Saturday, April 24, 2010

O imperador de Inhotim


Como Bernardo Paz, empresário da mineração, montou um instituto
de arte tão pitoresco quanto espetacular em um lugarejo mineiro


Marcelo Marthe

Fotos Bruno Magalhães/Nitro
ESTILO TRATOR
Paz e a instalação De Lama Lâmina, cuja cúpula de vidro lembra um óvni na mata: a obsessão
do empresário é criar uma Disneylândia da botânica e da arte contemporânea


Em 2006, o mineiro Bernardo Paz recebeu um especialista em plantas na sua fazenda em Brumadinho, cidade de 34 000 habitantes a 60 quilômetros de Belo Horizonte. Paz havia acabado de transformar seus 97 hectares em uma mescla de jardim botânico e museu devotado à arte contemporânea – o Instituto Cultural Inhotim. Só que, ao se gabar das palmeiras, ouviu uma crítica do engenheiro agrônomo Harri Lorenzi. "Eu o adverti: ‘Meu amigo, essa sua coleção não tem nada de extraordinário. Faltam centenas de espécies nativas’", conta Lorenzi. De imediato, diante do convidado, Paz repreendeu o responsável pelo jardim (que logo seria demitido). Ao retornar ao local, no ano passado, Lorenzi se assombrou: "Até onde sei, ele montou a maior coleção de palmeiras do mundo, com mais de 1 000 espécies". O episódio resume o homem e sua obra. Na aparência, Paz – que cultiva uma juba branca à la Oswaldo Montenegro e recebe os visitantes descalço – é todo zen. Por trás da estampa riponga, contudo, há um leão obcecado em tornar cada vez mais grandiosa aquela que vê como a "obra de uma vida".

No começo da década, o empresário do ramo da mineração ganhou notoriedade como um mecenas agressivo e pitoresco. Mas, para muitos, Inhotim – o destino das obras que comprava – parecia um capricho sem sentido. Distante do eixo Rio-São Paulo e fora de mão mesmo para quem vem de Belo Horizonte, a região era, até poucas décadas atrás, sede de um leprosário. Quatro anos depois de sua abertura, contudo, a instituição já atrai público. Sua exuberância, sustentada por recursos do próprio empresário e também obtidos com leis de incentivo, contrasta com a penúria de boa parte das instituições culturais do país. No ano passado, Inhotim recebeu 130 000 visitantes (além de 21 000 estudantes, a maioria por meio de um convênio com a prefeitura de Belo Horizonte) e inaugurou nove novas atrações. Entre elas contam-se uma
instalação do carioca Hélio Oiticica (1937-1980) e a galeria que abriga De Lama Lâmina, obra do americano Matthew Barney que consiste em um trator suspendendo no ar um tronco de árvore artificial (Barney adora uma esquisitice: é casado com a cantora islandesa Björk). O efeito da obra e do prédio que a abriga sai amplificado pelo cenário – de fora, o conjunto parece um óvni estacionado no meio da mata. Ao inserir a arte contemporânea em um ambiente tropical, Inhotim lhe confere um sentido menos inócuo do que se depreenderia ao observá-la em uma bienal.

A ambição do mecenas é criar uma Disneylândia da arte e da botânica. "Isto aqui não é um museu. É um lugar", diz. Ele quer construir um albergue para estudantes, três hotéis de categorias distintas, um centro de convenções, um teatro e um aeroporto. "Sou da tribo das pessoas que só querem fazer, fazer, fazer. E isso põe todo mundo aqui louco", afirma Paz, que, aos 59 anos, controla a ansiedade com calmantes, antidepressivos e dois maços de cigarro por dia. Inhotim surgiu no fim dos anos 80, quando Paz se tornou próximo do paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) e obteve dele – na base da camaradagem – palpites para montar seu jardim.

