Saturday, January 30, 2010

A imersão radical em 3D

Admirável mundo novo

Com técnicas revolucionárias para criar personagens virtuais
em três dimensões, Avatar, de James Cameron, pretende mudar
radicalmente a experiência de ir ao cinema. O espectador não vai
mais apenas ver o filme: vai imergir nele


Isabela Boscov, de Los Angeles

Fotos Divulgação

PARECE VIRTUAL, É REAL
Neytiri, do planeta Pandora: ela é azul e tem 3 metros de altura, mas reproduz
em tudo a atuação da atriz Zoe Saldana


Certa vez, alguém perguntou a Cecil B. DeMille: "Se o senhor fosse Deus...". "Como assim, se eu fosse?", interrompeu DeMille. O diretor de Os Dez Mandamentos era um megalomaníaco famoso, mas nem de longe o único em sua categoria. Quase todo cineasta, confesse ou não, tem um complexo de Deus. Os que criam pequenos mundos e decidem o destino de pequenos personagens o têm. Os que criam grandes mundos e os povoam, batizam suas criaturas e dão a elas uma história costumam achar que não se trata de complexo, mas de fato objetivo. Entre esses, James Cameron é o deus dos deuses – por determinação própria e também porque é o recordista aparentemente imbatível de bilheteria (1,8 bilhão de dólares por Titanic), e em Hollywood isso basta para autenticar a natureza divina. Cameron, porém, é um Deus de Velho Testamento, colérico e implacável, e ainda mais duro que o original, já que não quer saber de descansar no sétimo dia nem deixar que os outros descansem. Há quatro anos, ele comanda com raios e vaticínios – além da promessa de vida eterna nos créditos de um filme seu – uma equipe gigantesca, na missão de criar mais um mundo: o mundo luxuriante e vertiginosamente tridimensional de Avatar (Estados Unidos, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira.

Em Avatar, um fuzileiro naval paraplégico, Jake Sully (Sam Worthington), é enviado ao planeta Pandora para uma missão especial: seu código genético será combinado ao dos habitantes locais, os Na’vi. O ar de Pandora é tóxico para o organismo humano. Mas, realocado nesse corpo híbrido, Jake poderá explorar livremente – e discretamente – o território. A colônia de terráqueos instalada ali quer garimpar as reservas de um minério valioso, e os Na’vi, que eles consideram um povo primitivo, estão em seu caminho. Porém, mal se vê livre para andar pelas florestas fantasmagóricas de Pandora em seu corpo de 3 metros de altura, pele azulada e luminescente e feições felinas – o aspecto dos Na’vi –, Jake se apaixona por uma nativa, Neytiri (Zoe Saldana), e começa a se enamorar do inimigo. Todos os traços comuns à obra de Cameron confluem aqui: a paixão por personagens femininas fortes; a história de amor meio kitsch, mas sincera; e a compreensão superlativa da relação conflituosa que o homem desfruta com o mundo físico e com a tecnologia que cria para mediar esse relacionamento. Acima de tudo, Avatar põe em relevo, mais ainda do que O Exterminador do Futuro, O Segredo do Abismo ou Titanic – todos paradigmas de pioneirismo e também de mania de grandeza –, o espírito irrefreável de desafio com que o diretor se joga em seus projetos.

Segundo seu próprio criador, Avatar é o que de mais complicado já se tentou fazer no cinema. Desconte-se a queda de Cameron para o exagero – e a afirmação continua valendo. Várias das tecnologias empregadas pelo diretor foram concebidas especialmente para o filme, como o monitor virtual (veja o quadro abaixo), que lhe conferiu liberdade de ação inimaginável. Outras técnicas já haviam sido usadas com imenso sucesso, como a "captura de atuação" com que a Weta, a empresa de efeitos de Peter Jackson, desenvolveu o Gollum de O Senhor dos Anéis e o gorila de King Kong. Em Avatar, foi a própria Weta que deu o sopro de vida aos Na’vi – mas refinou seus programas até o ponto em que o cérebro deixa de distinguir o que é real e o que só existe no computador. Todo o empuxo de Cameron tinha uma única finalidade: propiciar ao espectador uma experiência de imersão total em um filme em 3D. VEJA assistiu à sessão para a imprensa de Los Angeles e constatou que essa imersão é de fato de uma profundidade sem precedentes – algo como ser lançado em um mundo novo tão palpável que se tem a ilusão de ter memórias dele (veja a crítica do filme em Veja.com nesta segunda-feira, 14).

