articula agora - e essa possibilidade já foi discutida entre Aloizio Mercadante, Lula e Palocci - é que o ex-ministro da Fazenda seja candidato a deputado federal. Como Palocci não terá tempo para fazer campanha, por causa das atribuições no staff de Dilma Rousseff, o PT paulista montou um esquema para que, ainda assim, ele seja um dos puxadores de votos da legenda: um grupo de prefeitos bons de voto trabalhará para Palocci, que, além disso, terá um espaço destacado na propaganda gratuita da TV.

Com Paulo Celso Pereira. Colaboraram Ricardo Brito e Thiago Prado

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