A ideia de transformá-lo em uma instituição aberta ao público nasceu em 1995, quando o empresário se viu confrontado com a morte: sofreu um derrame em Paris, durante uma escala em uma viagem de negócios à China. "Percebi que meu legado poderia ser esse ambiente mágico, onde as pessoas vivem uma experiência interior única", diz. Ele concluiu que a melhor forma de imprimir esse significado luminoso a seu jardim seria salpicá-lo de arte, em uma versão radicalizada dos tradicionais jardins de esculturas. Convencido pelo artista pernambucano – e amigo – Tunga de que não deveria investir em "medalhões mortos", ele se desfez de seu acervo de arte moderna e passou a colecionar contemporâneos, como o próprio Tunga, os cariocas Cildo Meireles e Adriana Varejão e o dinamarquês Olafur Eliasson. A galeria mais espetacular é a de Adriana, que tem três andares e parece flutuar sobre um espelho-d’água. "Inhotim é o sonho de todo artista: um lugar que acena com liberdade total e recursos generosos", diz a artista. Ela conseguiu não só um colecionador, mas também um maridão: Adriana e Paz casaram-se em 2005 (ele, pela quinta vez) e têm uma filha de 4 anos.

Ao criar seu "lugar mágico" – inaugurado em uma boca-livre antológica, com dois Airbus fretados para o translado de convivas –, Paz esperava elogios. Não foi assim. Ele enfrentou pressões familiares. "As mães dos meus seis filhos querem me matar por enterrar todo o dinheiro deles aqui", afirma. Uma das ex despachou um médico para sondá-lo. "Ela achava que eu estava doido." O imperador de Brumadinho também teve sua imagem abalada pelo envolvimento do irmão, Cristiano Paz, no escândalo do mensalão petista, em 2005. O publicitário era sócio do nefasto Marcos Valério. "De repente, minha obra foi colocada sob suspeição", diz.

Paz declara ter despejado em Inhotim cerca de 90 milhões de dólares, o que o tornaria um mecenas comparável a Ciccillo Matarazzo, financiador do acervo estupendo do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em São Paulo. Boa parte desse montante, de acordo com Paz, provém de uma bolada de 150 milhões de dólares que ele teria recebido no exterior pela venda de uma mina no Brasil. O dinheiro teria sido doado à Horizontes, empresa que administra o instituto, por meio de uma firma no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. "Pus o grosso do dinheiro em Inhotim. O restante, a Horizontes emprestou a uma empresa minha para saldar dívidas", conta. A empresa em questão era a mineradora Itaminas – que, recentemente, teve sua venda acertada para um grupo chinês por 1,2 bilhão de dólares. Paz pretende usar parte da quantia para quitar seus débitos empresariais, que ele calcula serem da ordem de 400 milhões de dólares. "Como escolhi ser um homem público, não posso dar margem a ilações", afirma.

O mecenas paga comissões entre 80 000 e 100 000 dólares por obra, além de bancar o material para sua confecção. Ele se enfronhou na arte contemporânea para conviver com os artistas, que via como criaturas extraordinárias. A proximidade o fez rever essa ideia: "Artistas cansam. Ninguém aguenta as pirações deles por muito tempo". No casamento com Adriana Varejão, Paz se adapta como pode às injunções da mente criadora. Ela mora no Rio de Janeiro. Ele vive isolado em Inhotim. "Como eu poderia manter essa mulher, uma artista, presa aqui?", diz. Ademais, Paz reconhece não ser um marido fácil. "Sou um ermitão."

Fotos João Marcos Rosa/Ag. Nitro e Bruno Magalhães/Nitro
O PALÁCIO DA PRIMEIRA-DAMA
Uma das galerias de Inhotim abriga obras da artista plástica carioca Adriana Varejão – que, durante a construção, acabaria se casando com o mecenas Bernardo Paz. Dentro do prédio (à dir.), uma estrutura de concreto de três andares que parece flutuar sobre um espelho-d’água, há peças como Linda do Rosário (à esq.) – uma parede de azulejos da qual brotam vísceras feitas de poliuretano e pintadas a óleo
EXUBERÂNCIA TROPICALISTA
Os jardins de Inhotim, com obra de Hélio Oiticica: a maior coleção
de palmeiras do mundo

Home theater incrementado



Fotos Manoel Marques e Divulgação
O gerente de informática paulista Carlos Eduardo Laurentys, de 42 anos, instalou um media center em casa. "Vou gravar todos os jogos do Brasil durante a Copa sem usar um único DVD", diz

Os acessórios que já estão nas lojas...