De acordo com Jeffrey Katzenberg, sócio do estúdio DreamWorks e um dos revitalizadores da animação, a indústria de cinema é uma até o dia 17 – e será outra no dia 18, quando o filme começa a ser exibido. "O cinema teve apenas duas revoluções fundamentais: a do som e a da cor.Avatar vai liderar a terceira – a do 3D", disse Katzenberg. Nos últimos dois anos, o 3D vem ganhando terreno a passos largos, sobretudo nos desenhos animados, mas também em filmes com atores e ação reais, o live action. Restam dúvidas, entretanto, se ele não é meramente um truque de momento para reter o público em sua migração da sala de exibição para o DVD. Tudo indica que Avatar vai fulminar essas dúvidas. Vai, na verdade, instituir um novo padrão. Da mesma maneira que aconteceu com o advento da cor, à medida que a tecnologia se aperfeiçoa e seus custos caem, também o 2D deverá virar relíquia, é no que acredita Cameron – além de outros entusiastas como Steven Spielberg, Ridley Scott e Peter Jackson. "Creio que ele tem razão", disse ao jornal The Guardian o diretor do Conselho de Cinema do Reino Unido, Peter Buckingham. "Até porque o 3D é o parâmetro natural da visão humana. Em, digamos, vinte anos, o 2D só será usado por razões artísticas específicas – da mesma forma que hoje Woody Allen, por exemplo, às vezes filma em preto e branco." O único obstáculo, claro, é que o 3D sempre vai exigir o uso de óculos especiais no cinema – ainda que os de hoje sejam oticamente confortáveis e até bonitos, e não fajutos como aqueles de papelão que se usavam nos anos 50.

Há doze anos, desde Titanic, James Cameron não lança um filme. Toda a sua reputação está investida em Avatar – e não só ela. Cameron foi o primeiro a quebrar a barreira dos 100 milhões de dólares de orçamento, com O Exterminador do Futuro 2. Foi o primeiro também a romper a barreira dos 200 milhões, com Titanic, que só não teve a produção suspensa porque o diretor abriu mão de sua remuneração (o estúdio depois a restaurou) e porque está para nascer o executivo capaz de enfrentar sua ferocidade. "Diga a ele que ele está sendo ****, e que se ele parar de se debater vai doer menos", foi o recado que mandou a um chefão de estúdio que reclamou de seus atrasos. Desta vez, a versão oficial coloca o orçamento de Avatar em 237 milhões de dólares – menos que o de Homem-Aranha 3, que custou 258 milhões. Mas o jornal Los Angeles Times, que tem uma excelente cobertura do setor, crava as despesas de produção em 310 milhões. O que daria a Cameron a honra de ter abatido também essa terceira marca. Somados os gastos de distribuição e marketing, a fatura bate em 500 milhões. Para o diretor, porém, o que Avatar representa não se conta em dólares. "Se você estabelece metas ridiculamente altas e falha, você terá falhado muito acima do que os outros consideram sucesso", postula ele, na sua típica lógica de conjugação de opostos.

Cameron conta com um núcleo de seguidores fiéis que não desistem dele, apesar dos seus parâmetros de excelência inatingíveis e da maneira tirânica com que os cobra (Cameron, hoje com 55 anos, diz ter melhorado; algumas das pessoas à sua volta afirmam que a diferença é bem sutil). Mas há pouca gente de colarinho branco nesse grupo. Na maior parte, ele é formado pelos que o diretor considera seus verdadeiros semelhantes: seus técnicos, que às vezes chegam perto de arriscar a vida para cumprir suas ordens. Como nas filmagens de O Segredo do Abismo, em que equipe e elenco tiveram de se diplomar em mergulho (Cameron é um mergulhador fanático, capaz de descer mais fundo em mergulho livre do que alguns profissionais o fazem em mergulho assistido) para passar dez horas por dia, durante meses, submersos em um tanque gélido. As bolinhas de polipropileno que flutuavam na superfície para diminuir a refração da luz entravam em ouvidos, narizes e pulmões, provocando infecções a rodo. O cloro era tanto que os cabelos ficavam brancos e tão frágeis que, ao congelarem em contato com o ar, se quebravam. Foram semanas de infelicidade. Mas resultaram em um filme que, embora recebido com reservas em 1989, impressiona mais a cada revisão.

