Saturday, April 03, 2010

Entre o céu e o inferno


O número de brasileiros que viajam de avião dobrou nos últimos
cinco anos. A notícia só não é melhor porque os viajantes são
submetidos a momentos infernais nos superlotados aeroportos do Brasil


Carolina Romanini, Alexandre Salvador e Ronaldo Soares


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Entre os fenômenos socioeconômicos produzidos pela estabilização econômica dos últimos quinze anos, o acesso de um número maior de brasileiros às viagens aéreas é o de maior impacto. Viajar frequentemente de avião comercial era coisa de rico nos anos 80. Hoje os aviões se tornaram os ônibus do ar e os aeroportos ficaram barulhentos, lotados e desconfortáveis como as velhas estações rodoviárias. Os números são impressionantes. Em fevereiro deste ano, 10 milhões de passageiros foram transportados em voos domésticos, um aumento de 43% em relação ao mesmo mês no ano passado. A previsão é que, no fim de 2010, o número de passageiros transportados no país supere em 36% o total de 2009.

Os brasileiros só teriam o que comemorar com essa nova realidade, não fosse um grande e incômodo fator: os aeroportos ficaram acanhados demais para tanta gente com bilhete aéreo no bolso. Vislumbra-se um divórcio quando se compara o ímpeto de voar com a capacidade do governo federal de aumentar o potencial dos aeroportos ou construir novos. A quantidade de pessoas que viajam de avião no Brasil praticamente dobrou nos últimos cinco anos. Para atender a essa explosão de demanda por passagens, a partir de 2006 as duas maiores companhias aéreas brasileiras, Tam e Gol, ampliaram sua frota em, respectivamente, 72% e 60%. As duas companhias que dominam o mercado aéreo nacional e as que chegaram para concorrer com elas trabalham agora com agressivos planos de expansão. Será preciso combinar com o governo federal, cuja empresa Infraero tem o monopólio da construção e exploração comercial de todos os aeroportos de uso comercial no país. A Infraero não tem recursos nem condições técnicas para dar conta da atual demanda – quanto mais dos imensos desafios que se avizinham.

Há três explicações convergentes para o aumento do número de passageiros no ar. A primeira delas é a situação econômica favorável. De modo geral, o setor aéreo de um país cresce o dobro da economia como um todo. Entre 2004 e 2009, o PIB acumulado do Brasil somou 24%. O volume de passageiros dobrou no mesmo período. O segundo fator foi a desconcentração do setor com a chegada de novas companhias e a consequente redução no preço das passagens, resultado do aumento da concorrência e da liberdade tarifária. Para atraírem consumidores, as empresas aéreas brasileiras, em média, diminuíram o preço da milha voada de 53 para 41 centavos de real. O valor médio da passagem aérea doméstica caiu de 448 reais para 323 reais. A terceira, que é a mais importante e a mais duradoura explicação para o fenômeno, é a ascensão econômica da classe C. Um em cada dez dos passageiros da Gol nos últimos anos voou pela primeira vez na vida.

O gargalo dos aeroportos, infelizmente, pode atrapalhar essa festa nos céus do Brasil. Nas últimas décadas, enquanto a demanda por passagens crescia, a infraestrutura aeroportuária do país foi se deteriorando, sem receber por parte dos sucessivos governos os investimentos necessários para modernizá-la. Hoje, os grandes aeroportos recebem mais passageiros do que sua capacidade comporta, tornando um suplício o embarque e o desembarque nos horários de maior movimento. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) recomenda que as obras de ampliação e remodelação dos aeroportos sejam feitas tendo em vista que eles operem 40% abaixo de sua capacidade máxima – justamente para absorver sem traumas as demandas nos períodos de pico e o aumento natural do tráfego aéreo. Na contramão dessa norma, os principais aeroportos brasileiros operam 30% acima de sua capacidade.

