Saturday, April 10, 2010

Entrevista: James Cameron


O visionário de Avatar

O cineasta diz que a sequência do filme de maior faturamento
da história mostrará a necessidade de encontrar um equilíbrio
entre desenvolvimento e meio ambiente


Diogo Schelp

Ethan Miller/Getty Images
"Avatar 2 e Avatar 3 precisam responder: a humanidade pode ser salva? Os Na’vi podem ter uma mensagem de esperança para nós?"


O cineasta canadense James Cameron, de 55 anos, é o criador de alguns dos maiores sucessos do cinema, como O Exterminador do Futuro, Aliens, Titanic e, recentemente, Avatar, uma produção de mais de 300 milhões de dólares que ultrapassou a marca de 2 bilhões de dólares de faturamento em venda de ingressos. Cameron planeja dar sequência a Avatar. Profeta da tecnologia aplicada ao cinema e dono de um dom quase infalível para saber o que fará sucesso entre os espectadores, Cameron também tenta ser um visionário do meio ambiente. Ele esteve no mês passado no Brasil para participar, em Manaus, do Fórum Internacional de Sustentabilidade, realizado pela Seminars e promovido pelo Lide. Aproveitou a ocasião para sobrevoar pela primeira vez a Floresta Amazônica e conhecer a região onde será construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. Após a visita, decidiu organizar uma campanha internacional contra a usina. Cameron concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Qual foi sua motivação para filmar Avatar?
O filme surgiu da minha necessidade de dizer algo sobre como a destruição da natureza ameaça o mundo. Gosto de comparar a questão ambiental com o naufrágio do Titanic. Quando foi dado o aviso de que havia um iceberg na rota do navio, não dava mais tempo de desviar. O impacto ocorreu noventa segundos após o sino de alerta ter sido tocado. A questão é: o mundo já se encontra no estágio em que nada mais pode ser feito para evitar o desastre ambiental? Ou estamos em um momento anterior, em que ainda dá tempo de reduzir o ritmo de poluição e de destruição para evitar o pior? Avatar é a minha maneira, como artista e cineasta, de tocar o sino de alerta. Uma das imagens recorrentes em Avatar é a dos personagens abrindo os olhos. Há sempre alguém acordando no filme. A mensagem subliminar é que a sociedade precisa acordar para os problemas ambientais e lidar com eles.

Avatar valoriza experiências sensoriais como entrar em uma floresta cheia de flores coloridas ou sentir a terra sob os pés nus. A humanidade esqueceu como apreciar essas sensações?
Sim. As pessoas estão se afastando não apenas da natureza, mas do contato humano. Os jovens têm as suas interações sociais on-line, em vez de pessoalmente. As aventuras acontecem em jogos de computador, não mais fora de casa. A interação com a realidade, com outras pessoas e com a natureza está diminuindo. A tecnologia permite isso.

O senhor, contudo, é o diretor de cinema que mais usa tecnologia no mundo. Como explicar esse paradoxo?
De fato, é um paradoxo. Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com a tecnologia. Durante as filmagens de Avatar, os atores tiveram de entrar em contato com o lado mais primitivo de si próprios e, ao mesmo tempo, atuar nas condições mais high-tech possíveis. Para dar uma ideia da tecnologia envolvida, este foi o primeiro filme a demandar uma memória de 1 petabyte (1 milhão de gigabytes) para ser armazenado. Para processar as imagens digitais, na Nova Zelândia, tivemos de desenvolver o computador mais potente do Hemisfério Sul. Ou seja, não podemos ser ludistas e afirmar que toda tecnologia é ruim. A solução para salvar nosso planeta também passapelo uso da tecnologia. Por isso, penso que, antes de construir uma hidrelétrica como a de Belo Monte, no Pará, por exemplo, o governo brasileiro poderia buscar outras saídas para atender à necessidade de energia do país. Todo projeto de represa com um impacto negativo sobre os moradores da região deveria ser evitado. A alternativa, no nível nacional, pode ser aumentar a eficiência no uso de energia nas cidades.