DEUS DO PRÓPRIO UNIVERSO
Cameron no set: pressão para que
as tecnologias que ainda não existiam
passassem a existir – e funcionem bem


Também Avatar começou a ser gestado por causa da voracidade de Cameron em desbravar. "Palavras como ‘não’ e ‘impossível’ o deixam sexualmente excitado", brincou o ator Bill Paxton, veterano do time, à revista The New Yorker. "Impossível", entretanto, foi a resposta que ele obteve de sua equipe quando, em 1995, lhe entregou um esboço de Avatar para estudo: os recursos que a história requeria eram então algo tão factível quanto o teletransporte de Star Trek. A ideia foi para a gaveta, mas não ficou esquecida. Enquanto se dedicava a suas outras paixões, a exploração submarina e uma sociedade científica que advoga a colonização de Marte, o diretor aproveitou as oportunidades que esses interesses propiciavam para ir cercandoAvatar, até jogar-lhe o laço. O passo fundamental foi desafiar o cinegrafista Vincent Pace a projetar uma câmera de 3D ideal: leve, ágil e capaz de rodar simultaneamente em 2D e 3D. Até poucos anos atrás, as câmeras de 3D formavam um conjunto de 150 quilos. Trabalhar com elas exigia músculos e resistência à frustração: na prática, não havia como fazer um longa-metragem de live action inteiro em 3D com um mínimo de qualidade. Todo o esforço de Cameron e seus amigos tecnólogos se dirigiu à tarefa de tornar o 3D mais ágil e produtivo que o 2D. Os protótipos foram testados em dois documentários sobre o fundo do mar, Ghosts of the Abyss e Aliens of the Deep. (Os quais, incidentalmente, levaram Cameron a desenvolver também veículos submergíveis capazes de levar câmeras até profundidades antes inexploradas.) Em 2005, Cameron decidiu queAvatar já se tornara viável e não parou mais de trabalhar no filme. Agora, quatro anos depois, ele acaba de provar de novo que o impossível não existe. Particularmente quando se é – ou pelo menos se acredita ser – uma espécie de deus.

SKXAWNG!
O humano Jake acorda em seu corpo híbrido: o diretor recrutou
um linguista para compor um idioma alienígena que tivesse vocabulário,
sintaxe e fonética coerentes e não soasse como uma invenção
idiota – ou skxawng, como se diz em Na’vi


Imaginação livre

Como Avatar combina tecnologias para fazer do 3D uma experiência de imersão total

No mesmo hangar em que o magnata Howard Hughes (1905-1976) construiu o "Spruce Goose", seu gigantesco avião que só voou uma vez, James Cameron instalou o que ele chama de "Volume" – um espaço vazio em que os atores interpretam suas cenas vestindo macacões e câmeras faciais para a performance capture, ou "captura de atuação"


Os macacões são dotados de milhares de sensores que captam todas as nuances dos movimentos corporais. As câmeras faciais, aqui usadas pela primeira vez, são ainda mais sensíveis: registram todas as microexpressões humanas nos seus
mínimos detalhes

Esses dados são transmitidos para um monitor especial que – outra grande novidade – "vê" os atores em tempo real não como eles são de fato, mas como serão no filme – como os Na’vi, os habitantes azuis do planeta Pandora. Graças a esse monitor, James Cameron também via os personagens em seu ambiente tridimensional. Esse recurso permite total liberdade de movimentos de câmera: saltos, giros, voos, panorâmicas, mergulhos

Em Avatar, também foi utilizado um novo modelo de câmera 3D. Projetada pelo cinegrafista Vincent Pace, ela é leve, ágil e roda simultaneamente em 2D e 3D. Foi um grande avanço em relação às câmeras 3D que se usavam até então – pesadas, estáticas, do tamanho de uma máquina de lavar

As cenas foram finalizadas pela Weta Digital, a produtora de efeitos especiais de Peter Jackson (o diretor de O Senhor dos Anéis), na Nova Zelândia. Na área da captura de atuação, a Weta não tem rival no mundo: seus softwares interpretam os dados obtidos pelos sensores dos macacões e pelas câmeras faciais com absoluta precisão anatômica, "lendo" todo o impacto que cada gesto ou microexpressão tem sobre ossos, músculos, pele, tendões, cartilagem e até sobre a estrutura interna do olho humano


Trailer

Quadro: Um voo vertiginoso


'Avatar', a caixa de Pandora


12/12/2009 00:14

Por Isabela Boscov, de Los Angeles


(Foto: Divulgação)

Avatar (Estados Unidos, 2009), que estreia na sexta-feira 18 no país, é um feito técnico de proporções colossais. Particularmente porque, da maneira como foi articulado por James Cameron, esse mutirão de avanços tecnológicos usados para imergir o espectador no 3D mais fotorrealista que se poderia conceber tem em vista um propósito lírico e até honrado: o de criar beleza, transportar, surpreender pela imaginação e compartilhar um deslumbramento pela natureza que o próprio diretor só descobriu por completo ao ter-se retirado de cena - era o que parecia ter acontecido - depois de Titanic.