Corbis/Latinstock
México, rebelde
Mais estatizante ainda que o Brasil, o México encontrou na iniciativa privada a saída para modernizar seus aeroportos, e começou com o Terminal 1 do Benito Juárez

A situação, que é ruim, deve se tornar caótica na Copa do Mundo de 2014, quando o tráfego aéreo no país, segundo as estimativas, será 49% maior do que hoje. Na semana passada, o governo anunciou um reforço de 3 bilhões de reais ao investimento já prometido de 5,5 bilhões nos dezesseis aeroportos das cidades que vão sediar a Copa. Um estudo do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), feito em conjunto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que o problema vai continuar quase do mesmo tamanho ainda que essas obras milagrosamente saiam do papel como planejado. Segundo o estudo, com o aumento do número de passageiros nesses quatro anos, os dezesseis aeroportos de cidades-sede da Copa chegarão a 2014 com um déficit de 30% em sua capacidade operacional. Os principais problemas dos grandes aeroportos brasileiros anotados pelos especialistas ouvidos por VEJA são muito familiares aos brasileiros que viajam:

• Filas quilométricas no check-in – O número de guichês no check-in em todos os dezesseis aeroportos da Copa precisa ser ampliado. Terceiro maior aeroporto brasileiro em volume de passageiros, o de Brasília é aquele em que o problema é mais grave: as filas, em horários de pico, chegam a 100 metros de comprimento e se estendem até a calçada. Se nada for feito, em 2014 as filas atingirão 200 metros.

• Superlotação nas salas de embarque – De acordo com a Iata, a ocupação ideal de uma sala de embarque, para que se garanta um mínimo de conforto aos passageiros, não deve ultrapassar a média de aproximadamente uma pessoa por metro quadrado. Nos aeroportos de Congonhas, Confins, Porto Alegre, Brasília e Fortaleza, nos horários de maior movimento, essa média é maior.

• Demora na retirada das bagagens – As esteiras dos aeroportos brasileiros são obsoletas e não atendem à demanda. Por elas passam, em média, 600 bagagens por hora, enquanto em aeroportos internacionais do exterior o ritmo chega a 2 000 malas por hora. Nesse quesito, a pior situação é a dos aeroportos de Curitiba e Salvador, onde as esteiras, em péssimo estado de conservação, chegam a danificar as malas.

• Falta de vagas para os aviões nos pátios – Frequentemente os passageiros ficam de castigo, dentro do avião, à espera de outra aeronave decolar e ceder espaço para o desembarque. Os casos mais dramáticos são os de Guarulhos e Brasília, aeroportos em que os passageiros ficam retidos dentro do avião por até meia hora por causa dessa limitação.

Em Guarulhos, um problema crítico é o fluxo de passageiros que chegam do exterior. Primeiro, formam-se longas filas no setor de imigração para apresentar o passaporte aos agentes da Polícia Federal. Há apenas vinte guichês para isso. Para efeito de comparação, o aeroporto de Seul, que recebe 30 milhões de passageiros por ano, 11 milhões a mais que Guarulhos, conta com 120 postos de inspeção de passaportes. Depois, nova fila se forma na alfândega, para a entrega de um papelete de "nada a declarar" à Receita Federal. Ao todo, pode-se levar duas horas entre cruzar a porta do avião e sair do terminal. Mesmo que as autoridades resolvessem agilizar o desembarque em Guarulhos, faltaria espaço físico para ampliar as instalações da Polícia Federal e da alfândega. O problema só seria resolvido, em parte, com a construção do terceiro terminal do aeroporto, já prevista, mas que até hoje não saiu do papel.