Na construção de um projeto como o de Belo Monte há duas forças legítimas em conflito: o desenvolvimento econômico e a defesa do ambiente.É possível conciliar os dois, desde que se encontre um meio-termo. Em Avatar não existe o meio-termo. Por quê?
A explicação é simples: a solução moderada provavelmente não é a melhor solução. Imagine um caçador sufocando um animal aos poucos. Ele aperta o seu pescoço, depois solta só um pouquinho – e assim sucessivamente até que o animal para de respirar. Quando a civilização bate de frente com a natureza, não dá para ter meio-termo. Ou o governo constrói a represa de Belo Monte, ou não a constrói.

Em Avatar 2, o meio-termo entre economia e meio ambiente será encontrado?
Sim. O próximo filme não deverá ser tão preto no branco quanto o primeiro. Durante uma projeção de Avatar no Equador, a anciã de uma tribo indígena criticou o filme por escolher a violência como solução para o conflito ambiental. Por isso, pretendo mostrar, na continuação da obra, que as partes têm de chegar a um acordo. Outras questões a que Avatar 2 e, talvez, Avatar 3 precisam responder: a humanidade pode ser salva? O modo de vida dos Na’vi (o povo azul que habita Pandora, a lua fictícia do filme) pode transformar o planeta Terraou estamos condenados? Os seres humanos serão capazes de absorver as ideias poderosas de Pandora e aplicá-las à própria vida, de maneira a recuperar tudo o que perderam? Em outras palavras, os Na’vi podem ter uma mensagem de esperança para nós, terráqueos? O primeiro Avatar é apenas o tiro inaugural de uma gigantesca batalha de ideias e civilizações.

O que mais haverá de novidade no próximo filme?
Ele se passará parte em terra, parte em um ambiente subaquático, em um oceano.

O senhor já comparou os índios brasileiros aos Na’vi, que, na ficção, vivem em perfeita harmonia com a natureza. A analogia não é exagerada?
Eu acredito que os índios vivem em harmonia com a natureza, mas não naquela linha romântica do bom selvagem. A relação dos povos indígenas com a floresta é de vida ou morte. Podemos aprender com eles, no entanto, a compreensão intuitiva que têm do meio ambiente. Trata-se de uma sabedoria desenvolvida ao longo de milhares de anos. Os índios sabem que plantas podem ser úteis e quais devem evitar. Eles vivem firmemente conectados ao seu mundo. Não estou falando de energia de cristais ou outras bobagens new wave, mas de conhecimentos práticos sobre a natureza que os índios adquiriram e que a ciência levaria 150 anos para descobrir.

O senhor sobrevoou a Floresta Amazônica. Consegue se imaginar rodando um filme naquele lugar?
Com certeza. Eu adoro desafios e acho que fazer um filme em um ambiente como esse é tecnicamente desafiante. Para capturar a beleza e a essência da realidade da floresta, as nossas câmeras 3D em alta definição são perfeitas. Sempre que vejo algo de que gosto, quero filmar em 3D. Eu já fiz inúmeros filmes sob a água, como os documentários sobre os destroços do Titanic e do Bismarck (navio alemão da II Guerra Mundial). Consegui registrar imagens espetaculares de ambientes muito hostis, por isso não vejo a hora de fazer o mesmo na Amazônia. Esse projeto, no entanto, não precisa ter relação direta com uma continuação de Avatar. Penso apenas em fazer um documentário complementar à história de ficção.

Com todos os efeitos especiais disponíveis, faz sentido filmar na floresta?
Eu já provei que não. Em Avatar, criamos do zero uma floresta tropical extraterrestre com todos os detalhes: as gotas de água sobre as folhas, as plantas e até os insetos. Tudo o que se vê ali jamais existiu fisicamente. A única filmagem de floresta real que fizemos serviu somente como referência, nem sequer foi usada no produto final. Apenas levamos os atores para o Havaí para andar pela floresta e fazer alguns exercícios de interpretação. Dessa forma, quando eles voltaram para o ambiente vazio e asséptico do estúdio, sabiam se movimentar como se estivessem em uma mata fechada. Avatar foi feito desse modo porque uma superprodução em uma floresta de verdade causaria grande impacto ambiental e também porque queríamos criar uma paisagem extraterrestre totalmente diferente de tudo o que conhecemos.