Um avatar é uma versão de um ser existente; e é isso que o fuzileiro naval Jake Sully (Sam Worthington) ganha ao desembarcar no planeta Pandora: uma encarnação de si mesmo na forma de um Na’vi, como são chamados os habitantes indígenas desse mundo remoto. Jake ficou paraplégico em combate na Terra; em Pandora, tem mais de três metros de altura, pele azulada, cauda e fisionomia ligeiramente felinas e um físico tão forte e apto que, ao experimentá-lo pela primeira vez, ele se embriaga com tanta liberdade.

Embriagador também é o terreno que ele pode percorrer nesse corpo. De dia, Pandora é um espetáculo de cores tropicais, árvores que se esfumaçam de tão altas e montanhas que vagam pelo céu como nuvens sólidas. De noite, é um sonho espectral de luminescências azuladas e arroxeadas, ressaltadas por brancos opalescentes e verdes fantasmagóricos - como um recife de corais que tivesse subido à superfície. Cameron é um apaixonado pelas profundezas marinhas, e não poderia ter imaginado argumento mais convincente para justificar sua fixação do que essas imagens. Mais notável ainda é a delicadeza do diretor. Em vez de atirar objetos contra a plateia, como os filmes em três dimensões fizeram até aqui, ele põe de lado os golpes baixos, o fácil e o pedestre e mira em algo muito acima: mostrar que o 3D é percepção, sensação e profundidade. Conjura tanta perícia, enfim, para simplesmente pousar o espectador em Pandora e deixar que, assim como Jake, ele viva a ilusão de estar dentro dessa ilusão.

Essa é, de certa forma, a primeira história de amor de Avatar - a de Jake por uma natureza que, no futuro em que o filme se passa, na Terra já é só uma lembrança. A segunda história de amor, e a central, é a de Jake por Neytiri, uma amazona Na’vi que, apesar do seu rancor contra os seres humanos - Pandora está sob ameaça de devastação por uma corporação mineradora -, recebe um sinal de que esse homem é diferente. Neytiri (Zoë Saldana, a Tenente Uhura da recente versão cinematográfica de Star Trek) é encarregada de proteger Jake e de ensiná-lo a ser verdadeiramente um Na’vi. Entre domar uma montaria alada aqui, aprender a usar o arco ali e escorregar por folhagens acolá, o inevitável acontece. A paixão está nas cartas, claro, desde a primeira cena em que Neytiri e Jake se encontram, na qual ela previsivelmente o salva das feras que o rondam. Mas, pelo menos, Cameron introduz o romance por meio de uma camaradagem que diz muito sobre seu respeito pelas mulheres. Os Na’vi são também um povo da terra, e estão ligados a ela de maneiras bem literais - são parte efetiva dela, como descobrirá a botânica interpretada com excelentes humor e desembaraço por Sigourney Weaver.

Há uma boa margem para tomar como eco-sentimentalismo (ou como ecobaboseira, conforme o ponto de vista) essa mensagem verde de Avatar, que em geral vem sublinhada por coros de vozes genericamente "nativos". Mas Cameron a contrapesa com lances mais lúcidos, como a sensação cinza e opaca com que Jake volta para seu corpo humano e limitado após cada excursão por Pandora - e o australiano Sam Worthington, o acerto de Exterminador Salvação, dosa no personagem as medidas corretas de gravidade e intrepidez. (Aliás, que se comente o desempenho de um humanóide azul de três metros já é sinal do quanto a transposição das atuações reais para os personagens digitais é bem-sucedida.) No terço final, em que se desenrola a batalha da mineradora contra os Na’vi e sua selva, são inspiradas também as alusões a outras imagens icônicas sobre a insensatez da guerra, como a da floresta se inflamando com napalm em Apocalypse Now, ou a do sofrimento dos cavalos sob fogo emKagemusha.

Esse contraponto entre uma civilização tão mecanizada e outra tão próxima de um estado natural é uma surpresa em Avatar - mas, considerado em retrospecto, é também um passo lógico na carreira de seu diretor. Cameron sempre foi o cineasta do equipamento pesado, do metal guinchando e triturando na forma de robôs, de estações submarinas, de transatlânticos. Executar visualmente o fascínio e o terror que as máquinas exercem foi, desde o início, o que o distinguiu. Ao contrário de mestres da estupidez como o Michael Bay de Transformers, Cameron entende que essa relação com o mundo físico não é um pretexto para a catarse, para a sublimação da violência ou para efeitos mais e mais estrepitosos.