Depois do acidente entre o Boeing da Gol e o jatinho Legacy, nos céus da Amazônia, que deixou 154 mortos em 2006, descobriu-se que voar no Brasil era perigoso. Parte da culpa pelo desastre recaiu sobre os controladores de tráfego aéreo, que realizaram uma operação padrão destinada a chamar atenção sobre as más condições de trabalho a que eles eram submetidos e ao sucateamento dos equipamentos que operavam. Foi o início do caos aéreo, em meio ao qual as autoridades anunciaram uma série de medidas para tornar os céus brasileiros mais seguros. Pouco foi feito. O Brasil permanece muito atrás dos países desenvolvidos no que diz respeito à segurança do tráfego aéreo. O espaço aéreo do país é controlado, basicamente, por radares que reportam a softwares o posicionamento das aeronaves em determinada área. O software utilizado hoje é exatamente o mesmo da época do acidente, o X-4000. Algumas cidades, como Curitiba e Florianópolis, até o início deste ano ainda operavam com uma versão anterior a ele. Quando o governo injetou 600 milhões de reais em investimentos no setor, a partir de 2007, parte desse dinheiro foi destinada a levar a essas cidades o já antiquado X-4000. O software ainda se baseia na experiência do controlador no que diz respeito à altitude das aeronaves que sobrevoam uma mesma área. O controlador precisa reportar manualmente ao software qualquer tipo de mudança de posicionamento do avião, informação que é transmitida pelo piloto. Diz o tenente-brigadeiro Ramon Borges Cardoso, diretor do Departamento de Controle do Espaço Aéreo: "Os soft-wares mais modernos fazem isso automaticamente. Informam, por exemplo, distância, desvios e altitude da aeronave. Eles são mais seguros e possibilitam ao controlador operar mais voos ao mesmo tempo".

Um software mais moderno, chamado Sagitário, está em fase de testes em Curitiba e no espaço aéreo sobre o Atlântico na costa do Nordeste, mas não há previsão de que seja implantado no país. "Não temos verba para comprá-lo", diz Cardoso. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo calcula que serão necessários 500 milhões de reais para tornar os céus brasileiros seguros. O governo federal reconhece que fez pouco para modernizar os aeroportos e solucionar o nó aéreo, mas avisa que as providências nesse sentido ficarão para o presidente que assumir em 2011. Em sete anos, a política aérea do governo Lula nunca decolou. A Infraero, estatal responsável por administrar os aeroportos do país desde 1972 e que sempre foi comandada por técnicos, transformou-se num antro de dirigentes corrompidos e contratos superfaturados. Milhões de reais que deveriam ter sido gastos em obras de infraestrutura foram parar no bolso de políticos, lobistas e empresários. A Polícia Federal e o Ministério Público abriram investigações criminais que correm até hoje na Justiça. Embora a palavra privatização seja estranha à cartilha do PT, hoje, no governo, prevalece a opinião segundo a qual a melhor solução para modernizar os aeroportos é entregar sua administração à iniciativa privada. Um movimento único nesse sentido foi feito com a construção, ora em andamento, do novo aeroporto de Natal (veja o quadro abaixo), obra prioritária para a Copa do Mundo de 2014. Até as eleições, o governo não vai fazer mais nada porque não quer ter sua imagem ligada à "privatização", uma saí-da demonizada pela esquerda em pleitos anteriores. O Brasil não pode se dar ao luxo de paralisar a infraestrutura aeroportuária por razões ideológicas. Com um governo ainda mais centralizado que o Brasil, o México recorreu à iniciativa privada para modernizar seus aeroportos. O Terminal 1 do Aeroporto Internacional da Cidade do México foi o primeiro daquele país a ser privatizado, com resultados excelentes em termos de prazo e eficiência.