Media center
A central multimídia grava programas da TV e reproduz, em alta definição, o conteúdo armazenado no equipamento, como músicas, fotos e vídeos. Um terabyte comporta 1 500 horas de filmes, 18 500 horas de música ou 4 milhões de fotos
Preço: de 1 000 a 1 500 reais

Fone de ouvido sem fio
Com ele é possível assistir à TV no volume desejado, sem incomodar ninguém. Há modelos com sistema Bluetooth e infravermelho que recebem o sinal de um adaptador conectado ao televisor
Preço: de 170 a 550 reais

Câmera de Skype para Tevê
Com ela, é possível conversar via Skype com a imagem do interlocutor na tela do aparelho. Como a conexão é feita via USB, o televisor deve ter esse recurso
Ainda sem preço estimado

...e os que serão lançados antes da Copa

Mediabox
DVD players, aparelhos de Blu-ray e videogames são ligados ao equipamento por meio de cabos. Ele não é conectado à televisão e pode ficar a até 30 metros de distância dela – envia os dados, em alta resolução, para um receptor. O modelo da LG só se conecta com os televisores mais modernos da própria marca
Preço estimado: 1 000 reais

Tecnologia 3D em casa

• Nesta semana, chega ao mercado a televisão 3D. Dependendo do modelo, um ou dois óculos especiais, com visores de LCD, acompanham a tevê

• Enquanto as emissoras não veiculam programas com a nova tecnologia, os aparelhos possuem um recurso que converte as imagens 2D convencionais em 3D

• Os preços ainda não foram divulgados. A Samsung anunciou um pacote que inclui uma LCD LED de 40 polegadas, um Blu-ray player, um filme e dois óculos. O preço do kit: 8 000 reais


Melhores, mas bem mais caras

Graças ao LED (sigla em inglês para "diodo emissor de luz"), as tevês de LCD ficaram finíssimas – em geral, as telas não passam dos 3 centímetros de espessura. Mas sua principal vantagem, claro, está no ganho na qualidade da imagem. Em vez de usarem lâmpadas fluorescentes para iluminar o painel de cristal líquido, como nos modelos LCD convencionais, os televisores com LED o fazem por meio dessas tais lampadinhas – que diminuem de intensidade nas cenas escuras, acentuando o contorno das imagens. Além de melhorar o contraste, o LED é mais econômico. Consome, em média, 40% menos energia que as televisões de LCD comuns. Mas seu preço ainda é bem mais alto – sobretudo nos modelos Full LED, que começam a chegar ao mercado no mês que vem e devem custar a partir de 5 000 reais. A razão: com lâmpadas espalhadas por toda a tela, em vez de localizadas apenas nas bordas, os televisores Full LED prometem oferecer uma imagem perfeita.

Especialistas consultados: os gerentes de produtos Fernanda Summa, da LG; Daniel Kawano, da Panasonic; Marcelo Natali, da Philips; Rafael Cintra, da Samsung; e as empresas HP, Iomega e Sony

Com reportagem de Daniela Macedo

As super tevês - e o que elas têm



Anna Paula Buchalla
Abuchalla@abril.com.br

Em ano de Copa do Mundo, estima-se que 11 milhões de brasileiros troquem o aparelho de televisão. As vendas devem ser 25% maiores que as do ano passado. "Pela primeira vez, as tevês de plasma, lcd e lcd com led devem liderar as vendas", diz Lourival Kiçula, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos.

Esses televisores têm muito mais do que imagem em alta definição: conectam-se à internet, reproduzem arquivos em pen drives, comportam fones sem fio e videogames de altíssima resolução e ainda fazem as vezes de monitor de notebooks e PCs. Há muitas opções, e a variação de preços é grande – proporcional aos recursos que cada modelo oferece. Entenda quais são eles e como funcionam.

Fotos Istockphoto; Matt Dunham/AP; Divulgação
Entrada HDMI
O que é: um conector para transferência de dados de imagem e som, que circulam em um único cabo
Para que serve: para reproduzir filmes em Blu-ray, jogar videogames de última geração e exibir na tevê o conteúdo do computador (por exemplo, fotos e vídeos em alta resolução) com a mesma qualidade e definição


Entrada para PC
O que é: por meio dela, pode-se ligar o computador ou o notebook diretamente no televisor
Para que serve: a tela da tevê vira monitor de PC. Reproduz imagens e exibe arquivos e
documentos. Para vídeos, é necessário ter também um cabo de áudio


Entrada USB
O que é: uma porta para a conexão de pen drives e discos rígidos (HDs) externos
Para que serve: reproduz na tela o conteúdo armazenado nesses dispositivos – como músicas, fotos e vídeos (no caso do HD, isso é feito por meio de um cabo). Alguns modelos permitem apenas a reprodução de músicas e fotos: certifique-se antes de efetuar a compra


