Saturday, May 01, 2010

A república digital das letras


O passado e o futuro do livro – e do ideal iluminista de torná-lo
acessível a todos – são examinados em ensaios pelo diretor
da biblioteca de Harvard


Jerônimo Teixeira

William Manning/Corbis/Latinstock
CENTRO DO SABER
Biblioteca Pública de Nova York: bem mais do que um depósito de livros


Desculpe se o que estou dizendo parece cheio de santimônia", diz o historiador americano Robert Darnton, 71 anos, depois de uma apaixonada defesa da atualidade do livro em papel. Ao longo de sua entrevista a VEJA (veja o quadro abaixo), Darnton esboçou várias desculpas do mesmo teor: seu tom estaria muito sentencioso, ou até mesmo pio, como o de um pregador religioso. É compreensível. Darnton é uma autoridade na história do livro, autor de O Iluminismo como Negócio e Edição e Sedição, entre outros estudos fundamentais sobre o mercado livreiro na França do século XVIII – e sua relação com o explosivo contexto político que culminaria na Revolução de 1789. O objeto de seus estudos propicia o tom elevado: veículo de vários textos sagrados, o livro é também o centro de um certo culto laico, celebrado em bibliotecas como a da Universidade Harvard, da qual Darnton é diretor. Mas o historiador não se vale dessas metáforas religiosas: nos termos do Iluminismo do século XVIII, ele prefere falar na República das Letras – um país desprovido de fronteiras, no qual todos, leitores e autores, poderiam discutir e trocar ideias sem censura ou restrições. A internet, com sua capacidade inaudita de divulgar textos e imagens, tem, sem dúvida, o potencial de expandir essa república virtual – e Darnton examina essas possibilidades ao mesmo tempo com entusiasmo e ponderação em A Questão dos Livros (tradução de Daniel Pellizzari; Companhia das Letras; 232 páginas; 42,50 reais), coletânea de ensaios recém-lançada no Brasil.

"Este é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro", anuncia a introdução da obra. Consumado rato de arquivos (em um dos ensaios, ele relata a experiência de ler, na íntegra, o arquivo de 50 000 cartas referentes aos negócios de uma editora franco-suíça do século XVIII), Darnton é amante do papel, do prazer visual e tátil que se extrai do contato com um livro (em particular, com obras antigas e raras). Ele aposta na sobrevivência do códice, o formato de livro que surgiu em torno do século III – com páginas que são viradas, e não desenroladas, como nos rolos de pergaminho que até então conservavam a palavra escrita – e alcançou um público leitor cada vez maior a partir da invenção da imprensa, na década de 1450. Será simplista, argumenta ele, imaginar que uma nova tecnologia vai substituir completamente e de imediato formas mais antigas. A televisão não acabou com o rádio, e nem o YouTube acabou com a TV. O livro em papel, portanto, deverá conviver muito tempo com leitores eletrônicos como o Kindle e o iPad.

Os formatos eletrônicos, porém, configuram um desafio para os bibliotecários, que terão de desenvolver novos métodos e protocolos para conservar o conhecimento em forma digital. "Os arquivos digitais são compostos de números binários, que se corrompem e degradam. E a tecnologia avança rapidamente. Muitos formatos de arquivo se tornam obsoletos e difíceis de acessar em um prazo de poucos anos", alerta Darnton. Outro grande esforço exigido das bibliotecas – o de tornar seus acervos acessíveis on-line – esbarra em problemas não só tecnológicos, mas também legais. A Questão dos Livros faz um exame crítico do ambicioso projeto do Google para digitalizar as obras de algumas das maiores bibliotecas universitárias do mundo, inclusive a de Harvard. O Google Book Search foi contestado por associações americanas de autores e editores, que reclamavam o respeito aos direitos autorais das obras digitalizadas que ainda não se encontram em domínio público. O entrave foi contornado, em 2008, por um acordo entre o Google e essas associações – o qual, no entanto, ainda depende de aprovação judicial. Darnton observa que o acordo, por sua extensão, tornaria o Google Book Search imune à concorrência. O próprio Departamento de Justiça americano já contestou a iniciativa, por seu caráter monopolista.

O Google Book Search é o tópico mais "momentoso" de A Questão dos Livros. Mas a coletânea não se esgota aí: é rica em digressões saborosas sobre as diferentes edições de Shakespeare ou as leituras de Thomas Jefferson. Darnton é, sobretudo, um historiador, um homem que oferece perspectivas amplas para seus temas. E seu assunto central exige isso mesmo: não há objeto mais amplo do que o livro.