Qual é a sua participação no projeto da Nasa para explorar Marte?
Pertenço à equipe da Nasa responsável por desenvolver a câmera que será os olhos de um laboratório de 3 bilhões de dólares a ser instalado em Marte, em 2011. Nossa câmera será 3D. Ou seja, eu vou rodar um filme em três dimensões em Marte, sem efeitos especiais. Isso é incrível. Adoro desenvolver equipamentos robóticos, câmeras, veículos submersíveis. Essa é minha outra vida, paralela à de cineasta.

Como o senhor influencia nas invenções?
Funciona assim: eu estudo um problema e aprendo o suficiente para imaginar uma solução. Não tenho conhecimento técnico para saber que material deve ser usado ou para desenhar o
circuito elétrico, mas eu consigo imaginar o que é preciso fazer. Geralmente há uma lacuna entre o que eu quero e a tecnologia existente. Então eu reúno os engenheiros e proponho uma saída. Às vezes minhas ideias estão corretas, outras vezes minha equipe encontra uma solução ainda melhor. Minha função é desafiá-los a ir além do que já foi feito antes. Isso vale tanto para a invenção de um veículo submersível para chegar às profundezas do oceano quanto para desenvolver um sistema de câmera 3D para um filme. Ou, no caso de Avatar, para o sistema de captura do desempenho dos atores, que eu imaginei claramente quinze anos atrás. Ao criar o desafio, outras pessoas foram capazes de resolvê-lo. Eu sou um generalista.

O futuro da indústria cinematográfica é o 3D?
Com certeza. Nos anos 40, as pessoas discutiam se um dia todos os filmes seriam coloridos. Historicamente, o cinema evoluiu no sentido de estar mais e mais próximo da maneira como experimentamos as sensações. Os primeiros filmes eram mudos e em preto e branco. A não ser que a pessoa seja cega para cores e surda, não é assim que ela percebe a realidade. Pois bem, se nós vemos o mundo em três dimensões, por que os filmes têm de ser planos? É simples assim.

As televisões também serão 3D?
Sim. Inclusive, minha equipe já fez versões da câmera 3D de Avatar que podem ser usadas em programas televisivos, como eventos esportivos. Em breve teremos uma Copa do Mundo transmitida ao vivo e em três dimensões. Mas há uma diferença essencial entre a experiência 3D no cinema e em casa. No nosso lar há um sofá, uma mesa, e do outro lado da sala está a TV. A área do campo de visão preenchida pela TV é pequena. No cinema, é trinta vezes maior. Por isso, o efeito na TV nunca vai ser o mesmo.

Como foi perder o Oscar de melhor filme para Guerra ao Terror, um filme muito mais barato que o seu e ainda por cima dirigido por sua ex-mulher, Kathryn Bigelow?
Pessoalmente, tive sentimentos contraditórios. Senti alegria e tristeza pela escolha do prêmio. Eu estava desapontado pela equipe do filme, que tinha uma grande expectativa em relação ao prêmio. Por outro lado, Kathryn e eu somos amigos e colaboradores há muito tempo. Emocionalmente, significou muito para mim vê-la ganhar. É a primeira vez que uma mulher ganha como melhor diretora. Foi ótimo que tenha sido ela. Dito isso, os dois filmes abordam de maneira bastante diferente uma questão política: a guerra no Iraque. Avatar tem uma mensagem clara contra o uso militar para fins imperialistas. Não está certo enviar soldados para matar iraquianos a torto e a direito apenas para garantir o fornecimento de petróleo. O filme de Kathryn não discute isso, mas mostra o trauma psicológico que a guerra causa nos soldados. Um grande fator que levou Avatar a perder o Oscar é o fato de o filme ser tão deslumbrante visualmente que os membros da Academia não deram muito crédito à históri

Lya Luft Os filhos do lixo


"Gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas
e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo.
Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha
de lixo. Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso"


Há quem diga que dou esperança; há quem proteste que sou pessimista. Eu digo que os maiores otimistas são aqueles que, apesar do que vivem ou observam, continuam apostando na vida, trabalhando, cultivando afetos e tendo projetos. Às vezes, porém, escrevo com dor. Como hoje.