É vital que o próximo governo encare como prioridade a privatização dos aeroportos brasileiros e sua consequente modernização. Os terminais aéreos são símbolos do estágio civilizatório atingido pelas nações. "Existe uma incompatibilidade simbólica entre a posição que o Brasil ocupa no cenário mundial e a imagem que ele passa ao visitante", diz o economista Maílson da Nóbrega. "Se o país quer ser grande e respeitado, os aeroportos têm a obrigação de refletir esse crescimento." O Aeroporto Internacional de Pequim, hoje um dos mais modernos do mundo, deixa os visitantes com a sensação de que seus construtores esperam que a China cresça ainda muito. Até 2007, ele tinha capacidade para 35 milhões de pessoas por ano. Com a Olimpíada de 2008, a expectativa era de que esse movimento dobrasse, o que de fato ocorreu. Ao planejar a ampliação do aeroporto, o governo chinês não se limitou a esse patamar, já alto, mas decidiu ir além, aumentando a sua capacidade para 82 milhões de passageiros. Diz o engenheiro da área de transportes Mário Luiz Ferreira de Mello: "A visão do planejador chinês contrasta com a do brasileiro. Quando uma obra de ampliação de um aeroporto termina por aqui, ela já está aquém da demanda". Está passando da hora de mudar isso e deixar que o sonho de voar dos brasileiros decole de verdade.

Alexandre Schneider

O show do atraso
O paulistano Felipe Andreoli, repórter do programa CQC, voa em média oito vezes por semana a trabalho. Para se precaver, marca todos os voos com duas horas de folga. Mesmo assim, às vezes chega atrasado. No mês passado, deixou uma plateia inteira na mão no Rio de Janeiro porque não conseguiu chegar a tempo para fazer um show. "Tive de devolver o dinheiro dos ingressos", ele lamenta.



Leonardo Aversa /Ag. O Globo

Engarrafamento de aeronaves
A atriz Larissa Maciel, 32 anos, viveu um pesadelo no Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Ao pousar ali devido a um temporal, seu avião, que vinha do Rio de Janeiro, ficou parado em meio a uma frota de mais oito, todos no aguardo de uma vaga para o desembarque dos passageiros. A espera durou cinco horas. "O comandante se limitou a dizer que Viracopos não tinha infraestrutura para receber tanta gente."



Oscar Cabral

Dezessete horas para chegar ao Maranhão
A enfermeira Paula Sodré, 30 anos, passou por diversos sufocos numa única viagem, de Ribeirão Preto a São Luís. Contabilizados os atrasos, um overbooking numa das conexões e ainda uma escala fora do previsto, em Manaus, a epopeia, que deveria consumir seis horas, durou dezessete. "O pior é que vivi tudo isso sem receber sequer um pedido de desculpas."



Eduardo Martino/Documentography

Enganado pelo taxista
Em viagem recente de São Paulo ao Rio de Janeiro, o analista de sistemas Fernando Labombarda, 31 anos, viveu momentos de tensão dentro do táxi que pegou no ponto do Santos Dumont. Ao perceber que o motorista dava voltas na cidade alegando se tratar de um atalho, ele resolveu saltar no meio da rua. "Já sabia da má fama do ponto desse aeroporto, mas dessa vez senti a insegurança na própria pele."



Claudio Gatti

O mistério do embarque
Em março, o casal Markus Runk e Camila Giudice embarcou no Santos Dumont e não foi a lugar algum. Depois de meia hora dentro do avião, desembarcaram para aguardar novo embarque. Por fim, decidiram dormir num hotel e pegar um voo pela manhã. Levando em conta o tempo de espera, a viagem que deveria durar uma hora, demorou quinze.



Roberto Setton

Uma noite no aeroporto
A chef de cozinha Renata Bessa, 30 anos, foi forçada a passar a noite no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, sem saber se seu voo iria decolar ou não. Em nenhum momento lhe ofereceram comida ou acomodação. "A companhia aérea informava que embarcaríamos dali a meia hora, dali a uma hora, e o embarque não acontecia nunca", conta.



Nabor Goulart

A conta do tempo perdido
Fabricante de móveis no Rio Grande do Sul, Maristela Cusin Longhi, 48 anos, viaja de avião até oito vezes por mês. Em seu roteiro, ela sempre acrescenta uma hora para compensar os atrasos no avião. No ano passado, a precaução foi superada por um superatraso. A viagem entre Porto Alegre e Londrina, no Paraná, normalmente de duas horas e meia, demorou nove horas. "O mais grave não é o atraso no voo, mas a falta de informação sobre o que está acontecendo."