HD interno
O que é: nesta opção, o disco rígido (HD) fica dentro do televisor
Para que serve: para gravar programas no próprio aparelho, dispensando o gravador de DVD. Um HD de 160 gigabytes armazena treze horas de gravação em resolução máxima


Conversor integrado
O que é: um decodificador que recebe sinal digital dos canais abertos
Para que serve: com ele, é possível captar a imagem digital da TV aberta e assim dispensar a compra de um aparelho especialmente para cumprir essa função. Mas atenção: é necessário ter uma antena UHF acoplada à televisão


Contraste
O que é: a taxa de contraste define o número de tons de cinza existentes entre o preto e o branco
Para que serve: para dar sensação de profundidade à imagem. Quanto maior é a diferença de nuances entre o ponto mais claro e o mais escuro exibidos na tela, mais gradações de cores são visíveis. Os televisores de LCD convencionais possuem contraste de 50 000 a 100 000 variações entre os extremos de branco e preto. As tevês de LED possuem taxa de contraste na casa dos milhões


Acesso à internet
O que é: permite acessar a rede com banda larga via cabo, sistema wi-fi ou ambos
Para que serve: embora não seja possível navegar livremente pela internet, cada fabricante oferece um pacote específico de portais, como YouTube, Flickr, Twitter e canais de notícias. O controle remoto é usado como teclado

Progressive Scan
O que é: recurso que proporciona imagem mais nítida
Para que serve: essa tecnologia altera a sequência de exibição das linhas que formam a imagem na tevê, tornando-a sensivelmente mais fiel

Frequência
O que é: o número de quadros por segundo que o processador da tevê consegue reproduzir
Para que serve: quanto mais quadros por segundo, melhor a qualidade da imagem. A maioria dos televisores de LCD tem frequência de 60 hertz, ou seja, exibe 60 quadros por segundo. As tevês Full HD têm 120 ou 240 hertz – e ainda neste semestre serão lançados modelos de 480 hertz

E assim se fez Picasso


O Metropolitan de Nova York abre nesta semana uma enorme
exposição do espanhol e prova que, mesmo no caso de um
artista tão famoso, há coisas novas a revelar


André Petry, de Nova York

Fotos EFE e Corbis/Latin Stock
FAMA EM VIDA
Arlequim Sentado, que Picasso pintou e repintou várias vezes, e o artista na década de 50,
já então festejado e reconhecido


Nem Michelangelo, o gênio supremo do Renascimento que morreu aos 88 anos, foi tão famoso em vida quanto Pablo Picasso. Antes de fazer 60 anos, Picasso já era uma celebridade da pintura ocidental. Quando morreu, aos 91, em abril de 1973, seus quadros eram ícones do modernismo e sua obra era objeto de adoração ou de repulsa. Hoje, ela já foi exposta nos principais museus do mundo e foi vista, no original ou em reprodução, por milhões de pessoas. Para os museus, Picasso representa o mesmo que Angelina Jolie e Brad Pitt representam para os paparazzi – lucro certo. Em Varsóvia, São Paulo ou Bogotá, basta anunciar uma exposição de Picasso que o público faz fila na porta. Por isso, ninguém imaginava que houvesse algo novo para descobrir sobre um pintor tão conhecido. A enorme exposição que o Metropolitan Museum of Art, o Met, de Nova York, abrirá nesta terça-feira, 27, reunindo mais de 300 peças do artista, prova que era engano. Até Picasso tem o que revelar.

A exposição mostra que o pintor era mais cuidadoso com seus quadros do que com suas mulheres. A elas, as quais dividia em "deusas ou capachos", Picasso reservou charme ibérico e crueldade narcísica. Com os quadros, era mais detalhista do que se sabia. Pintava-os e repintava-os, mudando formas, ângulos, volumes e, às vezes, até de assunto. Em Arlequim Sentado, que ilustra estas páginas e marcou o início de um estilo próprio do artista, Picasso retrabalhou quase tudo. Em versões anteriores, o encosto do assento do Arlequim era mais baixo e deixava à mostra um pedaço maior do colorido papel de parede ao fundo. A inclinação da cabeça teve vários ângulos, bem como a mão direita, atrás da qual havia um chapéu bicorne. A mão esquerda, que apoia o rosto, chegou a ter todos os dedos dobrados até que o pintor chegasse à posição final. Havia um copo sobre a mesa, depois substituído pelo cinzeiro, e nem a gola nem as mangas do Arlequim tinham o babado de tecido branco-azulado – próprio, na verdade, da fantasia de Pierrô.