Uma missão civilizadora

O historiador Robert Darnton falou a VEJA sobre o papel das bibliotecas
e a polêmica iniciativa de digitalização de livros do Google.

Catherine Helie/Gallimard/Opale
PRAZER DO PAPEL
Robert Darnton: "Apologia descarada
da palavra impressa"


O senhor afirma que a biblioteca é o centro da vida universitária. Faz sentido falar nesses termos quando os estudantes hoje contam com a internet, que não tem um "centro"?

Não devemos pensar nas bibliotecas como meros depósitos de livros, ou como museus em que exemplares raros são expostos em cúpulas de vidro. A biblioteca é um centro de organização do conhecimento – o que se torna ainda mais importante em um universo confuso e sem forma como a internet. Sei que isso pode soar sentencioso, mas acredito nessa missão central das bibliotecas.

E a biblioteca de bairro ou de cidade pequena ainda cumpre a mesma função para o leitor comum?
Sim, e está incorporando novas funções. Faço parte do conselho da Biblioteca Pública de Nova York, que, além de seu conhecido prédio central na Quinta Avenida, administra várias unidades de bairro. A visitação delas aumentou depois da crise econômica. Os trabalhadores que perderam o emprego e não têm computador em casa vão lá para buscar empregos on-line.

O senhor é um crítico do Google Book Search, projeto que pretende digitalizar o acervo de grandes bibliotecas – inclusive a de Harvard – e oferecer acesso aos livros na internet. Por quê?
O Google tem feito um trabalho maravilhoso de digitalização do acervo dessas bibliotecas. Mas, como toda empresa privada, tem por objetivo dar lucro a seus acionistas. Os objetivos das bibliotecas são distintos – entre eles, oferecer conhecimento público. Esse conhecimento não pode ser detido por uma empresa só. O acordo sobre direitos autorais do Google configura uma situação de monopólio.

VEJA Recomenda e Os mais vendidos

VEJA Recomenda

DISCO

INTERPRETING THE MASTERS, VOL. 1: A TRIBUTE TO DARYL HALL & JOHN OATES, The Bird & The Bee (EMI)

Divulgação
DISCO
The Bird & The Bee: homenagem a uma dupla de, digamos, mestres dos anos 80

• Não, não dá para comparar Daryl Hall e John Oates a Lennon e McCartney – mas eles ainda são cultuados pela turma que passou dos 40 e gosta de frequentar festas-tributo à década de 80. A dupla surgiu na Filadélfia, no início dos anos 70, e foi muito influenciada pela soul music própria da cidade – de onde saiu, entre outros, o cantor Billy Paul. Hall e Oates também contavam com uma banda competente, na qual se destacava o guitarrista G.E. Smith (mais tarde, produtor musical do humorístico Saturday Night Live). Neste CD, outra dupla – The Bird & The Bee, formada por Greg Kurstin e Inara George – presta uma agradável homenagem a Hall e Oates. Quase não se mexeu na estrutura das canções. Sucessos radiofônicos como Maneater, Private Eyes e I Can’t Go for That não sofrem grandes alterações – no máximo um teclado aqui, uma bateria eletrônica acolá. A voz de Inara não tem o alcance da de Hall, mas certas canções tornam-se mais sedutoras graças à sua interpretação contida – como One on One, em que ela parece sussurrar a letra para o ouvinte.

MÚSICA

ÓPERA DAS PEDRAS – O ESPETÁCULO DA TERRA, de Denise Milan (em cartaz até o dia 15 de maio no Sesc Ipiranga, em São Paulo)

Divulgação
MÚSICA
Denise Milan: ópera com
metáforas geológicas

• A escultora paulista Denise Milan iniciou a carreira em 1973, utilizando a pedra como eixo central de seus trabalhos. Algumas de suas esculturas já foram expostas em galerias de Nova York, Taiwan e Londres, entre outras metrópoles. As pedras são ainda o tema preponderante de sua estreia como autora e diretora de uma peça dramática musical e são as personagens deÓpera das Pedras – O Espetáculo da Terra. A protagonista é uma pedra chamada Agrégora, uma ametista de 220 milhões de anos, interpretada pela cantora e violonista Badi Assad. Com seis músicos no palco, o espetáculo acompanha uma espécie de drama geológico, que narra como o cristal se forma a partir do basalto – e essa transformação da matéria funciona como metáfora para a evolução emocional das pessoas. "É um canto de renovação em que se ouve a voz da pedra, e a passagem do caos à ordem se torna possível. A Terra devastada pela avidez humana dá lugar à Terra renovada pelo amor", diz Denise. O espetáculo também serve de mote para o lançamento do livro Gemas da Terra, obra conjunta de Denise e da professora de filosofia Olgária Matos.