Eduardo Martino/Documentography

Um atraso a cada três voos
O economista carioca Gilberto Braga, 49 anos, fez uma conta: a cada três voos na ponte aérea, trecho que ele percorre semanalmente, um sai com atraso. Depois de perder dezenas de compromissos por isso, tomou a decisão de ir a São Paulo sempre na véspera. Para cobrir o prejuízo do hotel, o economista passou a cobrar 10% a mais por suas consultorias. "No aeroporto, estou sempre pronto para o caos", diz.



Roberto Setton

Socos e empurrões em Guarulhos
O voo da publicitária Mariana Tozzini, 25 anos, para Nova York foi cancelado devido a nevascas no destino. No dia seguinte, ela e os outros passageiros tentaram conseguir lugar num avião da mesma companhia, que já estava lotado. O impasse no check-in degenerou em tumulto, com socos e empurrões, que só terminou com a chegada da polícia. "Os passageiros ficaram furiosos porque muitos deles iriam perder reservas e passeios que já estavam pagos", conta Mariana.



Oscar Cabral

De castigo no avião
Vítima frequente de atraso de voos, a administradora de empresas Cristiane D’Amico, 37 anos, ficou em agonia, já dentro do avião, quando o comandante avisou que a aeronave que seguia de Brasília para São Paulo precisaria passar por manutenção. Preocupada, ela tentou descobrir o motivo, sem sucesso. "Foram quatro horas de confinamento sem nenhuma explicação", queixa-se.


Um bom exemplo em Natal

Jr. Santos
No caminho certo
Pista do novo aeroporto de São Gonçalo do Amarante: a construção
do terminal será entregue à iniciativa privada


Natal, a capital do Rio Grande do Norte, vai ganhar até 2012 um aeroporto exemplar. Localizado em São Gonçalo do Amarante, terá capacidade inicial de 5 milhões de passageiros e 500 000 toneladas de carga por ano. Sua vocação é se tornar o quarto hub – centro de irradiação de voos para outros aeroportos – do Brasil. Hoje, há apenas três aeroportos no país que funcionam como hubs, os de Guarulhos, Congonhas e Brasília. A grande novidade do novo aeroporto de Natal, contudo, é que ele será o primeiro do Brasil que escapará da gerência ruinosa da Infraero. A pista foi construída pelas Forças Armadas, mas a missão de erguer o terminal e administrar o aeroporto será entregue à iniciativa privada, em regime de concessão. Há duas semanas, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, enviou ao presidente Lula uma proposta nesse sentido. O documento diz que a concessionária responderia diretamente à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e teria autorização para explorar comercialmente o aeroporto por 35 anos, com possibilidade de renovação pelo mesmo período. No momento, está em construção um aeroporto novo em Macapá, capital do Amapá. O último aeroporto de grande porte construído no Brasil foi o de Palmas, capital do Tocantins. As demais obras aeroportuárias tocadas pela Infraero são pouco mais que remendos em instalações já saturadas, cujo resultado não deve causar alívio duradouro no congestionamento dos aeroportos.

Embora a ideia de privatizar qualquer órgão público cause arrepios na administração petista, entregar o aeroporto de Natal à iniciativa privada foi a única alternativa para que ele entre em funcionamento até a Copa do Mundo de 2014. Ele só não é o marco inicial de uma revolução porque o governo não pretende repetir a concessão com outros aeroportos. O ministro Jobim deixa claro que o aeroporto de Natal é uma exceção: "Durante este ano eleitoral, não haverá concessões. Isso aí deixa para o governo seguinte decidir sobre o assunto".