A novidade se deve ao exame rigoroso feito pelos pesquisadores do Met. Usando técnicas de raios X e reflectografia de infravermelho, os pesquisadores do museu como que "retiraram" a camada mais superficial de tinta e observaram o que está embaixo da pintura definitiva. Foi possível saber até a ordem em que as cores foram sendo aplicadas, desvendando a história de cada quadro. Em A Refeição do Homem Cego, de 1903, auge da fase azul de Picasso, havia originalmente a cabeça de um cachorro no canto inferior esquerdo, depois suprimida inteiramente. Em O Ator, de 1905, que marca o fim da fase azul e o início da fase rosa, Picasso usou o verso de uma tela que trazia uma pintura anterior, retrabalhou pesadamente a posição dos pés da esguia figura central e mudou sua mão direita de lugar, antes mais próxima do queixo. O quadro adquiriu recente notoriedade por um acidente. Uma mulher, em visita ao museu, desequilibrou-se e caiu sobre a tela, abrindo-lhe um rasgo de 15 centímetros. Restaurada, a obra integrará a exposição da semana que vem com uma proteção de vidro.

Com 34 pinturas, 58 desenhos e aquarelas, dez placas de cerâmica e duas esculturas, além de centenas de prints, a exposição ficará aberta até 1º de agosto. Não é a maior já feita sobre Picasso, nem inclui as telas que demarcam o início e o fim dos trinta anos considerados os mais geniais de sua carreira – Les Demoiselles d’Avignon, de 1907, e Guernica, de 1937. A mostra reúne só as obras que pertencem ao acervo do Met, daí o nome da exposição – Pablo Picasso no Metropolitan Museum of Art. Mesmo assim, é um conjunto exuberante, que passa por todos os períodos da vida artística de Picasso, indo de um autorretrato desenhado quando ele tinha 18 anos até Nu em Pé e Mosqueteiro Sentado, pintado aos 87 anos. Nesse painel de sete décadas altamente produtivas, pode-se constatar a voracidade com que Picasso transitou pelas influências de outros pintores, absorvendo velozmente o que queria e descartando o que não queria, um canibalismo estético que nenhum outro pintor praticou tão intensamente. Precoce como um Mozart, parecia saber desde sempre aonde queria chegar. Acabou tornando-se uma influência incontornável para os pintores que se seguiram, projetando-se até sobre um estilo que nunca pintou – a arte abstrata.

A pintura de Picasso não narra, não contextualiza, não profetiza. Nela, não há uma gota de filosofia, não há um laivo de manifesto. Mesmo em Guernica, sua mais potente denúncia de uma catástrofe política, Picasso não se interessa pelo passado, nem pelo futuro. Sua denúncia, ali, é fotográfica, até nas cores – branco, cinza, preto. Sua pintura parece ser sempre uma tentativa de desvendar o desejo e o sentimento do momento. Nada mais. Mas fez isso com uma força estética assombrosa. Já sobre o seu passado pessoal Picasso teve muito interesse, a ponto de dourar sua trajetória chegando a desmentir a autoria de pelo menos um quadro – Cena Erótica,de 1902 ou 1903, presente na exposição do Met. Com o intenso retrabalho que dedicava aos seus quadros agora descoberto pelos pesquisadores do museu, Picasso, o endiabrado espanhol de Málaga que queria maquiar a própria biografia, revela-se – involuntariamente e talvez por inteiro – como fez a si mesmo.