De uma forma instintiva, não intelectualizada, porém não menos filosófica, todo seu cinema tem sido um comentário sobre a imaginação simultaneamente artística e tecnológica da espécie humana - e sobre como, nessa ânsia biologicamente programada de multiplicar até o infinito suas capacidades, ela perde controle sobre o que cria na mesma medida em que o aumenta, e toca tanto o belo como o terrível. Imaginar, dizem os filmes de Cameron - todos eles -, é abrir uma caixa de Pandora. Se o cinema for tomado como tal, então dela podem sair um sem-fim de burrices, algumas inclusive velhacas, como as que o avanço dos efeitos já produziu. Ou pode sair algo como Avatar - em alguns momentos redundante, em outros até um pouco cafona. Mas, em todos os instantes, invariavelmente animado pelo desejo de se alçar, de ir além e de engrandecer.

Os tamanhos relativos


A recepção negativa ao tablet da Apple

A NOVA MÁGICA DE JOBS

Quando Steve Jobs, o gênio da Apple, anuncia um novo
produto, o mundo espera uma revolução. Com o iPad,
não foi bem assim, mas é cedo para decretar seu fracasso


André Petry, de São Francisco

Paul Sakuma/AP
ADJETIVOS VIRAIS
Steve Jobs, ao exibir o iPad, na semana passada, depois de dois anos de especulações selvagens: "extraordinário", "fenomenal", "incrível"


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Os rumores começaram há dois anos. Criadora das mais fabulosas inovações tecnológicas recentes, a Apple estaria desenvolvendo um novo produto digital revolucionário. Primeiro, as especulações sobre a novidade tomaram os sites e os blogs de aficionados de tecnologia. Depois, transbordaram para todos os meios de comunicação, do Financial Times à CNN, do Wall Street Journal ao USA Today. No último mês, atingiram um ritmo selvagem. Seria um tablet, aparelho portátil maior do que um celular mas menor do que um netbook e perfeito para leitura de livros e jornais? Terá tela futurista de Oled (sigla em inglês para diodo orgânico emissor de luz), garantia um especialista. Poderá ser recarregado por um emissor de eletricidade sem fio, especulava outro. Vai sair com um sistema operacional inteiramente reescrito para ele, assegurava um terceiro. Como se chamaria? TabletMac, iSlate, iPad? Custaria 600 ou 1 000 dólares? Ninguém sabia nada ao certo, mas a aposta era uma só: Steve Jobs, o gênio fundador da Apple, estava criando outra vez um produto fenomenal, que viraria o mercado de cabeça para baixo e seria a salvação dos jornais, financeiramente asfixiados pela avalanche da internet. No dia 18 de janeiro, a Apple mandou um enigmático convite à imprensa, dizendo apenas que anunciaria sua "última criação" no dia 27 de janeiro, em São Francisco.

Os coraçõezinhos dos tecnófilos quase se arrebentavam de expectativa quando, na manhã da quarta-feira passada, Jobs, magérrimo, rescaldo de graves problemas de saúde, mas sorridente e disposto, apareceu no palco do centro de convenções onde habitualmente anuncia seus novos produtos, o Yerba Buena Center. Foi recebido com uma ovação de pé por uma audiência que, diante de outros capitães de indústria, demonstra apenas ceticismo. O grande comunicador não perdeu tempo: "Vamos começar 2010 com um produto realmente mágico e revolucionário". Mais emoção e expectativa solidamente assentadas nos números espantosos de desempenho da Apple. A empresa do logo da maçã mordida já vendeu mais de 220 milhões de iPods, 50 milhões de iPhones e 1 bilhão de programas, os aplicativos, para esses aparelhos transacionados remotamente por sua loja virtual, iTunes - que até o mês passado tinha comercializado 6 bilhões de músicas. Dois dias antes do lançamento do iPad, a empresa divulgou o maior lucro trimestral de sua história: 3,4 bilhões de dólares.

L.A. Cicero/Stanford
A VOLTA A STANFORD
Jobs, que nunca se formou na universidade, com toga de paraninfo: ele dormia no chão e filava a boia num templo hare krishna


Na imensa tela ao fundo do palco, apareceram a imagem e o nome da nova aposta da Apple, o iPad. Jobs exibiu o aparelho nas suas mãos, para dar noção do tamanho (semelhante ao de uma folha de ofício) e do peso (menos de 700 gramas). O pessoal aplaudiu, alguns assoviaram, outros gritaram - mas, aos poucos, enquanto Jobs pulava de um adjetivo a outro falando do iPad - "extraordinário", "fenomenal", "incrível" -, aconteceu algo até então inédito nessa segunda encarnação de Jobs na Apple (ele foi demitido, mas retomou o poder em 1996). A plateia aos poucos foi perdendo o entusiasmo, chegando a se perceber um clima de decepção - sensação realimentada pelos comentários instantâneos vindos dos blogs especializados. E a rapaziada desceu os tanques com a crueldade característica:

- Não tem tela de Oled? Esquece.