Acabo de assistir a uma reportagem sobre crianças do Brasil que vivem do lixo. Digamos que são o lixo deste país, e nós permitimos ou criamos isso. Eu mesma já vi com estes olhos gente morando junto de lixões, e crianças disputando com urubus pedaços de comida estragada para matar a fome.

A reportagem era uma história de terror – mas verdadeira, nossa, deste país. Uma jovem de menos de 20 anos trazia numa carretinha feita de madeiras velhas seus três filhos, de 4, 2 e 1 ano. Chegavam ao lixão, e a maiorzinha, já treinada, saía a catar coisas úteis, sobretudo comida. Logo estavam os três comendo, e a mãe, indagada, explicou com simplicidade: "A gente tem de sobreviver, né?".

O relato dessa quase adolescente e o de outras eram parecidos: todas com filhos pequenos, duas novamente grávidas e, como diziam, vivendo a sua sina – como sua mãe, e sua avó, antes delas. Uma chorou, dizendo que tinha estudado até a 8ª série, mas então precisou ajudar em casa e foi catar lixo, como outras mulheres da família. "Minha sina", repetiu, e olhou a filha que amamentava. "E essa aí?", perguntou a jornalista. "Essa aí, bom, depende, tomara que não, mas Deus é quem sabe. Se Ele quiser..."

Os diálogos foram mais ou menos assim; repito de memória, não gravei. Mas gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo. Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha de lixo. Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso.

Não sei como é possível alguém dizer que este país vai bem enquanto esses fatos, e outros semelhantes, acontecem. Pois, sendo na nossa pátria, não importa em que recanto for, tudo nos diz respeito, como nos dizem respeito a malandragem e a roubalheira, a mentira e a impunidade e o falso ufanismo. Ouvimos a toda hora que nunca o país esteve tão bem. Até que em algumas coisas, talvez muitas, melhoramos. Temos vacinas. Existem hospitais e ensino públicos – ainda que atrasados e ruins. Temos alguns benefícios, como aposentadoria – embora miserável –, e estabilidade econômica aparente. Andamos um pouco mais bem equipados do que 100 anos atrás.

Mas quem somos, afinal? Que país somos, que gente nos tornamos, se vemos tudo isso e continuamos comendo, bebendo, trabalhando e estudando como se nem fosse conosco? Deve ser o nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo esse lixo moral e fingindo que está tudo bem. Pois, se nos convencermos de que isso acontece no nosso meio, no nosso país, talvez na nossa cidade, e nos sentirmos parte disso, responsáveis por isso, o que se poderia fazer?

Pelo menos, reclamar. Achar que nem tudo está maravilhoso. Procurar eleger pessoas de bem, interessadas, que cuidassem dos lixões, dos pobrezinhos, da saúde pública, dos leitos que faltam aos milhares, dos colégios desprovidos, de tudo isso que cansativa mas incansavelmente tantos de nós têm dito e escrito. Que pelo menos a gente saiba e, em vez de disfarçar, espalhe. Não para criar hostilidade e desordem, mas para mudar um pouquinho essa mentalidade. Nunca mais crianças brasileiras sendo filhas do lixo, nem mães dizendo que aquela é a sua sina, porque Deus quer assim.

Deus não quer assim. Os deuses não inventaram a indiferença, a crueldade, o mal causado pelo homem. Nem mandaram desviar o olhar para não ver o menino metendo avidamente na boca restos de um bolo mofado, talvez sua única refeição do dia. E, naquele instante, a câmera captou sua irmãzinha num grande sorriso inocente atrás de um par de óculos cor-de-rosa que acabara de encontrar: e assim se iluminou por um breve instante aquela imensa, trágica realidade.