Fotos Estate of Pablo Picasso/ARS, AP e EFE
PAINEL DE UMA LONGA CARREIRA
Três períodos da trajetória de Picasso: à esquerda, a tela A Refeição do Homem Cego, auge de sua fase azul. Ao centro, O Ator, pintura que marca o início da fase rosa. À direita, Nu em Pé..., tela pintada por Picasso quando ele já tinha 87 anos de idade

Pulmões a salvo


Uma vacina é capaz de prevenir os problemas respiratórios que afligem
os bebês prematuros. Mas poucos pais e pediatras a conhecem


Gabriella Sandoval

Claudio Gatti
ALVO FÁCIL
Nascida com 23 semanas de gestação, Sophia foi vítima do vírus causador de bronquiolite: quinze dias na UTI


A miúda Sophia, de 3 anos, pesava 630 gramas quando nasceu: sua mãe estava na 23ª semana de gestação. A menina passou seis meses internada, foi submetida a cinco cirurgias e a catorze transfusões de sangue. Mas foi uma bronquiolite, que contraiu quando tinha 1 ano e 3 meses, o que mais assustou seus pais. Ela passou quinze dias internada em uma UTI, fraca e com dificuldade para respirar. "Foram dias de muita angústia", diz a mãe, Elza Falcão, de 40 anos. O vírus sincicial respiratório, o VSR, que atacou os brônquios e os pulmões de Sophia, é a principal causa de hospitalização de prematuros com menos de 1 ano de vida. Bebês que nascem antes de 37 semanas de gestação são especialmente vulneráveis a ele: têm risco até dez vezes maior de contrair formas graves de bronquiolite e pneumonia. "Neles, a doença é mais severa e evolui rapidamente para complicações", diz o neonatologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Isso porque o desenvolvimento de seus pulmões não se completou no útero, o que os torna alvo fácil para o vírus. Para esses recém-nascidos, entretanto, há uma arma de prevenção eficaz. Trata-se de um anticorpo monoclonal, o palivizumabe, que funciona como uma vacina. Administrado via injeção intramuscular, ele evita hospitalizações em até 70% dos casos. Embora esteja incluído no calendário de vacinações da SBIm, são poucos os pediatras que o recomendam. "É por puro desconhecimento", afirma Kfouri. A entidade iniciará uma campanha no começo de maio para esclarecer pais e médicos sobre a existência de um calendário só para prematuros e a importância da imunização.

O índice de nascimentos precoces só faz aumentar: nos últimos dez anos, passou de 8% para 13% nos hospitais particulares. A principal razão é a maior ocorrência de gestações múltiplas, efeito dos tratamentos de fertilidade, e de gestações tardias – ambas fatores de risco para partos prematuros. A prevenção, no caso desses bebês, é essencial. Mesmo as vacinas comuns devem ser administradas de modo diferente aos prematuros. A BCG, que previne formas graves de tuberculose, deve ser aplicada assim que o recém-nascido atinge 2 quilos. No caso da hepatite B, são necessárias quatro doses, em vez de três. Outra precaução importante, segundo a infectologista pediátrica Lily Yin Weckx, da Universidade Federal de São Paulo: "A tríplice bacteriana deve, preferencialmente, ser acelular, o que reduz o risco de reações como febre alta". Em relação ao palivizumabe, há um porém: ele é caro. Uma dose pode custar mais de 1 000 reais – sendo que se preconiza uma injeção por mês na época de circulação do vírus, de março a setembro. Mas alguns planos de saúde cobrem o valor, e o medicamento é oferecido gratuitamente em postos de vacinação dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro a bebês que nascem com menos de 28 semanas. E saúde de recém-nascido, claro, não tem preço.

Faroeste olímpico


A ocupação ilegal de terras na área vizinha à sede
da Olimpíada no Rio é um obstáculo para que
a cidade se desenvolva com os Jogos


Ronaldo França

Oscar Cabral
Retrato da desordem
Condomínios construídos em áreas usurpadas por grileiros, na Zona Oeste: ausência do poder público


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Antes de 2016, ano da Olimpíada, o Rio de Janeiro precisa dar fim a um problema que perdura há décadas, e só piora: na região em torno da futura sede olímpica, na Zona Oeste da cidade, impera a mais completa desordem urbana. Um levantamento sobre a área, com base em dados da prefeitura, revela não apenas a existência de dez favelas, que ali proliferam livremente, como também a de 191 condomínios de classe média em que 8 000 pessoas residem, a maioria sem pagar sequer IPTU. Sob o olhar complacente do poder público, boa parte dessas casas é abastecida de água e luz por meio de ligações clandestinas. Trata-se de um retrato acabado de anos a fio de domínio da região por quadrilhas de grileiros. No controle da área, que equivale a três vezes a de Copacabana e se estende por quatro bairros, eles chegam a circular armados, em plena luz do dia, sem que nenhuma autoridade coíba sua ação – cena de faroeste. À base da força, os bandidos vão se apoderando dos terrenos, que passam adiante a preços de mercado, como se o negócio fosse legal. É justamente a não mais que cinco minutos de carro dali que será erguido o maior dos quatro polos com instalações olímpicas no Rio – com quatro estádios, centro de imprensa e alojamento para os atletas. Arquiteto responsável pelos projetos de infraestrutura nos Jogos de Barcelona, em 1992, o catalão Lluís Millet lança luz sobre as consequências do caos vizinho ao polo: "Além de insegurança, a desordem representa um obstáculo para que o Rio se desenvolva com a Olimpíada".