- Sentados ou deitados, usamos laptop ou desktop. Em pé, usamos o smartphone. Não existe uma posição anatômica ideal para usar o iPad.

- Não é nem um laptop simplificado nem um iPhone melhorado.

- Não roda Flash (formato popular de vídeos e animações), não tem câmera, a bateria é embutida... Eu não compro.

- É o iBad (o i-Ruim).

Aos poucos, a apresentação de Jobs começou a lembrar a de um mágico que, para obnubilação geral, já fizera desaparecer um cavalo no palco e agora provocava apenas bocejos entediados ao fazer sumir um elefante.

O produto em si não é novidade. A Hewlett-Packard, a Intel e a Dell já andam exibindo protótipos de tablets na praça. Para quem só quer ler livros digitais, há outras opções no mercado, como o Kindle, da Amazon, já disponível no Brasil. Diante de tudo o que se esperava, e se esperava nada menos que uma revolução, o iPad pareceu quase um blefe.

Divulgação
O TRUNFO DO SKIFF
O leitor digital da Marvell com tela de metal flexível chega ao mercado ainda neste ano nos Estados Unidos: barato e quase indestrutível

Como se sabe, não existe uma segunda chance de causar uma bela impressão inicial. Nisso nem Jobs dá jeito. Pouco importa que rumos tome sua carreira comercial daqui para a frente, o iPad será sempre lembrado pela fria recepção da semana passada. Pela genialidade de Jobs e pela história recente de sucessos da Apple, porém, o iPad merece um segundo e mais detido olhar. "Ainda tenho dúvidas, sobretudo em relação ao teclado virtual. Não sei se funciona teclar numa tela de vidro. Mas acho que o iPad será um sucesso. Só não acredito que vá se igualar ao fenômeno que foi o iPhone", diz John Markoff, veterano repórter de tecnologia do New York Times. Pode ser. Mas também pode ser que a maioria dos decepcionados esteja errada, e Steve Jobs, mais uma vez, esteja certo. Porque, quanto mais se examina o iPad, mais encantador ele parece. Ponto por ponto, ele já nasce como o melhor tablet do mercado. Graças a um chip desenvolvido especialmente para suas necessidades pela própria Apple, sua operação é veloz e consome menos bateria. Funcionando a todo o vapor com exibição de filmes em HD, por exemplo, a autonomia do iPad poderia chegar a quase cinco horas. A bateria dura dez horas em uso menos intensivo, segundo a Apple - pois nenhum dos resenhistas tecnológicos recebeu ainda o iPad para testes. A tela sensível, pelo que se viu no Yerba Buena, reage com agilidade bem maior ao toque do que as do próprio iPhone. A vantagem competitiva maior, porém, quando o iPad começar a ser vendido, em março, será o fato de o aparelho rodar os 140 000 programas disponíveis no iTunes para o iPhone.

Não se sabe como Jobs reagiu ao clima de decepção, mas é certo que, pela primeira vez, ele sentiu aquele gostinho amargo que tantas vezes passou pela boca de Bill Gates, o fundador da Microsoft. O pior momento público de Gates ocorreu há doze anos, quando, ao demonstrar uma novidade do sistema operacional Windows98, a tela do computador congelou e uma mensagem de erro apareceu. Para piorar, o evento estava sendo transmitido ao vivo pela CNN. Jobs teve seu momento Gates com o iPad. Ao acessar determinado site, apareceu na tela do iPad um quadradinho azul com um sinal de interrogação no centro. A plateia de especialistas entendeu tudo e riu meio envergonhada. Esse símbolo surge com frequência irritante quando, ao navegar pela internet pelo iPhone, o usuário encontra um vídeo no formato Flash, marca da Adobe universalmente consagrada na Web, mas que a Apple teima em não reconhecer para tentar empurrar goela abaixo dos usuários de Mac e iPhone seu próprio programa de vídeos, o QuickTime. Quando Jobs começa a ficar parecido com Gates, alguém sai perdendo - e esse alguém é o consumidor.

O modelo mais barato do iPad chegará ao mercado americano em março, por 499 dólares, e o mais caro, em abril, ao preço de 829 dólares. No Brasil, os primeiros modelos começam a ser vendidos só no segundo semestre deste ano. A questão central segue em aberto: o iPad salvará jornais e revistas americanos que andam desesperados atrás de um abrigo no mundo digital? ONew York Times, com a corda no pescoço, já se associou ao empreendimento e poderá ser lido no iPad assim que o produto chegar às lojas. O Times também anunciou que, no início de 2011, começará a cobrar por seu conteúdo na internet. Pode ser um indicativo de que o iPad virá a oferecer um novo meio de vender notícias, como o iTunes criou um novo modo de vender música.