LIVRO

O DISCURSO SECRETO, de Tom Rob Smith (tradução de ana maria mandim; Record; 304 páginas; 57,90 reais)


• O segundo romance do inglês Tom Rob Smith é ambientado na União Soviética, nos anos que se seguem à morte de Stalin, em 1953. O título faz referência ao famoso discurso de 1956 em que Nikita Krushev denunciou os crimes cometidos pelo tirano que o antecedeu. O livro desdobra as devastadoras consequências psicológicas que o pesadelo político do comunismo lança sobre seus personagens – em particular, sobre Liev Demidov, ex-agente de segurança que protagonizou o romance anterior de Rob Smith,Criança 44. Demidov é pai adotivo de duas meninas, filhas biológicas de pessoas que ele mandou executar. A mais velha, Zoya, acalenta desejos de vingança contra ele. E mais perigosa ainda é Fraera, uma mulher traída e aprisionada pelo ex-agente que se torna líder de uma gangue vingadora. Este é um thriller de cenas rápidas e nervosas – entre outros feitos, Demidov tem de se infiltrar em um gulag para libertar um prisioneiro que ele mesmo mandou para lá. Sob essa ação sem pausas, porém, Rob Smith examina com vagar uma questão histórica difícil: há reparação possível para os que serviram a regimes criminosos?

DVD

CHÉRI (Inglaterra/França, 2009. Califórnia)

Everett Collection/Keystone
DVD
Michelle Pfeiffer, em Chéri: não mais jovem, mas sempre bela

• A escritora Colette (1873-1954) ferveu na França da belle époque: teve casos com homossexuais (como o escritor Henri Gauthier-Villars, seu primeiro marido), mulheres (como a diva do cabaré Josephine Baker) e também heterossexuais (a exemplo do escritor italiano Gabriele D’Annunzio), sempre de olho no frisson seguinte e cultivando o próximo escândalo. Além de festeira contumaz, porém, Colette era também uma romancista de grande talento e coragem. Chéri, publicado em 1920, aborda os constrangimentos de uma prostituta de luxo, ainda bela, mas não mais jovem, que é apaixonada por um garoto, o mimado Chéri. Na adaptação do diretor inglês Stephen Frears, é Michelle Pfeiffer (não mais jovem, mas sempre bela) quem faz o papel da cortesã Lea de Lonval, que tenta se agarrar aos resquícios de sua dignidade e do fascínio que exerce sobre o rapaz (Rupert Friend, um ator em merecida ascensão). A produção é tão obsessiva nos detalhes de época que chega a ser artificial – mas o mesmo não se pode dizer das interpretações, que tocam de maneira incisiva naquele ponto doloroso em que, pelo simples passar do tempo, uma pessoa se transforma aos olhos de uma outra.

TELEVISÃO

MODERN FAMILY (Estreia nesta segunda-feira, às 22h, na Fox)

Divulgação

TELEVISÃO
Modern Family: sátira aos novos arranjos familiares – e ao modo como a correção política os compreende


• O gay Mitchell Pritchett (Jesse Tyler Ferguson) fica uma pilha de nervos durante uma recepção familiar em sua casa. Lá estão seu pai, um patriarca já avançado na idade, e a mulher dele, uma perua colombiana algumas décadas mais jovem – acompanhada do filho de um casamento anterior, uma criança gorducha obcecada em namorar meninas mais velhas (e que só leva foras). Estão presentes, ainda, a irmã de Mitchell e seu marido, uma dupla certinha que se esforça – apesar dos muitos reveses – para criar os três rebentos de maneira liberal e compreensiva. A reunião, armada pelo maridão de Mitchell, à sua revelia, tem por objetivo apresentar ao clã uma novidade que o casal homossexual foi buscar no outro lado do mundo (e que o parceiro ainda não se julga em condições psicológicas de assumir perante os parentes, daí seu stress): uma bebê adotiva vietnamita. Logo nas primeiras cenas, a sitcom Modern Familydeixa claro o universo que pretende satirizar: a gama de novos arranjos familiares que grassam na sociedade americana contemporânea – e o modo politicamente correto como aos poucos se passou a ver os mesmos.