Radar


Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Eleições 2010

Dida Samapio/AE

Conselho
Dilma: tentando diminuir o risco de uma gafe

Aprendiz de candidata
Com preocupação, mais de um integrante da cúpula de campanha deDilma Rousseff lhe deu o mesmo conselho depois de sua primeira semana expondo-se como candidata sem o colo largo de Lula: diante dos repórteres que a bombardeiam com perguntas no início e no fim dos eventos de que tem participado, a melhor postura é dar respostas curtas, menos prolixas. A avaliação é que Dilma tem se exposto demais nessas ocasiões, falando muito e, portanto, aumentando o risco de dizer o que não deve.

Brasil

Rafale esbanja confiança
A certeza dos franceses de vencer a bilionária licitação para a compra de 36 caças pelo governo Lula é tamanha que eles publicaram um anúncio autocongratulatório de página inteira na últimaRevista Forças Armadas, editada pelo Ministério da Defesa. Diz o anúncio: "A tecnologia do Rafale vai invadir os hangares do Brasil". E, afagando Lula, completa: "Com o Rafale, quem ganha é a soberania nacional".

Câmara

De olho em 2011
O líder do governo, o petista Cândido Vaccarezza, e o do PMDB, Henrique Eduardo Alves, já estão em campanha aberta para suceder a Michel Temer na presidência da Câmara, em 2011. Ambos vêm amaciando o coração dos deputados. Nenhum deles, por exemplo, quis assinar a urgência que permitiria o avanço do projeto dos fichas-limpas.

Bancos

1 bilhão de reais
Depois de dois adiamentos, o Banco do Brasil deve anunciar na segunda-feira a criação de um fundo de 1 bilhão de reais para investimentos nos setores de óleo e gás. Seis gestores se habilitaram para administrar esse bilhão. Depois de muita divergência entre os técnicos e a diretoria, foi vencedora a proposta da Fiducia Investimentos e BDO, cujo conselho consultivo é presidido por Antoninho Trevisan.

Economia

Invasão brasileira
É composta de 5 000 pessoas a comitiva brasileira que desembarca na quarta-feira na abertura do Salão do Móvel de Milão, uma das maiores feiras do mundo do setor. São arquitetos, decoradores, lojistas, exportadores. Nenhum país está mandando tanta gente para o salão.

Céu azul
A Odebrecht acaba de acrescentar à sua frota de aviões um Falcon 2000 EX, jato intercontinental para oito passageiros que custa 28 milhões de dólares.

Internet

O preço do gadget
Pelos cálculos da Apple, o iPad será vendido no Brasil por cerca de 2 500 reais. Mas, na prática, deverá sair mais barato. Isso depende do plano (ou seja, do subsídio) oferecido pelas operadoras de telefonia. O preço do iPad básico deve então variar entre 1 500 e 2 000 reais.

Televisão

Pobre África
A TV Brasil, rejeitada por 99% dos telespectadores brasileiros, vai tentar agora ser vista pelos africanos. A EBC, que controla a TV Brasil, fechou um contrato com a MultiChoice Africa para distribuir o sinal da emissora de Lula a 49 países africanos.

Copa do Mundo

Seis vezes mais
Faltam quatro anos para a Copa de 2014 e a CBF já levantou 240 milhões de dólares em patrocínios para o evento. Dinheiro que vem da Oi, Itaú, Marfrig (Seara) e Nestlé. Em compensação, a Copa da África do Sul só conseguiu até agora 40 milhões de dólares.

Estilo bedel
O técnico Dunga liberou o uso do Twitter durante a Copa da África do Sul. Mas, bem ao seu estilo, tascou uma proibição: não é permitida nenhuma referência ao futebol, à seleção, à Copa, aos adversários...

Andre Penner/AE

Futebol, não
Dunga: marcando em cima o Twitter
dos jogadores da seleção

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Um presente para Sarney

Charles Silva dDuarte/O Tempo/AE

Um dos últimos atos de Hélio Costa como ministro das Comunicações foi um presente para José Sarney. Costa assinou uma portaria que, na prática, amplia o poder de alcance do império televisivo da família Sarney. A rede Mirante, repetidora da Globo no Maranhão, presidida por Fernando Sarney, poderá agora ceder sua programação para ser retransmitida integralmente por uma TV de Pinheiro, a cidade natal do patriarca.