A classe C vai ao céu

Claudio Gatti


Nos últimos quatro anos, a ascensão de 20 milhões de brasileiros das classes D e E para a classe C mudou o perfil econômico e demográfico do país. A classe C respondeu por 22% dos passageiros transportados pela Gol e por 6% dos que voaram pela TAM em 2009. A substituição do ônibus pelo avião é especialmente vantajosa quando se trata de cobrir grandes distâncias, como aquelas que separam os migrantes nordestinos que vivem no Sudeste de seus estados de origem. "Se somarmos os gastos com alimentação e banho que o passageiro de ônibus costuma ter em três ou quatro dias de viagem, a vantagem de viajar de avião é grande", diz Líbano Barroso, presidente da TAM. A maranhense Lucélia Pereira (foto), de 32 anos, que vive em São Paulo, concorda. No ano passado, ela fez sua primeira viagem de avião para visitar a família em São Luís. Trocou a viagem de ônibus, que duraria três dias, por um voo de três horas. "Foi maravilhoso", ela conta.

O número de passageiros explodiu


Saturado! Um diagnóstico dramático


A riqueza em jogo


A montanha de dinheiro proveniente dos royalties do
pré-sal é alvo de uma discussão que, até este momento,
passou ao largo da objetividade que o assunto requer


Ronaldo França

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A um mês da votação no Senado, o projeto de lei que estabelece novas regras para a divisão dos royalties provenientes do pré-sal suscitou, só na semana passada, 54 novas emendas. O conjunto delas não deixa dúvidas quanto ao tom do debate, em que o viés ideológico e os interesses políticos têm se sobreposto a uma visão mais técnica e objetiva. Parte das emendas reforça aquilo que o polêmico texto de autoria do deputado federal Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) já defendia: os royalties devem destinar-se a todos os estados e municípios, sem fazer nenhuma distinção entre os que detêm as jazidas e aqueles que não contam com uma gota de óleo sequer - uma distorção. O estado do Rio de Janeiro, o líder na produção de petróleo no país, deixaria de ser o maior beneficiado com os royalties para se tornar o 22º colocado no ranking. Dá-se como certo no Congresso que a emenda Ibsen não será aprovada - sinal de algum avanço na discussão.

Os especialistas concordam, no entanto, que falta refletir sobre um ponto que, embora crucial, até agora ficou de fora: ao destinarem verbas dos royalties para todos os estados e municípios, certamente uma medida de grande impacto eleitoral, os parlamentares não se detiveram sobre os critérios para o uso dessa riqueza. Uma emenda apresentada pelos senadores Francisco Dornelles (PP-RJ) e Renato Casagrande (PSB-ES), por exemplo, propõe que, para preservar o quinhão dos produtores e ainda destinar aos demais estados e municípios uma parcela dos royalties, a União reduza sua parte a um terço da atual - mas não deixa claro qual será a contrapartida dos beneficiados. Alerta David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo: "Sem uma discussão mais séria sobre o uso do dinheiro, o debate sobre o reparte de tamanha riqueza pouco avançará".

• Gráfico: A divisão do barril


Friday, April 02, 2010

Quanto mais tempo, melhor


Ver as fotos inéditas de Marilyn Monroe nos intervalos de uma filmagem
em 1958 é relembrar o poder da sua beleza e do seu apelo erótico
e confirmar, com um suspiro: que mulher!

Fotos divulgação
NADA FORA DE LUGAR
Marilyn de frente, embasbacando Tony Curtis, de costas, com o coração aberto, ou envolta em peles
e protegendo-se do sol na cadeira do diretor: "Seios como balas para meninos pidões"