OS MAIS VENDIDOS

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[A|B#]
A] posição do livro na semana anterior
B] há quantas semanas o livro aparece na lista
#] semanas não consecutivas

Fontes: Balneário Camboriú: Livrarias Catarinense; Belém: Laselva; Belo Horizonte: Laselva, Leitura; Betim: Leitura; Blumenau: Livrarias Catarinense; Brasília: Cultura, Fnac, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva; Campinas: Cultura, Fnac, Laselva; Campo Grande: Leitura; Caxias do Sul: Saraiva; Curitiba: Fnac, Laselva, Livrarias Curitiba, Saraiva; Florianópolis: Laselva, Livrarias Catarinense, Saraiva; Fortaleza: Laselva, Saraiva; Foz do Iguaçu: Laselva; Goiânia: Leitura, Saraiva; Governador Valadares: Leitura; Ipatinga: Leitura; João Pessoa: Saraiva; Joinville: Livrarias Curitiba; Juiz de Fora: Leitura; Londrina: Livrarias Porto; Maceió: Laselva; Mogi das Cruzes: Saraiva; Navegantes: Laselva; Petrópolis: Nobel; Piracicaba: Nobel; Porto Alegre: Cultura, Fnac, Livrarias Porto, Saraiva; Recife: Cultura, Laselva, Saraiva; Ribeirão Preto: Paraler, Saraiva; Rio de Janeiro: Argumento, Fnac, Laselva, Saraiva, Travessa; Salvador: Saraiva; Santa Bárbara d’Oeste: Nobel; Santo André: Saraiva; Santos: Saraiva; São Paulo: Cultura, Fnac, Laselva, Livrarias Curitiba, Livraria da Vila, Martins Fontes, Nobel, Saraiva; Sorocaba: Saraiva; Vila Velha: Saraiva; Vitória: Laselva, Leitura; internet: Cultura, Fnac, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Submarino.

Roberto Pompeu de Toledo

O pai do Neymar

"Neymar, o velho, é uma esperança contra a ansiedade
que surge tão logo desponta um talento, mesmo quando
bem inferior ao de Neymar, o moço: até quando o teremos
no Brasil?"

Pode-se imaginar os sentimentos de que um pai brasileiro é tomado quando pela primeira vez se dá conta de que, com a bola nos pés, seu rebento é um prodígio. A palavra "prodígio", tal qual "profético" e "presságio", indica uma conexão com o divino. Revelar-se um prodígio nos campos de futebol significa que um sopro dos deuses moldou aqueles pés. Para o pai, dar-se conta de que tem um filho desses é como se um anjo lhe baixasse na humilde morada e anunciasse que seu menino, entre todos os outros, é o escolhido do céu. Na conexão direta com a terra, quando o pai vai dormir, naquele dia, repassa as promessas com que lhe acenam os próximos anos. Misturam-se todas, das mais modestas às mais gloriosas – comida garantida, bons médicos, mudança para um bairro decente, adeus aos malditos ônibus, e logo empregados, mansões, piscinas, viagens, férias, Real Madrid, euros.

A esta altura, não há mais dúvida de que o menino Neymar, do Santos, é um prodígio. Não é que, com 18 anos recém-completados, sua vida esteja a ponto de mudar. Já mudou. O pai, que também foi jogador de futebol, chegou ao fim de uma carreira que o empurrou de time pequeno para time pequeno com um patrimônio que se resumia a um terreno, segundo reportagem da jornalista Débora Bergamasco publicada na semana passada no jornal O Estado de S. Paulo. O filho já acumulou dinheiro suficiente para acomodar a família num apartamento tríplex com piscina e sauna e manter um carro Volvo XC-60 na garagem.

O pai de Neymar também se chama Neymar. Tem 45 anos, cursa faculdade de educação física e administra a vida do filho, do dinheiro e dos contratos à hora em que deve voltar para casa. Neymar, o filho, tem família estruturada, com pai, mãe e irmã sob o mesmo teto. Nisso se diferencia de tantos de seus companheiros de bola. Claro que o pai não terá outra coisa a fazer na vida, nos próximos anos, senão cuidar dos interesses do filho, que são também seus interesses. E claro que, quando não tiver nem mesmo de cuidar dos interesses do filho, não terá outra coisa a fazer senão gozar as delícias de ter sido premiado com a visita do anjo. Mas engana-se quem pensa em Neymar, o velho, como um desfrutador do baú do filho. Suas entrevistas à imprensa revelam uma pessoa com a cobiça sob controle, e cuidados que vão além da vil matéria.