Concessão
Costa: agora, a terra natal de Sarney pode ver
a programação integral da Mirante

Gustavo Ioschpe


Brasil: a primeira potência de semiletrados?

"Apesar do oba-oba, o Brasil está próximo de ser um
colosso econômico e esquecer a formação de sua gente"

Fabiano Accorsi
QUALIFICAÇÃO TECNOLÓGICA
Ela é crucial para que o Brasil possa mesmo ser uma real potência econômica


Quando voltei ao Brasil, depois de anos no exterior, queria montar meu escritório rapidamente. Contratei, então, um desses serviços de secretariado virtual para me ajudar enquanto iniciava o processo de busca por uma equipe permanente. Notei que a secretária virtual não era um gênio, mas achei que quebraria o galho. Certo dia, mandei um e-mail a ela pedindo que me conseguisse a informação de contato do cônsul brasileiro em Houston (EUA). Informação encontrável na internet em poucos minutos. Passaram-se cinco minutos, cinco horas, e nada.

Três dias depois, recebi um e-mail da fulana: "Sr. Gustavo, procurei na Cônsul e até na Brastemp, mas ninguém conhece esse tal de Houston". Pensei que fosse piada. Reli. Não era. Para quem havia ficado alguns anos construindo teses acadêmicas sobre a importância da educação para o desenvolvimento das nações, através do seu impacto na produtividade de uma população, estava ali o exemplo pronto e acabado de como é difícil produzir algo quando a ignorância campeia à volta. É assim para uma pessoa, uma empresa e um país.

Os economistas Gustav Ranis, Frances Stewart e Alejandro Ramirez ilustraram essa relação de forma clara. Analisaram 76 países durante um período de 32 anos. Dividiram-nos de acordo com dois critérios: crescimento econômico e desenvolvimento humano (nesse caso, medido através de uma combinação de indicadores de educação e saúde). Usando essas duas dimensões, você pode ter duas situações de equilíbrio (quando o lado humano e o econômico são igualmente altos ou baixos) e duas de desequilíbrio (quando o humano é alto e o econômico baixo, e vice-versa). Surgem algumas conclusões interessantes desse estudo.

A primeira é que as situações de desequilíbrio duram pouco. Se um país tem muito crescimento econômico e pouco capital humano (CH), ele tende a parar de crescer (caso, sim, do Brasil nas décadas de 60 e 70) ou a aumentar seu lado humano.

A segunda: é muito difícil sair de uma situação de equilíbrio negativo: mais da metade dos países que tinham baixo crescimento e baixo CH em 1960 permanecia empacada na mesma posição na década de 90.

A terceira é que o crescimento econômico, quando desacompanhado de evolução do lado humano, dura pouco: de todos os países que tinham alto crescimento econômico e baixo CH no início do período, nenhum conseguiu chegar ao equilíbrio em alto nível. Todos, sem exceção, terminaram o período com baixo crescimento e baixo CH.

A quarta, e mais importante, é que a estratégia de privilegiar o lado humano dá frutos muito melhores do que aquela que enfatiza só o lado econômico: dos países que começaram o período com alto CH e baixo crescimento econômico, um terço chegou ao nirvana da alta renda e alto nível humano; um terço continuou com um lado mais desenvolvido que o outro, e apenas um terço regrediu para o fim trágico do baixo crescimento e baixo CH.

O resumo da ópera é o seguinte: é muito difícil passar de uma situação de subdesenvolvimento e chegar ao chamado Primeiro Mundo. Mas, se o período 1960-92 servir de guia, das duas estratégias possíveis – privilegiar o crescimento econômico versus privilegiar o crescimento humano –, a primeira se mostrou um fracasso total, e só através da segunda é que um terço dos países chegou ao objetivo desejado.