Loura, a pele acetinada de leite derramado, reentrâncias e saliências – estas, principalmente – sem aditivo de espécie alguma, Marilyn Monroe incendeia cada cena em que aparece em Quanto Mais Quente Melhor, lançado em 1959, três anos antes de sua morte precoce, aos 36. E isso em preto e branco. Pois essa Marilyn incandescente agora surge em cores, num conjunto de onze slides fotografados para uma revista num intervalo das filmagens, em 1958, e nunca antes publicados, os quais irão a leilão em junho, em Las Vegas. As fotos foram feitas no exato dia em que ela filmou a cena em que tem de seduzir um Tony Curtis falsamente indiferente. Envolta num vestido semitransparente de chiffon rebordado em branco e prata, ela desliza sobre o colo dele para um longo e insuportavelmente inocente beijo. O vestido famoso é um escândalo. Na frente, os bordados rareiam e os seios impulsionam o tecido translúcido como se movidos por propulsão atômica. Atrás, escorrem pelas costas nuas e rodeiam uma pequena janela em forma de coração bem em cima daquele lugar que nem sequer podia ser mencionado na década de 50. "Transbordando num vestido que oferece seus seios como balas a meninos pidões, ela parece totalmente alheia a sexo, enquanto os homens se derretem em irrefreável desejo", descreveu o crítico americano Roger Ebert.

E como. Hoje farsesco e forçado como tantos filmes do passado, Quanto Mais Quente Melhorsobrevive pelo teor erótico de Marilyn no papel de protótipo de todas as louras burras e pela piada fundamental: homens gostam de mulheres, mulheres gostam de dinheiro e cavalheiros esquisitos – nem pensar em mencionar, na época, homossexuais – é que gostam de homens. A trama é sobre dois músicos de quinta, Curtis e Jack Lemmon, que testemunham um crime e fogem dos gângsteres responsáveis disfarçados de mulher (daí o preto e branco – em cores, a maquiagem pesada para atenuar a barba e os outros atributos dos dois homões ganhava um tom esverdeado). Acabam numa orquestra feminina como coleguinhas de Marilyn. Os nomes mais conhecidos do filme tinham em comum a transposição da miséria ao estrelato global. O diretor Billy Wilder, judeu nascido Samuel Wilder no que hoje é a Polônia, chegou a Los Angeles fugindo do nazismo, sozinho e sem falar uma palavra de inglês. Marilyn Monroe, nascida Norma Jean Mortensen, de pai desconhecido e mãe sofredora de doença mental, morou de casa em casa e foi "modelo" até ser descoberta. Tony Curtis, nascido Bernard Schwartz, filho de judeus húngaros criado no Bronx, chegou a ir para um orfanato porque os pais não tinham como dar o que comer à família. Quanto Mais Quente Melhor, com suas piadas de duplo sentido e sua estrela seminua, foi um escândalo para a época ("Condenado", classificou a Liga da Decência da Igreja Católica). Na vida real, em Hollywood, as coisas eram bem mais explícitas. Curtis, hoje com 84 anos, à época uma beleza que rivalizava com a de Marilyn, resumiu assim o ambiente na cidade do cinema: "Quando cheguei lá, aos 22 anos, eu me tornei mais ativo que o Vesúvio – homens, mulheres, bichos. Eu adorava aquilo tudo". Durante a filmagem, ele e Marilyn, ambos casados, reataram um caso antigo. Ela engravidou e sofreu um aborto dois meses depois; Curtis afirma que o filho era dele. "O que tive com ela foi inesquecível", escreveu em sua autobiografia. Disso, pelo menos, ninguém duvida.

Em busca do tempo perdido


Depois de permanecer inativo por mais de um ano, o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo, volta a recriar os fenômenos que sucederam ao Big Bang


Kalleo Coura

Anja Niedringhaus/AP
LHC sob aplausos
Físicos comemoram o religamento da máquina que permite o estudo dos primórdios do universo

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Na última semana, depois de duas falhas elétricas, o Large Hadron Collider (LHC), a maior máquina concebida pelo homem, voltou a funcionar depois de permanecer em manutenção desde o Natal. Religada em novembro do ano passado, a supermáquina criada pela Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Cern) teve de passar por uma nova manutenção de poucos meses, curta se comparada ao primeiro conserto. Quando funcionou pela primeira vez, em setembro de 2008, teve um problema de superaquecimento que demandou mais de um ano de ajustes. Agora, está funcionando com sucesso, para a alegria de físicos e entusiastas da ciência. Com uma extensão de 27 quilômetros e situado a 100 metros debaixo da terra, na periferia de Genebra, na Suíça, o LHC promete atingir limites nunca antes alcançados pela física. O investimento de 10 bilhões de dólares terá mais do que valido a pena se alguns segredos do primeiro trilionésimo de segundo depois do Big Bang, a explosão que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos, forem mesmo revelados.