Neymar, o velho, é uma esperança contra uma ansiedade que toma conta de quem gosta de futebol tão logo desponta um talento, mesmo quando bem inferior ao de Neymar, o moço: até quando o teremos nos gramados brasileiros? Sabe-se que é por pouco tempo. O Brasil entregou-se gostosamente à condição de exportador de matéria-prima. A volúpia da volta ao passado colonial impôs-se com sobras à potência incrustada na mente do atual primeiro mandatário da nação. Neymar, o pai, não nega que o filho vai acabar num grande clube europeu. Mas diz que há etapas a cumprir, e que não tem pressa. Quer ver o filho amadurecer e conquistar títulos no Brasil.

Quando Neymar Jr. tinha 13 anos, o pai aceitou um convite do Real Madrid para ir à Espanha. Pensava que era só para conhecer o clube. Lá puseram o filho para treinar e lhe ofereceram um contrato. O menino, depois de três semanas, declarou-se farto e quis voltar. O pai deu-lhe razão. Numa entrevista à TV ESPN, no ano passado, ao relembrar o episódio, Neymar pai disse que, seja onde for, quer o filho jogando futebol com alegria, e não de forma "mecânica" (a palavra é dele).

Eis uma declaração que, além de enaltecê-lo como pai, enche de esperança os admiradores do futebol. Praticá-lo com alegria, como Pelé e Garrincha, é a condição primeira para alçá-lo à condição daquele esplêndido espetáculo que se convencionou chamar de futebol-arte. É futebol-arte, tangido pela necessária alegria, como não se via pelo menos desde Robinho, o que Neymar tem apresentado. Ele é o condutor de uma volta à inocência perdida que contaminou o time do Santos e até, para quem reparar bem, transbordou para alguns adversários. Para que não seja por pouco tempo, só confiando no paizão.

***

E os estudos? Neymar parou cedo, e nesse ponto não há notícia de empenho do pai em sentido contrário. O jogador Henry, da seleção francesa, disse uma vez que a grande vantagem dos jogadores brasileiros é que desde meninos eles não têm outra coisa a fazer senão jogar bola, na rua, nas praias ou nos campos, enquanto os europeus passam o dia na escola. O argumento leva à conclusão de que o sucesso do futebol brasileiro se deve ao fracasso do sistema escolar do país.

Quadro: Mais gente, mais idiomas


Quadro: Um exemplo do círculo virtuoso do tradutor digital


Quadro: A perfeição não existe


A língua do google

A língua do google

A tradução quase instantânea de textos para 52 línguas é apenas
o primeiro passo rumo a um comunicador universal em que o idioma
deixa de ser barreira e passa a ser o portal do grande encontro das culturas


Jadyr Pavão Júnior



VEJA TAMBÉM

As diferenças de idioma são um divisor da humanidade. Há dois caminhos para contornar essa barreira. Num deles, busca-se um retorno à linguagem única que, segundo a Bíblia,existia antes da Torre de Babel. Ao longo da história, algumas línguas de fato procuraram desempenhar esse papel. Por exemplo, o latim, na Antiguidade, ou o inglês, nos dias de hoje. Línguas artificiais como o esperanto, criado no século XIX pelo polonês L.L. Zamenhof, também se candidataram a realizar essa tarefa. O outro caminho é o da tradução universal. Em princípio, seria coisa de ficção científica. O mais insólito modelo de tradutor universal aparece no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70: um peixinho é introduzido no ouvido do protagonista e verte frases alienígenas para o inglês. Na série Jornada nas Estrelas, a tecnologia entra em cena e um dispositivo permite a conversa não somente entre "terráqueos", mas entre habitantes de diferentes planetas. Pois bem: como acontece com frequência, a ficção científica não estava lidando com o impossível, mas apenas antecipando o futuro. A tecnologia já está avançada na criação de um tradutor universal. O sistema mais eficiente opera nos computadores do Google, o gigante da internet. Hoje, ele permite a tradução instantânea de textos escritos em 52 idiomas. Para o leitor, é como colocar-se diante de uma biblioteca infinita e descobrir que todas as publicações estão em português. Estima-se que em dez anos já sejam 250 as línguas contempladas. E, nesse ponto, a inclusão de aplicativos de tradução simultânea em computadores e telefones celulares permitirá que bilhões de pessoas se entendam – sem jamais ter de abandonar a própria língua.