Esse aprendizado é, hoje, especialmente importante para o Brasil. Apesar de todo o oba-oba com o país nas capas de revistas e jornais estrangeiros, o Brasil está, na verdade, perigosamente próximo de repetir a trajetória do fim da década de 60: ser um colosso em termos de crescimento econômico e esquecer a formação de sua gente. Essa estratégia tem destino certo: a falta de pessoas qualificadas faz com que o processo emperre e o crescimento acabe. Temo, inclusive, que seja tarde demais para evitar parte desse enredo: várias indústrias, especialmente as ligadas à engenharia, já têm seu crescimento cerceado pela impossibilidade de encontrar gente qualificada. O problema será muito pior nos próximos vinte anos, à medida que a demanda por pessoas qualificadas for aumentando e as escolas continuarem formando incompetentes.

Há três diferenças importantes entre o momento atual do Brasil e aquele da época do milagre econômico.

A primeira é que o atraso educacional brasileiro em relação aos países desenvolvidos aumentou consideravelmente. Há trinta anos, o ensino superior era um nível para poucos, mesmo nos países mais ricos. Levantamento feito em 2000 mostrou que a porcentagem de adultos com diploma universitário no Brasil era bastante parecida com a de outros países – 1 ou 2 pontos porcentuais abaixo de Chile e Argentina e 3 a 4 pontos abaixo de Itália e França, por exemplo. Quando se olha para a taxa de matrícula atual do ensino universitário, porém, nota-se que o Brasil tem uma diferença de 20 pontos porcentuais para nossos vizinhos latino-americanos e de 40 ou mais pontos para os países desenvolvidos. A maioria dos brasileiros não se dá conta de quão ruim é a educação nacional. Uma pesquisa de 2009 sobre alfabetização, feita pelo Instituto Paulo Montenegro, mostrou que apenas 25% da população adulta brasileira é plenamente alfabetizada. Deixe-me repetir: só um quarto dos brasileiros conseguiria ler e entender um texto como este. Nenhum país jamais se tornou potência com uma população de semianalfabetos. É improvável que o Brasil seja o primeiro, mesmo com todos os recursos naturais de que dispomos.

Segunda diferença: nos anos 60/70, pouquíssimo se falava sobre educação. Hoje, a questão está em pauta. O diacho é que a maior parte do discurso ainda é pré-científica (ou anticientífica) e continua insistindo em teses furadas e demagógicas: que o Brasil investe pouco e que o principal problema é o salário do professor.

A terceira e última é que naquela época éramos uma ditadura inserida no polo pró-americano em um contexto de Guerra Fria, e hoje somos uma democracia altiva em um mundo multipolar. Se então nossos males nos eram impostos por um regime autocrático, hoje temos liberdade e responsabilidade por nossos destinos. Os problemas e os erros são todos nossos, e as soluções também terão de ser.

J. R. Guzzo Em modo extremo


"Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou
convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado
o tempo todo a continuar errando"

O brasileiro comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos os dias, nas esferas mais altas do governo – a começar pela esfera mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando. A conta, como de costume, é paga pelo público em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo, que ele tem sempre razão, seja lá no que for?

O presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou "Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos" de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo – como concordar com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor no governo.

Até algum tempo atrás, com seus índices de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil. "Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo", disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio, que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando muito natural essa possibilidade.

É óbvio que não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência" tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã, rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas palavras no emprego – o índice de mortalidade na carreira é altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda. O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica, são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais, confia demais nas pessoas, e por aí afora.

O problema, nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei 2 t000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso Mestre"...

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JOGO DE MENTIRAS
(Don McKay, Estados Unidos, 2010. Califórnia)
• Zelador de uma escola há mais de vinte anos, Don McKay (Thomas Haden Church) é um desses sujeitos tristes cuja vida não chegou a lugar nenhum - o que deixa de parecer tão ruim assim em vista da cilada em que ele cai ao receber uma carta de uma antiga namorada. Sonny (Elisabeth Shue) permaneceu na cidadezinha em que os dois se conheceram, na adolescência. Mas está à morte (ou diz estar), e quer seu primeiro amor ao seu lado nos momentos finais. A estranha enfermeira que cuida dela (Melissa Leo) não aprova o relacionamento, assim como o médico (James Rebhorn), que dá sinais inequívocos de ciúme. Mas, antes que possa começar a se perguntar por que essas peças não se encaixam, Don já se verá envolvido em um assassinato, uma tentativa de chantagem e uma rede de falsidades que parece impossível deslindar. A estreia do diretor e roteirista Jake Goldberger faz uma homenagem explícita, mas nem por isso menos surpreendente, a velhos clássicos noir, como Pacto de Sangue: onde há uma loira oferecida, brinca seu filme, sempre haverá também um "pato" pronto a cair em sua armadilha.