Steve Jobs é um sobrevivente. Sua mãe biológica o entregou para adoção com a exigência de que os pais adotivos tivessem cursado a universidade. Um advogado e sua mulher se candidataram, mas, na última hora, desistiram. O bebê acabou na casa de um operador de máquinas e sua esposa. O casal não tinha nem o ensino médio. Quando soube, a mãe biológica quis cancelar a adoção, mas os novos pais prometeram que o menino ingressaria na universidade. Ele foi criado no Vale do Silício, que na época era apenas um imenso pomar de damascos e ameixas. Na escola primária, só queria ler livros e caçar borboletas. Era um aluno medíocre e, pior ainda, um projeto de delinquente. Não fosse pelo carinhoso suborno de uma professora - que o comprou com notas de 5 dólares e barras de chocolate -, Jobs diz que teria abandonado a escola. "Eu ia acabar na cadeia, com 100% de certeza." Em vez disso, chegou à universidade, mas desistiu em seis meses. Ficou pelo câmpus cursando só o que lhe interessava - caligrafia, por exemplo -, dormia no chão do quarto dos colegas, vendia garrafas de plástico de Coca-Cola para comprar comida e, aos domingos, filava o jantar num templo hare krishna. Está bilionário, mas trabalha como um iniciante e deve saber muito bem o que quer com o iPad.

Diz Tim Bajarin, presidente da Creative Strategies e analista de tecnologia: "Com o iPad, Jobs reinventou o conceito de portabilidade". Aqui e ali, depois de murmúrios de decepção, começam a surgir avaliações positivas. Pode ser que esteja acontecendo, mais uma vez, a mágica de Jobs.

Os concorrentes

Modelos de tablets que vão disputar o mercado com o iPad da Apple


Cloreto de magnésio

Que sal é esse?

O cloreto de magnésio é anunciado na internet como panaceia para os mais
diversos males. Não há nenhuma comprovação científica de tais benefícios


Naiara Magalhães

Ilustração Negreiros


Você está tomando cloreto de magnésio? Está se perguntando se deveria? Em uma busca rápida pela internet, encontram-se dezenas de sites, blogs e grupos de discussão em português enaltecendo as propriedades da substância. As listas de indicações do "sal milagroso", como ele é chamado por seus propagandistas, incluem mais de setenta problemas de saúde - dos mais banais, como um resfriado, aos que ainda impõem desafios à medicina, como câncer, infarto, derrame e depressão. À repórter que assina esta reportagem, o representante de um site de venda garantiu que, para uma moça saudável e jovem, o sal faria emagrecer, combateria o stress e evitaria "um mal futuro". Mas, antes de correr à farmácia mais próxima em busca de um punhado de cloreto de magnésio, leia o que diz uma especialista: "Não há nenhum embasamento científico para os benefícios atribuídos à substância. Portanto, se a pessoa não apresentar deficiência de magnésio, não há recomendação médica para que seja feita a suplementação", afirma a nutricionista Ana Maria Lottenberg, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O magnésio é um micronutriente essencial ao organismo. Está envolvido na produção de energia das células, na ativação de mais de 300 enzimas e na geração de estímulos elétricos necessários ao funcionamento das células cardíacas, musculares e nervosas. Os defensores do cloreto de magnésio partem de tal fato (incontestável, comprovado cientificamente) para vender o sal como panaceia para os mais diversos males. Segundo eles, como a maioria da população apresenta deficiência desse mineral, a suplementação seria necessária. A questão é que o magnésio é facilmente encontrado em vários componentes da dieta brasileira, como feijão, banana, leite, ervilha, aveia, lentilha, castanhas e em todas as verduras e legumes. A ingestão balanceada desses alimentos é suficiente para suprir a sua necessidade diária.

O primeiro a defender o uso médico do cloreto de magnésio foi o cirurgião francês Pierre Delbet (1861-1957), que, durante a I Guerra Mundial, descobriu as propriedades antissépticas do sal. A cardiologia chegou a utilizar a substância no tratamento de arritmias: injetava-se magnésio na veia do paciente para normalizar seus batimentos cardíacos. "Mas esse tratamento foi abandonado há mais de vinte anos por se mostrar pouco eficaz", diz o cardiologista Ibraim Pinto, do Hospital do Coração. Existem estudos (a maioria de pequeno porte) sobre o uso do magnésio no tratamento da asma e da enxaqueca, mas os resultados são inconclusivos. Em pessoas sem deficiência do mineral, a suplementação de magnésio, na melhor das hipóteses, é inócua. Na pior, as doses extras de magnésio podem causar desde diarreia até irritação do estômago e intoxicação renal. Não convém, portanto, arriscar.