Por trás do Google Tradutor está o conhecimento acumulado em inteligência artificial (I.A.), ramo da computação que se dedica ao desenvolvimento de modelos e programas que produzem nas máquinas um comportamento "inteligente". Nascida nos anos 40, a área produziu experimentos famosos como o robô Eliza, software que simulava diálogos reais na década de 60, e o supercomputador Deep Blue, da IBM, que em 1997 derrotou o campeão russo Garry Kasparov em uma partida de xadrez. O "cérebro" da máquina podia analisar cerca de 200.milhões de jogadas por segundo na busca do xeque-mate. O primeiro estágio da tradução universal – a de textos – já atingiu na internet um nível que linguistas e especialistas em inteligência artificial classificam como avançado. Isso quer dizer que, embora os erros de tradução da ferramenta sejam perceptíveis, os textos que ela apresenta permitem a compreensão do assunto de que eles tratam.

O funcionamento do tradutor do Google remete à Pedra de Roseta, o bloco de granito de 1,20 metro de altura que foi encontrado pelo exército de Napoleão, no século XVIII, e serviu de chave para a decifração dos hieróglifos egípcios. A Pedra traz inscrições de um mesmo texto na antiga língua do Egito e em grego. No século XIX, coube aos estudiosos Thomas Young e Jean-François Champollion relacionar os termos dos dois idiomas para desvendar a língua dos faraós. De forma análoga, os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra (confira o funcionamento). Com base nesses cálculos, o sistema é capaz de, em menos de um segundo, montar textos em 52 línguas, cada vez que um usuário o requisita.

O tradutor do Google está à frente dos rivais. Em pesquisas patrocinadas pelo governo americano, ele supera com frequência ferramentas de outras empresas e universidades. "Ele também é reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais", diz David Yarowsky, professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Isso significa sobrepujar os rivais Bing Translator, da Microsoft, e Babel Fish, do Yahoo!. "Hoje, a potência da ferramenta está relacionada ao tamanho de seu banco de dados. E também ao uso de supercomputadores, com sua imensa capacidade de processar informações", explica Helena Caseli, pesquisadora do Laboratório de Linguística Computacional da Universidade Federal de São Carlos. Se são esses os fatores determinantes, é certo que o tradutor vai evoluir. O aumento na capacidade de processar informações dos supercomputadores é garantido pela Lei de Moore – que postula que a capacidade dos chips dobra a cada 24 meses. O banco de dados do Google também cresce continuamente. Ele começou a ser formado em 2006, com textos oficiais da ONU vertidos para seis idiomas. Em seguida, a empresa recorreu a documentos bilíngues de arquivos públicos. Finalmente, mergulhou na internet. Hoje, seus próprios usuários ajudam a ampliar o banco de dados sugerindo traduções alternativas àquelas que lhes são apresentadas. "Há, no entanto, certo limite para essa abordagem", diz Miles Osborne, pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que trabalhou no projeto do Google. É por isso que vem sendo estudada a inclusão de regras gramaticais no programa: além dos algoritmos, ele usaria essas regras para compor textos mais fluentes. Hoje, as traduções invariavelmente contêm tropeços de gramática. Assim mesmo, quem se detém em uma página estrangeira, esteja ela escrita em mandarim, africânder, vietnamita, japonês ou hindi, já sabe ao menos sobre o que se fala ali. "Há cinco anos, isso era impossível. Daqui a cinco anos, teremos mais fluência", afirma David Yarowsky.