Tradicionalmente, a região no entorno dos centros olímpicos experimenta um surto de crescimento à medida que obras de estruturas previstas para os Jogos começam a ser colocadas de pé. Com maciços investimentos em novas vias de acesso à área e mais transporte público, os terrenos situados em volta dos estádios costumam subir de preço em ritmo acelerado, desencadeando um ciclo virtuoso que traz riqueza à cidade. Diante da perspectiva de valorização imobiliária, as construtoras passam a investir nessas regiões (em geral menos desenvolvidas), o que faz aumentar ali a oferta de imóveis de bom padrão, atrai moradores de maior poder aquisitivo e leva ao florescimento do comércio – como se viu em Barcelona e, mais recentemente, em Pequim. Em Londres, sede dos Jogos de 2012, esse processo corre a pleno vapor na região de East End, bairro tomado por fábricas abandonadas que, até há pouco tempo, era sinônimo de decadência. O avanço econômico em todos esses casos é impulsionado por um ambiente de negócios pavimentado sobre a legalidade e com regras claras, pré-requisitos básicos a que o Rio de Janeiro não atende. Diz o economista André Urani: "O Rio tem um problema crônico de falta de respeito ao direito de propriedade – o que, no caso específico da Olimpíada, pode trazer enormes prejuízos."

Anna Serrano/Corbis/Latinstock
A cidade renasceu
Barcelona é o melhor exemplo de como se desenvolver
com uma Olimpíada: uma lição para o Rio de Janeiro


O cenário atual já aponta nessa direção. Para se ter uma ideia, a seis anos dos Jogos, as construtoras inglesas não só haviam começado a adquirir terrenos vizinhos ao sítio olímpico londrino como plantavam ali novos edifícios – coisa que no Rio, à mesma distância de tempo da Olimpíada, está longe de acontecer. "Nenhum empresário com um mínimo de sanidade vai se aventurar por uma terra sem estado nem lei", resume Rogério Chor, presidente da construtora CHL, uma das maiores no país. Um novo estudo do Sindicato da Habitação (Secovi) ajuda a dimensionar o problema: ele mostra que o metro quadrado nas regiões vizinhas à sede dos Jogos, que hoje vale 650 reais, poderia estar custando o dobro caso ali vigorasse a lei. Entre outras variáveis, o cálculo considera a valorização já registrada nos empreendimentos próximos dessa área, só que plantados sobre terrenos a salvo da ação dos grileiros. Toda essa vizinhança olímpica é considerada a nova fronteira de expansão do Rio, uma vez que a Zona Sul da cidade, que fica espremida entre o mar e as montanhas, está completamente saturada. Por isso, o rol de ilegalidades que reina ali representa um entrave ao crescimento da própria cidade.

Desde que o Rio foi apontado como sede para a Olimpíada de 2016, não houve nenhum avanço na região – apenas retrocessos. Com a chance de valorização dos terrenos, os grileiros trataram de acelerar as invasões. Um sinal disso é o número de processos movidos pelas próprias quadrilhas, que tentam legitimar a propriedade da terra usurpada por meio de ações judiciais (o que às vezes conseguem). Enquanto antes do anúncio dos Jogos havia apenas dezoito dessas ações, hoje tramitam 106 delas. Vítima do golpe, a psicóloga Maria Cristina Ihssen, 55 anos, que desembolsou 60 000 reais por um lote grilado, descreve assim o cenário: "Aquilo ali é uma selva no meio do Rio de Janeiro". Depois de décadas de ausência do estado nessa terra de faroeste, a iminência dos Jogos finalmente escancara o problema – e torna premente a sua solução.

Com reportagem de Ronaldo Soares

Oscar Cabral
Vítima do golpe
A psicóloga Maria Ihssen, que pagou 60 000 reais por um lote:
"Eu me vi no meio de um faroeste"

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