O precioso acervo de órgãos barrocos nas igrejas

Um tesouro musical

Pesquisa traz à luz uma surpreendente coleção de órgãos barrocos
em igrejas brasileiras. São instrumentos de valor histórico inestimável


Marcelo Bortoloti

Manoel Marques
PEÇA RARA
Catedral de Mariana: o órgão, de 1710,
é de fabricação do alemão Arp Schnitger

Entre o fim do século XVII e meados do XIX, surgiu na Europa uma preciosa coleção de órgãos de igreja que, até hoje, se distingue pelas dimensões monumentais, pela riqueza de ornamentos e pelo som, de nitidez incomparável. De valor inestimável para a arte sacra e a música erudita, tendo sido uma das principais ferramentas de trabalho de compositores como o alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), esses órgãos barrocos formam um surpreendente acervo no Brasil – tesouro pouco conhecido que, só agora, começa a vir à luz. O mérito é de uma pesquisa conduzida na Universidade Sorbonne, que catalogou os exemplares existentes no país. A lista não é extensa. De uma centena deles de que se tem registro no século XVIII, sobraram apenas quinze, dois dos quais em funcionamento. A coleção, modesta se comparada à de países europeus, chama atenção pelo exagero de pinturas e entalhes recobertos de ouro e ainda por uma peça que a torna singular: um instrumento de 1710 assinado pelo alemão Arp Schnitger (1648-1719), espécie de Antonio Stradivari, o célebre construtor de violinos, no mundo dos órgãos barrocos. Não há mais que trinta desses Schnitgers em uso. O do Brasil enfeita a Catedral da Sé de Mariana, em Minas Gerais, à qual foi doado em 1753 por dom José I, rei de Portugal. Restaurado, ainda se presta a belíssimos concertos de música barroca.

O atual trabalho ajuda a lançar luz sobre a história desses órgãos no Brasil – e também sobre a própria história do país. O propósito original ao trazê-los da Europa para a colônia era animar missas e arregimentar fiéis. "Esses instrumentos vão funcionar melhor do que as pregações", escreveu ao rei o bispo de Salvador, dom Pero Fernandes Sardinha, em 1552, imbuído da missão de catequizar índios. No Brasil imperial, os órgãos barrocos se popularizaram, a exemplo do que ocorria àquele tempo nas cortes europeias. Na cena da coroação de dom Pedro I, em 1822, retratada por Debret, aparece ao fundo o órgão no qual se executou, naquela ocasião, composição de José Maurício Nunes Garcia, um dos grandes nomes da música barroca no Brasil (sim, houve uma profícua produção do gênero no país, ainda que com o previsível atraso e influências do classicismo). Tal órgão, do qual só permaneceu uma parte da caixa ricamente decorada, pode ser visto na antiga Catedral da Sé do Rio de Janeiro.

Nenhum instrumento produz, sozinho, acordes tão ricos quanto os órgãos barrocos. Seu princípio de funcionamento é o de um instrumento de sopro, mas, no lugar do pulmão humano, se faz uso de foles que enviam o ar, simultaneamente, a dezenas de tubos que emitem o som. É como se fosse um conjunto de flautas gigantes, com até 10 metros de altura. "O que distingue os modelos barrocos é que nenhum outro permite escutar com tamanha nitidez tantos acordes ao mesmo tempo", afirma a especialista Elisa Freixo. Seu mecanismo garante que o ar chegue imediatamente aos tubos quando o teclado é acionado, processo que leva até meio segundo nos demais modelos – suficiente para a perda de limpidez do som. Eles também se diferenciam pela concentração de finíssimos tubos, de onde saem tons de um agudo extremo. Os órgãos fabricados mais tarde privilegiaram sons mais graves e difusos – o que os adequava a uma nova função, a de integrar orquestras.

Países como Espanha e Portugal, donos de valiosas coleções de órgãos barrocos, já se dedicam à conservação desses instrumentos há um século. "No Brasil, predomina o descaso", diz o brasileiro Marco Aurélio Brescia, à frente da pesquisa da Sorbonne. Ele ficou chocado, por exemplo, ao encontrar na cidade mineira de Bom Jesus do Amparo destroços de um órgão barroco do século XIX, obra de um artesão local. Com o que sobrou, ainda é possível reconstruir o maquinário original. De outra preciosidade da coleção, o órgão do Mosteiro de São Bento, no Rio, só ficou de pé a caixa original – até hoje lá –, boa amostra da imponência barroca. Mesmo que com atraso, o inventário dessas obras é o primeiro passo para a conservação do tesouro que restou.

Acervo Itamaraty
PRESENÇA NA CORTE
Coroação de dom Pedro I por Debret: o órgão aparece ao fundo

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