À medida que os tradutores avançarem, seus impactos deverão se espalhar pelas mais variadas áreas. No campo acadêmico, por exemplo, o avanço será dramático. "Em algumas áreas, como ciência e tecnologia, as versões automáticas poderão ser até melhores do que as feitas por humanos, pois, para nós, é muito difícil guardar detalhes de temas específicos", diz Yarowsky. Considere-se que atualmente, nos campos de ciências, tecnologia, finanças e administração, 90% do conteúdo de alta qualidade está em inglês, e a importância dos tradutores automáticos para milhões de estudantes e profissionais ao redor do mundo se torna clara. Yarowsky também aponta frutos na economia: "Será mais fácil vender produtos e serviços ao exterior, com a eliminação de custos com tradução de manuais técnicos, material promocional e e-mails". Atualmente, turistas já se beneficiam da tecnologia na hora de escolher destinos de viagem sem levar em conta a língua local, uma vez que ferramentas como a do Google estão disponíveis em celulares. Há outros dispositivos portáteis que fazem a conversão voz-texto ou texto-voz. Soldados americanos enviados ao Afeganistão já testaram tal aparelho, que dispara mensagens sonoras escolhidas pelos militares na língua local. "É a chance de pessoas de todas as partes do mundo saberem o que as demais pensam. Assim, suas diferenças podem ser minimizadas", diz Yarowsky. "Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber." O Google já colocou seu arsenal também à disposição de outras ferramentas. Além de verter páginas da web, seu know-how na área traduz documentos apresentados por usuários, chats de texto via Google Talk e até converte legendas de vídeos no YouTube. Para conectar línguas e mentes via celular, precisará agregar ao sistema o reconhecimento de voz, desenvolvido por várias empresas ao redor do mundo. "A tradução voz a voz é incrível, e nós adoraríamos realizá-la", reconhece Nate Tyler, relações-públicas do Google internacional. É mais do que isso. E, embora a empresa tente despistar, o mercado espera dela a ferramenta para a próxima década.

Laílson Santos

Laura Guzman
A americana de 20 anos está há quatro meses em São Paulo, onde realiza um intercâmbio universitário. Ela recorre ao tradutor automático para dirimir dúvidas na hora de escrever e ler artigos extensos em português

"Eu me sinto segura para usar o idioma, mas vez ou outra as dúvidas aparecem"

A linguagem cotidiana já começa a ser desbravada pelos tradutores automáticos. A frase "Cê vai lá né?", por exemplo, recebe uma tradução bastante adequada no Google Tradutor: "You going there right?". A própria empresa reconhece, contudo, que sua máquina tem um limite claro: a literatura, sobretudo aquela que subverte a gramática e abusa da ironia, fazendo com que uma mesma palavra possa ter vários significados. "Se você tentar traduzir poesia pelo sistema, vai receber um novo tipo de poesia", brincou, durante uma apresentação, o pai da ferramenta do Google, o alemão Franz Josef Och. Mas isso não é demérito nenhum. Há uma infinidade de estudos literários que falam da "impossibilidade da tradução" – ou que, ao menos, lembram o velho adágio "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor"). "Não existe efetivamente tradução perfeita entre línguas. Cada uma delas tem estrutura e recursos idiomáticos próprios, intraduzíveis. Você pode convertê-los em termos semânticos, mas não analíticos", diz Jacó Guinzburg, tradutor de francês, inglês, alemão, iídiche e hebraico. "Mas é claro que existem alguns trabalhos excelentes. É o caso da versão de As Minas do Rei Salomão feita por Eça de Queiroz: em inglês, é uma obra de segunda, mas se tornou primorosa em português."

Com o avanço dos sistemas de tradução de línguas por computador, a exigência de aprender um idioma estrangeiro poderá ser abalada. Estudo da empresa de RH Catho Online mostra que o salário médio do brasileiro que domina o inglês e o espanhol é em média 125% superior ao de trabalhadores que não falam esses idiomas. Mas, se a tecnologia evoluir como se espera, a questão terá de ser revista: valerá a pena investir mais de 50 000 reais, custo de um curso completo de inglês de primeiro nível, se em tese for possível contar com as máquinas? "Quando têm a oportunidade de escolha, as pessoas preferem se expressar no idioma materno", diz o linguista britânico David Crystal, estudioso das relações entre língua e internet. "A eficiência dos sistemas de tradução poderá provocar certo desinteresse pelo aprendizado de idiomas estrangeiros." Mas seria um erro abandonar de vez o hábito de aprender línguas. O italiano Luciano Floridi, filósofo da informação, lembra que conhecer um idioma é uma experiência insubstituível, um mergulho em outra cultura. "Há palavras intraduzíveis: se você quer falar sobre saudade, tem de usar o português", exemplifica. Isso, contudo, não demove o filósofo da posição de entusiasta da tradução digital, que para ele ocorrerá em um regime de perdas e ganhos. "Imagine que eu nunca tenha ido ao Brasil e certo dia vá a um restaurante típico em Londres: a receita é brasileira, mas a linguiça é inglesa. Ou seja, não é o mesmo que ir ao Brasil, mas é melhor do que nada."