LIVROS

O PODER PELO AVESSO, de Dora Kramer (Barcarolla; 416 páginas; 39 reais)
• "Autonomia mental é a essência da coisa", diz a jornalista Dora Kramer na introdução de O Poder pelo Avesso. A "coisa", no caso, é o jornalismo. Com 36 anos de profissão, Dora assina uma das melhores colunas de política do país, no jornal O Estado de S. Paulo. Muito bem informada sobre as movimentações nos meandros de Brasília, ela se mostra sempre cristalina na argumentação e incisiva na opinião. Coletânea de 99 colunas publicadas de 2001 a 2009, O Poder pelo Avesso apresenta um painel abrangente do governo Lula, desde a campanha eleitoral que levou o ex-metalúrgico à Presidência. O mensalão, a crise de credibilidade do Congresso e a leniência oficial para com os crimes do MST estão entre os temas analisados com rigor e ironia pela autora. Dora observa que a hostilidade do governo e do PT a seus críticos tornou o trabalho do colunista de política especialmente delicado nesses anos - a crítica, diz ela, passou a ser vista como um "ato de lesa-pátria". Num ambiente carregado de intolerância ideológica, uma inteligência como a de Dora Kramer se torna ainda mais necessária.

AFLUENTES DO RIO SILENCIOSO, de John Wray (tradução de Vanessa Barbara; Companhia das Letras; 304 páginas; 48,50 reais)
• Um garoto entra, apressado, em um vagão do metrô de Nova York, fugindo de dois homens que parecem persegui-lo. Essa cena inicial, com as portas do trem fechando no momento exato para deixar os bandidos de fora, tem algo de clichê cinematográfico. A partir daí, porém, nada é familiar neste terceiro romance (o primeiro traduzido no Brasil) do americano John Wray, de 38 anos - eleito pela revista Granta, em 2007, um dos melhores jovens escritores americanos. William Heller, o adolescente fugitivo, entabula uma conversa com outro passageiro do metrô - um senhor de turbante sikh -, e o leitor aos poucos percebe algo fora de esquadro nos pensamentos do rapaz. "O mundo vai durar só até o fim desta tarde", ele anuncia. Heller é esquizofrênico, fugiu de uma clínica psiquiátrica e está sem medicação, daí seus delírios paranoicos. Ambientado em grande parte nos intrincados túneis do metrô de Nova York - que funcionam como uma representação física dos atormentados subterrâneos mentais do protagonista -, Afluentes do Rio Silencioso captura o leitor com uma narrativa ágil e nervosa.

DISCO

Divulgação


CONGRATULATIONS,
MGMT (Sony Music)
• Ben Goldwasser e Andrew Vanwyngarden, líderes do MGMT, deram um susto nos executivos de sua gravadora, a Sony Music. Em meados do ano passado, anunciaram que seu disco seguinte seria produzido por Pete Kember, do grupo Spacemen 3, um artista respeitado nos meios alternativos, mas que nunca havia emplacado um sucesso comercial. A dupla também afirmou que o novo trabalho dificilmente traria músicas de apelo radiofônico - uma heresia para quem havia criado hits como Kids. Congratulations, o CD "difícil" do MGMT, acaba de ser lançado. E não há o que temer. Ao vivo, o grupo exagera no flerte com a psicodelia, que torna suas apresentações um tanto enfadonhas. No disco, esses excessos são podados. O MGMT mostra uma boa diversidade musical, brincando com gêneros como a surf music e o ska. Também faz provocações bem-humoradas com figurões do pop - uma das canções se chama Brian Eno, em homenagem ao produtor de David Bowie e U2, e outra foi batizada de Lady Dada.

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