Essa "viagem no tempo" não é magia. Em fenômenos típicos do dia a dia, observamos o passado sem nos dar conta. Os raios solares, por exemplo, chegam aos nossos olhos pouco mais de oito minutos depois de irradiados, o que significa que, se em tese o Sol for extirpado do universo, só perceberemos isso oito minutos depois. O mesmo processo acontece com estrelas que, por estarem a milhares de anos-luz de distância, talvez nem existam enquanto nos deliciamos com seu brilho trêmulo no céu noturno. O LHC é um acelerador de feixes de prótons hiperenergizados que atingem o equivalente a 99,9% da velocidade da luz. Com magnetos poderosos, os cientistas os obrigam a mudar de sentido, para, então, provocar um choque, do qual resultam restos de matéria e energia. "Como, segundo a teoria da relatividade de Einstein (E = mc), quanto maior a energia, maior é a massa, quanto mais energia for imposta aos prótons, mais massa terá o resultado da colisão a ser observado", diz o físico brasileiro Denis Oliveira Damazio, que trabalha no Cern e participou da construção do Atlas, um dos quatro aparelhos detectores responsáveis por analisar as colisões. "Além disso, quanto mais energia os prótons tiverem, poderemos observar momentos mais próximos do Big Bang." O primeiro acelerador de partículas, criado em 1930, por exemplo, energizava os prótons apenas a 8 000 elétrons-volt, o que permitia observar como a matéria se portava aos dez minutos seguintes ao Big Bang. Atualmente a energia dos prótons postos em rota de colisão no LHC é de 3,5 teraelétrons-volt, metade da capacidade total do aparelho. No choque, a energia atinge 7 teraelétrons-volt, também metade da capacidade total. Para se ter uma ideia, um próton típico na atmosfera da Terra tem uma energia média de 0,03 elétron-volt, enquanto na superfície do Sol teria apenas 0,4 elétron-volt. No LHC, atualmente, a energia de um próton é 8,75 trilhões de vezes maior. Além disso, por colidir 100 vezes mais prótons do que seu antecessor, o Tevatron, pode-se dizer que um ano de funcionamento da nova máquina equivale a 100 anos da antiga. Mesmo assim, prevê-se que o LHC opere em toda a sua capacidade só daqui a três anos.

Os experimentos na máquina situada na fronteira franco-suíça podem também ajudar a encontrar tanto a matéria escura que molda o cosmos visível quanto o "bóson de Higgs" – que, na teoria, possibilitou o início da matéria. Além disso, eles podem corroborar uma intuição de Einstein. Embora não tivesse ferramentas para provar, o maior físico da história pensava que no início do universo as forças (eletromagnética, fraca, forte e gravitacional) agiam como uma só. Se o bóson de Higgs não for encontrado, grande parte da física desenvolvida no século XX e a reputação de físicos e cientistas considerados geniais vão ruir. "A meu ver é aí que tudo vai ficar muito mais interessante. Vamos partir, de novo, do zero", diz o físico Oscar Éboli, professor da USP. Seria um choque dramático. Até hoje todas as grandes formulações teóricas da física de alta energia foram confirmadas nas experiências práticas em laboratório, Com o LHC não deve ser diferente.

Gênio da física
A teoria da relatividade formulada por Albert Einstein está na base dos experimentos do LHC. Quanto maior a energia dos prótons em colisão, maior será a massa resultante a ser observada. Além disso, os resultados dos experimentos poderão corroborar a tese de Einstein de que, no início, as forças agiam como uma só

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