Bruno Magalhaes/Nitro

Felipe Carvalho Zulato
Navegar pelas redes sociais é tarefa do relações-públicas de 23 anos, que vive em Belo Horizonte. Antes de descobrir o tradutor, conferir as páginas de sites japoneses era frustrante

"As traduções ainda pecam na concordância, mas ao menos me permitem avançar no trabalho"

Se tivessem surgido mais cedo, como ansiava o homem desde o princípio, as ferramentas de tradução automática bem poderiam ter sido de grande ajuda em momentos cruciais da história. Durante a Batalha de Cajamarca pela conquista do Peru, em 1532, coube a um jovem nativo chamado Felipillo mediar o encontro entre os espanhóis, comandados por Francisco Pizarro, e os incas. Por má-fé ou não do tradutor, o rei Atahualpa foi levado a entender que os espanhóis queriam lhe impingir a condição de vassalo do rei espanhol. A negociação foi um fracasso e precipitou a guerra, ocaso inca. Quatro séculos depois, outro entrevero. Em 26 de julho de 1945, as forças aliadas apresentaram a Declaração de Potsdam, um ultimato que dava a Tóquio duas alternativas: rendição incondicional ou destruição total. Dois dias depois, o primeiro-ministro Suzuki Kantaro disse aos jornais de seu país que a declaração não tinha "nenhum valor", acrescentando à frase seguinte o termo mokusatsu – que pode assumir os significados distintos de "ignorar" ou "silêncio". O jornal The New York Times estampou em sua primeira página: "Japão rejeita ultimato aliado de rendição". Tradutores afirmariam mais tarde que melhor seria dizer que os japoneses "silenciaram". As bombas atômicas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki sete e dez dias depois, respectivamente. Há dúvidas sobre o efeito que outras traduções poderiam exercer nos dois episódios. Mas o fantasma da diferença linguística perpassa a história. Agora, com os tradutores automáticos, o homem tem a chance de derrubar, com a ajuda da tecnologia, a barreira que Deus, segundo a tradição bíblica, ergueu com a Torre de Babel.



Ana Rojas

Nicholas Ostler
O especialista britânico em história das línguas enxerga no tradutor do Google um aprimoramento da globalização, com novas oportunidades para o indivíduo.
E sentencia: o inglês será a última língua franca

"As pessoas se darão ao luxo de falar com outras culturas usando o próprio idioma"



Peter Dasilva/The New York Times

Franz Josef Och
O alemão que chefia o time de tradução do Google, diante da Pedra de Roseta, que no século XIX ajudou a decifrar os hieróglifos egípcios e serve de modelo ao sistema automático do gigante de buscas. O tradutor moderno alia números e palavras, matemática e linguística para converter idiomas

"No futuro, teremos muito mais. A máquina será capaz de quebrar barreiras, levando a informação aonde quer que as pessoas precisem dela"


Lia Lubambo

David Yarowsky
O professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins aposta no poder de aproximar pessoas da ferramenta de tradução. A cada língua colocada à disposição na internet, surgem chances de aumentar a troca de ideias e diminuir as diferenças culturais

"Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber"


Suzete Sandin /Tempo Editorial

Vinício Fornasari
Aos 52 anos, o empresário da construção civil usa o Google Tradutor a partir de Florianópolis para checar minúcias de contratos firmados com companhias da China, Japão e Turquia, além de prospectar oportunidades pela internet

"A ferramenta tem ajudado muito nas negociações"


A ficção chegou primeiro

A literatura e o cinema inventaram dispositivos – ou geringonças – capazes
de simular a comunicação entre línguas muito antes dos tradutores automáticos

Babel fish
Colocado no ouvido, o peixe de O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70, absorve energia mental e libera ondas telepáticas: assim, é claro, o tímpano do anfitrião entende qualquer língua.


Divulgação
Tradutor Universal
O dispositivo da saga Jornada nas Estrelas, que surgiu nos anos 60, foi uma espécie de precursor do modelo do Google: usa cálculos e recorre a um banco de dados para comparar idiomas. Uma diferença: pode ler ondas cerebrais.


The Pictre Desk
Robô C-3PO
O androide medroso e falador de Star Wars, criado por George Lucas nos anos 70, é o tradutor mais culto da ficção: é fluente em 6 milhões de idiomas. E ainda pertence ao grupo de robôs diplomáticos.

Com reportagem de Daniel Jelin, Manuela Franceschini e Nathalia Goulart

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